EUA, “Paganismo” e algumas considerações (2/9/2013)

Artigo originalmente postado no finado PB Pagã em 2-9-2013

Barbie Estátua da Liberdade... dois símbolos bem representativos dos EUA

Não é de hoje que há, seja entre intelectuais ou gente da classe média, um certo “ethos”, uma certa tendência de que devemos nos guiar pelos EUA, seja politicamente, militarmente e, o que nos interessa aqui, religiosamente. Há quem veja os EUA como um “irmão mais velho”, um exemplo do que o Brasil deve ser – tirando a parte do racismo, claro – e não é difícil notar que tal percepção ecoa mesmo na compreensão das diretrizes e rumos de coisas como o Paganismo. Soma-se a isto, a persistência do ranço que nossa elite desenvolveu com relação a Portugal, desde a Primeira República. A referência e o modelo a imitar, mesmo quando se foge dos EUA, vai para a França como é bem sabido. Nossa elite se espelhou e aspirou avidamente em ser francesa e/ou norte-americana, negando explicitamente sua herança, como uma espécie de adolescente que brigou com o pai. Tal busca por referências e por qual delas copiar se refletiu diretamente na Primeira República, que também trouxe consigo nosso primeiro “nacionalismo” (que desenvolveu-se à castilhista e positivista – laicista, inclusive). O modelo monárquico, onde a Família Real é diretriz (e onde há a afirmação do Privado – da Família Real – com o Público) tornou-se sinônimo da cafonice “portuguesa”, mais ou menos como os Pais para um adolescente problemático e buscando afirmar-se (negando, talvez, suas origens, pela ânsia da auto-afirmação).

Bem, os tempos são outros. Mas ainda há tal desejo de americanidade vagueando pelo (in)consciente de certos coletivos. No nosso caso, se manifesta na preferência irrestrita, ou irrefletida, por tudo e por qualquer autor norte-americano em se tratando de Paganismo. Os norte-americanos são os modelos, exemplos do “pensamento correto” e a última palavra. Hollywood e toda a hegemonia cultural massiva que se auto-promove a cada instante na nossa mídia, formatando paulatinamente boa parte de nossa imaginação e operação mental obviamente ajudam – hoje, muito mais que na época da Primeira República. Claro, lá o Paganismo está se disseminando muito rapidamente, coisa que muitos de nós gostaria de ver acontecer cá – mas, o que custa a alguns perceberem, é que isto está ocorrendo à americana. Reconhecer isto é crucial. Tal desenvolvimento é uma forma específica, não a forma. Todo o passado político norte-americano sui generis (nunca tiveram uma monarquia própria e uma classe de nobreza, ao contrário do Brasil, por exemplo) e o Gênio específico que moldou o país reflete-se, faz-se presente nas visões desenvolvidas nos blogs, na auto-análise e no modo como veem a si próprios, nos valores-chave, nas teologias e tendências, nos mais eminentes e influentes pensadores e lideranças religiosas. Mesmo que sejam os pioneiros em alguns caminhos, é saudável e orgânico que haja uma “naturalização” ao se transpor para outra Geografia e Povo (de matrizes culturais algo diversas), como cá, e isto pressupõe uma consciência e reflexão sobre o que é realmente natural e específico do caminho, e o que é um aditivo (oculto ou não) do Norte-americanismo.

O Paganismo está se desenvolvendo rapidamente também nos países bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia) e eslávicos (Rússia, Ucrânia), mas por que tal forma de lá é “má” e a norte-americana é “boa”? Por que se deve ter somente a última como espelho e Estrela-Guia? A resposta é geralmente enviesada ideologicamente (e pode, por vezes, estar imersa em pré-conceitos e noções descabidas). Deste ponto de vista, é mais simples traçar a tendência Liberal e mesmo Esquerdista (mesmo a despeito de eventuais incongruências que tais visões possam ter com valores-base da visão tradicional Indo-Européia ou das manifestações históricas do Paganismo no mundo antigo) que alguns ícones do Neopaganismo nos EUA expressam. A tendência geral ao Anarquismo (libertário/anarco-capitalista ou social-sindicalista), Liberalismo ético (foco no sujeito, inviolabilidade das liberdades e preferências pessoais), New Age Hippie, etc. Se tornam elementos explicativos adicionais compreensíveis, portanto. Não temos de simplesmente aceitar, sem refletir ou pensar, toda terminologia e conceitos de lá, toda construção, engolir seco e reproduzir simplesmente para ganhar “aval” ou aprovação do Sr. Americano Fulano ou Beltrano. Também podemos elaborar (afinal, somos mais de 200 milhões de pessoas!), seja aproveitando algo ou não, pensar, construir conceitos, terminologia, metafísica. Somos herdeiros também de Tradições, não brotamos aqui do nada, ontem. Não, mas não mesmo.

Somos um país diferente. Apesar de ambos haverem sido colônias e de terem utilizado mão de obra escrava africana (e indígena, é bom não esquecer), sermos hoje dois países multiculturais e tal, isto não nos torna iguais. Há uma dessemelhança profunda, inscrita na paisagem rústica dos vilarejos e vielas, nas pedras e Florestas de nosso país, seja nos pampas ou no Cerrado, na Caatinga ou na Mata Atlântica, na Amazônia ou no Pantanal. Há um “fantasma” do tradicional e nobre, do Rei e do Arcaico no Brasil Profundo ainda rondando, ainda vivo, seja na poesia tradicional do cantador de repente que canta numa postura régia ou no viver concreto do campesino do interior; nossas religiões nos ligam e religam, queiramos ou não, com tais elementos, com o Ancestral, com os ideais de Nobreza, Aristocracia, Terra, Céu, etc. Mesmo que o sujeito não seja um tradicionalista ou um admirador da visão heróica da existência – há algo disto aqui, algo que está incrustado e ainda vivo, não se pode fechar os olhos e fingir “autenticidade”. Nossa situação é diferente de lá, nosso país foi construído sob uma visão diferente e a partir de elementos (materiais e espirituais) diversos.

Não se trata de advogar um anti-americanismo simplista, coisa fácil nestes tempos de iminência de intervenção (imperialista ou “imperialista” dependendo de qual lado se esteja) norte-americana na Síria. Nem mesmo se trata de reduzir ou diminuir a contribuição norte-americana para o Paganismo reduzindo-a a “Californication”, cultura de consumo enlouquecido (e obeso), superficialidade e irresponsabilidade. Não, há muita coisa válida e útil no meio pagão lá. Mas se trata de perceber e deixar claro que não temos de simplesmente copiar cegamente e louvar credulamente o modus operandi norte-americano, constantemente lambendo as botas e puxando o saco de toda e qualquer opinião, autor ou invencionice religiosa de lá. Há outras possibilidades bem sucedidas também (e mesmo que não houvessem, não impede de tentarmos desenvolvê-las!), seja na Europa (nosso berço cultural, gostem ou não) ou na Asia, e ainda a possibilidade do autêntico, do que reflita harmonicamente nossa situação e particularidades. Mas para isso, é mister coragem e disposição para nos valorizarmos.

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