Arquia, anarquia e pensamentos (12/12/2013)

Originalmente publicado no finado PB Pagã em 12-12-2013

Saudações.

Vai e volta, encontro-me com o termo “anarquismo”, utilizado por gente de extrema (esquerda ou direita), capitalistas burguesinhos, gente de classe média “nerd” ou gente de classe média típico bicho-grilho-hippóide-de-Humanas, nacionalistas (sim, há o nacional-anarquismo) etc. É um termo bem presente. Mas, ao meu entender, em certos usos, é um termo falho. Escrevo esta postagem visando demonstrar o motivo.

Basicamente, minha implicação é de ordem etimológica.

Etimologicamente, anarquia é um termo que aponta para “desordem”, é “falta de princípio director, governo, comando”. Este “-arquia” é a mesma “arkhē” dos filósofos Pré-Socráticos. E isto deveria ser o suficiente para invocar o peso (ontológico) da noção “-arquia”. Eles, como todos os povos tradicionais de que se tem notícia, acreditavam na existência de um princípio ordenador do que existe. No pensamento religioso, tal princípio é sagrado (em grego “hieros”), sendo ele próprio, a ordem natural das coisas, a ‘hierarquia’ (“hieros”+“arkhē”). Este princípio, tanto para os Pré-Socráticos (cuja inovação fora iniciar a investigação racional e dessacralizada deste princípio ou conjunto de princípios) como para os religiosos, é pré-existente (ante rem), ou no mínimo, ontologicamente congénere com as coisas (in re). Há uma hierarquia no mundo, na natureza das coisas, seja ela característica inseparável do que é (in re) ou de origem divina e premeditada (ante rem), simples assim. Estamos nos referindo a uma crença profunda, e até onde sei, presente em todos os povos, ao menos no mundo antigo. Dependendo dos povos e culturas, tal percepção da hierarquia natural é estendida, com maior ou menor grau, a organização política e sócio-económica da sociedade.

Podemos postular, sem agravo, que o pensamento tradicional é caracteristicamente ligado a tal percepção de uma ordem configuradora do ser. Podemos também estender filosoficamente tal noção aproveitando os conceitos desenvolvidos para a questão dos universais e aplicando-os cá. Neste caso, teremos os crentes na existência de uma hierarquia prévia (ante rem) ao que é, estabelecida teogonicamente, no que é (in re – idéia próxima da Pitagórica de que há uma ordem directora matematizável na estrutura do próprio universo; pressuposto parecido foi assumido pela Ciência Moderna desde de Galileo e ainda rende frutos na matematização da Física e nas tentativas de síntese do tipo Teoria Geral) e os crentes numa hierarquia posterior as coisas (post rem), seja pela argumentação de que nosso aparelho gnose-sensorial organiza/hierarquiza as nossas percepções e representações em nossa mente por sua própria natureza (similarmente as categorias a priori de Kant e o modelo epistemológico deste) ou pela própria linguagem que utilizamos para pensar e descrever o que existe postular uma hierarquia, uma organização directora (ou seja, por existir na linguagem – seria a postura mais próxima do Nominalismo, digamos).

Claro que ao longo da história, a percepção da hierarquia, sagrada, efectivou-se também como uma “disarquia”, perdendo o carácter sacro, instrumentalizando-se como injustiça e desregramento no mando político de sociedades. Quando o princípio director e governante perde sua orientação transcendente, a coisa desanda, deixamos de ter uma hierarquia, em seu sentido próprio, e passamos a ter uma caricatura, muitas vezes prejudicial, uma ‘disarquia‘. Ou seja, o problema não é ter os melhores no topo, o problema é quando “os melhores” não são Os Melhores. Esta é a real injustiça social (qualquer um que leu a República de Platão bem lida, deve ter compreendido esta lição tradicional). Isto é o que havia de real quando um Rousseau da vida, zombou de um gordo e efeminado Luís XIV, em contraposição ao camponês rude e viril; mas com o Rousseau, a coisa não parou por aí, ele acreditava que o problema era a própria noção da desigualdade natural, e da “hierarquia”, não se tratava de não ter Os Melhores no topo, mas sim de não haver ‘melhores’! Ou seja, jogou-se o bebê junto com a água, e de lá pra cá, muito anarquista (o francês Proudhon que o fale, lembrando que este terminou por influenciar o russo Bakunin) segue esta rota irrefletidamente.

Há quem ache que tal ideia “encantadora” – de “não haver melhores”, serem todos iguais, o Igualitarismo aí pressuposto – ganhou corpo e se disseminou com o Cristianismo (Nietzsche, Evola, Alain de Benoist, Faye, etc.), como é bem sabido.

Uma vez que não há melhores, nem superiores, o Sujeito moderno, Liberal, torna-se autónomo no sentido etimológico do termo (“aquele que rege a/legisla para si próprio”), daí, passar a ver todo poder externo a si (o Estado, especialmente após o trauma “absolutista-hobbesiano”) como opressor é um pulo. Ou seja, partindo do Igualitarismo e do Modernismo (do Sujeito Moderno) é fácil chegar (se é que não é uma consequência lógica!) ao anti-Estatismo, o tal Anarquismo – seja pela Esquerda (classicamente, pela via sindical-socialista até o trotskismo), seja pela Direita (pela intensificação e máxima potencialização do liberalismo, no Libertarianismo/Anarco-capitalismo). Ambas as visões não enxergam um princípio ordenador prévio (ou congénere) para a existência, não conhecem a ideia hierárquica em seu sentido originário, ao contrário, denunciam tal discurso como religioso, reaccionário, alienante e opressor e assimilam, instantaneamente, o termo “hierarquia” à injustiça e usurpação. Ambas visam a horizontalização igualitário-materialista, o Paraíso messiânico terreno, seja pela redistribuição directa de riqueza (Esquerda), seja criação de mecanismos que permitam o igual acesso ao consumo (Direita). Por mais que as ideologias elaborem conceitos-chave que não possuem qualquer validade científica e sirvam como depositários da fé de seus crentes (sendo análogos aos mitos e aos conceitos religiosos), como a “Mão Invisível da Economia” ou a “Luta de Classes”, suas pretensões de superioridade à religião e pseudo-cientificismo (pelo menos no caso do Marxismo), terminam por encantar a intelligentsia ávida do status da superioridade intelectual.

Antes que algum gaiato venha cá dizer (por proselitismo ou por real “comoção” e desejo por “iluminar esta mente escura”) que entendi tudo errado, informo que estou bem ciente dos usos do termo no final do século XIX e começo do XX. Conheço algo do Proudhon, algo do Bakunin, algo do Trotsky, do Marx (o fim messiânico de sua promessa teórica, o tal do comunismo real, o “anarquismo feliz”) e mesmo de gente que é utilizada, especialmente pela anglofonia, como “ancestral” do Libertarianismo e do Anarco-capitalismo, como Thoreau. Compreendo quando se fala de “gestão orgânica”, “governo espontâneo”, “livre associação comunitária”, “voluntarismo” e tantos outros conceitos para expressarem a alternativa a um Estado (termo latino, usado já na época de Cícero), o Estado Moderno, Hobbesiano, Westfaliano; e mesmo concordo que a ideia de “livre aceitação” de uma forma de governo ou manifestação hierárquica é, fundamentalmente, uma boa idéia. Compreendo até a mitologia dicotómica do Estado=Mal x Não-Estado/Anarquia=Bem, etc. E o pior, até venho lendo com certa constância algo do anarco-primitivismo, anarco-nacionalismo e outras variantes. O que estou dizendo é que não concordo com o uso do termo “anarquia”, principalmente quando ele denota a existência ainda de alguma “arquia”, mesmo que não seja a do Estado Moderno Hobbesiano. O que estou dizendo é que não vejo nenhuma razão para resumir biunivocamente “arquia” a Estado Moderno Hobbesiano/Westfaliano/Burguês. Ou seja, o fato de não haver o Estado Moderno não quer dizer que haja “anarquia”. Simples assim.

E por isto fala besteira ou simplesmente atesta sua idiotice (ou má-fé, do mesmo modo que os marxistas que falam na baboseira mentirosa de “comunismo primitivo” ou os seus ancestrais ideológicos que falavam em “cristianismo antes de Cristo” – ou toda e qualquer prática fraudulenta de alteração e revisão do passado sob orientação ideológica do presente, por mais que não seja por “má fé”, que se admita ao menos que é por motivos estratégicos e de “propaganda”) quem fala em reinos medievais “anárquicos” ou tribos celtas e germânicas “anárquicas”, etc. Não importa quão disseminado esteja, nem quantos seguidores tenha ou quantas entradas na Wikipédia disponha.

E mais, creio que para um religioso que adere a uma religião antiga ou de inspiração/restauração destas (como é o caso dos Neopagãos), digo que ele adere também a uma visão que estipula, tradicional e necessariamente, “hierarquia” (em seu sentido etimológico e ontológico) e que por isso mesmo não pode simplesmente abrir a boca em favor de “anarquismo” (no sentido etimológico que abordei acima) sem que se contrarie. As crenças na existência de alguma forma de “arquia” (ante rem, in re, post rem, nominalisticamente, etc.) e na sua ausência (“anarquia”) são mutuamente excludentes. Como disse, me refiro a alguns usos específicos (especialmente aos usos de origem religiosa não-cristã, pois dentro do cristianismo primitivo parece ter havido uma brecha que os anabatistas revisitaram) e exponho cá os motivos. Tal exposição não visa ser o início de uma cruzada contra o termo, mas antes chamar atenção para sua dimensão etimológica e as possibilidades de nos reapropriamos dela de um modo que me parece menos problemático. Aos camaradas pagãos e correligionários, recomendo que utilizem simplesmente “tribalismo” ou “primitivismo” ou algo do tipo.

O segundo maior erro da Nouvelle Droite – Guillaume Faye (15/12/2013)

Originalmente publicado no finado PB Pagã em 15-12-2013

Abaixo segue um pequeno trecho onde o filósofo e polemista (pagão, atualmente ligado ao movimento Terre et Peuple) francês Guillaume Faye fala sobre os erros do movimento político e cultural Nouvelle Droite do qual o próprio fez (e de certa forma, ainda faz) parte, no seu livro L’Archéofuturisme. Estou relendo este livro (pois é, estou dando-me o luxo de reler umas coisas) e achei por bem postar cá esta passagem. Farei uns pequenos comentários, que em nenhum momento visam esgotá-lo, pois, após o texto que serão marcados por números.

[N.T. o autor inicia a apresentação do que considera serem os maiores erros da Nouvelle Droite ao longo dos anos] (…) Segunda erro maior: a instrumentalização e a politização do paganismo. A partir de uma contestação justa, do tipo nietzscheana – a nocividade igualitária, homogenizante e etnomasoquísta do evangelismo cristão – a ND [N.T.: para “Nouvelle Droite”, doravante] construiu um corpus neopagão portador de muitos handicaps. Paradoxalmente, este neopaganismo partia de um ponto de vista cristão inconsciente: opor a um dogma uma contra-doutrina. “O” paganismo não existe; há “uns” paganismos potencialmente inumeráveis[1]. A Nouvelle Droite se apresentou implicitamente como uma “Igreja Pagã”, mas sem divindade. A natureza mesma do conceito pagão proíbe tomá-lo como bandeira metapolítica, como é possível de se fazer nas religiões judia, cristã e muçulmana.[2]

Segundo handicap: um anticatolicismo virulento (a indiferença haveria funcionado melhor), flertando umas vezes com o anticlericalismo, com uma simpatia aberta pelo Islã, atitude perigosa nestes tempos de ameaça islâmica objetiva contra a Europa e posição ideologicamente absurda, porque o Islã é um monoteísmo teocrático, rígido, uma pura “religião do deserto”, maior que o henoteísmo católico clássico, fortemente imerso no politeísmo pagão[3]. Além de que, a essência da visão pagã não é definir-se “contra”, mas “após” ou “junto a”, o que parece muito mais criador e inovador. Eu também pratiquei esta atitute errônea que, desgraçadamente, a ND nunca se corrigiu.

Terceiro handicap (que desenvolveremos um pouco mais para frente): este paganismo estava e parece sempre flanqueado por um folklorismo sem bases reais na cultura concreta dos Europeus (ao inverso dos Estados Unidos!), frente ao qual sempre enfrentei.[4]

Resultado: um público potencial que nunca se cercou da ND, outro que sumiu.[5] Por quê? Porque muita gente não entendeu o porquê desta sobrevalorização pública do paganismo, este privilégio ideológico que lhe estava concedido, que primava sobre outras questões muito mais importantes, de ordem concreta e política, como o é, por exemplo, a destruição da etno-esfera européia ou o masoquismo antinatalista dos governos. Outra consequência: a valorização do paganismo como imagem de marca pública tinha, sobretudo na França, um efeito midiático repulsivo. Dizer-se pagão publicamente é assimilável a “militar numa seita”, tal como me disse um dia um grande atriz francesa, próxima das ideias da ND, mas reticente, como muitos, a mistura de ideologia política com a temática para-religiosa. Podemos deplorá-lo, mas é assim: há regras de propaganda ineludíveis.[6]

E quanto aos ataques contra a Igreja católica, seria melhor dirigi-las ao quasitrotskismo, o imigracionismo e a auto-etnofobia do alto clero, adepto do retorno às fontes monoteístas evangélicas puras e duras, as do “bolchevismo da Antiguidade” [N.T.: expressão utilizada por Alain de Benoist para descrever o Cristianismo, sobretudo o dos primeiros séculos]. Alto, clero masoquista e imbecil, que alimenta oficialmente a criação de mesquitas em solo europeu![7]

Há dois livros que me marcaram para sempre: o Anticristo de Nietzsche e Os deuses da Grécia de Walter Otto. Assim como o “juramento de Delfos” iniciado por Pierre Vial no início dos anos oitenta. Ali, no santuário de Apolo, quando o Sol desponta, os herdeiros da Grécia e da Borgonha, da Toscana e da Baviera, da Bretanha e de Valônia, de Flandres e da Catalunha juraram preservar a alma pagã. Muito bem. Mas todos estes atos pagãos devem realizar-se na parte interna da ação.

A alma pagã é uma força interior que se expressa com toda uma expressão ideológica e cultural. É semelhante ao coração de uma central nuclear. Não tem que aparecer explicitamente sob a forma de bordões instrumentalizados. Não se deve dizer “sou pagão”. Se deve sê-lo.

Mais prosaicamente, creio que a insistência sobre o tema do paganismo como bandeira para-política criou uma confusão mental entre o público natural da Nouvelle Droite: como se desviasse a atenção sobre outras questões secundárias. E mais, esta insistência criou um conflito com os “católicos tradicionalistas”, realmente menos cristãos que os curas esquerdistas…[8]

A instrumentalização do paganismo foi um tremendo erro de comunicação e de propaganada. A ND privou-se de uns meios católicos favoráveis a suas ideias, mas efetivamente ligados a suas tradições de campanário. Grande torpeza cometida desde os seus inícios. Outra das coisas que devem ser corrigidas.[9]

[1] OK, mas isto não impede que se refira a delimitação religiosa-cultural específica, como a dos Indo-Europeus, que, apesar das diferenças, trazem em si um conjunto de práticas de origem comum, sendo todas “religiões irmãs”, muito mais inteligíveis entre si do que entre qualquer outras extra-indoeuropéias. No entanto, o ponto que o Faye aponta, ao que parece, é a falta de “precisão” – que paganismo? A religio romana, o hellenismos, ásatrú? Faltou “concretude”, ao que parece.

[2] Em se tratando das grandes religiões tradicionais indo-européias, faz sentido. Mas certos cultos específicos, pagãos, alcançaram patamares aparentados à via metapolítica, como o Pitagorismo, o Mitraísmo e mesmo o culto Odinista, em alguns casos “fechado” entre a elite guerreira, da Era Viking.

[3] Por mais que concorde com o essencial – de que o negativismo do “anti-” (-cristianismo, -catolicismo, -protestantismo, -islamismo, etc.) não é essencial, nem característico ao paganismo e que é um erro de juventude comum – creio que é um erro compreensível, e talvez, em alguns poucos casos, até necessário, dado o peso ainda hegemônico do Cristianismo e a necessidade de descristianizar-se radicalmente (no sentido de “até a raiz”).

[4] Isto não está bem claro, mas talvez seja traduzido por “academicismo” e demasiado “elitismo” (no sentido de estar circunscrito a um grupo fechado e pequeníssimo de pessoas), impossibilitando o crescimento orgânico e o enraizamento real na produção cultural (seja nas subculturas juvenis, arte pop, etc.) e/ou a repaganização do folclorismo ainda vivo. Eis a importância de um paganismo que possibilite fundir-se com o regionalismo identitário e cultural, restaurando a integralidade de mundivisão desde cima.

[5] A preocupação com a eficácia da “propaganda” da ND, em vistas de suas aspirações políticas e culturais, sobretudo as políticas – um dos grandes motivos para os apontamentos do sr. Faye, como fica claro no texto – é quase inexistente dentro de uma ótica não-proselitista (como é a pagã). Se o grande erro da ND foi de marketing, então isto não foi lá um grande erro, pelo menos não sob a perspectiva estritamente religiosa. No entanto, há algo de mais profundo nesta questão – e que já tocamos cá – trata-se da expansão, do crescimento (não só qualitativo, mas também quantitativo) do paganismo, de sua expansão religiosa. Como se dará? Como resolver e elaborar atratividades não posélitas? Como não fazer proselitismo? É uma questão aberta e que vez ou outra aparece, por exemplo, na blogosfera pagã anglófona (majoritariamente comprometida com o politicamente correto e com os valores liberais norte-americanos). Podemos cuidar apenas da qualidade e esperar que esta, por si só e com o passar dos anos, reluza e frutifique, traduzindo os frutos e a luz, digamos, em uma expansão numérica, tímida e constante. O grande risco é termos tal cuidado interrompido violentamente por algum interesse religioso totalitário, risco real cá (sim, me refiro a “evanjas”) e na Europa (onde a expansão islâmica já dá sinais bem claros); uma maneira de evitar tal risco é, justamente, tendo um número mais significativo (o que por sua vez, supõe-se, permitirá mais disposição para o combate), e aqui novamente se cai na questão da expansão qualitativa aliada/conjunta a uma forma de expansão quantitativa.

[6] Isto não me parece um empecilho de todo, essencial e perene, antes, um empecilho contingente, fruto, justamente, da hegemonia cristã-esquerdizante (de uma elite majoritária ateizante de um lado, que se ri do paganismo como uma espécie de “ridícula extravagância plebéia de fantasias New Age”, e de uma pequeno resquício de elite beata, que por definição, está interessada em combater tal “perigo” assegurando sua “posição” e suposta legitimidade). Reconhecer que ela existe é uma coisa, não combatê-la é outra. OK, sob a perspectiva do combate (a “propaganda” serve a este propósito, pois), nem toda estratégia é boa, além de que há táticas que podem gerar recuos, ao invés de avanços. Se for neste sentido que o sr. Faye fala, então o fala razoavelmente. Se for por “derrotismo” ou crença na imutabilidade da opinião médio-burguesa ou das elites que “fabricam” a opinião pública, então não me parece falar razoavelmente.

[7] No nosso contexto, o apontamento é útil para levar a percepção de que uma coisa é Catolicismo Popular, repositório repleto de substratos pagãos e braço próximo e “familiar” para nós, outra coisa é o Catolicismo do Alto Clero. Interessante é notar que o Catolicismo do Alto Clero, justamente, flerta com as demandas da Teologia da Libertação e fez o Concílio do Vaticano II, é o clero “progressista”, mais aceito e elogiado pela intelligentsia de esquerda/humanista (talvez, por estes descenderem daqueles). Por outro lado, esperar dos Católicos Tradicionalistas, que tendem a valorizar um pouco mais as tradições populares (ou seja, as heranças pagãs), que demonstrem filopaganismo é demais. Por mais que muitos deles saibam que são devedores de pagãos como Platão e Aristóteles, acreditam no próprio discurso de que sua teologia é uma superação (para nós não é) e que o paganismo deve ser combatido, no final das contas, por mais que se tenha de tolerar os “desvios” das pessoas comuns. Só um católico tradicionalista e perenialista (no sentido schuoniano, não no sentido tomista) pode tolerar pagãos de modo mais tranquilo. E caso os católicos perenialistas ficassem mais comuns, os tradicionalistas seriam os primeiros (bem antes dos progressistas) a denunciá-los como heréticos… Logo, focar as críticas no Alto Clero, por mais que “agrade”, eventualmente, setores mais tradicionalistas do Catolicismo, não tornará o paganismo mais aceito por estes; pode, talvez, fazer com que um ou outro sujeito se torne herético ou se converta a alguma fé pagã, mas creio que é algo muito difícil.

[8] O que falei no ponto [7] basicamente cabe aqui. Fazer as coisas buscando “agradar” o beatame, passar-se por “bom moço” e “cordeirinho manso”, é esperar demais. Não precisamos, absolutamente, da aprovação dos cultores do judeu morto. Se se trata de utilizar táticas que preservem de modo mais confortável alianças temporárias, vá lá. Se se trata apenas do medinho de desagradar, paciência…

[9] A instrumentalização do paganismo (se de fato foi isso, e não a tentativa de produção de linhas políticas e culturais pagãs, como as outras religiões fazem, produzem linhas políticas e culturais religiosas) é um erro em si, não um erro apenas por que diminuiu o potencial de marketing ante as audiências cristãs. Mesmo que tal instrumentalização houvesse surtido efeitos positivos, ainda sim, seria um erro. O Guerreiro pode até elevar-se ao Sacerdote. Mas sua usurpação definitiva é um sacrilégio em sentido estrito, o qual a História testemunha só resultados nefastos.

Alguns pensamentos sobre a construção de comunidades orgânicas locais (11/7/2014)

Originalmente publicado no finado PB Pagã em 11-7-2014

 

Saudações. Este texto devia ter vindo antes, demorou mas está aí.

Diante da multiplicidade de desafios de ordem política e religiosa pela frente, a idéia de viver numa comunidade pequena composta por correligionários é algo que atrai muitos dos adeptos das religiões étnicas indo-europeias (e de tudo aquilo que convencionou-se chamar de “[neo]paganismo”). É uma opção convidativa e atraente, independente do perfil ideológico do adepto – seja um hipponga-libertário-new-age ou um militarista-conservador, além dos diversos tons entre um perfil e o outro. Claro, algo disto já foi discutido neste blog e viemos mais pôr um adendo aqui.

Por um lado, talvez isto – de formar comunidades paralelas – represente uma recusa ao grande embate político-social (e uma prévia aceitação da derrota), uma atestação de que não tem jeito mais (ou um reconhecimento de que não temos força suficiente); uma atitude conformista/negativa, que soa “egoísta”, uma “fuga do mundo” (condenável tanto pelo viés liberal social-democrata que no melhor dos casos pode se inspirar no civismo ateniense ou romano, quanto pelo marxista materialista-hitórico) e um apego a uma atitude “retrógrada” (e “alienada”, para o marxista) em prol de um idilismo “Amish”. Talvez, efetivamente, tenha algo disto, pois, na condição de minoria da minoria e da quase que completa falta de representatividade social e política na macro-sociedade é quase impossível não “cansar”, não estar saturado em algum momento e buscar algo mais fácil de ser posto em prática. Ainda por cima, quando há uma certa tendência anti-cívica, herdeira do Estoicismo e do Epicurismo, talvez, e reforçada pelo desprezo cristão por tudo que é “deste mundo” e pelo seu ascetismo amante de desertos é que se ache uma postura inadequada. No entanto, a tendência da viabilização de novas comunidades, a possibilidade de erguer algo diferente, é uma constante que se vê na colônias gregas desde a época arcaica, nos assentamentos romanos, nas expedições e migrações célticas e germânicas, por exemplo; e em muitos casos (especialmente entre os germânicos, célticos e mesmo alguns helênicos) o cariz rural/“de vila” se fez quase sempre presente.

Além de que a história mostra que “Fugir para as colinas” nem sempre significa derrotismo. Nossos ancestrais ibéricos, já cristianizados, que rumaram para a Galiza e Astúrias para reconquistarem suas terras gerações após a conquista moura, são um exemplo do que desejo apontar aqui. É possível, lá nas colinas, montar um acampamento e cuidar de, paulatinamente, tornar as condições de vitória/expansão reais, palpáveis. Este é o ponto que indico cá e encaro isto como inspirado no pioneirismo migratório/colonizador de Celtas, Germânicos e Gregos.

Nesta possibilidade, para qual converge muita coisa, creio que estão – na minha opinião – as idéias mais úteis de boa parte do “blá, blá, blá” político que se pretende “pós-moderno” (e defendido por quem se acha mais “descolado” e inteligente, etc.). É aqui que vejo, por exemplo, utilidade nos conceitos de “voluntarismo” e “comunidade orgânica” tão frisados por anarquistas; nas digressões sobre o tal do “municipalismo libertário” (e da ideia do “ocupe” venha da extrema-esquerda ou dos libertários/anarco-capitalistas), do esforço de “espalhar” ou realizar o esforço democrático em comunidades (impulso de setores progressistas de Esquerda, por exemplo), da retórica neo-tribalista (de radicais racialistas) ou das realizações hippongo-verdistas de permacultores simpatizantes do neoxamanismo, por exemplo.

Em termos práticos, isto se reduziria numa estratégia geral de fundar pontos sólidos em diversos lugares do país – teríamos três tipos de projetos:

1. fundar “colônias” rurais

2. formar “maioria” em alguma cidade pequena

3. formar “maioria” em algum bairro de alguma cidade grande

Revitalizar laços orgânicos e reais, promover um cotidiano integrado que possibilite a experiência de imersão cultural integral ao religioso, reforçar, para utilizar um termo durkheimiano, a “solidariedade mecânica” (aquela existente naturalmente, entre pessoas linguística-cultural-religiosa e geograficamente próximas, ou seja, a solidariedade do “ethnos”, da tribo) em oposição à solidariedade “burguesa” (derivada da globalizante divisão do trabalho)/moderna/“orgânica” (no dizer de materialista-progressista/evolucionista de Durkheim: de notar que ele chama de “orgânica” à burguesa e de “mecânica” a orgânica, sendo que é justamente o contrário!), universalista, virtual, do anônimo cosmopolita, é a meta. Com isto, naturalmente, brilhará mais forte nossas instituições e tradições, facilmente brotarão árvores vistosas e bosques sadios. Ou seja, basicamente se trata de criar bolsões, “viveiros” (religiosos) sadios que garantam exemplares vigorosos e centenários.

Onde isto está, dentro de uma perspectiva escatológica (seja do amedrontado prenúncio do fim da era petrolífera-tecnológica, seja da fé no fim religioso da Era presente, seja do geopolítico “fim da história”, etc.), não é o que me disponho a tratar aqui. Se trata de algo paralelo (e independente) a tudo isto. Que tenha utilidade para os prenúncios deste Inter-regnum, que seja, mas é outra coisa.

Particularmente, tenho algo destes projetos mas também creio que a “grande cidade” não deve ser de todo abandonada – creio que deve algo do efetivo ficar lá, entrincheirado, e talvez recebendo algum suporte “das colinas”. Talvez inspirado pelo que há de melhor em virtuosismo cívico no mundo ocidental, justamente, formulado por “pagãos” como Platão, Aristóteles, Cícero, etc.

Mas como operacionalizar isto, quais táticas?

O mundo virtual, por enquanto, possibilita um ferramental de organização formidável mas que parece também levar a dispersão e esvaziamento do Real, quando esquecemos de seu cariz instrumental e o encaramos como finalidade em si mesma. Enfatizar a dimensão instrumental da informática e pô-la em prática é o primeiro passo.

Bem, depois disto é necessário considerar umas coisas que acredito serem entraves. Vou expor a primeira destas coisas tomando como referência o pouco que percebi do projeto louvável do Rafael Noleto da “Vila Pagã” cá no Nordeste.

Bandeira da "VIla Pagã" no Piauí

Bandeira da “VIla Pagã” no Piauí

Para que o objetivo geral tenha melhores condições de frutificar enraizando-se, num quase osmótico processo de configuração com a Bio-região local, é importante que haja uma “unidade” de foco. Todos serem da mesma religião, ou ao menos cultuarem os mesmos deuses dentro de um mesmo arcabouço cultural, é crucial. Daí que “vilas” ecléticas/ecumênicas estão fadadas a problemas de ordem prática e forçarão seus moradores a desenvolverem um linguagem religiosa comum (que pode soar demasiado artificial ou não) que possibilite o mútuo entendimento, coesão grupal e o conforto “ideológico”, digamos. No caso do projeto Vilã Pagã, é mais ou menos o que me parece – estando eu distante, posso estar enganado – que ocorreu e levou ao desenvolvimento do “paganismo Piaga”. Mesmo se juntarmos, por exemplo, Reconstrucionistas Célticos de foco irlandês, com gaulêses, com galeses e ibéricos (todos, em teoria, RCs), haverão “desconfortos” (explícitos ou não) que levarão as partes minoritárias ou mais constrangidas a cederem ou saírem, cedo ou tarde. OK, talvez no casos dos Reconstrucionistas (ou “etno-religiosos”, digamos) assim seja e que entre os neopagãos ecléticos (Wiccas, Neodruidas mais ecléticos, etc.) isto não seja lá problema.

Outro fator é que Além de sermos poucos, e muito dispersos geograficamente, a viabilidade prática dos “iguais” unirem-se num ponto geográfico é complicada, especialmente quando já se começou a pôr em andamento algo destes projetos (mais ou menos nossa situação cá, confesso). Este é o fator logístico, digamos. Daí que tal projeto requer certa radicalidade e uma disposição de ferro de mudar-se (e arriscar-se, especialmente os que não possuem tanta fixidez ou raízes já fincadas em certo local) em prol de tal ideal. Este é um ponto crucial, é o que decide o sucesso ou o fracasso, o que decide o movimento ou o repouso. Trata-se da pulsão interna, da ação. Trata-se de quebrar a inércia da cadeira sedutora do conforto e ir para os elementos, faça chuva ou faça sol. E isto, definitivamente, não é para qualquer um – é a afirmação aristocrática, arcaica, que zomba do comodismo bundão.

Por outro lado, se considerarmos que os “iguais” devem permanecer onde estão (não se juntando), devendo fundarem grupos em seus respectivos locais, surge o desafio – já tratado – de como “crescer”, em qualidade em quantidade. Como inspirar, propiciar os chamados dos deuses ou despertar o interesse em dada religião? Há “público”? E quando a comunidade neopagã mais ampla sabota nas escondidas, seja por ranços de inferioridade declarada ou por picuinhas diversas? Ano após ano temos aprendido muito sobre estas questões aqui e digo, sob a égide de Bandu, que é difícil não se decepcionar e mais difícil ainda é não formar “filtros”, cada vez mais espessos, a ponto de se tornarem muros. E muros sem portas, são prisões. Simples assim.

Então, como proceder?

O caso de 3. em cidades grandes, é o mais fácil e exequível e me espanta que ainda não esteja ocorrendo: basta que os sujeitos se articulem para mudarem de bairro (basta escolher um bairro onde já 2 ou 3 de um grupo já residam e tal) – não precisam deixar os empregos ou transferirem-se para outros municípios, estados, etc. Longe das amizades e familiares, nada disto. Uma outra possibilidade ainda menor disto, é se houver uma combinação para “ocuparem” um dado edifício – se as pessoas decidirem investir em apartamentos em um único edifício, em pouco tempo se “controlará” o mesmo. Em poucos anos já se terá um núcleo duro, operativo comunitariamente.

O caso de 2. é mais difícil pois requer que vários sujeitos se mudem, e isto não é coisa simples, pois depende de empregos, familiares, amizades e toda uma vida já construída. Mesmo que os sujeitos de uma mesma unidade federativa (ou de vizinhas) decidam levar isto a frente, passará por todas estas coisas, apesar de estarem mais próximos para visitarem familiares e amigos. Além de que, se um grupo, completamente “alienígena” chega numa cidadezinha, com toda a excentricidade, sem “enturmar-se”, corre um risco sério de serem expulsos rapidinho, ou despertarem ódios que impeçam o projeto. Numa cidadezinha de 5000 pessoas é possível ter 50 que, estando presente em setores estratégicos (serviços essenciais ou inovadores para economia local, policiamento, burocracia administrativa, ensino, mídia/jornalismo local, etc.), permitam a execução de um tal projeto. E perceba, leitor, por exemplo, 50 asatruars se acham num único show underground de Heavy Metal em qualquer grande cidade (especialmente do Sudeste). Mas em todo caso, exige muita articulação e planejamento.

O caso 1. é o mais trabalhoso, talvez, mas possível, como a “Vila Pagã” de Rafael Noleto bem demonstra, mesmo tendo optado por uma espécie de “condomínio fechado” (neste sentido, algo mais urbanizado e para uma “vila” mesmo). A tática, neste caso, seria de alguém comprar uma área rural e dividir um pedaço dela em lotes (inclusive, num sistema de “mini condomínio horizontal fechado”), deixando uma área de trabalho comum, outra para a construção de um templo, etc. Conforme o interesse e o tipo de projeto que se queira levar a frente. Outra possibilidade é que uma vez que um sujeito já dispunha de um pequeno pedaço de terra, outros do grupo/comunidade religiosa busquem comprar as áreas vizinhas e/ou próximas, buscando formar um “cinturão” ou “confederação” de propriedades próximas se articulando em algo próximo do que atualmente funciona em “associações de agricultores”, “cooperativas” ou mesmo de sindicatos rurais. Dinheiro não surge do nada, mas se for de se endividar por uma vida para comprar a casa própria que te deixará eternamente insatisfeito (por não ter espaço, jardim, etc.) então reveja os planos, comprar um lote rural e construir talvez saia mais barato e traga mais satisfação: se é para dever, que se deva ao menos satisfeito, por algo que vale a pena.

Bem, vou parar por aqui. Eis algumas ideias e por isto venho cá compartilhá-las, afinal, uma andorinha só não faz verão, como dizia o famoso estagirita. E como tenho repetido cá, acredito que é necessário mais “pró-atividade”; é contra-produtivo e simplesmente indigno posar passivamente de eterna “vítima” indefesa.

Há quem diga que a boa e velha Realidade está com os dias contados. Se assim for, sou dos que está disposto a deixar este mundo virtual de fantasias tecnológicas para os entusiastas nerds, faço questão de me deixar de fora desta “Grande Ilusão”, e retornar, de vez, para as matas e montes “retrógrados”, para o sangue e o aço, para a Realidade, a mesma de nossos deuses e de nossos ancestrais.

Anotações sobre o crescimento de nossas comunidades (29/9/2013)

Originalmente publicado no finado PB Pagã em 29-9-2013

Saudações!

Dei uma revisada bem por cima de umas anotações e vim compartilhar cá – a presença de eventuais erros de ortografia (além do normal) não é de estranhar, pois não tive tempo de revisar. Mas segue.

1. Considerando que o Paganismo não nutre nenhuma tendência séria para o proselitismo religioso nem para o marketing de conversão, o crescimento numérico (que deve, necessariamente, refletir o crescimento qualitativo) de fiéis se dará de modo diverso ao que presenciamos nas religiões de um livro só. Outro ponto importante, ao menos para as religiões pagãs de cariz mais tradicional ou reconstrucionista, reside na compreensão diversa da importância e papel da fé pessoal na experiência religiosa, isto desmerece quase que por completo algum possível papel que um “testemunho” desempenharia, assim como os recursos todos de sentimentalismos diversos (tão importantes no Cristianismo, por exemplo). Não se pode partir dos mesmos pressuposto ao se especular sobre o crescimento e solidificação das religiões pagãs no país. O crescimento tenderá muito mais a estar relacionado a fatores como crescimento orgânico (e demográfico – ou seja, um discurso pró-família, ou ao menos “pró-filhos”, de modo responsável é bem vindo) das comunidades religiosas, surgimento e solidificação de instituições representativas, etc. E muito menos com “conversões” em si.

2. Uma vez considerando isto, a grande meta dos diversos e desconexos grupos religiosos e pagãos deveria ser investir numa comunidade mais sólida, mais integral e sistemática, de modo favorecer o surgimento de instituições e ideais sólidos, poderosos, de uma elite intelectual altiva, de fieis leais e de uma organização interna robusta. O modelo a Natureza oferece, e a própria História dos nossos antepassados religiosos auxilia. É bom lembrar sem raízes sólidas, não se sustentará o arvoredo mais florido e diversificado que seja – eis a importância do Tradicionalismo mesmo para os não tradicionalistas, e a visão geral de que nossas fileiras devem crescer qualitativa e quantitativamente, de modo autônomo e seguro.

3. A visão de um crescimento via aumento demográfico soa alheia para muitos, pois acreditam que somente “conversos” ao paganismo são a via do futuro e/ou que a educação de seus filhos numa religião específica é algo ‘retrógrado’, uma vez que os mesmos devem decidir por si no futuro, se subscrevem ou não uma religião (e se a dos pais, especificamente) por atenderem ao principio liberal da liberdade de escolha religiosa. No meu ver, isto consiste numa opção desvantajosa. Receber apenas “conversos” é delimitar consideravelmente o acesso das pessoas, além de fortalecer um aspecto indesejável (o “marketing” ou maneiras sutis de proselitismo) e altamente desalinhado com o passado histórico destas religiões (onde “nascer” nelas – bem mais que se converter – era a regra). Já a educação baseada no princípio de livre escolha religiosa trás consigo os problemas práticos que já apontamos ao tratarmos do laicismo: os pais, por mais que não optem por doutrinar os filhos, na prática, permitirão mais ainda que a sociedade os doutrine (cristocentricamente); além de que poderão prejudicar a formação do caráter da criança, seja pela omissão do ensino positivo de virtudes (religiosas) tradicionais indo-européias, seja pela omissão na formação de uma visão de mundo. Daí, minha sugestão de que devemos apoiar a bandeira do laicismo externamente, mas apoiar a bandeira da educação religiosa internamente – não por hipocrisia, como é fácil perceber, mas por estratégia, pelo contexto atual e visando o bem/melhora de nossas próprias comunidades religiosas. É importante frisar, para evitar interpretações mais débeis, que uma educação religiosa não impede que os filhos, posteriormente, mudem sua inclinação ou opção (ou falta dela) – o exemplo óbvio se pode verificar olhando ao redor: muitos são os que, apesar de haverem recebido uma educação X (por exemplo, “católica”), terminaram optando por não-X (não serem católicos). Ou seja, uma educação religiosa de base não invalida, a priori, o princípio de livre escolha religiosa posterior, apenas adia (uma vez que tal escolha, pressupõe maturidade espiritual) e diminui os riscos de formação “do nada” (niilista e imersa no vazio consumista reificado).

4. Mas tal investimento, pela sua própria natureza, é dependente de um mais amplo e primeiro: o da formação cultural (que o grego chamaria de paideia), de uma espécie de projeto civilizacional. Daí que, se temos de pensar em frentes de operação, e mesmo se estamos dispostos a admitir que nossa taxa de natalidade conta, sem a “frente cultural”, não haverá “avanço”. É mister, pois, investir algo do nosso esforço para a construção de um todo cultural significativo, ou ao menos, propriamente “nosso”. E há várias maneiras de se fazer isto.

5. Considerando que a natureza humana é diversa (princípio da desigualdade natural), e que tal diversidade é por nós concebida tradicionalmente de modo tríplice (Trifuncionalidade Indo-Europeia, ou quadrúplice – considerando outras interpretações), é razoável crer que a qualidade da contribuição de cada um estará sujeita a adequação de sua natureza com sua área de atuação.

6. A princípio, é de se esperar que cada religião pagã trabalhe, também, internamente para seu próprio crescimento e fortalecimento, além do alcance do que almeja, consciente ou não, como sendo seus objetivos. Neste sentido, cada fiel contribui com seu quinhão, uns contribuirão com a mente e a intuição, outros com o peito e a vontade, outros com os braços e produtos. Haverá contribuições melhores que outras, naturalmente, mesmo em cada um destes níveis. Assim como haverá coisas que se passarão por contribuições positivas, mas que depois se verificará que sejam, ao contrário, negativas. Isto é parte da dinâmica do que é vivo e algo, de certa forma, previsível. A questão é que além destes projetos (independentes) em andamento internamente (para cada religião em separado), pode-se haver um projeto mais amplo.

7. Há um caminho já apontado, faz 30 anos ou mais. Apontado na França e pensado numa dimensão política, mas aberta ao religioso. Refiro-me a Novelle Droite francesa, ao esclarecimento do “combate” cultural, da inauguração de uma Nova Cultura, do gramscismo de Direita (combater Gramsci com Gramsci). No nosso caso, se trata de oferecer à comunidade religiosa opções culturais pagãs sistemáticas para estes tempos de modo a aprofundar e embasar a vivência cotidiana. Não se trata de um projeto de domínio “totalitário”, de um “aparelhamento” no sentido político, mas de uma solidificação de espaços próprios – que permitam a continuidade, inovação e vivência para as religiões pagãs. Se trata não de dominar a Cultura, mas de assegurar espaços na Cultura. Que assegure as condições para brotarem a excelência e o que há de melhor em cada uma delas (das religiões pagãs). A ideia básica é que aproveitemos as oportunidades que temos de criar espaços próprios e os criemos, do melhor modo possível. Não deixemos que outros criem por ou para nós, cuidemos nós mesmos de batalhar por nossa permanência e excelência, não nos tornemos passivos e reféns de políticas de vitimismo e minorias. Tratemo-nos de nos fortificarmos, não de nos acomodar como vítimas minoritárias indefesas, carentes de “proteção” governamental ou da piedade alheia. É razoável supor que ninguém, a não ser nós mesmos, estará genuinamente interessado na nossa melhora, nossa melhora em si mesma. Há os que demonstram ou se interessam por isto, visando nos instrumentalizar para suas causas políticas. Mas um interesse desprovido de interesses (deste tipo) creio que melhor brotará de nossas próprias fileiras.

8. A produção cultural possui vantagens óbvias uma vez que permite agregar pessoas e forças independentemente de eventuais diferenças ideológicas e filosóficas. Sem contar que atrai mesmo pessoas de fora da comunidade pagã, como pessoas ligadas a subculturas juvenis e/ou ateus/agnósticos simpatizantes. A experiência estética que pode ser proporcionada pela produção cultural não só, tradicionalmente, possui um caráter sacro em si, como desperta uma dimensão pragmática e social importante que não deve ser desprezada ao pensarmos em nossa continuidade e melhora. Daí que, parece razoável crer que a produção cultural é um instrumento eficaz, além de historicamente coerente, para a preservação e melhora (qualitativa e quantitativa) de nossas religiões. Nisto (na importância do aspecto cultural) tendo a concordar com gente como Brendan Myers e Alain de Benoist.

9. A produção cultural pode agir em várias áreas, por exemplo:

  • Jornalismo: como já falamos no nosso áudio inaugural, é extremamente viável e concreto a existência de portais de notícias operantes de fato. De notícias gerais e não apenas de pequenos acontecimentos nos nichos relacionados ao paganismo. Que haja isto também, mas não só isto. Há espaço para as mais diversas orientações ideológicas dentro de uma mesma religião pagã e isto pode refletir-se em tal mídia. As condições materiais (fácil acesso a internet, etc.) e técnicas (pessoas qualificadas) e espirituais não faltam. Creio que além de pequenos portais, possa haver um portal de ambições maiores – de ser um dos grandes sites de mídia virtual no país. Não consigo ver o motivo disto ser inviável. Tu, sujeito com formação, ou experiência, nesta área (Jornalismo, Propaganda, etc.), que tal pôr as mãos à obra?
  • Universidade: é importante, igualmente, estar presente no meio acadêmico, em cada nicho possível e imaginável – não para confundir a produção científica com teorias metafísicas e concepções religiosas, mas para aproveitar o que a academia pode nos oferecer para nossas fundamentações e projetos. Além de que há, entre acadêmicos, muitas vezes, uma maior receptividade a certas concepções religiosas. Por outro lado, há muito sentimento de pedantismo e ridicularização da vivência religiosa do que se considera uma “religião morta”, como de qualquer coisa que possua alguma ligação com o esoterismo ou coisas afins. Isto, claro, reflete uma série de coisas que não cabe aqui retomar. As Humanidades tendem a ser mais facilmente “infiltradas” – História, Sociologia, Geografia, Psicologia, Letras, etc. Cada uma terá seu espaço para estudo de alguma época, local, literatura ou pensador (ou idéias) que esteja relacionado com o paganismo histórico ou que seja proveitoso ao moderno. Aumentemos nossa presença nos grupos de estudos, fundemos (ou participemos da fundação) de grupos novos, núcleos, eventos, aproveitemos os espaços públicos das universidades para atividades relacionadas (mini-cursos, palestras, conferências, mesas-redondas), etc.
  • Corporações Militares: particularmente sou grande defensor de que devemos aumentar nosso número (atualmente inexpressivo) e influência nas corporações militares, não apenas por serem maneiras de expressão de um ideal religioso (moral heróica, militarismo, etc.), mas por possibilitarem também uma presença estrategicamente importante. Creio, convictamente, que um soldado pagão seja um sujeito religiosamente muito mais coerente que um cristão, por exemplo, como já tratamos noutras ocasiões. Assim como acredito que precisamos incentivar e apoiar nossos camaradas a entrarem nas corporações militares, desde que despertos em sua natureza de guerreiro.
  • Artesanatos: precisamos aumentar e profissionalizar ainda mais a produção de artesanatos de cunho pagão. Cada religião possui sua parafernália e símbolos próprios que requerem artesãos e pessoas de ofício. Lembremos que os produtores foram (e eventualmente ainda o são) mais numerosos, em termos de natureza. Incentivemos os artesãos locais, compremos deles, possibilitemos que expandam seus blogs/sites, que possam trabalhar de modo cômodo. Num certo sentido, todos os que são trabalhadores nos setores de produção (agrícola, industrial, entretenimento/cultural, etc.) são pessoas de ofício, apesar de sujeitos especialistas distinguirem-se mais, como é natural. Como já falamos noutra ocasião, é crucial apoiar produtores e uma “economia” pagã, inclusive com protecionismos, é importante ter a consciência de que por mais que um sujeito não ideologize (ou ache inapropriado) a economia, existem outros que o fazem, e o utilizam para fortalecer suas religiões ou causas adquirindo poder real. Não se trata de favorecer métodos perversos ou tendências espirituais daninhas, mas de reconhecer a realidade de que se não nos protegermos neste quesito também, ninguém nos protegerá – ou que pelo menos cabe melhor a nós mesmos, que a outros a nossa proteção.
  • Música: precisamos de grupos musicais decentes em cada nicho estilístico. O Rock é obviamente o espaço sonoro mais facilmente “ocupável”, sendo que já há bandas pagãs em atividade em nosso país. Desde o metal extremo até estilos mais classicamente instrumentalizados pelas ideologias de Esquerda (como HardCore, etc.). Precisamos de bandas e bons músicos em cada religião – grupos ásatruars, helenistas, novo-romanos, celtistas, etc. Há espaço para gente talentosa e estou convicto que há tal tipo de gente em nossas fileiras. Além do Rock, creio que mais gente deva investir em música regional (Folk) e de alta cultura (sim, música Clássica!); para ser franco, creio que a presença e produção nestes últimos gêneros é basilar e provedor de “substância espiritual” para os subgêneros do Rock. A abertura de divulgação que a internet possibilita oferece todas as ferramentas necessárias para tal. Temos de estar presentes nos circuitos musicais do Underground, nos circuitos universitários mais abertos e num circuito próprio. Então, que tal formar um grupo musical?
  • Vídeos: a produção videográfica nestes tempos foi altamente facilitada, assim como a divulgação, graças a Internet. Para cada religião pagã (e eventuais vertentes) precisamos de Vlogs de qualidade, curtas, e quem sabe um dia, longas metragens. A criação de um circuito alternativo que produza e reflita sobre tal produção é algo viável. Novamente, há gente qualificada para isso e creio que também não faltam idéias e abordagens.
  • Gastronomia: a produção de manjares é essencial ao Paganismo, seja para o contexto comunitário do banquete festivo cerimonial, seja nas tradições puramente domésticas ou nos sortilégios pessoais. É importante ter sites específicos e funcionais (o mais profissionais e esteticamente agradáveis possível) de compartilhamento gratuito de receitas, seja de comidas ou de bebidas; assim como (num futuro próximo) empresas pagãs que produzam alimentos especializados (bebidas em especial – como o hidromel – são já um mercado visivelmente crescente). As redes sociais podem ajudar e muito na visibilidade e divulgação alternativa. Há um nicho de mercado que se forma (e que tende a aumentar) e que seria melhor ocupado pelos próprios pagãos que se comprometam com mercado justo e organicidade (e não por mercenários ávidos e somíticos agentes mercadológicos).

10. O sentido de voluntarismo e cooperação que o trabalho cultural exige, não é algo distribuído uniformemente entre as pessoas, como deve ser óbvio de se aferir. E mesmo haverá aqueles que se indisporão a tal, pelo simples fato de quem o convida a tal, ser alguém com o qual não se nutra simpatias. O mesmo pode ocorrer a respeito não de pessoas, mas de correntes ou mesmo de religiões. Creio que é interessante ressaltar que não se trata de um trabalho que trará glória a fulano ou a beltrano, ou a corrente x, mas sim, a cada religião específica. Ou seja, o sujeito que se “amarra” por considerar que seu trabalho beneficiará gente com quem não simpatiza (por n motivos, justos ou não) não está percebendo bem o que digo aqui; não estou dizendo que “trabalhe” para estas pessoas; mas estou incentivando que cada um trabalhe em prol de sua fé, a priori, e se isto, por ventura, vier a beneficiar outros (inclusive pessoas com as quais não se simpatize), sob uma perspectiva global, isto não é tão ruim quanto parece. A ideia é de um trabalho em prol de cada religião, prioritariamente, feito pelos religiosos eles mesmos, entre si mesmos, se isto beneficiará a todas as religiões desta “família” ou a comunidade mais ampla, é uma consequência, algo secundário – apesar de benéfico de uma visão mais distante – e neste momento do andar da carruagem, talvez não seja nossa prioridade.

11. Um trabalho cultural, para que seja realmente funcional e uma manifestação autêntica de forças mais profundas, deve ser precedido, crucialmente por um trabalho metafísico – que é o trabalho de fundamentação metafísica de cada religião. Mais importante, do que sair por aqui pondo em prática estas diretrizes é informar-se sobre a fundamentação metafísica de sua religião. Caso o sujeito não seja uma pessoa de uma natureza intelectual/sacerdotal, isto pode ser feito consultando o respectivo sacerdote ou intelectual. Ou seja, para deixar claro, o espalhamento cultural (o “fronte da cultura”) será brioso e genuíno se estiver embasado nas raízes tradicionais da árvore metafísica de cada religião, sendo uma manifestação visível dos princípios invisíveis, como uma folha é das raízes. Nisto me distancio muito de gente que tenha um apego filosoficamente mais aberto ao agnosticismo ou ateísmo, como um Brendan Myers, e me aproximo definitivamente do pensamento tradicional. O culto aos deuses (no sentido ortoprático e tradicional) é o que importa, pois dele se origina as manifestações culturais mais genuínas e a arte mais excelsa.

12. Daí que antes do trabalho para a cultura mais ampla, há o trabalho para a comunidade religiosa orgânica. Primeiro, temos a fundamentação filosófica e metafísica (que pelo menos no nosso caso, cá entre os Brigaecoi, é algo a ser feito oralmente e presencialmente), a operação litúrgica regular e prática da religião, os símbolos alicerçados, a via demarcada, testada pelo Tempo e pela Fortuna (sorte), para além das conversas e elogios transitórios. Isto não acontece do Dia para Noite. Nestes tempos, é fácil supor que se possa apreender tudo pelos contatos virtuais ou supor que se é parte de uma comunidade de fato por estar em um grupo numa rede social ou ter boas relações com pessoas distantes e de pensamento aparentado. Insisto que estejamos atentos a tal ilusão. Numa precisão real, aqui e agora, tal sujeito perceberá o quão só se encontra – uma solidão, que no pior dos casos, pode custar a vida. É inútil a imagem pomposa e “de sábio”, se na hora H, a ação é mesquinha e demonstra a mesma “topeirice” previsível do comum. Além de que tais caminhos demagógicos, para aqueles que os percorrem, podem constituir um grilhão ao próprio demagogo, uma vez que a preocupação com o agrado do “público” , ou em não destoar da maioria (nos tempos facebookianos, receber “curtidas” e comentários sempre elogiosos e “babões”), será pesaroso e, para grandes coisas, provavelmente contra-produtivo. Os que cultivam um simulacro de si no mundo virtual e arregimentam um secto a partir disto, possuem um secto iludido, que os abandonará quando confrontado com a realidade inescapável. Insistimos na organicidade das relações, na comunidade concreta, na realidade ante a virtualidade. Não se trata de uma dicotomia moral, mas da defesa de que o virtual deve estar ancorado no real, insisto, não por “moralismo”, mas por concretude, sagacidade, vitalidade, força – é uma questão de prioridade estratégica, não de valoração maniqueísta.

13. Outra advertência importante – apesar de banal – derivada do dito acima, é que não adianta uma pessoa ou meia-dúzia delas saírem multiplicando “blogs” (que referem uns aos outros) e sites na internet para aumentarem sua presença no mundo virtual se isto não corresponder, de alguma forma, a realidade. É o velho narcisismo facilitado pela ultra-modernidade em operação aí. É contra produtivo criar tais ilusões – utilizemos este tempo para criar concretude, algo durável pelos anos a frente, algo que mesmo que um dia no futuro seja feito em ruínas, possa despertar a admiração e o respeito.

Visões sobre o caminho do produtor (8/1/2014)

Originalmente publicado no finado PB Pagã em 8-1-2014

A obviedade da necessidade de produtores é tão gritante (pelo menos para quem vive e labuta para realizar projetos no mundo real) que não há muito a falar. Neste sentido, reunimos uns pensamentos curtos e simples que expressam algumas das ideias que acredito serem expostas para um número maior de pessoas e compartilhadas. São pensamentos e devem ser encarados como tal.

1. Se é vital ao paganismo contemporâneo o ressurgimento da classe guerreira, se pode falar ainda mais da classe produtiva. A base, o alicerce, a pedra grave e plana. O bloco rígido e rústico, massa volumosa e potente, construtora de impérios e exércitos, do que é grandioso e imponente, que manifesta a vontade de um povo, que constrói o destruído de novo e suporta uma ordem vigente. Precisamos de produtores: produtores de verdade.

2. Não tenhais por produtores de verdade meia-dúzia de “hippies”, que erradamente alguém relacionará como expoentes da nossa classe produtiva. Não. No passado como hoje, o produtor é o camponês, o trabalhador manual pesado (no nível mais baixo), o pequeno comerciante (no nível médio), artesãos, mestres de ofício, técnicos e talvez mesmo, músicos, artistas e poetas de baixo nível (no nível mais alto). São produtores, a classe prestadora de serviços, a classe industrial e a exploração dos recursos primários. Talvez mesmo, seja produtora a “elite” de engenheiros e “homens de negócios”, que nossa sociedade vê como equivalentes a sacerdotes e a intelectuais, os superando, muitas vezes, em prestígio. É necessário compreender que o grande empresário, suposto membro da elite, não é de “elite”, no sentido tradicional, mas o é somente no sentido “burguês”, ou seja da “elite econômica”. Ele é parte da classe produtiva, uma parte alienada pelo sonho e pela fantasia da “burguesia” e que se pensa diferente, ontologicamente, dos seus empregados.

3. É necessário iniciar a desocupação do mundo do trabalho, colonizado pelo Comunismo. É necessário ver, de modo sincero, sem preconceitos, as alternativas (Der Arbeiter de Ernst Jünger), é necessário também considerar e ver os substratos que o Marxismo trouxe consigo e que são valiosos. O paganismo necessita de uma teoria própria do trabalho, para agora, uma que parta da visão tradicional do trabalho e da reflexão filosófica desta (Política de Aristóteles, Íon de Platão, etc.) e transpasse o materialismo modernista (liberal e comunista) dos sindicatos e do mundo consumista. É necessário compreender novamente a lição ancestral de que o fim do Toque de Midas (o Capital Apátrida que tudo em que toca transforma em ouro, em mercadoria, desprovendo de espiritualidade, vida e valor transcendente) só se dará pelo retorno ao Sagrado, e não pela sua extirpação completa (como querem os Comunistas e como alguns Anarquistas, mesmo que não saibam, terminam trabalhando para).

4. Voltemos e olhemos para o nosso “passado”: as corporações de ofícios, as guildas, os arranjos e soluções do campo e da cidade. Lembremos, uma vez mais, que a grande virtude do Produtor é a temperança. O que o guerreiro tem na guerra o produtor tem no trabalho; esta é a sua guerra, este é o campo para que suas virtudes floresçam, sua via de ascese, para que se ilumine.

5. Nisto, na denúncia da eventual perversidade e alheiamento do mundo produtivo moderno e de como este é controlado por uma elite financeira que subjuga o mundo, há algo de valor nos socialistas que deve ser compreendido. Efetivamente, são os sujeitos que mais trabalharam para compreender os efeitos nocivos da economia moderna – o seus diagnósticos são valiosos, mas a receita dos remédios comunistas se mostraram aplicações de um veneno mortal. Talvez por erros de compreensão de como o capitalismo funciona, segundo advogam alguns (Ludwig von Mises e a Escola Austríaca), talvez pela sedução do messianismo utópico do “Reino dos Céus na Terra”, ou seja, por um erro de finalidade (que por sua vez, determina os meios, ao menos entre a Esquerda, vd. Moral e Revolução de Trotsky).

6. É necessário também, não cair na trama fácil do bode expiatório – antes os judeus, hoje os grandes magnatas como George Soros – pois, por mais que caibam em certas posições (e de fato, sejam responsáveis em alguns casos), não se pode subestimar a auri sacra fames, veneno que pode, a princípio, em menor ou maior grau, infectar qualquer sujeito em qualquer classe e de qualquer origem.

7. Precisamos, antes, de construtores, pedreiros, engenheiros. Precisamos retornar à construção de templos, altares, à transformação da ideia em matéria, matéria que condensa a força vital. Já há gente de bijouterias e hippies de artesanato medíocre, não é lá disso que precisamos. Precisamos de mestres, artesãos que produzam obras para a eternidade, imortalizem-se e elevem-se ao divino pela suas obras.

8. A ideia de uma comunidade religiosa autônoma necessita de produtores, fundamentalmente. Precisamos de uma comida plantada e colhida sob a égide de nossos deuses, de carne consagrada a eles, de casas e espaços construídos que reflitam nossas visões e compreensões, vestes, bebidas, instrumentos, utensílios, cultura material. Eis uma necessidade que torna um pedreiro pagão, hoje, mesmo que medíocre, mais útil que 10 blogueiros medíocres que repetem a ladainha do mais do mesmo.

9. Há muitas saídas interessantes hoje que, de certa forma, realizam os apontamentos, digamos, arqueofuturistas. Há muita coisa boa e aproveitável, seja entre as diversas profissões técnicas, seja na tecnologia que dispomos, seja nas técnicas e conhecimentos de permacultores, etc. Informação, há. Não é o que falta.

10. Muitos dos que se aproximam das nossas religiões talvez não disponham de uma natureza majoritariamente produtiva. Talvez, nestes anos, atraiamos mais sacerdotes/intelectuais, poucos guerreiros e poucos produtores – afinal, restaurações, tradicionalmente, começam de cima, formando uma “vanguarda”. Mas talvez não seja só isto – talvez haja muita gente confusa sobre sua real natureza, alienada de si mesmo, pela distância de uma vida saudável junto à Natureza, pela intoxicação ultramoderna das grandes cidades, pela fantasia da vida médio-burguesa e do comodismo santificado, o comodismo do consumo e da satisfação instantânea dos apetites. Talvez. Só quando se sai da caricatura, do faz de conta onde tudo se compra e rápido se faz, e se mergulha no real, onde nem tudo tem preço e onde o tempo requer disciplina inquebrantável, é que possamos saber bem as reais causas. Precisamos que se forme o contexto que liberte os sacerdotes – desobrigue-os de terem de exercer as artes produtivas e combativas, por carecerem os produtores e os combatentes. Precisamos que os produtores assumam sua produtividade, reconheçam que não são nem guerreiros, nem sacerdotes, ou melhor; reconheçam (pois se trata da natureza predominante) que são melhor produtores, que guerreiros ou sacerdotes.

11. Muitos povos conceberam que certos deuses presidem as atividades produtivas ou partes delas. É mister e essencial religá-los à concepção do trabalho em sua plenitude. Sem isto, repetir-se-á a ladainha profana da substituição dos poderes transcendentes pela “deificação” materialista do Consumo, do Mercado, Salário, da Marca. Não. Adoremos uma vez mais os deuses ligados à produção e ao comércio justo, direcionemos nossas mentes uma vez mais para o luminoso, retomemos a mística divina da transformação da matéria bruta em um arte, da verdadeira magia, da dimensão sagrada da produção, do “Segredo do Aço”. Não caiamos na ilusão do simulacro vazio, do ídolo oco, produto da mente semita. Não, reconsagremos a foice, o martelo, como a espada e o pergaminho! Uma vez mais, tenhamos as imagens de nossos deuses cunhadas em nossas moedas.

12. E nesta tarefa compreendei que o comunista (e suas variantes, incluindo os trotskistas e outras matizes de anarquistas) não estará conosco. O capitalista radical também não. Se vivemos, de fato, numa era onde o Trabalhador governa, é crucial estarmos cientes que tais saídas (que não são meramente políticas, mas constituem visões de mundo em si) não são decorrências naturais das visões dos nossos antepassados, mas algo diverso, derivado pela introdução de algo alógena. É dever do intelectual pagão esclarecer em que consiste o Trabalho no mundo pagão, o que consistiu no mundo católico (que teve lá suas simbioses com o pagão) e o que consistiu a partir da Reforma Protestante (Max Weber). Sem isto, o produtor corre o risco de ser esvaziado por dentro, corroído pelo materialismo radical (que se disfarça com desculpas a cada instante), do “tudo é dinheiro”, no final, “dinheiro é o que importa”, “ser um vencedor” nos moldes hollywoodianos do homem de negócios bem sucedido que despreza arrogantemente, e triunfantemente (num orgulho iconoclasta e profunda hybris), tudo o que não lhe rende dinheiro. Estes, enganam melhor por, supostamente, ainda preservarem um ethos de competição e suposto mérito, de concorrência e “guerra”, mas não. Não. Esta não é a deificação do produtor, sua exaltação não consiste nisto e não há moralismo escondido nesta atestação. Não nos iludamos pela propaganda dos idiotas úteis, seja do Grande Capital, seja do grande Embuste Comunista.

13. A exaltação do produtor se dá pelo exercício de sua virtude e pela perícia/excelência em seu ofício. Sem moralismos. Eis o que imortalizou Fídias, eis o que imortalizou Kalashnikov. Eis o que deve-se mirar: a obra, a posteridade – faz para o futuro, no presente. Eis a chave do aforismo de Horácio (seguindo Hipócrates) ars longa, uita breuis, ars como τεχνή, fundamentalmente. E isto só se dá melhor quando a produção não visa a obsolescência programada, isto só se dá, quando se produz de um modo não-capitalista (mesmo que dentro de um sistema formalmente capitalista). Quando se segue na via da excelência, o produtor alcança o status de Mestre de Ofício, equiparando-se em prestígios, nos tempos de nossos ancestrais, aos mais altos dos sacerdotes/intelectuais e dos guerreiros. Tanto que em algumas sociedades, uma nova “classe” se formava, da emancipação dos trabalhadores especializados, de sua diferenciação dos trabalhadores comuns e campesinos, de sua individuação da massa uniforme e anônima. Eis os Áes Dana, eis a origem dos Vaishyas. Eis a verdadeira emancipação pelo trabalho, para o horror da retórica marxista.

14. É importante sabermos sobre o mito e a áurea de santidade criada em torno do produtor e do povão em geral. O produtor é quem compõe a plebe, a massa, o povão. Como já apontamos noutros textos, inicialmente, era compreensível a visão do “bon sauvage” do Rousseau no camponês rústico e analfabeto como um contrapeso a afeminização da nobreza francesa. Mas a coisa perdeu o sentido e o Produtor foi transformado pelo idealismo socialista num ser perfeito, numa classe santa e sempre certa, incólume e sempre injustiçada, explorada e maltratada. De repente, o Produtor tornou-se a medida do que existe: sua necessidade é a necessidade, sua visão, a visão, sua queixa, a queixa. Como o Reino dos Céus é prometido ao “pobre” no Cristianismo, de repente, o Mundo é prometido ao “produtor”, com a diferença de que no Cristianismo, ao menos, o pobre é pecador por natureza, enquanto que o “produtor” não parece padecer de nenhum vício – se por acaso se contesta um, tem sempre origem noutra coisa que não nele (na burguesia, na alienação da superestrutura, na falta de oportunidades, etc.). Não, o Produtor possui também suas características nefastas (como o Sacerdote e o Guerreiro), não é um “santo” completamente isento de defeitos e responsabilidades, nem um condenado que precisa se redimir no Além. Não tomemos a visão religiosa alheia como nossa (mesmo quando ela se passa por pseudo-científica e ateísta), resgatemos a nossa própria.

15. É de espantar que nossas religiões tenham o público que atualmente possuem. É de espantar. Talvez de causar preocupação, mas também, talvez, de esperança. Devíamos estar ocupando os campos, mas não abandonando a polis por completo – criando fortalezas nestas, mas, mais ainda, criando raízes, respirando bem, repaganizando o pagus. É necessário ter ciência do movimento tático. Que estendamos os galhos por sobre o asfalto, mas que nutramo-nos na terra fértil e nas águas límpidas. As árvores que crescem sob a poluição e a fumaça tóxica, cada vez mais demonstram um deformação congênita (umas horas no Facebook o demonstram para qualquer um), uma espécie de atrofiamento, cada vez mais aspiram ser plástico, mero plástico ornamental. Por isto é que é importante certa seletividade, precisamos dos melhores, mais que nunca, para nos organizarmos conforme a natureza e para evitarmos a “plastificação”. Para que não nos seja retirado toda capacidade de reação, de mobilização, para que não nos tornemos um enfeite exótico e manso, inofensivo e morto, um animal empalhado.

16. Roguemos aos Poderosos, sacrifiquemos e libemos. Trabalhemos para (re-)erguer templos mais do que blogs, multipliquemos estátuas, mais que “curtidas”, cultivemos mais jardins e campos que memes engraçadinhos, voltemos também ao mundo concreto do Produtor.

Visões sobre o Caminho do Guerreiro (18/5/2013)

Originalmente publicado no finado PB Pagã em 18-3-2013

 

Saudações.

Um texto escrito meio que a título de notas e que ouso compartilhar aqui, por crer que será útil para alguns – mesmo que seja para despertar uma atitude crítica.

O Cão de Culann e seu cocheiro

i. O Caminho do Guerreiro sofreu um inflexo histórico dentro do Paganismo, outrora fora mais numeroso e novamente deve aspirar a tal. Dentro da tradição, os soldados devem ser mais numerosos que os sacerdotes/intelectuais, apesar de menos que os produtores/artesãos.

ii. Cada religião pagã que novamente renasce, autenticamente fincada na visão arcaica Indo-Europeia, aspira pelo refortalecimento do Caminho da Espada, pelo cultivo da Vontade de Ferro, pois são os Tempos que clamam, o fim de uma Era que impõe.

iii. O Ser no mundo pressupõe a Guerra, o Devir, o Conflito, a tensão de opostos é requisito à harmonia, o conflito é congênito ao que existe, primordial e primevo, como o Fogo e a Água – a união pressupõe a separação, identidade e diferença.

iv. É necessário, pois, resgatar a Metafísica da Guerra, retrilhar o Caminho da Espada, rebuscar a Iluminação no Campo de Batalha; para os feitos tornarem-se imortais e a possibilidade de ascensão ao divino ser concreta. O caminho para a montanha ainda é acessível aquele que batalha e peleja e não apenas para aquele que medita e contempla. A contemplação em excesso, passividade aumentada, leva a um estado efeminado dominante, a um desequilíbrio na balança. É necessário afastar o materialismo vazio, o esporte niilista, o culto ao adorno e parafernália; é necessário resgatar a disciplina viril, excelência austera e o desprezo pela bajulação e falsidade. A honestidade radical e rude, a ferocidade e amizade do cão. Olhemos uma vez mais, mas com um olhar verdadeiro, para os grandes heróis e seus feitos, encaremos uma vez mais o frenesi de batalha. Segue, uma vez mais, o Belo Combate. Compreende a mente de um Aquiles ou Cú Chulainn.

v. Uma moral altiva, aristocrática e uma disposição de espírito vertical. A camaradagem horizontal com os iguais, o respeito sereno para os com os dignos, sacerdotes ou produtores. A disposição ao desafio, ao duelo, ao segredo do juiz escondido que pronuncia suas sábias sentenças no campo de batalha. Saber os sinais no céu ou no sangue, a conquista que do cimo parte. A força espiritual que ganha uma guerra. Do controle sobre si ao controle sobre um exército. A acção ao falatório, as consequências às intenções. Eis o que nos espera.

vi. Juramentos, Lealdade – retomemos sem temor. Com horror fiquemos ante a palavra quebrada. Lealdade, Lealdade, quão séria é tua sombra, quão denso teu olhar. A retomada radical da seriedade da Palavra Dada, da Lealdade ante as dificuldades, do comportamento nobre e virtuoso. Eis o que nos espera.

vii. Miremos o que é são e belo. O que é forte e potente, que perdura e ascende, que faz crescer a força da vida, o poder e sua sensação e a experiência habilidosa. Inimigos existem. Honra também. A misericórdia pode ser um veneno inoculado desde muito, mas que num momento, teremos que extraí-lo. É necessário compreender a natureza do violento, os tipos de violência, os usos honrados e covardes. É necessário compreender a natureza do pacífico, os tipos de paz, os usos benéficos e maléficos. É necessário não estar mais preocupado em agradar a mediocridade e saber que há naturezas e naturezas. É necessário ter coragem para batalhas reais, ir além das batalhas “fakes” da mesquinharia.

viii. É preciso uma reflexão ao abrigo do escudo sob um céu escuro de flechas inimigas, é necessário um pensamento na trincheira esfumaçada na saraivada da metralha. Atônito ante a cadeia dos homens que mergulha, caindo como folhas, no Outromundo, no mergulho do caldeirão profundo, ao retorno, marchando em linha. Façamos o céu rejubilar-se uma vez mais, o chão tremer com nossa marcha, o vento carregar nossos alaridos e cantos aguerridos, após nossas trombetas aterrarem os que fogem. Elevemos nossos estandartes, olhemos orgulhosos o horizonte, certos da uma morte digna e de uma existência honrosa.

ix. Hoje não é fácil, o quotidiano nos cega nas quimeras dos sonhos de consumo. O comodismo nos imobiliza, com seduções fáceis e mesquinhas. Nos obrigam a trocar o irreal e lúdico pelo real e mortífero, nos acostumam a sempre arrumar um bode expiatório e a nunca enfrentarmos o que nos aguarda, o Real.

x. O caminho do guerreiro é também o caminho da política. Política e Guerra. Discernir o amigo, o inimigo e o alheio. A militância numa causa, o manejar de uma bandeira, uma postura activa e comprometida, em favor dos valores tradicionais da cultura religiosa. O caminho do guerreiro é também um caminho patriótico. O guerreiro do mundo inteiro é o guerreiro de todos e de ninguém, de toda guerra e de nenhuma. Todos os heróis tiveram pátria/clã/nação sendo honrados e admirados mesmo pelas pátrias/clãs/nações inimigas. O brio excelso extrapola o particular numa fagulha do universal, reflectindo o sol que brilha por sobre todos. O cosmopolitismo/universalismo real tem dificuldade de casar-se com o Caminho da Espada (possui maior facilidade com o caminho do sacerdote/intelectual). Em algum momento, é necessário tomar partido, preferir corajosa e vigorosamente, reconhecer pelo que se luta, solidarizar-se com os seus. Rechacemos o costume covarde de querer agradar a todos, de querer ser o diplomata perfeito, de ser o perfeito impessoal. Não compactuemos com a covardia e o engano deste costume.

xi. Atenta para não cair em certas armadilhas mais frequentes nos caminhos do Radicalismo e Extremismo. Atenta para não ceder por completo a lógica da disjunção exclusiva e revogar por completo a lógica Indo-Europeia da conjunção, atenta para não transformar-te num radical abraâmico que acha que é pagão, cego pelo absoluto da exclusividade. É um erro demasiado sério que deve ser evitado. Atenta igualmente para não cair no subjectivismo e egoísmo “liberal”, no fosso moderno entre o Eu e o meu Povo. É parte de um todo e teu semblante se desfaz no esquadrão em movimento, apesar de teu valor pessoal (que é intransferível) se sobressair no calor da peleja.

xii. Repara na Política, repara nos partidos, repara nos líderes. Lembra-te que, se convier ao teu destino, poderás liderar, ou se não convier, poderás ser liderado, ou alternar entre estas posições conforme a linha traçada. Tenha atenção nas causas que propagandeiam, nas lutas que se levantam. Examina e compara com os paradigmas da tua tradição. Pergunta como os heróis e antepassados veriam e se há algo de novo que merece uma real mudança. Tenha uma atitude combativa. Repara nos exércitos patrióticos e nas forças estabelecidas de defesa social, mesmo que constantemente apresentem seus erros e problemas, pois, para o bem ou para o mal, isto é que vive agora, que recua comunitariamente ao passado; as roupas e equipamentos mudam, as cores e formas, as virtudes e vícios, os excessos e faltas, mas algo permanece ali representado: o espírito combativo, o impulso guerreiro. Não há dinheiro ou salário que pague uma vida, nem ouro que compre o valor individual num embate ruidoso.

xiii. O caminho do guerreiro deve ser vivido profissionalmente, sempre que possível. Procura, pois, servir nas profissões que assim o possibilitam: Polícias, Exército, Bombeiros, etc. Pratica jogos que simulam (o jogo nasceu da simulação do combate) e aperfeiçoam, mas não o pratica como um “burguês”, pelo fetichismo em si mesmo fechado, pelo culto do exterior e pelo mero êxtase dos sentidos. Pratica como “hobbista” e não como profissional, pratica com um propósito claro e distinto, com uma finalidade prática e útil. Acostuma-te com armas, suas diferenças e propósitos, conheça-as cada uma, na sua saúde ou doença: são ferramentas e extensões de teu próprio corpo as quais nossos antepassados costumavam levar nos próprios túmulos e piras consigo ao Outromundo.

xiv. Disciplina e hábito, treino e condicionamento. Exercícios. Saúde e vontade de aço. Corpo são, mente sã. Alguns simplesmente não entenderão – talvez seja necessário sentir, além de compreender. É verdade, há algo de profundamente terrível, há algo de profundamente perturbador e que pode levar ao asquerosamente sanguinolento e brutal, diriam os romanos: bellum dulce inexpertis. É onde desponta o melhor e o pior, é onde a natureza humana se perde e se encontra, se desfaz e se constrói.

xv. Peior est bello timor ipse belli. Há guerras e guerras e diversos frontes. Uns mais arriscados, mais visíveis e brutos, outros mais seguros, escondidos e delicados. Há grandes batalhas e pequenas batalhas, encontros rápidos e longos. Há recuos e avanços, derrotas e triunfos. Às vezes mesmo uma injustiça pode cair sobre nós, como uma nevasca terrível que alcança um desabrigado nu, e demorar com seu peso a nos fazer mover e reagir. Mas lembremos da Noite Mais Longa, sua escuridão e promessa, do Sol Invicto que desponta depois.

xvi. Mesmo uma vida corriqueira, imersa em rotina e com seus momentos de banalidade, pode oferecer um lapso, uma brecha e oportunidade, de no passo honesto e firme, destemido e virtuoso, mesmo que nas pequenas coisas, de uma vida que vale a pena, de uma existência heróica e bela. Não é preciso equipamento caro, nem a mais recente tecnologia – não invejes quem somente disto dispõe, portanto. Uma vida simples e excelente brilha com algo de heróico, um heróico um tanto estóico, por sobre os feitos comuns do vulgo. O exemplo para teus filhos, a fortaleza para tua casa, a companhia para teu cônjuge, um orgulho aos teus maiores e, quem sabe, uma luz para teu povo.

xvii. Quando a espada, a enxada e a récita integram-se num todo orgânico, o mundo harmoniza-se são na dinâmica do que é natural, elevando-se como incenso espesso de um fogo sacrificial, obtendo a presença dos deuses grandiosos e a possibilidade do fenomenal, do que transvalora o comum, numa momento epifânico luminoso. O caminho da espada não é para todos, como não é a vida intelectual/sacerdotal, e mesmo não é a produtiva/artesã; mas é algo que pode ser compreendido por todos que há diferentes caminhos e passos e que a desigualdade é natural. A natureza selecciona, separa, divide, une. Ressurgirá a tensão atávica pela Irmandade de Guerreiros, “isolados” e devotos, pelas tropas de elite casados com a Morte, pelo desejo de superar e exceder. Não se pode reprimir isto para todo e sempre, nem deixar tal erupção ao léu; ao contrário, sábio e precavido é quem o antevê dentro dos Ciclos do Mundo.

xviii. Uma comunhão de guerreiros talvez tenda (sem moralismos torpes) a uma “milícia”; mas não se trata de incentivar uma militarização do Paganismo, não se trata da transgressão (hybris, peccatum) de submeter o puramente religioso ao político/militar, mas de relembrar que há algo de religioso (muito mais connosco que com as “religiões da paz”) no militar/político. Não se trata de pôr o guerreiro acima do sacerdote/intelectual, mas simplesmente de enfatizar sua igual necessidade.

xix. Se tu és do que carregas contigo uma espada, aceita teu Destino e Natureza. Branda-a alto e não te furtes. Retoma hoje na tua religião o Caminho da Espada, procura os teus iguais, lembra-te que esta classe tendia a ser mais ampla que a sacerdotal. Age. Os deuses da Guerra nos miram. Corramos pelos campos em formação e murmúrio, não temamos a visão do rubro assento onde se senta o Senhor da Guerra, com sua lança e corvídeos (ou abutres). Como cães correndo no campo, como lobos numa matilha pela floresta. Não esqueças que os guerreiros são algo aparentados por dentro, por mais que hajam germânicos e celtas, romanos e gregos, africanos e ameríndios, asiáticos e polinésios. As virtudes excelentes, os códigos de honra – não são brincadeiras, nem “interpretação de papéis”, são reais e podem ser uma vez mais vividos. Integralmente. Sem concessão, sem “RPGísmo” de raquíticos, sem chorumelas desvairadas.

xi. Agora, é necessário uma moção, um movimento, um passo firme. Não basta pensar, apreciar, admirar, é necessário viver.

19 de Março (19/3/2014)

Originalmente publicado no finado PB Pagã em 19-3-2014

Saudações.

Noite do 19 de Março. Esta data é uma ilustração da sobrevivência e do caráter imorredouro do que o beatame chamará de “paganismo”. É um símbolo de Tradição que persiste, modificada no Tempo e no Espaço; uma prova do Paganismo Inconquistável (“a religião impossível de ser derrotada” segundo Guillaume Faye). Pelo Nordeste se celebra, sob o verniz católico, um dia augural para o Inverno e tudo o que este representa para o Sertanejo: fartura, colheita, trabalho na terra, etc. A associação popular com o tal São José é esporádica: nada há na mitologia bíblica neste personagem que o associe a Chuvas, Fartura e Lavouras. NADA. A associação como “padroeiro dos trabalhadores”, em sentido estrito, caberia muito mais aos trabalhadores de ofício manual especializado, artífices (carpinteiros, artesãos, etc.). Nada o liga à Chuva/Metereologia nem a fertilidade das colheitas vindouras. Então, como se explicaria tal fenômeno?

A percepção augural do tempo.

Que há certos dias que concentram em si o prenúncio de estações inteiras é uma concepção bem viva entre os povos célticos, como os registros e o folclore medieval facilmente atestam, seja nas ilhas britânicas, na Bretanha francesa ou nas zonas nortenhas de Portugal e Espanha. Claro, isto não é uma percepção unicamente dos Celtas, é algo comum entre os demais povos Indo-Europeus e mesmo entre os demais povos antigos/tribais/integrados com a Natureza. Tal percepção ainda viva no imaginário popular dos Nordestinos, herdeiros de eventuais raízes célticas via Galego-Portugalidade, percebeu no fluxo natural local tal marco. Esta associação não existiu na Europa, não veio de lá simplesmente. Somente uma percepção sedimentada e integrada na Bio-região cá, geração após geração, pôde identificar tal padrão imanente de uma indicação transcendente e pô-lo na prova do Tempo. Confirmou-se que, em boa parte das Bio-regiões nordestinas, a Véspera do Equinócio de Outono augura o Inverno. Por “coincidência”, tal Véspera caiu no dia que o calendário católico arbitrariamente destinou ao tal Santo. Uma percepção ancestral, “pagã”, manifesta em um símbolo cristão que aí estava, inócuo até então; o vitalismo pagão fez brilhar uma data cristã apagada. Algo novo surgiu, uma novidade antiga – entrelaçada ao Imanente.

As cerimônias da data.

Até o modus operandi do “agradecimento” ao Santo remonta às raízes pré-cristãs mais óbvias e indeléveis, depositadas profundamente no imaginário de nosso povo. A fogueira sacrificial, a procissão com o Ídolo e homenagem, as oferendas de adornos, flores, hinos e preces. A adivinhação do Inverno se soma ao rito de oferenda primicial, de propiciação agrária às futuras Colheitas. Inicia-se o ciclo do Milho – este nobre grão nativo, divinizado pela sabedoria indígena – inicia-se o tempo até o Solstício de Junho (até o São João, dirá o vulgo). Este é um dos casos em que o Cristianismo Popular mostra-se valioso e um veículo que, mesmo possuindo suas limitações, manifesta Luzes Perenes de uma Tradição mais antiga.

E nós, o que fazemos?

Repaganizamos, incorporamos esta manifestação autêntica em nossos calendários litúrgicos nordestinos. Não cabe aqui iniciar uma “cruzada” para esfregar na cara de católicos o paganismo manifesto da data, não se trata de buscar contraria-los em sua fé, ou de demonstrar arcaísmos e “impurezas” doutrinárias a quem tanto se diz puro e “evoluído” (é de notar que certos sujeitos, especialmente alguns neo-ateus e neo-pagãos adolescentes, se satisfazem com tais coisas, no fundo, regojizando-se inconscientemente por serem mais cristãos/”angelicais” e puritanos que os próprios cristãos!). Nada disto. Deixemo-los felizes lá, rogando ao Santo deles. Respeitemos esta manifestação, por mais que, para nós, ela nos pertença mais. Roguemos nós aos nossos deuses da Agricultura e/ou das Chuvas e estejamos cientes que nosso Nordeste contém tesouros, alguns escondidos, outros nem tanto.