Visões sobre o Caminho do Guerreiro (18/5/2013)

Originalmente publicado no finado PB Pagã em 18-3-2013

 

Saudações.

Um texto escrito meio que a título de notas e que ouso compartilhar aqui, por crer que será útil para alguns – mesmo que seja para despertar uma atitude crítica.

O Cão de Culann e seu cocheiro

i. O Caminho do Guerreiro sofreu um inflexo histórico dentro do Paganismo, outrora fora mais numeroso e novamente deve aspirar a tal. Dentro da tradição, os soldados devem ser mais numerosos que os sacerdotes/intelectuais, apesar de menos que os produtores/artesãos.

ii. Cada religião pagã que novamente renasce, autenticamente fincada na visão arcaica Indo-Europeia, aspira pelo refortalecimento do Caminho da Espada, pelo cultivo da Vontade de Ferro, pois são os Tempos que clamam, o fim de uma Era que impõe.

iii. O Ser no mundo pressupõe a Guerra, o Devir, o Conflito, a tensão de opostos é requisito à harmonia, o conflito é congênito ao que existe, primordial e primevo, como o Fogo e a Água – a união pressupõe a separação, identidade e diferença.

iv. É necessário, pois, resgatar a Metafísica da Guerra, retrilhar o Caminho da Espada, rebuscar a Iluminação no Campo de Batalha; para os feitos tornarem-se imortais e a possibilidade de ascensão ao divino ser concreta. O caminho para a montanha ainda é acessível aquele que batalha e peleja e não apenas para aquele que medita e contempla. A contemplação em excesso, passividade aumentada, leva a um estado efeminado dominante, a um desequilíbrio na balança. É necessário afastar o materialismo vazio, o esporte niilista, o culto ao adorno e parafernália; é necessário resgatar a disciplina viril, excelência austera e o desprezo pela bajulação e falsidade. A honestidade radical e rude, a ferocidade e amizade do cão. Olhemos uma vez mais, mas com um olhar verdadeiro, para os grandes heróis e seus feitos, encaremos uma vez mais o frenesi de batalha. Segue, uma vez mais, o Belo Combate. Compreende a mente de um Aquiles ou Cú Chulainn.

v. Uma moral altiva, aristocrática e uma disposição de espírito vertical. A camaradagem horizontal com os iguais, o respeito sereno para os com os dignos, sacerdotes ou produtores. A disposição ao desafio, ao duelo, ao segredo do juiz escondido que pronuncia suas sábias sentenças no campo de batalha. Saber os sinais no céu ou no sangue, a conquista que do cimo parte. A força espiritual que ganha uma guerra. Do controle sobre si ao controle sobre um exército. A acção ao falatório, as consequências às intenções. Eis o que nos espera.

vi. Juramentos, Lealdade – retomemos sem temor. Com horror fiquemos ante a palavra quebrada. Lealdade, Lealdade, quão séria é tua sombra, quão denso teu olhar. A retomada radical da seriedade da Palavra Dada, da Lealdade ante as dificuldades, do comportamento nobre e virtuoso. Eis o que nos espera.

vii. Miremos o que é são e belo. O que é forte e potente, que perdura e ascende, que faz crescer a força da vida, o poder e sua sensação e a experiência habilidosa. Inimigos existem. Honra também. A misericórdia pode ser um veneno inoculado desde muito, mas que num momento, teremos que extraí-lo. É necessário compreender a natureza do violento, os tipos de violência, os usos honrados e covardes. É necessário compreender a natureza do pacífico, os tipos de paz, os usos benéficos e maléficos. É necessário não estar mais preocupado em agradar a mediocridade e saber que há naturezas e naturezas. É necessário ter coragem para batalhas reais, ir além das batalhas “fakes” da mesquinharia.

viii. É preciso uma reflexão ao abrigo do escudo sob um céu escuro de flechas inimigas, é necessário um pensamento na trincheira esfumaçada na saraivada da metralha. Atônito ante a cadeia dos homens que mergulha, caindo como folhas, no Outromundo, no mergulho do caldeirão profundo, ao retorno, marchando em linha. Façamos o céu rejubilar-se uma vez mais, o chão tremer com nossa marcha, o vento carregar nossos alaridos e cantos aguerridos, após nossas trombetas aterrarem os que fogem. Elevemos nossos estandartes, olhemos orgulhosos o horizonte, certos da uma morte digna e de uma existência honrosa.

ix. Hoje não é fácil, o quotidiano nos cega nas quimeras dos sonhos de consumo. O comodismo nos imobiliza, com seduções fáceis e mesquinhas. Nos obrigam a trocar o irreal e lúdico pelo real e mortífero, nos acostumam a sempre arrumar um bode expiatório e a nunca enfrentarmos o que nos aguarda, o Real.

x. O caminho do guerreiro é também o caminho da política. Política e Guerra. Discernir o amigo, o inimigo e o alheio. A militância numa causa, o manejar de uma bandeira, uma postura activa e comprometida, em favor dos valores tradicionais da cultura religiosa. O caminho do guerreiro é também um caminho patriótico. O guerreiro do mundo inteiro é o guerreiro de todos e de ninguém, de toda guerra e de nenhuma. Todos os heróis tiveram pátria/clã/nação sendo honrados e admirados mesmo pelas pátrias/clãs/nações inimigas. O brio excelso extrapola o particular numa fagulha do universal, reflectindo o sol que brilha por sobre todos. O cosmopolitismo/universalismo real tem dificuldade de casar-se com o Caminho da Espada (possui maior facilidade com o caminho do sacerdote/intelectual). Em algum momento, é necessário tomar partido, preferir corajosa e vigorosamente, reconhecer pelo que se luta, solidarizar-se com os seus. Rechacemos o costume covarde de querer agradar a todos, de querer ser o diplomata perfeito, de ser o perfeito impessoal. Não compactuemos com a covardia e o engano deste costume.

xi. Atenta para não cair em certas armadilhas mais frequentes nos caminhos do Radicalismo e Extremismo. Atenta para não ceder por completo a lógica da disjunção exclusiva e revogar por completo a lógica Indo-Europeia da conjunção, atenta para não transformar-te num radical abraâmico que acha que é pagão, cego pelo absoluto da exclusividade. É um erro demasiado sério que deve ser evitado. Atenta igualmente para não cair no subjectivismo e egoísmo “liberal”, no fosso moderno entre o Eu e o meu Povo. É parte de um todo e teu semblante se desfaz no esquadrão em movimento, apesar de teu valor pessoal (que é intransferível) se sobressair no calor da peleja.

xii. Repara na Política, repara nos partidos, repara nos líderes. Lembra-te que, se convier ao teu destino, poderás liderar, ou se não convier, poderás ser liderado, ou alternar entre estas posições conforme a linha traçada. Tenha atenção nas causas que propagandeiam, nas lutas que se levantam. Examina e compara com os paradigmas da tua tradição. Pergunta como os heróis e antepassados veriam e se há algo de novo que merece uma real mudança. Tenha uma atitude combativa. Repara nos exércitos patrióticos e nas forças estabelecidas de defesa social, mesmo que constantemente apresentem seus erros e problemas, pois, para o bem ou para o mal, isto é que vive agora, que recua comunitariamente ao passado; as roupas e equipamentos mudam, as cores e formas, as virtudes e vícios, os excessos e faltas, mas algo permanece ali representado: o espírito combativo, o impulso guerreiro. Não há dinheiro ou salário que pague uma vida, nem ouro que compre o valor individual num embate ruidoso.

xiii. O caminho do guerreiro deve ser vivido profissionalmente, sempre que possível. Procura, pois, servir nas profissões que assim o possibilitam: Polícias, Exército, Bombeiros, etc. Pratica jogos que simulam (o jogo nasceu da simulação do combate) e aperfeiçoam, mas não o pratica como um “burguês”, pelo fetichismo em si mesmo fechado, pelo culto do exterior e pelo mero êxtase dos sentidos. Pratica como “hobbista” e não como profissional, pratica com um propósito claro e distinto, com uma finalidade prática e útil. Acostuma-te com armas, suas diferenças e propósitos, conheça-as cada uma, na sua saúde ou doença: são ferramentas e extensões de teu próprio corpo as quais nossos antepassados costumavam levar nos próprios túmulos e piras consigo ao Outromundo.

xiv. Disciplina e hábito, treino e condicionamento. Exercícios. Saúde e vontade de aço. Corpo são, mente sã. Alguns simplesmente não entenderão – talvez seja necessário sentir, além de compreender. É verdade, há algo de profundamente terrível, há algo de profundamente perturbador e que pode levar ao asquerosamente sanguinolento e brutal, diriam os romanos: bellum dulce inexpertis. É onde desponta o melhor e o pior, é onde a natureza humana se perde e se encontra, se desfaz e se constrói.

xv. Peior est bello timor ipse belli. Há guerras e guerras e diversos frontes. Uns mais arriscados, mais visíveis e brutos, outros mais seguros, escondidos e delicados. Há grandes batalhas e pequenas batalhas, encontros rápidos e longos. Há recuos e avanços, derrotas e triunfos. Às vezes mesmo uma injustiça pode cair sobre nós, como uma nevasca terrível que alcança um desabrigado nu, e demorar com seu peso a nos fazer mover e reagir. Mas lembremos da Noite Mais Longa, sua escuridão e promessa, do Sol Invicto que desponta depois.

xvi. Mesmo uma vida corriqueira, imersa em rotina e com seus momentos de banalidade, pode oferecer um lapso, uma brecha e oportunidade, de no passo honesto e firme, destemido e virtuoso, mesmo que nas pequenas coisas, de uma vida que vale a pena, de uma existência heróica e bela. Não é preciso equipamento caro, nem a mais recente tecnologia – não invejes quem somente disto dispõe, portanto. Uma vida simples e excelente brilha com algo de heróico, um heróico um tanto estóico, por sobre os feitos comuns do vulgo. O exemplo para teus filhos, a fortaleza para tua casa, a companhia para teu cônjuge, um orgulho aos teus maiores e, quem sabe, uma luz para teu povo.

xvii. Quando a espada, a enxada e a récita integram-se num todo orgânico, o mundo harmoniza-se são na dinâmica do que é natural, elevando-se como incenso espesso de um fogo sacrificial, obtendo a presença dos deuses grandiosos e a possibilidade do fenomenal, do que transvalora o comum, numa momento epifânico luminoso. O caminho da espada não é para todos, como não é a vida intelectual/sacerdotal, e mesmo não é a produtiva/artesã; mas é algo que pode ser compreendido por todos que há diferentes caminhos e passos e que a desigualdade é natural. A natureza selecciona, separa, divide, une. Ressurgirá a tensão atávica pela Irmandade de Guerreiros, “isolados” e devotos, pelas tropas de elite casados com a Morte, pelo desejo de superar e exceder. Não se pode reprimir isto para todo e sempre, nem deixar tal erupção ao léu; ao contrário, sábio e precavido é quem o antevê dentro dos Ciclos do Mundo.

xviii. Uma comunhão de guerreiros talvez tenda (sem moralismos torpes) a uma “milícia”; mas não se trata de incentivar uma militarização do Paganismo, não se trata da transgressão (hybris, peccatum) de submeter o puramente religioso ao político/militar, mas de relembrar que há algo de religioso (muito mais connosco que com as “religiões da paz”) no militar/político. Não se trata de pôr o guerreiro acima do sacerdote/intelectual, mas simplesmente de enfatizar sua igual necessidade.

xix. Se tu és do que carregas contigo uma espada, aceita teu Destino e Natureza. Branda-a alto e não te furtes. Retoma hoje na tua religião o Caminho da Espada, procura os teus iguais, lembra-te que esta classe tendia a ser mais ampla que a sacerdotal. Age. Os deuses da Guerra nos miram. Corramos pelos campos em formação e murmúrio, não temamos a visão do rubro assento onde se senta o Senhor da Guerra, com sua lança e corvídeos (ou abutres). Como cães correndo no campo, como lobos numa matilha pela floresta. Não esqueças que os guerreiros são algo aparentados por dentro, por mais que hajam germânicos e celtas, romanos e gregos, africanos e ameríndios, asiáticos e polinésios. As virtudes excelentes, os códigos de honra – não são brincadeiras, nem “interpretação de papéis”, são reais e podem ser uma vez mais vividos. Integralmente. Sem concessão, sem “RPGísmo” de raquíticos, sem chorumelas desvairadas.

xi. Agora, é necessário uma moção, um movimento, um passo firme. Não basta pensar, apreciar, admirar, é necessário viver.

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