Arquia, anarquia e pensamentos (12/12/2013)

Originalmente publicado no finado PB Pagã em 12-12-2013

Saudações.

Vai e volta, encontro-me com o termo “anarquismo”, utilizado por gente de extrema (esquerda ou direita), capitalistas burguesinhos, gente de classe média “nerd” ou gente de classe média típico bicho-grilho-hippóide-de-Humanas, nacionalistas (sim, há o nacional-anarquismo) etc. É um termo bem presente. Mas, ao meu entender, em certos usos, é um termo falho. Escrevo esta postagem visando demonstrar o motivo.

Basicamente, minha implicação é de ordem etimológica.

Etimologicamente, anarquia é um termo que aponta para “desordem”, é “falta de princípio director, governo, comando”. Este “-arquia” é a mesma “arkhē” dos filósofos Pré-Socráticos. E isto deveria ser o suficiente para invocar o peso (ontológico) da noção “-arquia”. Eles, como todos os povos tradicionais de que se tem notícia, acreditavam na existência de um princípio ordenador do que existe. No pensamento religioso, tal princípio é sagrado (em grego “hieros”), sendo ele próprio, a ordem natural das coisas, a ‘hierarquia’ (“hieros”+“arkhē”). Este princípio, tanto para os Pré-Socráticos (cuja inovação fora iniciar a investigação racional e dessacralizada deste princípio ou conjunto de princípios) como para os religiosos, é pré-existente (ante rem), ou no mínimo, ontologicamente congénere com as coisas (in re). Há uma hierarquia no mundo, na natureza das coisas, seja ela característica inseparável do que é (in re) ou de origem divina e premeditada (ante rem), simples assim. Estamos nos referindo a uma crença profunda, e até onde sei, presente em todos os povos, ao menos no mundo antigo. Dependendo dos povos e culturas, tal percepção da hierarquia natural é estendida, com maior ou menor grau, a organização política e sócio-económica da sociedade.

Podemos postular, sem agravo, que o pensamento tradicional é caracteristicamente ligado a tal percepção de uma ordem configuradora do ser. Podemos também estender filosoficamente tal noção aproveitando os conceitos desenvolvidos para a questão dos universais e aplicando-os cá. Neste caso, teremos os crentes na existência de uma hierarquia prévia (ante rem) ao que é, estabelecida teogonicamente, no que é (in re – idéia próxima da Pitagórica de que há uma ordem directora matematizável na estrutura do próprio universo; pressuposto parecido foi assumido pela Ciência Moderna desde de Galileo e ainda rende frutos na matematização da Física e nas tentativas de síntese do tipo Teoria Geral) e os crentes numa hierarquia posterior as coisas (post rem), seja pela argumentação de que nosso aparelho gnose-sensorial organiza/hierarquiza as nossas percepções e representações em nossa mente por sua própria natureza (similarmente as categorias a priori de Kant e o modelo epistemológico deste) ou pela própria linguagem que utilizamos para pensar e descrever o que existe postular uma hierarquia, uma organização directora (ou seja, por existir na linguagem – seria a postura mais próxima do Nominalismo, digamos).

Claro que ao longo da história, a percepção da hierarquia, sagrada, efectivou-se também como uma “disarquia”, perdendo o carácter sacro, instrumentalizando-se como injustiça e desregramento no mando político de sociedades. Quando o princípio director e governante perde sua orientação transcendente, a coisa desanda, deixamos de ter uma hierarquia, em seu sentido próprio, e passamos a ter uma caricatura, muitas vezes prejudicial, uma ‘disarquia‘. Ou seja, o problema não é ter os melhores no topo, o problema é quando “os melhores” não são Os Melhores. Esta é a real injustiça social (qualquer um que leu a República de Platão bem lida, deve ter compreendido esta lição tradicional). Isto é o que havia de real quando um Rousseau da vida, zombou de um gordo e efeminado Luís XIV, em contraposição ao camponês rude e viril; mas com o Rousseau, a coisa não parou por aí, ele acreditava que o problema era a própria noção da desigualdade natural, e da “hierarquia”, não se tratava de não ter Os Melhores no topo, mas sim de não haver ‘melhores’! Ou seja, jogou-se o bebê junto com a água, e de lá pra cá, muito anarquista (o francês Proudhon que o fale, lembrando que este terminou por influenciar o russo Bakunin) segue esta rota irrefletidamente.

Há quem ache que tal ideia “encantadora” – de “não haver melhores”, serem todos iguais, o Igualitarismo aí pressuposto – ganhou corpo e se disseminou com o Cristianismo (Nietzsche, Evola, Alain de Benoist, Faye, etc.), como é bem sabido.

Uma vez que não há melhores, nem superiores, o Sujeito moderno, Liberal, torna-se autónomo no sentido etimológico do termo (“aquele que rege a/legisla para si próprio”), daí, passar a ver todo poder externo a si (o Estado, especialmente após o trauma “absolutista-hobbesiano”) como opressor é um pulo. Ou seja, partindo do Igualitarismo e do Modernismo (do Sujeito Moderno) é fácil chegar (se é que não é uma consequência lógica!) ao anti-Estatismo, o tal Anarquismo – seja pela Esquerda (classicamente, pela via sindical-socialista até o trotskismo), seja pela Direita (pela intensificação e máxima potencialização do liberalismo, no Libertarianismo/Anarco-capitalismo). Ambas as visões não enxergam um princípio ordenador prévio (ou congénere) para a existência, não conhecem a ideia hierárquica em seu sentido originário, ao contrário, denunciam tal discurso como religioso, reaccionário, alienante e opressor e assimilam, instantaneamente, o termo “hierarquia” à injustiça e usurpação. Ambas visam a horizontalização igualitário-materialista, o Paraíso messiânico terreno, seja pela redistribuição directa de riqueza (Esquerda), seja criação de mecanismos que permitam o igual acesso ao consumo (Direita). Por mais que as ideologias elaborem conceitos-chave que não possuem qualquer validade científica e sirvam como depositários da fé de seus crentes (sendo análogos aos mitos e aos conceitos religiosos), como a “Mão Invisível da Economia” ou a “Luta de Classes”, suas pretensões de superioridade à religião e pseudo-cientificismo (pelo menos no caso do Marxismo), terminam por encantar a intelligentsia ávida do status da superioridade intelectual.

Antes que algum gaiato venha cá dizer (por proselitismo ou por real “comoção” e desejo por “iluminar esta mente escura”) que entendi tudo errado, informo que estou bem ciente dos usos do termo no final do século XIX e começo do XX. Conheço algo do Proudhon, algo do Bakunin, algo do Trotsky, do Marx (o fim messiânico de sua promessa teórica, o tal do comunismo real, o “anarquismo feliz”) e mesmo de gente que é utilizada, especialmente pela anglofonia, como “ancestral” do Libertarianismo e do Anarco-capitalismo, como Thoreau. Compreendo quando se fala de “gestão orgânica”, “governo espontâneo”, “livre associação comunitária”, “voluntarismo” e tantos outros conceitos para expressarem a alternativa a um Estado (termo latino, usado já na época de Cícero), o Estado Moderno, Hobbesiano, Westfaliano; e mesmo concordo que a ideia de “livre aceitação” de uma forma de governo ou manifestação hierárquica é, fundamentalmente, uma boa idéia. Compreendo até a mitologia dicotómica do Estado=Mal x Não-Estado/Anarquia=Bem, etc. E o pior, até venho lendo com certa constância algo do anarco-primitivismo, anarco-nacionalismo e outras variantes. O que estou dizendo é que não concordo com o uso do termo “anarquia”, principalmente quando ele denota a existência ainda de alguma “arquia”, mesmo que não seja a do Estado Moderno Hobbesiano. O que estou dizendo é que não vejo nenhuma razão para resumir biunivocamente “arquia” a Estado Moderno Hobbesiano/Westfaliano/Burguês. Ou seja, o fato de não haver o Estado Moderno não quer dizer que haja “anarquia”. Simples assim.

E por isto fala besteira ou simplesmente atesta sua idiotice (ou má-fé, do mesmo modo que os marxistas que falam na baboseira mentirosa de “comunismo primitivo” ou os seus ancestrais ideológicos que falavam em “cristianismo antes de Cristo” – ou toda e qualquer prática fraudulenta de alteração e revisão do passado sob orientação ideológica do presente, por mais que não seja por “má fé”, que se admita ao menos que é por motivos estratégicos e de “propaganda”) quem fala em reinos medievais “anárquicos” ou tribos celtas e germânicas “anárquicas”, etc. Não importa quão disseminado esteja, nem quantos seguidores tenha ou quantas entradas na Wikipédia disponha.

E mais, creio que para um religioso que adere a uma religião antiga ou de inspiração/restauração destas (como é o caso dos Neopagãos), digo que ele adere também a uma visão que estipula, tradicional e necessariamente, “hierarquia” (em seu sentido etimológico e ontológico) e que por isso mesmo não pode simplesmente abrir a boca em favor de “anarquismo” (no sentido etimológico que abordei acima) sem que se contrarie. As crenças na existência de alguma forma de “arquia” (ante rem, in re, post rem, nominalisticamente, etc.) e na sua ausência (“anarquia”) são mutuamente excludentes. Como disse, me refiro a alguns usos específicos (especialmente aos usos de origem religiosa não-cristã, pois dentro do cristianismo primitivo parece ter havido uma brecha que os anabatistas revisitaram) e exponho cá os motivos. Tal exposição não visa ser o início de uma cruzada contra o termo, mas antes chamar atenção para sua dimensão etimológica e as possibilidades de nos reapropriamos dela de um modo que me parece menos problemático. Aos camaradas pagãos e correligionários, recomendo que utilizem simplesmente “tribalismo” ou “primitivismo” ou algo do tipo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s