19 de Março (19/3/2014)

Originalmente publicado no finado PB Pagã em 19-3-2014

Saudações.

Noite do 19 de Março. Esta data é uma ilustração da sobrevivência e do caráter imorredouro do que o beatame chamará de “paganismo”. É um símbolo de Tradição que persiste, modificada no Tempo e no Espaço; uma prova do Paganismo Inconquistável (“a religião impossível de ser derrotada” segundo Guillaume Faye). Pelo Nordeste se celebra, sob o verniz católico, um dia augural para o Inverno e tudo o que este representa para o Sertanejo: fartura, colheita, trabalho na terra, etc. A associação popular com o tal São José é esporádica: nada há na mitologia bíblica neste personagem que o associe a Chuvas, Fartura e Lavouras. NADA. A associação como “padroeiro dos trabalhadores”, em sentido estrito, caberia muito mais aos trabalhadores de ofício manual especializado, artífices (carpinteiros, artesãos, etc.). Nada o liga à Chuva/Metereologia nem a fertilidade das colheitas vindouras. Então, como se explicaria tal fenômeno?

A percepção augural do tempo.

Que há certos dias que concentram em si o prenúncio de estações inteiras é uma concepção bem viva entre os povos célticos, como os registros e o folclore medieval facilmente atestam, seja nas ilhas britânicas, na Bretanha francesa ou nas zonas nortenhas de Portugal e Espanha. Claro, isto não é uma percepção unicamente dos Celtas, é algo comum entre os demais povos Indo-Europeus e mesmo entre os demais povos antigos/tribais/integrados com a Natureza. Tal percepção ainda viva no imaginário popular dos Nordestinos, herdeiros de eventuais raízes célticas via Galego-Portugalidade, percebeu no fluxo natural local tal marco. Esta associação não existiu na Europa, não veio de lá simplesmente. Somente uma percepção sedimentada e integrada na Bio-região cá, geração após geração, pôde identificar tal padrão imanente de uma indicação transcendente e pô-lo na prova do Tempo. Confirmou-se que, em boa parte das Bio-regiões nordestinas, a Véspera do Equinócio de Outono augura o Inverno. Por “coincidência”, tal Véspera caiu no dia que o calendário católico arbitrariamente destinou ao tal Santo. Uma percepção ancestral, “pagã”, manifesta em um símbolo cristão que aí estava, inócuo até então; o vitalismo pagão fez brilhar uma data cristã apagada. Algo novo surgiu, uma novidade antiga – entrelaçada ao Imanente.

As cerimônias da data.

Até o modus operandi do “agradecimento” ao Santo remonta às raízes pré-cristãs mais óbvias e indeléveis, depositadas profundamente no imaginário de nosso povo. A fogueira sacrificial, a procissão com o Ídolo e homenagem, as oferendas de adornos, flores, hinos e preces. A adivinhação do Inverno se soma ao rito de oferenda primicial, de propiciação agrária às futuras Colheitas. Inicia-se o ciclo do Milho – este nobre grão nativo, divinizado pela sabedoria indígena – inicia-se o tempo até o Solstício de Junho (até o São João, dirá o vulgo). Este é um dos casos em que o Cristianismo Popular mostra-se valioso e um veículo que, mesmo possuindo suas limitações, manifesta Luzes Perenes de uma Tradição mais antiga.

E nós, o que fazemos?

Repaganizamos, incorporamos esta manifestação autêntica em nossos calendários litúrgicos nordestinos. Não cabe aqui iniciar uma “cruzada” para esfregar na cara de católicos o paganismo manifesto da data, não se trata de buscar contraria-los em sua fé, ou de demonstrar arcaísmos e “impurezas” doutrinárias a quem tanto se diz puro e “evoluído” (é de notar que certos sujeitos, especialmente alguns neo-ateus e neo-pagãos adolescentes, se satisfazem com tais coisas, no fundo, regojizando-se inconscientemente por serem mais cristãos/”angelicais” e puritanos que os próprios cristãos!). Nada disto. Deixemo-los felizes lá, rogando ao Santo deles. Respeitemos esta manifestação, por mais que, para nós, ela nos pertença mais. Roguemos nós aos nossos deuses da Agricultura e/ou das Chuvas e estejamos cientes que nosso Nordeste contém tesouros, alguns escondidos, outros nem tanto.

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