Pensamentos sindicais

Não acompanho movimentações sindicais de dentro – poderia fazê-lo – mas prefiro me inteirar do possível por fora, e ao longo destes anos trabalhando como funcionário público (estadual e federal) algumas convicções se reforçaram em mim e diante do cenário que aparece no plano nacional, em especial dos professores estaduais, resolvi expor algumas delas achando que talvez seja útil para alguém.

Antes de mais nada, me parece que, nos últimos anos, em todas as greves que vi do setor, cá ou noutros estados, não houveram sucessos reais. Houveram aqueles “sucessos” de tapinhas nas costas entre os companheiros, aqueles tapinhas de sorriso insosso e frases de otimismo forçado pra esconder o que realmente se passou. Creio que boa parte dos desarcertos disto tudo sejam resultados diretos de três grandes fatores. O primeiro diz respeito a própria concepção de “sindicato” de professores. A segunda diz respeito ao erro de tática da luta sindical e o terceiro ao monopólio dos sindicatos por parte de certos partidos e tendências ideológicas. Vou tentar expor do modo mais econômico possível.

1.

O primeiro erro me parece ser o do pressuposto de que o esquema clássico da luta sindical pode ser transplantado, sem nenhum ajuste, para o serviço público. O esquema conceitual marxista da Luta de Classes, força a identificação do professor com um proletário e do governador com o patrão, considerando que a situação das empresas privadas é a mesma do serviço público. Isto não me parece que é assim, nem muito menos que funciona assim, mesmo após tanta doutrinação e pressupostos não revisados. O professor poderia, muito mais, como o médico e outros servidores, ser visto como um membro do Executivo, como o policial, ele é parte do Estado, representante deste em certa medida, executor direto de uma função constitucionalmente atribuída ao Poder Público. Me parece, a princípio, que ele não deveria ser visto como um “trabalhador terceirizado”, contratado para um serviço que não fosse final ou importante. Ele deveria ser visto como agente do poder público no campo da Educação, como parte do Estado, e uma parte “fixa”, ao contrário da contingência dos mandatos eleitorais.

Outro ponto importante me parece ser a incorporação de uma espécie de lógica liberal de “livre-concorrência” entre os sindicatos, permitindo que surjam milhares deles para a representação de um ofício, por sua vez, subordinadas as diversos sindicatos de sindicatos. Há uma recusa de unidade impressionante, camuflam o interesse monetário (sobre taxas de arrecadação) com a desculpa de que centralizar e unir a representação da classe é coisa “faxista”, etc.

2.

Os principais erros táticos dos sindicatos me parece que poderiam ser resumidos na seguinte assertiva: estão querendo ensinar a missa ao vigário. Os governos dos estados em boa parte, e em especial ao do País, é formado por ex-sindicalistas, pela gente que profissionalizou o sindicalismo no país. Utilizar as mesmas receitas é jogar com as cartas marcadas e contra quem deu o baralho. Seria necessário novas táticas, cujos movimentos não possam ser previstos e evitados pelos antagonistas, utilizar a imprevisibilidade, reforçar acordos sólidos de cooperação verdadeira e orgânica com os outros sindicados e representações dos demais funcionários públicos, etc. Neste quesito, em especial, repito cá uma indicação que fiz num áudio nos tempos do blog PBPagã ao comentar uma repressão policial a um movimento grevista de professores (que parece ter se repetido de forma ainda mais intensa no Sul do país): os políticos jogam a PM contra os professores, estimulam o excesso (seja pela ordem expressa de um lado, seja pela irresponsabilidade dos religiosos da “lutadeclasses”), a mídia cai em cima do excesso da PM e os que ordenaram tal, ou permitiram e são responsáveis, ficam incólumes, “salvos”; de repente todos esquecem que a PM está juramentada a cumprir ordens, que não age sem que haja, lá no fim da cadeia de comando, uma responsabilidade politicamente atribuída… A saída seria uma união, sedimentada com compromisso “sagrado”, entre os representantes de policiais e professores, entre os executores da força e da persuasão educativa. Esta aliança, entre “brâmanes” e “xatrias”, verdadeiramente, tremeria qualquer governo e seria um poder realmente capaz de algo. Permitir a estratégia de dividir pra conquistar e da ocultação das responsabilidades não dá certo, nem dará… Termina que, basicamente, a truculência vira boi de piranha e serve para resguardar os reais responsáveis – que ficam na penumbra – e para fortalecer o discurso divisionista e rancoroso dos setores da extrema-esquerda que controlam os sindicatos, o que nos leva ao terceiro problema.

3.

É complicado de haver real oposição e comprometimento com a classe quando os representantes via sindicato, no final das contas, quando o nó arroxa, são do mesmo time do governo; No final, estão todos do mesmo lado, seja por os primeiros ambicionarem cargos políticos no governo seja por compartilharem do mesmo conjunto ideológico, preferindo o atual governo ao “bichopapão” da oposição satânica. Começa a acontecer greves “meia-bocas”, greves que são puxadas pelas bases contra a implicância dos sindicalistas profissionais, quando não são autossabotadas pelo próprio sindicato – por um lado se cria um movimento, um algo, para aplacar os radicais e insatisfeitos, mas por outro lado já se assegura que a coisa não vai longe, que não se “mije fora do penico”. Mesmo que hajam brigas reais (por exemplo, os sindicalistas são trotskistas e o governo é da esquerda-progressista, como se estes setores brigassem… mas imaginemos), todos se tornam amiguinhos contra os malvadões da oposição. Eis a grande brecha, que permite que o governo, inclusive o federal, se aproveite dos confrontos e desacertos, especialmente quando cometidos em um estado onde governa a oposição… Rapidamente, surgem discursos inflamados, mas quando um governo aliado ou do próprio partido do governo, faz coisas semelhantes ou piores, se silencia ou se diminui os fatos e esse pessoal, que se julga exemplo, tão politizado e do bem, engole quieto, por que, no final, compartilham da mesma fé.

Por outro lado, se os sindicatos não fossem tão maciçamente controlados por ideologias da religião da “lutadeclasses” talvez houvesse uma maior possibilidade para pensar em táticas e estratégias inovadoras. A velha ladainha da “puliça-faxista” (que oculta a real responsabilidade de quem dá ordens a PM), o velho romantismo do confronto do “bem” x o “mal”, etc. Já há tempos que é instrumentalizada e mapeada por qualquer um que tiver o mínimo de disposição para analisar com seriedade as coisas. Por um lado, os velhos sindicalistas são sujeitos aburguesados (dentro dos próprios conceitos marxistas), acovardados ou conformistas, se não com as instituições, mas com os tais conceitos marxistas – tratando-os, na prática, como “sagrados”, como doutrina religiosa inquestionável, negando-se radicalmente a questioná-los criticamente ou a se quer pensarem se sua suposta eficácia realmente é eficaz. Por outro lado, os professores mais politizados que não se identificam com a extrema-esquerda e/ou este conjunto de crenças, ficam isolados, sem organização e perdidos, e terminam ou por converter-se, alimentando o “sistema” interno, ou por afastarem-se, evitando sua mudança. E nisto nada se resolve, os de sempre se beneficiam, e as engrenagens giram no eixo.

Tem gente neste meio que sabe disto tudo, mas por cegueira dogmática, ou psicopatia mesmo, insistem na Luta de Classe desejando ardentemente que um dia sua tão sonhada guerra civil estoure e ele possa ajudar (engraçado que os tipos que sonham com tais coisas, ao contrário de 30 anos atrás, são os mais burguesinhos, que se travestem de revolucionários como fetiche pessoal de autoconvencimento e adereço estético) a implantação messiânica do Reino dos Céus Comunista na Terra, este são desejosos que alguns inocentes percam a vida, que alguns companheiros sãos sejam realmente mortos, se necessário for. Mas não representam a totalidade, pelo que vi, dos sindicalistas, claro, há os que só querem a promoção política, os que só visam o lucro, não trabalhar (viver da representação), aproveitar-se da vida social e dos encontros, farrar, passear “de graça”, etc. – mas também há pessoas realmente crentes de que poderão melhorar a vida e as condições dos companheiros de ofício e é a estes que me direciono.

Tentando resumir, ao que me parece (e claro, sou um mortal comum, estou ciente de que provavelmente esteja errado), os sindicatos dos professores públicos precisam de uma faxina (precisam ser exorcizados de certa hegemonia partidária e ideológica), suas estratégias e táticas precisam ser atualizadas, reorientadas ou refundadas completamente (especialmente levando em conta sua ação conjunta com os demais agentes do Estado) e sua própria concepção-base precisa ser revista. É preciso ousar questionar o dogma da importação da Luta de Classes do serviço privado para o público, é necessário ver alternativas (como as visões corporativistas), é necessário admitir que esta via batida já não oferece real oportunidade de uma mudança significativa.

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Um comentário em “Pensamentos sindicais

  1. celticgael disse:

    Boas considerações. É um fato que há uma infestação séria de gente decadente em meio aos sindicatos, especialmente os que representam estas “faces oprimidas” da sociedade. Percebe-se que o próprio modelo do “sindicato” parece carregar demasiada carga ideológica, o que nos faz pensar se a coisa ainda é viável ou não. Mas o que está manifesto hoje em dia é que todos os agentes envolvidos nessas “tretas violentas” da sociedade – ou seja, não só os sindicatos.. – só fazem cultivar e propagar ainda mais a percepção de uma subdivisão entre classes…a situação é sinistra.

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