Alguns informes e anotações

Faz tempo que não venho cá no blog por uma série de motivos que não cabem compartilhar cá, mas vim hoje atualizar alguns informes e compartilhar uns pensamentos. Recentemente tive a oportunidade de participar de dois eventos podendo proferir falas nos mesmos e algo me chamou atenção em ambos. Já digo o que foi, deixa-me registrar umas notas – sob a forma de meros tópicos, mais ou menos como foram esboçadas – das falas caso interesse a alguém.

Primeira fala: “Celtismo, Escatologia e Mundivisão contemporânea” no dia 20/04/2014 durante o V EBDRC em Recife, PE.

Introdução e apresentação.

Definições expostas:

1. Celtismo (englobando os diversos movimentos druídicos e reconstrucionistas célticos)

2. Escatologia (desde a apresentação etimológica grega e os primeiros usos aos usos teológicos e filosóficos)

3. Tradicionalismo Indo-Europeu (diferenças e semelhanças para com o conceito de Tradição dos perenialistas – Guénon, Schuon, Coomaraswamy – e diferenciação evoliana [“tradição hiperbóreo-mediterrânica” como apresentado no Imperialismo Pagão], abordagem que aponta para a complementariedade entre a aproximação linguístico-antropológica [acadêmica] e a místico-metafísica [religiosa])

4. Mundivisão Moderna e suas características (Modernismo filosófico, antecedentes e principais formuladores – Descartes, Locke, Hume, Iluministas, Kant, etc – principais diferenças em relação à mundivisão antiga/tribalista)

Por qual motivo se deve falar em Escatologia?

1. integralidade metafísica e necessidade filosófica (cuja existência é justificável dada as atribuições clássicas dos druidas) para evitar anacronismos e incoerências (uma vez que a honestidade e busca pela excelência são valores sagrados)

2. propiciação de um terreno de vanguarda metafísica que ajude na formulação de conceitos e na reflexão que dialogue com a percepção religiosa dos ciclos do tempo

Problemas.

1. livrar-se de prejuízos cristãos descabidos, assim como de posturas cripto-cristãs

2. eficiência limitada da mitologia comparada (e da abordagem acadêmica)

3. dubitabilidade da inspiração pessoal (e da abordagem místico-esotérica)

Percepção escatológica dos Celtas.

1. evidências na literatura greco-romana (Estrabão, etc.) e no corpus arqueológico (Iconografia e simbolismo religioso, etc.)

2. evidências na literatura medieval hiberno-britônica (Fáistine leis a Morrígu, Ystoria Taliesin e diversas passagens na poesia atribuída a Taliesin e Myrddin), hermenêutica e exegese

3. evidências em práticas folclóricas e concepções populares dos povos célticos e que foram célticos (e o trabalho complexo de separação do substrato céltico/indo-europeu das noções escatológicas semitas)

4. Idades (*ay[s]ta), ciclos e o combate (emanação da oposição primordial entre Água x Fogo?) pela ordenação cósmica (*belyos bitows), desestruturação (“despencamento do céu, abertura da terra e elevação dos mares”) e reorganização (imperecibilidade do “grande mundo”)

5. sacralidade temporal, involução, Outromundo, moralidade e escatologia (desestruturação social [incluindo a familiar], juramentos e o “fim dos tempos”), etc.

Consequências para o Celtismo contemporâneo.

*pressuposto: não ao provincianismo e amadorismo religioso!

1. enriquecimento filosófico das metafísicas (seja no Druidismo Romântico/Meso-druidismo, Neo-druidismo ou nos Reconstrucionismos Célticos)

2. exposição de problemas ou incompatibilidades com desenvolvimentos do pensamento moderno/ultra-moderno (que se diz “pós-moderno”) e seus desdobramentos político-sociais (como a crença no progressismo/evolucionismo social)

3. assim como exposição dos pressupostos científicos oriundos de uma visão linear-cristã laicizada na Modernidade

4. fundamentação metafísica do vaticínio e das “visagens” (e das “viagens xamânicas”)

5. possibilidade da retomada de tentativas de compreender os desdobramentos sociais/geopolíticos sob um prisma religioso (com isto, contribuindo para o “re-encantamento do Mundo” e para a superação efetiva do positivismo/materialismo moderno)

6. outras possibilidades

Finalização e abertura para questionamentos.

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Segunda fala: “Ascese e tripartição entre os Celtas” no dia 25/04/2014, durante o III Encontro Parahybano de Estudos Tradicionais em João Pessoa, PB.

Apresentação e introdução geral.

Definições:

1. askēsis, dos primórdios gregos (e da eventual relação com as correntes de mistério do mundo helênico) ao vocabulário teológico cristão – justificação do uso do termo para as visões religiosas dos celtas

2. tradição Indo-europeia

3. Celtas e religião céltica

Pressupostos:

1. acerca dos mitos (“vestimentas” de princípios perenes) e das fontes (combinação das fontes acadêmicas – arqueológicas-liguísticas-antropológicas – e da exegese/hermenêutica literária)

2. origem do ser-humano (*gdonyos) – criação a partir dos elementos do mundo e/ou descendência divina (rápida exposição sobre a necessidade de justificação genealógica da nobreza como descendente de certas divindades, exemplos do reclame de descendência divina na literatura medieval e greco-romana), a questão da involução

3. tripartição e trifuncionalidade: naturezas humanas, estratificação social e demandas religiosas

4. Pós-morte: destinos e compreensões básicas

Ascese e heroificação

1. a questão da heroificação e suas diferenças para a deificação (theōsis)

2. a via para os intelectuais/sacerdotes: serviço dos deuses, instauração/legislação/reforma sócio-política, elaboração/“revelação” cultural-metafísica-poética-contemplativa

3. a via dos guerreiros: heroificação pelo valor pessoal, pela defesa da *towtā/país, pela defesa da cultura-religião

4. a via dos produtores: pelas obras deixadas, pela habilidade pessoal e pelo serviço geral

5. moralidade e ascese, exercício das virtudes e a questão da radicalidade (exemplos citados pelos comentadores greco-romanos e pela literatura medieval hiberno-britônica)

Questões gerais.

1. uma questão antiga: Destino x Liberdade (seriam os rasgos de voluntarismo heróico e mudança do destino pessoal um dote de poucos, dado a suas origens excepcionais – divinas?)

2. necessidade/determinismo x voluntarismo nas outras concepções Indo-Européias em suas relações com o propósito da existência humana (dharma, wyrd/ørlǫg, moira, fatum, kismet, as determinações de Laima para os Lituanos, etc.)

3. a “companhia dos deuses” no Outromundo, banquetes, ilhas e as continuidades funcionais

4. sensibilidade à ascese religiosa nos estratos sociais e seu papel no culto público, familiar e nos ritos pessoais

Reflexões

1. as possibilidades dos caminhos de ascese no celtismo contemporâneo – lacunas e problemas e a necessidade de fundamentação metafísica e integralidade doutrinária para os grupos

2. Orfismo, Pitagorismo, a questão das correntes iniciáticas e a “volta ao divino” (unio mystica?) – porta de entrada para o Neo-platonismo e a mística tardo-helênica

3. possíveis consequências culturais, políticas e sociais

Encerramento e abertura para questões.

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Voltei. Bem, o que me chamou atenção foi algo simples. Em ambos os eventos fiquei surpreso com a quantidade menor de pessoas em relação ao que havia pressuposto que participasse. No caso do Encontro Parahybano de Estudos Tradicionais, a surpresa foi maior ainda – realmente uma pena que nomes altamente qualificados como Agassiz e Vinícius tiveram tão pouco público falando sobre assuntos cruciais para qualquer um com o mínimo de interesse na área (sem contar que o debate e perguntas foram do mais alto nível). Fica a prova de que “curtidas no Facebook” não dizem absolutamente nada sobre a presença das pessoas nos eventos (já havíamos notado isto, no caso de eventos religiosos do Castro). Parece que, cada vez mais, fica difícil organizar qualquer coisa efetivamente fora do mundo virtual – este mundo virtual que, apesar da grandiloquente aparência libertadora, nestas horas parece um aprisionador gigante das almas, usando grilhões de preguiça e futilidade. Uma pena, realmente.