Algumas considerações sobre a Geografia Sagrada da Parahyba (31/5/2013)

Originalmente publicado no finado PB Pagã em 31-5-2013

Saudações.

Abaixo estão algumas anotações gerais – e que estão bem longe de um padrão acadêmico – sobre temas de Geografia Sagrada na Parahyba e são parte de um apanhado mais geral sobre a identificação/edificação de santuários. Espero que seja útil para a reflexão.

A oposição entre Terra e Mar (eco da oposição primordial entre o Fogo e a Água) remonta aos tempos dos Celtas da Península Ibérica, como registrou Estrabão ao tratar dos Celtas dos litorais (mais “civilizados”, aculturados/romanizados, brandos e dados ao comércio “globalizado”) e das montanhas (“bárbaros”, identitários, bravos e ligados a economia pastoral e agricultura). Esta oposição permanece ainda viva no Portugal profundo e é a base metafísica da nossa herança viva da oposição entre o Sertão e o Litoral que surge em todo o Nordeste.

O Nordeste, como se sabe, herdou da Europa eminentemente uma tradição do Portugal profundo (incluindo as paragens mirandesas) e da Galiza arcaizante. Aqui não há Itália (como há em São Paulo), aqui não há Alemanha (como há no Sul), aqui há o gênio luso-galego, talvez nem tanto o gênio explorador cabralino, do Império português, imaginativo do Quinto Império; mas mais o gênio agrícola e rural, o gênio castrejo. Parece que vieram também Mouras e Trasgos do além mar. O Movimento Armorial foi somente até a metade do caminho – até o medievalismo galego-português – e focou-se somente no Sertão (no Cavaleiresco, Heróico, Aristocrático-monárquico) nós ousamos ir até a fonte: a herança pré-cristã da época da romanização, em especial à matriz céltica. O Nordeste, pois, é torcado (como o intuiu certa feita um artista armorial ao decorar o cenário de uma palestra de Ariano Suassuna com um torque celta pintado sobre um longo pano) e seus poetas são bardos de uma tradição que remonta à uma fonte mais velha que os jograis e menestréis dos tempos de Afonso X. Há quem não veja motivo para que elejamos uma parte de nossa herança deste modo; talvez, de fato, estas pessoas estejam corretas, pois, não se trata de um motivo racional para isto, uma justificação, mas de uma identificação de alma, de uma disposição de espírito que transborda as justificativas e torna o ser pleno.

No Litoral (talassocrático) há a tendência ao cosmopolitismo, individualismo, fluidez e abrandamento, comércio e modernidade. No Sertão predominam o regionalismo, abnegação, rigidez e dureza, produtividade e tradicionalismo. A “Civilização do Couro” é uma manifestação das tendências telurocráticas do Sertão – que desce numa depressão para de encontro às forças mais ctônicas e áridas.  Só este Sertão, de Pedra e Espinho, permitiria a possibilidade do cruento sacrifício da Pedra do Reino (lembrar que tal sacrifício se deu na fronteira entre a PB e o PE) para o sonho messiânico sebastianista, para realizar a profecia (prima da do Rei Artur) do Retorno do Rei.

Nosso Sertão, amplo e profundo, deve ser visto como o reduto tradicional e austero (apolíneo), nosso Litoral, como nosso espaço dos excessos e das novidades (dionisíaco). O Sertão e suas estradas longas, suas planícies e montes solitários, lá a Grande Planície do Outromundo assombra as noites; é um grande espaço para cultivar um exército duro e disciplinado, implacável e audaz. O Litoral oferece as nascentes das deusas-ninfas, e no passado, ofereceu as matas profundas para os sacerdotes; oferece hoje a massa moderna e o entretenimento mais fácil (eis o único local onde o Carnaval moderno “funciona”), a cultura do açúcar e da inclusão, o turismo e a beleza do mundo marítimo. Nossa capital condensa estes elementos, é o local do ideal moderno, do entretenimento ameno e agitação, do progresso e do caldeirão étnico – o gênio nativo e a forte presença deste elemento racial ainda são muito fortes, e talvez constituam o aspecto mais genuíno da brasilidade.

Vista de cima do Pico do Jabre – Foto de Thiago Gomes da Silva

Sob o prisma da Geografia Sagrada, nosso bosque, com o avanço da civilização, recuou e subiu o planalto, mas não totalmente. A Zona da Mata e o Litoral cederam a cultura canavieira mas ainda cuidaram de deixar resistências verdes. A grande planície é a nossa Grande Estepe que se eleva ao Planalto da Borborema, das pedras mais antigas e cujo cimo – o santuário mais antigo, assento celeste de *Dyeus Ph2ter na paisagem, o Pico do Jabre – se levanta majestoso. Um carvalho plantado lá, provavelmente revelar-se-ia oracular. É de notar o clima árido desta passagem (e a ausência de árvores enormes), acúmulo telurocrático que condensa no dito pico a axis mundi local, o centro sagrado (oculto) da tradição sertaneja. A confluência dos caminhos naturais, do alto ao baixo, do ocidente ao oriente originou Campina Grande, que não possui este nome à toa. A Vila Nova da Rainha contem em si algo de régio e de feminino, só lhe falta o cariz equino para associarmo-la a Soberania.

O Cariri e suas fragas ríspidas e quase desérticas, que ecoam os encantos passados dos nativos, é a “pátria granítica” do Sol, cruenta e poética. Florestas de pedras e espinhos, ventos ariscos e paisagens caprinas. O Cariri é um Sertão elevado depois das matas orientais, é a materialização do diálogo espinhoso da Caatinga com as Pedras. Do nômade com a loca. Quem duvida que acampe sobre seus lajedos, onde rasteja a cascavel e cresce o xique-xique, que veja lá o nascer do Plenilúnio e o ronco do Trovão. As lendas populares de Reinos Dourados ou Tesouros escondidos nas pedras e cachoeiras ainda permanecem como testemunhos da percepção mágica do imaginário popular.

O Brejo, em sua altura mediana, funciona como uma espécie de síntese entre o Sertão e o Litoral – daí sua importância simbólica e tendência ao equilíbrio e visão “fria”. Suas colinas brandas, quando limpas de vegetação, são o local natural para o assento de um rei, para uma fortaleza brava (de onde veio André Vidal de Negreiros, de lembrar também que uma das maiores resistências armadas às forças imperiais brasileiras na época da nossa independência na Confederação do Equador aconteceu em Areia) e para produção de cultura refinada (quem nos deu Abdon Felinto Milanês, Elpídio de Almeida, Pedro Américo, José Américo, por exemplo). A árvore alta no cume da colina é o santuário natural do Brejo quando no pé da serra, na base da colina, há um poço, uma nascente; é um reduto para o divino suas colinas cobertas de floresta e seus sinuosos cursos estreitos que fazem aparecer os ossos pétreos da Terra. O Brejo, desde o final da primeira metade do século passado, caiu em um sono enevoado, mas – se nossa compreensão de sua natureza metafísica estiver correta – despertará para aquilo que lhe é natural.

Os católicos não negligenciaram tais princípios como uma rápida olhada na localização de suas Igrejas revela. Os outeiros e miradouros de nossa paisagem citadina possuem torres ou cruzeiros, quando não cemitérios (os próximos aos cursos d’água em seus “pés” tendem a “funcionarem” melhor) ou marcos nas vias e estradas, dispostos em conformidade com as percepções pagãs.

Decifremos, pois, os sinais das paisagem, o segredo dos montes e o tesouro das águas.

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