Esse tal de separatismo pós-eleitoral…

Após o resultado das eleições no Brasil, como seria de se esperar, voltaram certos comentários separatistas. Claro, muitos em tom jocoso e não creio, efetivamente, que signifiquem algo mais do que certa “birra” de certos grupos. Mas, isto traz à tona novamente o assunto separatismo, queiramos ou não. Como já colocamos noutra ocasião, o grande entrave para o apoio de tais projetos reside no fator geopolítico, uma vez que tal fratura serviria como uma “balcanização clássica”, minando as potencialidades geopolíticas realmente importantes e entregando uma gama de setores a potências estrangeiras, que sob a carapaça de “apoio”, implantariam, de facto, uma conquista pela divisão – escravizando todos mais facilmente. Pelo menos é assim que diz a cartilha.

No entanto, a postura da recusa radical em nome de um “Brasilzão” é, por outro lado, anti-identitária e anti-orgânica, uma vez que após a constatação de que o problema da Identidade Brasileira não foi resolvido, efectivamente, fica difícil qualquer “identitarismo” e nacionalismo deste “Brasilzão”. Não adianta tapar o Sol com a peneira, e como o prof. Dugin bem percebeu (em sua participação no último Encontro Evoliano, considerando que vê um problema parecido na Rússia), não adianta avançar geopoliticamente sem tal resolução, sem tal Logos Nacional, fazê-lo, dará, mais ou menos, no que vemos no Brasil – numa sujeição espiritual a um “logos” estrangeiro (como mais ou menos o PT faz em relação ao Bolivarianismo/Chavismo), num tornar-se um coadjuvante, uma peça manobrada pelo estrangeiro, um braço forte mas manobrado por uma mente de fora, claro que sob a fachada da “amizade” e “aliança entre iguais”, etc.

É necessário que se decida: afinal, se está pela identidade e nação orgânica (que será “pequena”), pelo solo e sangue, cultura e concretude ou se está pelo grande projecto unificador (Integralista), abstracto e um tanto quanto resultado de um processo de engenharia social (pois se trata, de uma homogenização mais ou menos forçada)? Pessoalmente, respeito e compreendo ambas as posições, mas lembro, especialmente aos camaradas que optam pela segunda opção, que o PT não é nacionalista (neste sentido), o PT não está preocupado, espiritualmente, com tal unificação do país. Se está, se é que estaria, só está temporariamente e como meio (para suas finalidades), não como fim em si. Servir de idiota útil para o projecto espúrio deles (principalmente quando tal projecto pode ser visto como anti-nacionalista) não é das acções mais inteligentes por parte do pessoal de nossas fileiras. O verdadeiro nacionalista estaria igualmente lutando não apenas contra o financismo global, mas também contra a instrumentalização do país por interesses bolivarianos. Deveria estar disposto a morrer lutando contra o separatismo (dentro da óptica de que este serve a interesses financistas globais) tanto quanto morrer lutando contra a permanência do PT. Estar disposto a somente uma das coisas é, estar com os olhos fechados ou com os bolsos abertos. Por outro lado, é importante lembrar aos camaradas da primeira opção do risco da instrumentalização estrangeira (a Ucrânia é um exemplo muito claro) que pode pôr tudo a perder, literalmente.

A completa diluição identitária hegemonicamente imposta em nome das potências econômicas e midiáticas é justamente o que tantos camaradas nacionalistas e identitários criticam em se tratando de globalização no nível externo, e seria um tanto quanto incoerente terminar por apoiar às cegas a mesma prática internamente (tendo SP e RJ como centros do poder econômico e midiático).

O ponto que desejo frisar é que, por mais que geopoliticamente não haja motivo algum para separatismos (nisto pode haver um pleno acordo entre os partidários da opção 1 e da 2), cair na ladainha simplista do unionismo cego e homogenizante talvez seja justamente fazer o que um certo partido quer, aproveitando-se dos bons e nobres sentimentos das pessoas e das Forças Armadas em seu favor. Para um identitário (que coloca a nação orgânica, a grande tribo, em primeiro), por mais que sê-lo não implique em, necessariamente, ser separatista, é importante não fechar esta possibilidade por completo comprando o discursinho pronto por mero antagonismo aos liberais playboys, pelo menos não sem antes analisar as possíveis conjunturas e interesses, e claro, se entre estes interesses, não haja espaço para emergir o interesse do λογος identitário/regionalista numa afirmação que ecoe certos pilares eternos e realmente tradicionais. É necessário lembrá-lo que não desejará o separatismo por lucro pessoal ou por beneses materiais imediatas (que seriam os motivos do financismo global apoiá-lo), mas pelo λογος civilizacional, por amor a certos princípios espirituais, cultura, solo e sangue.

O Nacionalista ao invés de simplesmente contrapôr-se a esta Direita (liberal ou conservadora) que grita hoje “separatismo” por impulso de insatisfação anti-PTista (um impulso genuíno, diga-se de passagem) deveria chamá-la para o diálogo, e apontar o inimigo real, em torno do qual pode-se estabelecer uma aliança táctica; e não deixar-se ser utilizada como bucha de canhão por parte de um partido com interesses duvidosos e nada nacionalista. No fundo todos sabem que não é “separatismo”, todos sabem que isto é mero “boi de piranha”. Não sejamos tolos.

Mas como já apontei noutra ocasião, há muito a se tratar e a se resolver e fazê-lo nas custas após uma eleição, quando as águas turvas e agitadas não permitem enxergar bem, não é coisa prudente. Não tomemos as posições que os inimigos desejam… Pois não seria de espantar se, por trás das aparências, por trás do unionista raivoso e do separatista raivoso, houvesse um sujeito só, inimigo de ambos, ou pelo menos disposto a usar ambos para governar.

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*percebi ao final que, automaticamente, o corrector gráfico reverteu uns termos para português de Portugal, vou deixá-los assim mesmo.

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