Livros, novidades e projetos

Saudações.

Faz tempo que não venho cá. Estou numa agradável e terrivelmente desafiante batalha do cotidiano que me afasta do mundo virtual ainda mais. Bem, recentemente também sofri um pequeno acidente (que me custou uma fratura) e ainda estou me recuperando. A parte boa é que tive tempo de atualizar umas leituras e venho cá compartilhar umas palavras sobre as mesmas.

Há umas coisas para adiantar – meu camarada Dídimo Matos que o diga – tendo em vista o encontro que organizaremos em Setembro. Pois sim, há um atraso considerável de minha parte – mas me vejo justificado pelas circunstâncias combativas atuais. Em todo caso, estamos planejando uma mesa-redonda aberta (e direcionada especialmente ao público universitário) para tratar de temas de Política, Dissidência e outros em breve e virei compartilhar cá. Mas vamos aos textos.

Alain de Benoist. Comment peut-on être païen/On Being Pagan.

Um dos melhores textos de Filosofia que li na minha vida. Um texto profundo, erudito, impactante. Não apenas pelo talento literário do autor, mas principalmente pela robustez filosófica. O texto talvez pressuponha alguma leitura de Nietzsche, Heidegger ou de um autor como Porfírio ou Celso, mas de modo algum deixa de ser essencial para compreender a mentalidade pagã tradicional em sua oposição inconciliável (em certos pontos) com a visão judaico-cristã. É uma jóia para os interessados nas diferenças e mais ainda para os que desejam viver as diferenças e aspiram a uma visão realmente integral e orgânica de uma mundivisão Indo-europeia atual e coerente. O texto ainda deixa demasiadamente claro o fundo cristão/judaico laicizado de muitas ideologias modernas, dos Direitos Humanos (e o Humanismo Moderno), ao Marxismo – que se enxergam como intelectualmente superiores ou universalmente válidas, supostas “evoluções” a quem todos os predispostos a serem parte da intelligentsia das “elites” acadêmicas devem se curvar cegamente. Claro, também é ótimo para desmascarar posturas “fakes” (de gente que se diz pagã mas opera completamente sob uma lógica cristã) e identificar incoerências. É um texto que me incitou seriamente ao pensamento de traduzí-lo; é um livro basilar para as fileiras de estudiosos simpáticos ou assumidamente pagãos, já há muito desconfortáveis com as mesmices esquerdizantes-liberalóides das vias apresentadas/doutrinadas pela tendência hegemônica da intelligentsia de nossas academias e, ao mesmo tempo, nada confortáveis com o tradicionalismo beato do Conservadorismo Católico.

Os outros dois títulos visam contribuir no preenchimento de minha falta de conhecimento sobre algumas áreas do pensamento político contemporâneo, especialmente de viés pagão/identitário/nacionalista.

Kai Murros. Revolução: como fazê-la numa sociedade moderna.

Para quem tem familiaridade com a literatura “revolucionária” (de Esquerda, claro), e principalmente, está aberto a revisões, o livro será uma atualização bem interessante. De minha parte, achei desagradável a demasiada utilização – a cima de tudo, a defesa – do método “materialista histórico” marxista. O autor não justificou de modo filosoficamente sério o porquê de termos que seguir tal “método”, na verdade, simplesmente não justificou. Ficou como que um dado da natureza, coisa que não precisaria de explicação. Mas precisa. O texto possui todo um tom extremamente pragmático, estoico, de capítulos e frases curtas, compactas e duras – sem floreios literários, sem rebuscadas estilísticas. De fato, o texto soa naquela agradável atmosfera rude do campônio ou do trabalhador, sem esnobismos. Mas tal atmosfera – e caso vise cativar o leitor simples da classe trabalhadora – não justifica por si a tal “metodologia”. Há algo obscuro nisto e que merecia clareamento. Para os ortodoxos trotskistas haverá algo que talvez traga um desagrado profundo: a insistência no abandono de um projeto “global” (endógeno a Esquerda revolucionária), mundialista da revolução em favor de um caminho viável (como o Chavismo bem o mostra) – a revolução nacionalista, cerrada às fronteiras nacionais. Não se trata de uma mera redução na aplicação de “princípios universais”, mas mesmo na  remodelação dos princípios teóricos pela realidade nacional, trata-se do particular por sobre o “universal”, deve-se, pois, moldar uma ideologia verdadeiramente popular (e não apenas “virtualmente” ou – como fazem os comunistas “fraudulentamente” popular, como se o povão fosse ateísta e completamente materialista, etc.), realmente alinhada ao Gênio Nacional. É um livro com críticas muito interessantes e um conjunto de tijoladas nos trotskistas e revolucionários parados no tempo, que remoem “gagás” as ideias de 100 anos atrás como se fossem dogmas religiosos imutáveis e incriticáveis, quase como leis positivistas da Física Social comtiana. Para os que se alinha mais à Direita, o livro tem uma visão que explica muito das estratégias utilizadas no que está ocorrendo nos movimentos populares de Terceira Posição que ganham cada vez mais espaço pela Europa (Casa Pound na Itália, Aurora Dourada na Grécia) ou que já se sedimentaram em certos recantos próximos (Bolivarianismo, etc.) – que se apresentam como a real oposição (ao contrário do Esquedismo que só finge ser “oposição” ao sistema) ao que aí está. Há uma latência de potência nietzscheana (lembrou-me do Mangabeira Unger) que é conclamada neste texto, para além do racionalismo liberal-ateísta, para além do socialismo-comodista de classe média, para além da mediocridade – e nisto, independente de se concordar com os argumentos do autor ou não, é algo a ser conhecido por quem estuda Política e deseja compreender os movimentos das diversas correntes, das mais centrais e hegemônicas às mais marginais e dissidentes.

Guillaume Faye. El Arqueofuturismo/L’Archeofuturism.

Este ainda não terminei – mas o estarei em breve. É uma tijolada, de fato, perfeitamente inserida na tradição nietzscheana de filosofar com o martelo. Primeiro, confesso, iniciei tal leitura por curiosidade – uma curiosidade ingênua mesmo – que surgiu após o rompimento da resistência contra o autor. Para quem não sabe, o autor tende a estar associado com uma visão radical (coisa que ele defende como metodologia, inclusive, para gerar o que chama de “ideochoques” – choques causados por ideias radicais ou tão dissidentes que rompam o status quo/inércia intelectual forçando o pensamento) eurocêntrica, visceralmente anti-islâmica e por vezes associada ao racialismo, ou seja, o sujeito está associado com a aquela ala do Paganismo na qual se coloca Varg Vikernes. Daí que a ideia original era ler para conhecer mesmo, para poder fundamentar qualquer crítica ou posição. Considerando a resistência inicial esperava uma leitura pouco agradável e mesmo tortuosa. Bem, devo admitir que me surpreendi. O sujeito se utiliza de uma riqueza de conceitos e faz uma defesa (incrivelmente) coerente de sua “radicalidade”. O livro é cheio de críticas muito bem elaboradas aos mais diversos aspectos da batalha política (dos partidos instituídos e suas ideologias oficiais, aos meios de comunicação, cinema, literatura, etc.) – seguindo a trilha do gramscismo à Direita da Nouvelle Droite francesa (de Alain de Benoist, que acusou as posições de Faye de racistas – vale lembrar que o Faye criticou duramente o de Benoist, Alain Soral e Christian Bouchet – e por sua vez foi chamado de “agente sionista”), corrente que critica desde dentro (lembrando que Faye está mais para o Terre et Peuple, uma espécie de think-tank pagão francês) e acusa de estagnação política e falta de ousadia prática. Claro, há muita coisa a “ruminar”, por exemplo a crítica do Faye ao “terceiro-mundismo” do Benoist e da Nouvelle Droite (e que se poderia estender a Aleksandr Dugin) que leva a toda uma mudança de estratégia Geopolítica e de revisão de prioridades políticas para a Europa, entre outras coisas. O autor sugere o conceito de de Arqueofuturismo como uma saída para além do que considera como sendo a Convergência das Catástrofes (o colapso iminente da sociedade ultra-moderna), uma renovação do Arcaico no Futurista – um conceito interessante – pensado para uma transvaloração do mundo que aí está, como projeto para um depois. Enfim, mais uma leitura importante para quem está buscando entender as estratégias e visões das alas mais “revolucionárias” e radicais do pensamento político de cunho pagão.

E é só. Inté.

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