Problemas com privilégios

Compartilhando uma reflexão rápida.

Dada feita, professores resolveram discutir normas para os comportamentos dos alunos em sala. Nada mais normal, pois. Bem, a queixa de todos sobre os abusos dos celulares pelos alunos vem logo a tona. Bem, aí a proposta natural de “proibir” celular em sala. Mas aí, alguém deixa claro: isto deve valer para todos, para os professores também.

Aí paro.

A reivindicação de “igualdade” entre professor-aluno, é um queixume pedagógico constantemente reforçado pela pedagogia de orientação “esquerdista” (chamarei-a assim por falta de um termo melhor). E creio que possa ser verificado por qualquer um em qualquer Licenciatura pública. É uma derivação natural do primado metafísico da Igualdade moderna, marxistamente incorporado na abolição de classes, etc. Traçar isto é desnecessário, seja nos primórdios das concepções liberais, nas iluministas-kantiana ou nas socialistas-marxistas. Claro, pedagogicamente, isto facilitaria a aprendizagem, “diminui as barreiras”, blá, blá, blá. De fato, pensemos que isto possibilita a melhor contextualização, vocabulário para os alunos (um arredondamento por baixo?), etc.  Mas… e em relação às normas? Aqui é um ponto complicado. É comum ouvir que ter normas diferentes, discriminar claramente entre normas para alunos e para professores, é “falta de ética”. O problema é que quem usa destas frases “mágicas”, geralmente mal sabe o que é Ética. Afinal, por que seria “errado” diferenciar normas, por exemplo, privilegiando o professor em certas circunstâncias?

Analisemos pois, a primeira objeção: 1. “é falta de ética”. Adotando o princípio de caridade, suponhamos que quem assim fala, pressupõe a noção da Metafísica dos Costumes de Kant de Sujeito Moral, e se apoie num eco do Imperativo Categórico. Claro, nas vistas de Kant, um sujeito moral é, por definição, livre, pertencente ao Reino dos Fins. Daí que tal medida, seria, em último caso, baseado num princípio de reciprocidade legitimado eticamente. Isto depende de como encaramos o aluno. Se o encaramos como um Sujeito Moral kantiano, na Maioridade Moral, ok. Bem, se o fizermos, teremos de fazê-lo integralmente. Ou seja, a partir de então, nosso aluno deve responder moralmente em todas as esferas. O que inclui a jurídica. Bem, vejamos, o Estado não considera que se esteja na Maioridade Moral até 18 anos de idade. Seria uma falha do Estado? Talvez. Afinal quando pensamos na Maioridade Penal, logo vemos que deveria ser reduzida. Lembando que chegamos até aqui por princípio de caridade. Talvez neste caso, se argumente que “isto não é ético” de maneira razoável. “ético” num sentido kantiano, e considerando que o próprio Kant acredite que os alunos (ele foi diretor de escola primária e professor) em geral, devem ser tomados como Sujeitos. Sinceramente, tenho minhas dúvidas se Kant veria seus alunos assim. Saindo do princípio de caridade, o que quer dizer “isto não é ético”? “Ético” aqui entra em referência a qual sistema ou metassistema? No caso “kantian-like”, a pertença ao Reino dos Fins é a base da Igualdade moral entre professor-aluno. Mas isto é problemático, mesmo no ponto de vista kantiano. E temos diversos outros pontos de vista. Podemos advogar claramente que o aluno ainda não pertence ao Reino dos Fins kantiano, em certa medida – e que está sendo, justamente, educado para tal. Ou simplesmente, rejeitarmos a recorrência à Kant e adotar uma noção de justiça e ética mais tradicional, que pressuponha a diferença e discriminação.

Abordemos por outro ângulo, mais prático. A igualdade de normas, forja uma igualdade de deveres entre sujeitos diferentes. Os equaliza. A adoção de tal igualdade de normas a priori, depende de muitos fatores subjetivos também, pressupostos religiosos igualitaristas, convicções ideológicas, etc. O problema prático é que os mesmos que advogam igualdade de normas, repudiando qualquer privilégio – que na mentalidade destes, não é lá adquirido meritocraticamente, mas sempre fruto de uma arbitrariedade injusta – queixam-se do desrespeito do aluno ao professor, ou de perversão de valores de comportamento. E quando podem realizar uma medida que trabalhe contra isso, independente do Estado, de ordens superiores, só entre si e dependendo de si mesmos, jogam-na fora. Digo uma coisa simples, advogando igualdades deste tipo, estamos não só deixando de combater tais problemas, mas ajudando-os. Estamos eliminando barreiras e fronteiras simbólicas, em prol de bandeiras bonitas e facilmente levantáveis como “anti-autoritarismo, democracia, igualdade”, mas sob o preço de nossa liquidação. Liquidação moral e a longo prazo, profissional. Temendo abusos nossos e de nossos pares, terminamos descartando coisas essenciais e sadias, permitindo abusos da outra parte. Ao jogarmos a água, jogamos junto o bebê.

Este tipo de gente (advogados ferrenhos disto), não obstante, é o tipo de “professor-amigão”, não reprova ninguém, dá aula por sport, pois seu sustento vem de outras fontes (maridos, empregos “à sério”, etc.), tudo perdoa. Não é o caso de esconder covardia com sociabilidade em excesso, não sei. Mas é o caso de uma influência pedagógica irrefletida (por haver sido imposta doutrinal e retoricamente) e por natureza avessa a qualquer noção Tradicional, à hierarquia, às barreiras, à autoridade (a qualquer forma dela, mesmo a meritocrática) e ancorada subconscientemente em valores mais velhos (de cariz religioso, político-ideológico, etc.). Para evitar um extremo, se recorre a outro: falseia-se a realidade, maquia-la numa igualdade colorida e bem aventurança sorridente. Quando o mundo diferencia brutalmente, sem sorrisos, com derrotas, com sofrimentos. Conceber e advogar tal igualdade atrapalha mais que ajuda, não só por estar deslocado em relação aos grandes projetos educacionais tradicionais (não só do ocidente, mas em todo época e lugar, no Japão antigo ao novo, na tribo amazônica, na África ou na Austrália, o mestre não é tomado como igual ao aluno), mas também por fomentar e preparar terreno para problemas sociais reais e quase instantâneos.

Não há igualdade entre professor-aluno (me refiro mais precisamente aos alunos de ensino básico, fundamental e médio). Nem epistêmica, nem empírica (gostemos ou não, as duas dimensões mais importantes da Educação, independente das correntes pedagógicas adotadas), nem o escambau. Isto é de tal obviedade para as pessoas comuns, que chega a ser espantoso quando se sai do feitiço da retórica pedagógica “esquerdista”. Quando ouvires isto, pergunte por que então o Estado não contratou o aluno para ministrar as aulas, ou por que o tal professorzinho não distribui seu salário para seus pares, os alunos, ou coloca o aluno em seu lugar. Mesmo que se conceba, romanticamente (pois, os objetivos de muitos, não é realmente isso), que há um objetivo comum – o Aprendizado. Objetivos comuns não implicam em igualdade.

Por trás disto tudo ainda reside o medo por ter privilégios. Há um medo justo: o de que os privilégios corrompam o sujeito, o subvertam. Ou que sirvam de escadas para a soberba e pedantismo. Mas este medo diz respeito a um mal uso, não a coisa em si. Além de que há outros medos, residentes na noção de qualquer privilégio, seja qual for, é sempre resultado de uma injustiça, de uma espécie de “desordem natural”. Com este tipo de mentalidade não se pode fazer muito, sempre serão contra. E não apenas por inveja oculta, mas justamente por não acharem justo privilégio algum. Um privilégio justo é nada mais do que isto. Se o indivíduo não vê a justiça do privilégio, façamo-lo ver, pois, se mesmo vendo recusar-se a admiti-lo, paciência… Problema dele. Também é problema dele se ele recusa-se a ter tal privilégio. Mas desta recusa pessoal passar a fomentar os “desprivilegiados” a uma “revolta” contra os privilegiados (Marx ecoa), aí é demais. É justamente a recusa de dizer/ensinar que privilégios justos são adquiridos, trocando pelo ensinamento de que qualquer privilégio é injusto por natureza, que reside o problema ideológico mais profundo.

Era só dizer ao “desprivilegiado”: “quer tal privilégio? Vem cá, sobre, pelo teu próprio esforço e chega cá, depois desfruta”. Claro, considerando que é uma coisa à toa, e sim privilégio justo. Voltando a questão do celular em classe. Não estou advogando que o professor deva aproveitar-se e interromper a aula constantemente com seu celular enquanto o aluno fica estritamente proibido de se quer tê-lo no silencioso na sala. Não é isso; é óbvio que um professor assim atrapalha os objetivos de sua disciplina e da educação institucional em si, e ele foi educado a saber disto já. No entanto, não parece injusto que a parte que menos cause problemas deste tipo seja também a menos penalizada por uma medida assim. Ao contrário, me parece justo. Ou seja, teria-se uma regra para os alunos – mais rigorosa, uma vez que estes são a real causa da implantação da regra – e uma para professores, talvez mais branda (uma vez que estes são moralmente mais responsáveis – teoricamente – e cônscios, além de que foram eles próprios os legisladores para sanar o problema criado por alunos, e não por eles mesmos). Pronto, sem guinchados histéricos passionais, sem frase vazia de “isto não é ético”.

Alguém pode querer dizer que esta argumentação falha, por que se transposta ao Senado federal, por exemplo, os Senadores estariam justificados a votar leis válidas somente para “não-senadores”, ficando eles próprios eximidos. Digo é que tal linha de raciocínio é uma falsa analogia. Primeiro, os Professores não foram eleitos por voto popular nem possuem em sua definição enquanto profissão (em essência, digamos) o dever juramentado de representarem o Povo; segundo o argumento acima está baseado numa noção de justiça claramente diferenciativa (como a platônica presente na República) e contextualizada ao ambiente escolar, não vejo motivos claros para uma extrapolação. Mesmo que pensemos numa, se um lei a ser seguida de forma mais restritiva a não-senadores (maiores causadores do problema que gerou a lei), sendo seguida de forma menos restritiva pelos senadores, mostrar-se igualmente benéfica para o todo (e os objetivos comuns do Povo + Estado) ou cumprir seu fim adequadamente, não vejo (mesmo não sendo senador, mesmo sendo um “desprivilegiado”) por que devo repudiá-la por completo e incitar seu fim. Ao contrário, parece-me maduro que a parte que causou majoritariamente o problema, deva responder majoritariamente por ele. A questão é justamente dividir em partes. O indivíduo que não dividir em partes, e reconhecer o quinhão, será tentado a dize que há “2 pesos e duas medidas” por não enxergar a diferença de caso. Mesmo que se concorde com a negação da divisão de partes (coisa que eu não faço), no máximo, poder-se-ia dizer que advoguei acima “2 pesos (distribuídos justamente) e uma medida”. Isto já me bastaria.

Dito, pois.

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