Alguns pensamentos sobre a construção de comunidades orgânicas locais (11/7/2014)

Originalmente publicado no finado PB Pagã em 11-7-2014

 

Saudações. Este texto devia ter vindo antes, demorou mas está aí.

Diante da multiplicidade de desafios de ordem política e religiosa pela frente, a idéia de viver numa comunidade pequena composta por correligionários é algo que atrai muitos dos adeptos das religiões étnicas indo-europeias (e de tudo aquilo que convencionou-se chamar de “[neo]paganismo”). É uma opção convidativa e atraente, independente do perfil ideológico do adepto – seja um hipponga-libertário-new-age ou um militarista-conservador, além dos diversos tons entre um perfil e o outro. Claro, algo disto já foi discutido neste blog e viemos mais pôr um adendo aqui.

Por um lado, talvez isto – de formar comunidades paralelas – represente uma recusa ao grande embate político-social (e uma prévia aceitação da derrota), uma atestação de que não tem jeito mais (ou um reconhecimento de que não temos força suficiente); uma atitude conformista/negativa, que soa “egoísta”, uma “fuga do mundo” (condenável tanto pelo viés liberal social-democrata que no melhor dos casos pode se inspirar no civismo ateniense ou romano, quanto pelo marxista materialista-hitórico) e um apego a uma atitude “retrógrada” (e “alienada”, para o marxista) em prol de um idilismo “Amish”. Talvez, efetivamente, tenha algo disto, pois, na condição de minoria da minoria e da quase que completa falta de representatividade social e política na macro-sociedade é quase impossível não “cansar”, não estar saturado em algum momento e buscar algo mais fácil de ser posto em prática. Ainda por cima, quando há uma certa tendência anti-cívica, herdeira do Estoicismo e do Epicurismo, talvez, e reforçada pelo desprezo cristão por tudo que é “deste mundo” e pelo seu ascetismo amante de desertos é que se ache uma postura inadequada. No entanto, a tendência da viabilização de novas comunidades, a possibilidade de erguer algo diferente, é uma constante que se vê na colônias gregas desde a época arcaica, nos assentamentos romanos, nas expedições e migrações célticas e germânicas, por exemplo; e em muitos casos (especialmente entre os germânicos, célticos e mesmo alguns helênicos) o cariz rural/“de vila” se fez quase sempre presente.

Além de que a história mostra que “Fugir para as colinas” nem sempre significa derrotismo. Nossos ancestrais ibéricos, já cristianizados, que rumaram para a Galiza e Astúrias para reconquistarem suas terras gerações após a conquista moura, são um exemplo do que desejo apontar aqui. É possível, lá nas colinas, montar um acampamento e cuidar de, paulatinamente, tornar as condições de vitória/expansão reais, palpáveis. Este é o ponto que indico cá e encaro isto como inspirado no pioneirismo migratório/colonizador de Celtas, Germânicos e Gregos.

Nesta possibilidade, para qual converge muita coisa, creio que estão – na minha opinião – as idéias mais úteis de boa parte do “blá, blá, blá” político que se pretende “pós-moderno” (e defendido por quem se acha mais “descolado” e inteligente, etc.). É aqui que vejo, por exemplo, utilidade nos conceitos de “voluntarismo” e “comunidade orgânica” tão frisados por anarquistas; nas digressões sobre o tal do “municipalismo libertário” (e da ideia do “ocupe” venha da extrema-esquerda ou dos libertários/anarco-capitalistas), do esforço de “espalhar” ou realizar o esforço democrático em comunidades (impulso de setores progressistas de Esquerda, por exemplo), da retórica neo-tribalista (de radicais racialistas) ou das realizações hippongo-verdistas de permacultores simpatizantes do neoxamanismo, por exemplo.

Em termos práticos, isto se reduziria numa estratégia geral de fundar pontos sólidos em diversos lugares do país – teríamos três tipos de projetos:

1. fundar “colônias” rurais

2. formar “maioria” em alguma cidade pequena

3. formar “maioria” em algum bairro de alguma cidade grande

Revitalizar laços orgânicos e reais, promover um cotidiano integrado que possibilite a experiência de imersão cultural integral ao religioso, reforçar, para utilizar um termo durkheimiano, a “solidariedade mecânica” (aquela existente naturalmente, entre pessoas linguística-cultural-religiosa e geograficamente próximas, ou seja, a solidariedade do “ethnos”, da tribo) em oposição à solidariedade “burguesa” (derivada da globalizante divisão do trabalho)/moderna/“orgânica” (no dizer de materialista-progressista/evolucionista de Durkheim: de notar que ele chama de “orgânica” à burguesa e de “mecânica” a orgânica, sendo que é justamente o contrário!), universalista, virtual, do anônimo cosmopolita, é a meta. Com isto, naturalmente, brilhará mais forte nossas instituições e tradições, facilmente brotarão árvores vistosas e bosques sadios. Ou seja, basicamente se trata de criar bolsões, “viveiros” (religiosos) sadios que garantam exemplares vigorosos e centenários.

Onde isto está, dentro de uma perspectiva escatológica (seja do amedrontado prenúncio do fim da era petrolífera-tecnológica, seja da fé no fim religioso da Era presente, seja do geopolítico “fim da história”, etc.), não é o que me disponho a tratar aqui. Se trata de algo paralelo (e independente) a tudo isto. Que tenha utilidade para os prenúncios deste Inter-regnum, que seja, mas é outra coisa.

Particularmente, tenho algo destes projetos mas também creio que a “grande cidade” não deve ser de todo abandonada – creio que deve algo do efetivo ficar lá, entrincheirado, e talvez recebendo algum suporte “das colinas”. Talvez inspirado pelo que há de melhor em virtuosismo cívico no mundo ocidental, justamente, formulado por “pagãos” como Platão, Aristóteles, Cícero, etc.

Mas como operacionalizar isto, quais táticas?

O mundo virtual, por enquanto, possibilita um ferramental de organização formidável mas que parece também levar a dispersão e esvaziamento do Real, quando esquecemos de seu cariz instrumental e o encaramos como finalidade em si mesma. Enfatizar a dimensão instrumental da informática e pô-la em prática é o primeiro passo.

Bem, depois disto é necessário considerar umas coisas que acredito serem entraves. Vou expor a primeira destas coisas tomando como referência o pouco que percebi do projeto louvável do Rafael Noleto da “Vila Pagã” cá no Nordeste.

Bandeira da "VIla Pagã" no Piauí

Bandeira da “VIla Pagã” no Piauí

Para que o objetivo geral tenha melhores condições de frutificar enraizando-se, num quase osmótico processo de configuração com a Bio-região local, é importante que haja uma “unidade” de foco. Todos serem da mesma religião, ou ao menos cultuarem os mesmos deuses dentro de um mesmo arcabouço cultural, é crucial. Daí que “vilas” ecléticas/ecumênicas estão fadadas a problemas de ordem prática e forçarão seus moradores a desenvolverem um linguagem religiosa comum (que pode soar demasiado artificial ou não) que possibilite o mútuo entendimento, coesão grupal e o conforto “ideológico”, digamos. No caso do projeto Vilã Pagã, é mais ou menos o que me parece – estando eu distante, posso estar enganado – que ocorreu e levou ao desenvolvimento do “paganismo Piaga”. Mesmo se juntarmos, por exemplo, Reconstrucionistas Célticos de foco irlandês, com gaulêses, com galeses e ibéricos (todos, em teoria, RCs), haverão “desconfortos” (explícitos ou não) que levarão as partes minoritárias ou mais constrangidas a cederem ou saírem, cedo ou tarde. OK, talvez no casos dos Reconstrucionistas (ou “etno-religiosos”, digamos) assim seja e que entre os neopagãos ecléticos (Wiccas, Neodruidas mais ecléticos, etc.) isto não seja lá problema.

Outro fator é que Além de sermos poucos, e muito dispersos geograficamente, a viabilidade prática dos “iguais” unirem-se num ponto geográfico é complicada, especialmente quando já se começou a pôr em andamento algo destes projetos (mais ou menos nossa situação cá, confesso). Este é o fator logístico, digamos. Daí que tal projeto requer certa radicalidade e uma disposição de ferro de mudar-se (e arriscar-se, especialmente os que não possuem tanta fixidez ou raízes já fincadas em certo local) em prol de tal ideal. Este é um ponto crucial, é o que decide o sucesso ou o fracasso, o que decide o movimento ou o repouso. Trata-se da pulsão interna, da ação. Trata-se de quebrar a inércia da cadeira sedutora do conforto e ir para os elementos, faça chuva ou faça sol. E isto, definitivamente, não é para qualquer um – é a afirmação aristocrática, arcaica, que zomba do comodismo bundão.

Por outro lado, se considerarmos que os “iguais” devem permanecer onde estão (não se juntando), devendo fundarem grupos em seus respectivos locais, surge o desafio – já tratado – de como “crescer”, em qualidade em quantidade. Como inspirar, propiciar os chamados dos deuses ou despertar o interesse em dada religião? Há “público”? E quando a comunidade neopagã mais ampla sabota nas escondidas, seja por ranços de inferioridade declarada ou por picuinhas diversas? Ano após ano temos aprendido muito sobre estas questões aqui e digo, sob a égide de Bandu, que é difícil não se decepcionar e mais difícil ainda é não formar “filtros”, cada vez mais espessos, a ponto de se tornarem muros. E muros sem portas, são prisões. Simples assim.

Então, como proceder?

O caso de 3. em cidades grandes, é o mais fácil e exequível e me espanta que ainda não esteja ocorrendo: basta que os sujeitos se articulem para mudarem de bairro (basta escolher um bairro onde já 2 ou 3 de um grupo já residam e tal) – não precisam deixar os empregos ou transferirem-se para outros municípios, estados, etc. Longe das amizades e familiares, nada disto. Uma outra possibilidade ainda menor disto, é se houver uma combinação para “ocuparem” um dado edifício – se as pessoas decidirem investir em apartamentos em um único edifício, em pouco tempo se “controlará” o mesmo. Em poucos anos já se terá um núcleo duro, operativo comunitariamente.

O caso de 2. é mais difícil pois requer que vários sujeitos se mudem, e isto não é coisa simples, pois depende de empregos, familiares, amizades e toda uma vida já construída. Mesmo que os sujeitos de uma mesma unidade federativa (ou de vizinhas) decidam levar isto a frente, passará por todas estas coisas, apesar de estarem mais próximos para visitarem familiares e amigos. Além de que, se um grupo, completamente “alienígena” chega numa cidadezinha, com toda a excentricidade, sem “enturmar-se”, corre um risco sério de serem expulsos rapidinho, ou despertarem ódios que impeçam o projeto. Numa cidadezinha de 5000 pessoas é possível ter 50 que, estando presente em setores estratégicos (serviços essenciais ou inovadores para economia local, policiamento, burocracia administrativa, ensino, mídia/jornalismo local, etc.), permitam a execução de um tal projeto. E perceba, leitor, por exemplo, 50 asatruars se acham num único show underground de Heavy Metal em qualquer grande cidade (especialmente do Sudeste). Mas em todo caso, exige muita articulação e planejamento.

O caso 1. é o mais trabalhoso, talvez, mas possível, como a “Vila Pagã” de Rafael Noleto bem demonstra, mesmo tendo optado por uma espécie de “condomínio fechado” (neste sentido, algo mais urbanizado e para uma “vila” mesmo). A tática, neste caso, seria de alguém comprar uma área rural e dividir um pedaço dela em lotes (inclusive, num sistema de “mini condomínio horizontal fechado”), deixando uma área de trabalho comum, outra para a construção de um templo, etc. Conforme o interesse e o tipo de projeto que se queira levar a frente. Outra possibilidade é que uma vez que um sujeito já dispunha de um pequeno pedaço de terra, outros do grupo/comunidade religiosa busquem comprar as áreas vizinhas e/ou próximas, buscando formar um “cinturão” ou “confederação” de propriedades próximas se articulando em algo próximo do que atualmente funciona em “associações de agricultores”, “cooperativas” ou mesmo de sindicatos rurais. Dinheiro não surge do nada, mas se for de se endividar por uma vida para comprar a casa própria que te deixará eternamente insatisfeito (por não ter espaço, jardim, etc.) então reveja os planos, comprar um lote rural e construir talvez saia mais barato e traga mais satisfação: se é para dever, que se deva ao menos satisfeito, por algo que vale a pena.

Bem, vou parar por aqui. Eis algumas ideias e por isto venho cá compartilhá-las, afinal, uma andorinha só não faz verão, como dizia o famoso estagirita. E como tenho repetido cá, acredito que é necessário mais “pró-atividade”; é contra-produtivo e simplesmente indigno posar passivamente de eterna “vítima” indefesa.

Há quem diga que a boa e velha Realidade está com os dias contados. Se assim for, sou dos que está disposto a deixar este mundo virtual de fantasias tecnológicas para os entusiastas nerds, faço questão de me deixar de fora desta “Grande Ilusão”, e retornar, de vez, para as matas e montes “retrógrados”, para o sangue e o aço, para a Realidade, a mesma de nossos deuses e de nossos ancestrais.

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