“Platão e um ornitorrinco entram num bar…” – trechos 1

CATHCART, Thomas; KLEIN, Daniel. Platão e um ornitorrinco entrem num bar…: a filosofia explicada com senso de humor. Tradução: José Rubens Siqueira. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011. Alguns trechos da parte sobre Lógica. Páginas 40-54.

·

(…)

Lógica Indutiva.

A lógica indutiva parte de exemplos particulares para teorias gerais e o é o método usado para confirmar teorias científicas. Se você observar maças caindo das árvores vai concluir que as maçãs sempre caem para baixo; não para cima, nem para os lados. Você pode então formar uma hipótese mais geral que incluir outros corpos em queda, como peras. Assim progride a ciência.

Nos anais da literatura, nenhum personagem é tão renomado por seus poderes de “dedução”quanto o intrépido Sherlock Holmes, mas a maneira como Holmes atua em geral tem a ver comlógica dedutiva nenhuma. Ele usa na verdade a lógica indutiva. Primeiro, observacuidadosamente a situação, depois generaliza a partir de sua experiência anterior, usandoanalogia e probabilidade, como faz na seguinte história:

Holmes eWatson estão encampando. No meio da noite, Holmes acorda e dá um cutucão no Dr.Watson.

-Watson – diz ele -, olhe para o céu e me diga o que vê.

-Vejo milhões de estrelas,Holmes – diz Watson.

– E o que você conclui disso, Watson?

Watson pensa um momento.

– Bem – diz ele -, astronomicamente, isso me diz que existem milhões de galáxias epossivelmente bilhões de planetas. Astrologicamente, observo que Saturno está em Leão. Emtermos de horário, deduzo que devem ser aproximadamente quinze para as três. Meteorologicamente, desconfio que amanhã vá fazer um lindo dia. Teologicamente.vejo queDeus é todo-poderoso e que nós somos pequenos e insignificantes. Ahn, o que você conclui,Holmes?

– Watson, seu idiota! Alguém roubou nossa barraca!

Não sabemos exatamente como Holmes chegou a essa conclusão, mas talvez tenha sido algoassim:

1. Dormi dentro de uma barraca, mas agora posso ver as estrelas.

2. Minha hipótese intuitiva, baseada em analogias com experiências similares que tive nopassado, é de que alguém roubou nossa barraca.

3. Para testar essa hipótese, vamos eliminar as hipóteses alternativas:

a. Talvez a barraca ainda esteja aqui, mas alguém está projetando uma imagem de estrelas noteto da barraca. Isso é pouco provável, baseado em minha experiência passada comcomportamento humano, e o equipamento que a experiência me diz que teria de estar presentena barraca obviamente não está.

b. Talvez a barraca tenha voado. Isso é pouco provável como minha experiência passada meleva a concluir, porque um vento dessa intensidade teria me acordado, embora talvez nãoacordasse Watson.

c. Etc, etc, etc.

4. Não, acho que minha hipótese original está provavelmente correta. Alguém deve ter roubadonossa barraca. Esses anos todos, temos chamado as habilidades de Sherlock Holmes pelo nomeerrado.

Falsificabilidade.

PACIENTE: Na noite passada, sonhei que estava na cama com Jennifer Lopez e Angelina Joiiee nós três fazíamos amor a noite inteira.

PSIQUIATRA: Evidentemente, você tem um desejo profundo de ir para cama com sua mãe.

PACIENTE: Como?! Nenhuma das duas parece nem de longe com a minha mãe.

PSIQUIATRA: Aha! Está formando uma reação! Você está evidentemente reprimindo seusdesejos reais.

A situação acima não é uma piada – é efetivamente a maneira como alguns freudianos raciocinam. E o problema é que no raciocínio deles não existe nenhum conjunto decircunstâncias reais concebível que desminta sua teoria edipiana. Em sua crítica à lógica indutiva, o filósofo do século XX Karl Popper afirma que, para uma teoria se mostrar sólida, devenecessariamente haver alguma circunstância possível que possa mostrar que é falsa. Na pseudopiada acima, não existem essas circunstâncias que o terapeuta freudiano admitirá como prova.

Abaixo, uma piada de verdade que demonstra a afirmação de Popper com ainda maior clareza:

Dois homens estão tomando o café-da-manhã. Um deles está passando manteiga no pão e diz:

– Já notou que quando a gente derruba uma fatia de pão, ela sempre cai com o lado da manteigapara baixo?

O outro sujeito diz:

– Não. Aposto que só dá essa impressão porque é muito chato limpar a sujeira que faz quandocai com a manteiga para baixo. Aposto que cai com o lado da manteiga para cima com a mesmafrequência.

O primeiro diz:

– Ah, é? Olhe só. – E derruba a fatia de pão no chão, onde cai com o lado da manteiga para cima.

O segundo diz:

-Viu, não falei?

O primeiro fala

:- Ah, já sei o que aconteceu: passei manteiga no lado errado!

Para esse sujeito (como para o marxista, acrescente eu – espero que meus alunos de Psicologia leiam isso), nenhuma prova consegue mostrar que sua teoria é falsa.

Lógica dedutiva.

A lógica dedutiva parte do geral para o particular. A essência da argumentação dedutiva é o silogismo “Todos os homens são mortais; Sócrates é homem; portanto, Sócrates é mortal”. É incrível a frequência com que as pessoas embananam isso e argumentam algo como “Todos oshomens são mortais; Sócrates é mortal; portanto, Sócrates é um homem”, conclusão que não se segue logicamente. Seria como dizer: “Todos os homens são mortais; meu hamster é mortal; portanto, meu hamster é um homem.” Outro jeito de acabar com um argumento dedutivo é argumentar a partir de uma premissa falsa.

Um velho caubói entra num bar e pede uma bebida. Quando se acomoda para saborear seuuísque, uma garota senta ao lado dele. Vira-se para o caubói e pergunta:

-Você é um caubói de verdade?

Ele responde:

– Bom, passei a minha vida inteira na fazenda, tocando cavalos, remendando cercas e marcandogado, então acho que sou, sim.

Ela diz:

– Eu sou lésbica. Passo o dia inteiro pensando em mulher. Assim que levanto de manhã, jápenso em mulher. Tomo banho, assisto à TV, parece que tudo me faz pensar em mulher.

Um pouco mais tarde, um casal senta ao lado do velho caubói e pergunta:

-Você é um caubói de verdade?

Ele responde:

– Sempre achei que sim, mas acabei de descobrir que sou lésbica.

Talvez seja divertido analisar onde exatamente o caubói errou. Talvez não. Mas vamos fazer isso de qualquer jeito. Na primeira resposta à pergunta sobre ele ser caubói de verdade, ele pensou:

1. Se alguém passa o tempo todo fazendo coisas de caubói, é um caubói de verdade.

2. Eu passei a vida inteira fazendo coisas de caubói.

3. Portanto, sou um caubói de verdade.

A mulher pensou:

1. Se uma mulher passa o tempo todo pensando em mulheres, ela é lésbica.

2. Eu sou uma mulher.

3. Eu passo meu tempo todo pensando em mulher.

4. Portanto, sou lésbica.

Quando o caubói chega à mesma conclusão, assume uma premissa que no seu caso é falsa:especificamente a 2, “sou uma mulher”.

O argumento indutivo da analogia.

Nada se iguala a uma argumentação analógica. Bom, talvez um pato. Um uso do raciocínio por analogia se encontra na resposta à pergunta: o que ou quem criou o universo? Algumas pessoasargumentaram que, como o universo é igual a um relógio, deve existir um Relojoeiro. Como apontou o empirista do século XVIII David Hume, trata-se de um argumento escorregadio, porque não existe nada que seja perfeitamente análogo ao universo como um todo, a menos que seja outro universo, portanto não deveríamos contar com nada que fosse parte deste universo.”E por que um relógio?”, pergunta Hume. Por que não dizer que o universo é análogo a um canguru? Afinal de contas, ambos são sistemas organicamente interconectados. Mas a analogiado canguru levaria a uma conclusão muito diferente sobre a origem do universo: especificamenteque ele nasceu de outro universo depois de esse universo ter feito sexo com um terceiro universo (visão mais coerente com o mundo antigo, pois).

Um problema fundamental com argumentos analógicos é a pressuposição de que, se alguns aspectos de A são similares a B, então outros aspectos de A são similares a B. Não énecessariamente assim.

Recentemente, o argumento do relógio voltou à cena como a “teoria” do Design Inteligente, quepropõe que a supercomplexidade da matéria da natureza (pense em flocos de neve, globos oculares, quarks) prova que deve haver um designer superinteligente. Quando a Junta de Educação de Dover, Pensilvânia, foi instada a incluir no currículo escolar o Design Inteligentecomo uma “teoria alternativa” à evolução, o juiz encarregado John Jones III determinou, com efeito, que eles deviam voltar para a escola. Em sua opinião por escrito, bem espirituosa, Jones não conseguiu deixar de cutucar com humor algumas testemunhas de defesa “peritas”, como um professor que admitiu que o argumento analógico era furado, mas “continua funcionando nos filmes de ficção científica”. Próxima testemunha, porr favorrr! (leitor, quando ouvires um evangélico idiota defendendo este argumento, lembra-o que é uma mera analogia tosca sem nenhum base lógica)

Outro problema com argumentos analógicos é que você pode obter analogias inteiramente diferentes de diferentes pontos de vista.

Três estudantes de engenharia estão discutindo que tipo de Deus deve ter criado o corpohumano. O primeiro diz:

– Deus deve ser um engenheiro mecânico. Olhe essas juntas todas.

O segundo diz:

-Acho que Deus deve ser um engenheiro elétrico.O sistema nervoso tem milhares de conexões elétricas.

O terceiro diz:

– Na verdade, Deus é um engenheiro civil. Quem mais faria um cano de esgoto tóxico passar pelo meio de uma área de recreação?

Em última análise, argumentos analógicos não são muito satisfatórios. Eles não fornecem o tipo de certeza que seria de se desejar quando o sujeito se vê diante de crenças básicas como a existência de Deus. Nada é pior que a analogia ruim de um filósofo, exceto talvez as de um estudante secundarista. Veja os resultados do concurso “As piores analogias já escritas em um trabalho de escola secundária”, realizado pelo The Washington Post

  • “Há muito separados pelo cruel destino, os fatídicos amantes correram um para o outro pelo gramado como dois trens de carga, um que partiu de Cleveland às 6h36 à velocidade de 90 quilómetros por hora, outro de Topeka às 7h47 à velocidade de 60 quilómetros por hora.”
  • “John e Mary nunca se conheceram. Eram como dois beija-flores que também nunca se conheceram.
  • “O barquinho deslizou pela lagoa exatamente do mesmo jeito que uma bola de boliche não deslizaria.
  • “Do porão subiu um uivo do além. Toda a cena tinha uma qualidade surreal, aterrorizante,como quando a gente está de férias em outra cidade e o programa Jeopardy começa às 19h enão às 19h30.”

A Falácia “post hoc, ergo propter hoc”.

Primeiro, uma palavrinha sobre o uso social desse termo: em algumas rodas, quando pronunciada com uma expressão séria, essa frase pode ajudar você a se dar bem numa festa.

O interessante é que tem exatamente o efeito contrário se pronunciada em português: “Depois disto, portanto por causa disto.”

Vá entender.

A frase expressa o erro de concluir que se uma coisa vem depois da outra, essa coisa foi causada pela outra. Por razões óbvias, essa falsa lógica é popular no discurso sociopolítico, como por exemplo: “A maioria das pessoas viciadas em heroína começou com maconha.” É verdade, mas um número ainda maior começou com leite. Post hoc torna a vida mais divertida em algumas culturas: “O sol nasce quando o galo canta,portanto o canto do galo deve fazer o sol nascer.” Obrigado, galo! Ou pegue a nossa colega:

Toda manhã, ela sai na varandinha da frente e exclama:

– Que esta casa esteja a salvo dos tigres!

– E volta para dentro.

Por fim, dissemos a ela:

– Que história é essa? Não tem tigre nenhum a quilómetros daqui. E ela:

– Está vendo? Funciona!

Piadas post hoc multiplicam-se na proporção direta da ilusão humana.

Um cavalheiro judeu mais velho se casa com uma moça e os dois estão muito apaixonados.Porém, por mais que o marido se esforce sexualmente, a mulher nunca atinge o orgasmo. Comoa esposa judia tem direito ao prazer sexual, eles decidem falar com o rabino. O rabino ouve ahistória dos dois, alisa a barba e faz a seguinte sugestão:- Contratem um rapaz forte e sadio. Enquanto vocês estiverem fazendo amor, mandem o rapazabanar uma toalha em cima de vocês dois. Isso vai ajudar sua mulher a ter fantasias e deveprovocar um orgasmo.

Eles voltam para casa e seguem o conselho do rabino. Contratam um lindo rapaz e ele fica sacudindo uma toalha em cima deles enquanto fazem amor. Não dá certo e ela continua insatisfeita. Perplexos, os dois voltam ao rabino.

-Tudo bem – diz o rabino ao marido -, vamos tentar o contrário. O rapaz faz amor com sua mulher e você fica abanando a toalha em cima deles.Mais uma vez, eles seguem o conselho do rabino. O rapaz vai para a cama com a esposa e omarido abana a toalha. O rapaz se põe a trabalhar com grande entusiasmo e a esposa logo tem um enorme, trepidante, ruidoso orgasmo. O marido sorri, olha para o rapaz e diz, triunfante:

– Idiota, é assim que se sacode uma toalha!

Tudo bem, uma última piada post hoc. Prometo.

Num asilo, um homem octogenário vai até uma senhora mais velha que está vestida com calçacapri rosa-choque e diz:- Hoje é meu aniversário!

– Que ótimo! – ela replica.

– Aposto que consigo dizer exatamente quanto anos você tem.

– É mesmo? Como?

A senhora diz:

– Fácil. Baixe a calça.O homem baixa a calça.

– Certo – diz ela -, agora baixe a cueca. O homem faz o que ela pede. Ela o acaricia um momento e diz:

-Você tem 84 anos!

Ele diz:

– Como você sabe?

E ela:

-Você me contou ontem.

O velho caiu no golpe mais velho do mundo, “post hoc, portanto propter hoc“, ou depois de eladar uma pegada, portanto porque ela deu uma pegada… Essa parte do propter é que sempre pega. Em geral, somos enganados pelo post hoc ergo propter hoc porque não notamos que há uma outra causa em ação.

Um rapaz de Nova York está passeando pelos pântanos da Louisiana guiado por seu primo.

-Verdade que o aligátor não ataca se a pessoa estiver com uma lanterna? – pergunta o rapaz da cidade.

O primo responde:

– Depende da velocidade com que você corre com a lanterna.

O rapaz da cidade viu a lanterna como um propter quando era apenas um acessório.

Inté.

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Um comentário em ““Platão e um ornitorrinco entram num bar…” – trechos 1

  1. […] através dos conceitos filosóficos da Lógica Indutiva. (não tá acreditando? leia esse trecho aqui.). E por aí […]

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