Uns Pensamentos sobre o Separatismo do Nordeste

Saudações.

Venho cá registrar umas ideias gerais e pensamentos dispersos que por isso, talvez, não sejam lá tão claros de imediato. Estou em duas leituras (quando o tempo permite, pois) relacionadas à questão separatista, a primeira do meu conterrâneo Allyrio Meira Wanderley, “As Bases do Separatismo” (1935) e a segunda, um estudo do também nordestino (o sujeito é de Vivência, cidadezinha quase na fronteira com a Parahyba) Manuel Correia de Andrade “As raízes do separatismo no Brasil” (1998). O primeiro é um livro que advoga o separatismo da primeira a última página, um clássico – que misteriosamente – é “esquecido” pelos meus colegas na academia e jogado para debaixo do tapete pela intelligentsia parahybana seja de qual matiz for – até mesmo as obras de literatura do sujeito não são citadas! O segundo, tenta (e consegue) traçar um percurso histórico dos diversos movimentos separatistas ao longo da história deste país e advoga um “não-separatismo”, que por falta de termo melhor, chamarei de “integralismo” (sem o “i” maiúsculo, afinal não se trata do movimento de Plínio Salgado, Miguel Reale e Gustavo Barroso).

Eu sempre tive certa simpatia pelo Separatismo, na adolescência mesmo cheguei a acreditar que isto seria realmente bom. Hoje já não acredito que um simples separatismo resolva nada. Só resolveria dentro de uma série de outras medidas que o precedem em importância e significado, de modo que o separatismo somente, por si só, talvez, fosse até mais danoso ao Nordeste no atual estado das coisas. E vim ler os livros mais por me sentir na obrigação de conhecer o sr. Allyrio Wanderley (que me parece um autor importante para a literatura nordestina), em especial, e tentar compreender como isto tudo se encaixa com a problemática do “nacionalismo” e com o problema da identidade brasileira.

Bem, compartilho cá minhas impressões iniciais que espero maturar.

O texto do Allyrio é de uma escrita de outro tempo e tem o ar do Pico do Jabre, tamanha a visão de um sujeito que parece falar de um miradouro sereno. O texto merece uma analisada minuciosa e uma crítica séria, que obviamente não acontecerá agora.

O outro texto é de uma escrita extremamente agradável também, apesar de certos ares que as vezes soam esquerdófilos. O início do texto é sobre Geopolítica e o principal argumento utilizado pelo sr. Manuel Correia de Andrade contra o Separatismo é de ordem geopolítica também – isto (o Separatismo) representa um enfraquecimento estratégico e um “tiro no pé” no jogo de influências e zonas de poder do mundo. De fundo está a visão de que, dividindo, somos mais facilmente conquistados e que grandeza e extensão territorial, representa – ao menos em potência – grandeza e extensão bélica e civilizacional. É o Grande Brasil, o Gigante do Hemisfério Sul. Este argumento é persuasivo e suspeito que remonte, de fato, ao Integralismo ou ao menos a certas influências deste no tecido ideológico da primeira Era Vargas (do Estado Novo). Se não remontar ao primeiro “nacionalismo” da República Velha (positivista e liberal/”burguês”). O autor parece acreditar que as forças centrífugas/internas/separatistas só agem na prática por favorecimento externo (por subsídios de potências estrangeiras ou de complôs globalistas) ou por desígnios econômicos (da “banca” mundial), sem espaço para um identitarismo real.

Que se divide e se conquista o dividido mais facilmente, disto não tenho dúvidas; mas tenho sobre tal pressuposição de que a grandeza territorial potencializa a grandeza civilizacional e bélica (e portanto, de capacidade de ocupar espaços de poder no mundo). Claro, há sempre alguns idiotas, que pela real ignorância da história do país que dizem amar, abrem suas bocas para proferirem que tais ideias separatistas são parte de um complô estrangeiro (ou mais modernamente “marxista-subversivo”) para dissolução do Brasil etc., radicalizando o que o próprio Manuel Correia de Andrade parece acreditar. O problema é também se recusar a analisar à sério este pressuposto da grandeza territorial.

Mas acredito que este pressuposto deva ser analisado. Como quantidade não é qualidade, pequenos territórios (como a Hélada), ao longo da história, geraram legados civilizacionais e/ou exércitos de elite que cumpriram perfeitamente “obras” geopolíticas duradouras e profundas. Roma não venceu Cártago e dominou a Gália “grande”. Muito menos Esparta dominou a Hélada toda sendo uma grande extensão territorial, nem Portugal, nosso pai, fundou-nos e ao império transatlântico. Ter um “Gigante Adormecido” (nas palavras do cantador repentista Valdir Teles cantando com Ivanildo Villa Nova no mote Retratos do Brasil), como se tem mostrado por mais de século, não é lá tão vantajoso como nos querem fazer acreditar. Cada vez mais, pelo menos a julgar pelos últimos anos, se tem um “Gigante Bocó”, um grande, mas lerdo, bisonho desajeitado e “boca-aberta” país, para o qual insistem em nos fazer acreditar, os apaixonados, que este é o Grande Brasil, mesmo que agora esteja deste modo; devemos tê-lo como uma miragem, estrela-guia ou no “melhor” dos casos (pelo menos, mais tradicionalmente), como uma profecia “messiânica”, que há de se cumprir no despertar do gigante adormecido no futuro.

Não sei se pelo fato de toda a classe política atual haver sido formada ideologicamente no programa (Integralista/Varguista) – em curso até hoje – de “unificação e homogenização” do Brasil, da construção da Nação (do Samba e do “morro favelado”) – de uma única e integral (cultural, moral, linguística e etnicamente), onde atualmente resistem ao menos duas (o Nordeste e o Sul), de forma tão profunda que se tornou incapaz de se perguntar mesmo “que programa de unificação e homogenização” é esse. “Naturalizou-se” o projeto de tal forma, que parece impossível questioná-lo. Repensar isto, parece-me tão profundamente radical e na contramão dos alicerces das ideologias hegemônicas no país que o indivíduo que o faz, sente-se nadificado num abismo político e como que posto fora da realidade.

Teoricamente, somos uma federação. Isto deveria acalmar os ânimos e permitir a cooperação de ambos os separatistas e os “integralistas”, e nisto podemos dizer ao separatista que talvez o ponto seja fazer a federação ser mais real/efetiva, sendo o separatismo desnecessário. Além de que historicamente, poder-se-ia ter um grande poder bélico em um aglomerado mais “frouxo” como em uma aliança forte (constitucionalmente assegurada) entre nações (que comporiam o Brasil) independentes ou mesmo uma centralização “espiritual” (que coadune características de um bloco econômico comum – livre comércio e talvez moeda única, compartilhamento de energia – e do senso de herança histórica comum) do tipo “Império” ou “Reino Unido”.

Em todo caso, numa coisa o separatista me parece correto: na rejeição deste modelo de brasilidade homogênica, que nos diz que ser brasileiro é ser a mulata nua dançando samba, Carnaval, ver o corcovado e o Cristo Redentor e ser o feliz malandro de favela, que apesar disto é “gentche boa” com seu “churrashco na laje”. O sertanejo cônscio, como o caudilho dos pampas (e mesmo, penso, alguns pantaneiros) estão corretíssimos em não se verem nisso, pois, ontologica, fenomênica e metafisicamente, não são isto. E não deixa de ser curioso, como mesmo após tantos e tantos anos de intensa propaganda massificante (especialmente após o advento da TV, cujas principais emissoras são as exportadoras desta brasilidade homogênica – que na verdade é um “riodejaneiramento”, uma espécie de globalização em pequena escala exportada pelas novelas e programas de auditório – sediadas justamente no epicentro fluminense) ainda há resistência. E o próprio sr. Correia de Andrade reconhece o poder fortíssimo e o sucesso da mídia na homogenização cultural/étnica do país.

Nesta “batalha” estão as dimensões mais diversas, da herança de valores tradicionais, do projeto de futuro, do projeto esquerdista para o país, dos valores liberais e do que pode ser propriamente definido como conservadorismo no Brasil. Está em jogo os “Brasis Profundos”, culturas, hibridismos, heranças e modos de vida. A preocupação dos que amam sua cultura, se orgulham de suas tradições e heranças, e do que deve ser imerso pela homogenização globalizante.

A grande questão é justamente como conciliar isto (a justa rejeição da brasilidade homogênica do “riodejaneirismo”, rejeição levada em frente até a posição do Separatismo) com as dimensões e desafios geopolíticos mais abrangentes – que aparentemente requerem um país “unificado” e territorialmente extenso.

É uma questão fora de moda. Definitivamente. E talvez, seja um espectro ou fantasma que só ronda alguns lugares do país ou ainda, algumas pessoas de alguns lugares. Sinceramente não sei. Apenas noto que quanto mais leio, mas claro é-me a fragilidade da “identidade” do brasileiro e o quão recente (e aberto ainda!) é nosso projeto de “nação” (e o quão são nossos sociólogos, tão badalados e “infalíveis” em seus motes perfeitos e inquestionáveis do que é a “brasilidade” e o “verdadeiro brasileiro”). Ver esta construção enquanto tal e a insurgência dos separatismos ao longo da história do país, automaticamente nos faz pensar nas possibilidades. Possibilidades estas já pensadas antes ou novas, quem sabe. Em todo caso, espero terminar estas leituras em breve.