E eis que fui ler o Corão…

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Diante de opiniões tão inflamadas acerca do Islã, é fácil deixar-se ser guiado por simpatia ou antipatia a um certo “bloco”, com o qual, por n motivos, previamente nos identificamos. Afinal, seria toda a questão da “Islamofobia” uma simples construção yankee imperialista para instrumentalizar certa “direita”?

Bem, eu ganhei uma versão do Corão anos atrás em um evento e resolvi fazer o que mais prudente me pareceu para tirar minhas próprias conclusões: ler. Claro, tive certo treinamento, digamos, filológico e hermenêutico (em minha formação em Filosofia) e estou demasiado ciente da importância do idioma original, etc. especialmente em textos que são vistos como registros literais das revelações (diferentemente dos evangelhos cristãos, por exemplo). Mas, estudar o idioma árabe apenas para esta leitura não me pareceu necessário: nas partes em que desconfiei mais da tradução, recorri as ferramentas virtuais (abundantes!) em inglês, que comparam e comentam o árabe original. Bem, ainda não terminei a leitura (estou caminhando para a metade e, confesso, desestimulado), mas resolvi postar cá umas primeiras impressões e reflexões. E claro, é bom dizer em bom som: não sou um especialista em nada disto, tratarei o texto como alguém “de fora”.

Comparado aos textos do Cristianismo contidos na Bíblia cristã (“Novo Testamento” e as cartas de Paulo, etc.), o Corão tem me parecido mais, na falta de uma palavra melhor, “potente”: as revelações se deram a Maomé em diferentes momentos, mas mantém uma maior coerência interna (o que seria de se esperar, no final das contas, é um texto de “uma só cabeça”, diferente dos evangelhos). Talvez o que se possa comparar melhor, neste sentido (de um só autor “inspirado”), seja as próprias cartas de Paulo, mas estas, diferentemente das suratas do Corão (apesar destas também condensarem momentos teofânicos, digamos), foram escritas para comunidades cristãs diferentes e focadas em questões específicas daquelas comunidades. Além disto, há uma retórica mais inflamada e que transparece, de fato, um maior estado de “transe” ou influência mística na escrita de algumas das suratas, em oposição – novamente – a uma prosa mais “tranquila” que predomina nas cartas de Paulo ou na redação de alguns dos Evangelhos. Talvez, caso eu não esteja enganado, este tipo de “atmosfera” discursiva na Bíblia cristã, para comparação, aparece mais em um texto como as Revelações, por exemplo. Pelo menos foi a impressão que ficou em mim.

Ainda em termos de uma certa estilística, pelo pouco que conheço, o Corão traz certas repetições de frases específicas que – não procurei, nem terminei de ler o texto ainda – talvez formem um padrão: e isto seria um apontamento significativo para certa transmissão oral do texto, antes de uma versão escrita final. Mas não conheço absolutamente nada da formação histórica do texto e talvez seja uma divagação errônea.

Em termos de conteúdo, de doutrina, a leitura do Corão me deixou claro certas coisas até agora. Há sim, incontestavelmente, uma instigação a dominação e expansão guerreira, em termos que agradam qualquer um que tenha um mínimo de virilidade. Mas há, justamente, aquele radicalismo exclusivista ainda mais forte e uma instigação direta ao assassínio de infiéis. Eu como um infiel, não posso deixar de notar que estou na mira de muito do que é exposto ali. É um fato, não é conversa de “islamófobo”. Alguém dirá “ah… mas a Bíblia também tem”, bem, eu retrucaria dizendo: “ok, leia o Corão e depois a gente conversa”.

Particularmente, valorizo o aspecto guerreiro às claras, direto, sem subterfúgios, e não seria diferente do que tem nisto no Corão; no entanto, como caio na “carapuça” do inimigo traçado lá, até por ser o tipo de “idólatra irremediável”, é óbvio, que não tenho como não me sentir incomodado pelas ameças e promessas de destruição. E nisto preciso ser claro: não há um Corão dos sunitas e um outro diferente dos Xiitas, não adianta virem cá dizer que “ah… são os alauítas radicais”, ou “ah… são wahabitas financiados pelos yankees isso e aquilo” eu retrucaria, mais uma vez com “ok, leia o Corão e depois a gente conversa”. As passagens (que são muitas, na 2ª surata e 4ª, por exemplo, há as mais memoráveis para mim, até agora) são claras; contorcionismos interpretativos para torná-las “pacifistas” e “brandas” não passam de subterfúgio… Leiam, não acreditem em mim.

E aqui, me vem duas surpresas até agora: a primeira, é a instigação religiosa a migração (hijra) e conquista (de terras não islâmicas). Sim, isto existe e tem um peso de mandamento moral, tanto que, o sujeito que “se nega” a migrar (o sujeito que ama a própria terra e país), o próprio Alá o desaprova (4:95). O segundo é um certo tipo de comportamento de infiltração, fingido e subversivo que fica nas estrelinhas (talvez a afirmação mais literal seja em 3:28), a taqiyya. Para mim, isto foi uma certa surpresa: no meu pré-conceito inicial, não achava que tal coisa estivesse de fato no texto, mas que fosse fruto de comentaristas posteriores (e de fato, este conceito é massivamente desenvolvido nos comentaristas posteriores, xiitas e sunitas, apesar de mais nos primeiros). Confesso também que, a constante retórica anti judaica (a anti cristã tende a ser menos incisiva) me surpreendeu – novamente, antes de iniciar a leitura, partia do princípio que tal disposição fosse histórica e “posterior”, digamos, oriunda dos conflitos políticos locais.

Bem, aí entram minhas rapidíssimas e modestas reflexões. Nesta altura, não me parece lógico alguém que seja um idólatra irremediável celebrar “parceria”, qualquer que seja, com o muçulmano. Um politeísta que louva qualquer iniciativa que promove o Islã (seja xiita ou sunita) ou é um ignorante, e está sendo iludido, ou é alguém que, talvez não seja politeísta de fato, pelo menos não um tipo que deseje viver sua religião em liberdade. Outra coisa que não me parece lógico nesta altura, é gente que condena o comportamento de infiltração subversiva dos judeus, atribuindo-lhes toda sorte de desgraças e perigos, nas sociedades ocidentais não dar um só pio em relação a algo tão claro como perigo de subversão política e cultural da taqiyya (aliada a hijrah) entre os muçulmanos, que, virtualmente, torna qualquer um deles, não-confiáveis a priori (lembrando que o Corão autoriza claramente o muçulmano a mentir e trair os idólatras, vd. 9:3 a 5). Condenar um (suposto) e não outro (que é textualmente factível), ou é fruto da ignorância, novamente, ou de uma preferência velada pelo jugo mouro.

Infelizmente (pois, me pareceu decepcionante, de fato – além de que é uma espécie de “dar o braço a torcer” a pessoas que antes julguei exageradas), para mim já ficou claro, com o que li (tanto que, a preguiça já me diz que nem preciso ler mais, nem preciso terminar de ler o Corão, o que li já basta…) que, invariavelmente, não há “acordo” possível. Minhas pré-disposições oriundas de um otimismo místico guénoniano se foram de uma vez. Como cerrar fileiras com isto?! E vejam que não quero entrar nas questões históricas do que politeístas sofreram ou que estão a sofrer (hindus, politeístas indo-europeus, familiares religiosos nossos, por exemplo) neste momento.

Quando decidi postar isto cá, pensei por um bom tempo se, ao invés de uma postagem deste tipo eu não deveria simplesmente sair copiando e colando versículos de suratas que, no meu ver, falam por si. Claro que, sempre ficaria aquela conversa de “recortes” fora do contexto e de propaganda da “oposição”, etc. Já que estou terminando esta postagem advogando por um distanciamento. Mas desisti: não é preciso isto, antes é mais prudente pedir aos interessados que leiam e tirem suas próprias conclusões.

Se por um lado, temos divergências radicais com o cristãos, ao menos possuímos um histórico civilizacional comum, e podemos estabelecer certas zonas de diálogo ético, pela base helênica (e indo-europeia, gostem eles ou não) nesta matéria que compartilhamos. Mas com o muçulmano, por mais que admire sua disposição guerreira, partimos de um histórico civilizacional não apenas diverso, mas agonístico: olhando para a Reconquista na Ibéria, só consigo me ver batalhando do lado dos meus ancestrais cristianizados… E por mais que estes, olhem para mim hoje com reservas por ser um “idólatra”, entusiasta dos deuses dos nossos ancestrais ainda mais antigos, eu (EU) sinto que homenageio o esforço deles, minimamente, não me curvando em namoros com o Islã: não por pura “birra”, mas justamente, por entender melhor contra o quê eles lutaram, tombaram e venceram. Não se sacrificaram em vão. Pagar a jizya, no final das contas, é o que (eles, os muçulmanos) nos propõem, caso não nos convertamos ou sejamos mortos.

Talvez isto pareça decepcionantemente simplista e seja mais fácil me culpar de “desinformação” ou de ter sido cooptado, ou o que seja. Mas “pagar de pró-muçulmano” por ranço anti-yankee ou por desaforo anti-conservador, seja lá como for, é uma atitude adolescente e perigosamente ingênua. Se tu, leitor, achas que estou sendo precipitado ou preconceituoso (sendo instrumentalizado pelo complô liberal-conserva-xenófobo, ou seja lá como desejas chamar), ótimo – desde que isto te instigues a ler o Corão e tirar, tu mesmo, tuas conclusões.

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Casamento religioso LGBT?

Partindo de uma postagem para gerar debate – e gerou – na comunidade Fronte da Parahyba no Google+, acerca de uma suposta ameaça de “vandalização” do templo ásatruar que será construído na Islândia, pelo fato dos ásatruars islandeses reconhecerem religiosamente o casamento gay, enquanto outros politeístas germânicos (e numerosos, apesar da tentativa de minimização, diga-se de passagem) não reconhecerem e serem contrários ao reconhecimento. Como Ana bem notou, a notícia que serviu de base para despertar o debate, tem um quê de, digamos, factóide-liberalistóide, mas diferente do que aferi do foco do texto dela, creio que não se trate somente de “interferências políticas”, mas de uma oportunidade, justamente, para iniciar uma discussão anterior, uma discussão genuinamente religiosa.

Primeiro, é mister separar a discussão sobre a natureza do homossexualismo e desta conduta na sociedade, do casamento enquanto instituição religiosa. Não me interessa, nem creio que deva interessar (nisto concordo com Ana, perfeitamente) discutir as condutas íntimas de quem quer que seja; não me interessa discutir o primeiro elemento, mas apenas chamar atenção para a oportunidade de refletir sobre o casamento enquanto instituição religiosa dentro do pequeno escopo do Reconstrucionismo e Religiões étnicas (não englobo a Wicca nem certos setores do Neodruidismo dentro deste escopo, é bom deixar claro). Segundo é importante também destacar a existência de casamentos (me refiro a rito – religiosamente – lei civil é um troço posterior) em conformidade com a compreensão daquilo que os hindus chamam de ṙta e os romanos de ritus, com a “ordem cósmica”, digamos assim (ou aos partidários de uma compreensão aristotélica, chamemos de “Lei Natural”); outra coisa, diferente, é o casamento por contestação social, em especial à moral vista como hipócrita e retrógrada dos padrões aristocráticos de certas elites, em se tratando do Império Romano – é importante frisar tal diferença quando se fala da conduta de imperadores escandalosos (alguns claramente críticos de certos aspectos da religião tradicional de Roma, quando não ateizantes eles próprios) em contraposição aos ideias aristocráticos de familias tradicionais ou mesmo à vida comum da plebe em seus mais multifacetados aspectos. Tomar um exemplo de um como generalidade de outro me parece ser um non sequitur. É importante distinguir as coisas neste sentido para não incorrer neste raciocínio sofismático.

Quanto ao testemunho de Eusébio (no livro 6 do Praeparatio Evangelica), sobre os “jovens gauleses”, citado em um dos comentários na comunidade do Google+, o trecho em questão, repete um topos literário divulgado por outros escritores gregos acerca de mercenários gauleses em longas campanhas que demonstravam comportamentos homossexuais. O verbo que foi traduzido por “casar” aí (fui verificar o texto grego), não tem bem nenhum sentido religioso (ou seja, não é propriamente – em termos metafísicos, “casamento”) neste trecho; mas simplesmente denota “unir-se”, “amancebar-se”, inclusive até em tom galhofeiro e (não seria de estranhar) contestatório. Se tal prática fosse tão arraigada assim entre os Celtas, creio que teríamos bem mais – bem mais mesmo – testemunhos disto na literatura do alto medievo, pois duvido muito que os cristãos deixariam passar a oportunidade de “descer a lenha” em tal comportamento. Ou seja, tal trecho, na melhor das hipóteses, ao que parece, descreve um comportamento socialmente aceito dentro de opções da vida juvenil, não me parece ser prova nenhuma de que druidas celebravam (religiosamente) casamentos homossexuais.

E isto nos leva ao essencial: a celebração do casamento. Casamento não é Amor (seja erótico ou do tipo “philia” – como Platão bem sabia), na verdade, como toda e qualquer sociedade antiga que preconizava casamentos arranjados sabia, é possível até que haja casamento sem amor. Isto sim, de casamento sem amor, é algo que os cristãos não aceitam de jeito algum (na verdade, os cristãos dirão que o primeiro passo para qualquer casamento ser válido, é exisitir amor!). É crucial ver isto em tempos como os nossos, tão inebriados num modelo de casamento “burguês” (sim, pois ascendeu junto com a burguesia): o casal isolado, distanciado do clã, da família mais ampla, de poucos ou nenhum filho (o casal ideal, sem raízes, como idealizado por Rousseau no “Emílio”). Para o mundo antigo (e é por isto que muita gente não entende bem os casamentos arranjados) se trata, antes de qualquer coisa, da união de duas famílias em prol da estirpe, uma união espiritual entre duas cadeias de Ancestrais. Casar para viver feliz (egoísticamente libertos de quaisquer laços clânicos ou comunitários), compartilhar uma vida estéria (sem o prolongamento – muitas vezes visto como dever sagrado, religioso, no mundo Antigo – da espécie, sem filho concebido pela união das almas e dos corpos), imersa em consumo e num cuidado patológico com “pets”, ao que me parece, não seria lá bem visto, e isto, é bom frisar, inclusive se tratando de pessoas de sexos opostos. Daí que não se deve misturar Eros – inclusive em sua dimensão transcendental – com “casamento”, são coisas diferentes como qualquer pessoa intui; pelo menos me parece óbvio, que transar com alguém é diferente de casar com alguém. Promover esta confusão não ajuda. Na verdade piora, pois maliciosamente tem gente que confunde; não se trata do comportamento homossexual (a transa), mas do casamento enquanto instituição metafísica, em sua dimensão religiosa e toda sua relação aos antepassados e a família dos noivos (e sua sansão comunitária). Do mesmo modo que não se trata de uma questão de axiologia, puramente, social – não é uma questão de aretē, seria se estivéssemos tratando do comportamento, da ação pessoal; realmente, dentro de um prisma aristotélico, tal comportamento, a priori, não impede o desenvolvimento de virtudes – apesar de historicamente, diversos povos associaram tal comportamento (a conduta homossexual) a falta de virilidade, de ombridade e frontalidade no enfrentamento de problemas ou ameças. Não creio que seja assim absolutamente, mas não posso negar que historicamente, diversos povos, em diversos momentos históricos, e não apenas cristãos ou islâmicos ou judeus, fizeram tais associações ou associações similares. Negar isto é utilizar um filtro ideológico escancarado.

Daí que se deve perguntar: cadê os exemplos concretos do casamento religioso (que não sejam “excentricidades” de imperadores claramente antagonistas ao mos patricius ou mos maiorum tradicional)? E no caso concreto dos germânicos (afinal, o post parte disto), de conhecido viés, digamos (na falta de um termo melhor) “machista”, onde estão os exemplos de casamentos “oficiais”, religiosos de pessoas do mesmo sexo?

Uma união não religiosa (civil) não é o que está em causa aqui, vale lembrar. Um tradicionalista/religioso poderia, coerentemente, defender o reconhecimento da união civil e a partilha de bens entre pessoas do mesmo sexo, mas, na falta de fundamento tradicional (ou no indício de fundamentos contrários) não apoiar o casamento religioso, o casamento enquanto união de estirpes (entendido religiosamente). Ele reconheceria que o que a legislação hoje aponta é uma legitimação, no âmbito civil e laico, de uniões que, mais ou menos (às claras ou às escondidas) sempre existiram. Mas, reconhecê-las como “casamentos” (no sentido, digamos, “tribal”, religioso) é outra coisa.

Não se trata de confusão política, mas justamente de uma reflexão objetiva que permita não ser instrumentalizado ou alocado a um bloco com o qual não temos nada a ver. É preciso ver, enxergar claramente, quando possível, como se olhássemos as águas de um val que se sujam após as passadas pesadas e rápidas, mas que se limpam após algum tempo; os pilares fundacionais da compreensão do casamento e sendo eles de origem divina, atemporais, seriam válidos pra hoje também, mesmo que isto desagradasse X ou Y. Adequar ao discurso da ultra-modernidade só para ficar do lado dos “do-bem-descolados-salvadores-do-mundo”, só por pseudo-angelicalismo é contra-produtivo, assim como ficar contra só para posar de “malvadão-conservador-purista”.

Digamos que em relação ao requerimento de coerência com o passado, se tome 3 caminhos:

  1. Não temos evidências de casamentos (religiosos) entre pessoas do mesmo sexo e temos evidências de mentalidade “homofóbica” dentro desta cultura povo;
  2. Temos evidências inequívocas ou comprovações sim de casamentos deste tipo, olha aqui (e aí se lista as mesmas)
  3. Não temos evidências de casamentos religiosos/oficiais e temos evidências deste tipo de comportamento com alguma sansão social.

No caso de 1, ou o sujeito deixaria claro que – RELIGIOSAMENTE – tal procedimento não deverá ocorrer (como não ocorria no passado), ficando a seu encargo a defesa ou não no âmbito civil; ou dizer que, APESAR disto não ocorrer no passado, agora pode ocorrer – aí terá de construir uma justificação (que pode ser boa ou não) e claro, terá que compreender que os que discordarem, por coerência ou purismo (ou “radicalismo”, no sentido de se apegarem as raízes, “radices”), estarão no seu direito, apesar dos pesares. É importante frisar que a prerrogativa de que “não ocorria mas deve ocorrer hoje” caberá, logicamente, para muitas outras coisas também – incluindo misturas de práticas alógenas, etc. Na verdade, “se não havia antes mas pode haver agora” abre brecha para quase qualquer coisa. É importante que os que fazem tal opção tenham consciência do que ela acarreta muita coisa ou de antemão já construam argumentos que os eximam de incluir/reconhecer outras práticas além do caso discutido.

No caso de 2, uma vez atestado que seja uma prática instituída de forma geral (e não apenas para pequenos setores especiais ou em contextos excepcionais de uma sociedade), não há muito a se discutir – como ocorrera no passado, ocorra hoje (é interessante notar que tem gente que usa este argumento para casos assim, mas não para o caso de sacrifícios animais, por exemplo, muitas vezes demonstrando claramente sua preferência ideológica no 1 peso 2 medidas: o caso do sacrifício animal, ou da tortura de prisioneiros, ocorria no passado – dentro da sansão e mesmo prescrição religiosa – mas não deve ocorrer agora; mas já coisa X deve ocorrer agora, porque ocorria no passado…). No caso de 2, tudo fica fácil, opor-se, seria incorrer num comportamento “estranho”, que seria melhor explicado por cripto-cristianismo ou outra interferência “exterior” (do conservadorismo político, por exemplo).

No caso de 3 a coisa fica mais complicada, pois como dizia alguém (que não me recordo) “falta de evidência não é evidência da falta”, apesar de que, ao menos dentro de metodologias reconstrucionistas, prudência (e certa observância da Navalha de Occam) é regra e por isto ser algo suspeito assumir certas coisas sem que haja, no mínimo, um escopo mais amplo (em termos de imaginário e visão de mundo) que justifique. Nestes casos, justamente, é onde a reflexão mais se faz necessária e o clareamento da visão é mais requerido. Por um lado, talvez caiba tanto uma certa reserva no tocante ao casamento religioso (mais ou menos como 1), como uma atitude de absorção do mundo civil/laico (para um tradicionalista isto seria coerente se já houvessem outros exemplos de tais absorções no passado ou se algo, nos mitos e literatura sagrada, assim indicasse que tais absorções ocorrem ou devem ocorrer).

Ousaria dizer que, pelo que conheço do mundo religioso Indo-Europeu ocidental, os germânicos e balto-eslavos estejam mais para 1, e todo o restante (celtas, trácios, gregos, etc.) para 3 – eu sei dos casos romanos e supostamente gregos (estes povos são referidos, constantemente, sem os devidos recortes de estratificação social, período histórico ou região/cidade; levando a generalizações inadequadas), que talvez fizessem enquadrá-los em 2, mas justamente por causa dos muitos “poréns” (no geral, pela excepcionalidade – mesmo que lê um Satyricon da vida percebe que não se trata de algo do “povão”), creio que seja um procedimento questionável. E diria até mais – talvez coubesse 2, mais para o mundo romano do Baixo Império, onde – não sou eu quem fala – a influência “oriental” e egípcia se fez mais forte. Novamente, friso que se trata de “casamento”, religiosamente, oficialmente.

O real problema, é a polarização política tosca de nossa época. Por um lado, é importante frisar que no Mundo Antigo, e em especial fora do eixo greco-romano, Política e Religião estiveram misturadas e o eixo perene das tradições é orientado no sentido da Religião iluminar a Política (e ao contrário do que gente má-informada sustenta, Evola justamente insistiu na volta a esta orientação; pessoas como Faye e outros é que por vezes creem – criticando os “metafísicos” – que a Política pode ser um instrumento de afirmação religiosa, por vezes advogando que a separação entre as coisas – Política e Religião – é obra do Cristianismo e da Modernidade) e não o contrário. Se por um lado é verdade que não havia no passado uma separação muito clara em Religião e Política (se é que havia separação), por outro lado é igualmente válido que não há um trabalho de reflexão sistemática e profunda entre os politeístas contemporâneos (especialmente entre os tradicionalistas e reconstrucionistas como um todo) dos limites e influência consciente do laicismo moderno. A lógica do “e” ao invés da lógica do “ou exclusivo” (Alain de Benoist) é um bom início, mas não há muita literatura sobre o tema. E isto, nos leva ao velho modus operandi de “babação de ovo” dos norte-americanos, do provincianismo intelectual que se repete quase que reação mecânica, automática. Ou seja, se por um lado, dentro de uma perspectiva laicista, seria ideal “não misturar as coisas”, por outro lado é uma tarefa difícil (mesmo para esta perspectiva laicista) quando as coisas estavam misturadas no passado e mesmo hoje permanecem de alguma forma – pois, em se tratando de casamento religioso, litúrgico, especificamente, não estamos mais no plano da “política” (neste está o casamento civil!) e a discussão não será sobre “política”, ou pelo menos não deveria. A discussão será sobre metafísica (como o casamento era – ortopraxia – como era compreendido, como é e deveria/poderia ser – ortodoxia e heterodoxia), politeologia, mitologia, etc. É esta discussão “teológica”, com profundidade (acadêmica), calma, e sobretudo honestidade, para além dos “ânimos exaltados” (doa a quem doer) que tem de ser iniciada em cada religião, e não apenas “importada” de olhos fechados dos EUA.

Comecei o texto frisando que o foco nisto tudo deveria estar na compreensão (ou decifração) da ordem cósmica em si e termino repetindo isto. Não se trata de uma discussão somente sobre os Deuses e as histórias sobre Eles que nos foram passadas, mas justamente sobre o que está além, acima, mas que projeta um reflexo nestas histórias. Também não se trata de uma discussão ética, no sentido da “ação pessoal”. Se trata, antes de mais nada, de uma discussão religiosa ampla, sobre o funcionamento metafísico do mundo (quem quiser, leia aqui “Natureza”) e de como as instituições (físicas e espirituais) dos humanos refletiam, se refletem, ou deveriam refletir (ou mesmo se não devem refletir, o porquê) este funcionamento. Se trata da reflexão sobre o que é o casamento religioso (dentro de cada tradição) e sobre as possibilidades acerca deste.

É uma discussão difícil, muito, pois pode se referir a alturas sublimes, que beiram o místico e apofático, pela própria natureza sagrada do que se acerca. É bom lembrar aos religiosos, que por mais que se busque uma abordagem cética e filosófica, o que a distinguirá de uma abordagem “externa”, será a opção existencial consciente, a crença, a fé numa visão de mundo, num centro de valores atemporal e vitalista. Crer na firmeza transcendente de nossos pilares metafísicos, pular por sobre o abismo niilista, transpassá-lo; e isto significa crer – de verdade, e não apenas como referência estética, ou adereço exótico – na sacralidade dos bosques antigos. Por vezes, penso que os Deuses imortais devem se divertir com como fazemos “tempestades em copos d’água”, e pouco se importam para certas querelas humanas; mas tenho pra mim, que pelo menos uma parcela Deles, valorizam aqueles de nós que com afinco, tenacidade e excelência, permanecem teimosamente firmes, com uma face orgulhosa, religiosamente amparados pelas sombras de seus Ancestrais; não distraídos pelo sabor dos ventos momentâneos, mas focados em ajudá-Los, mesmo que seja com nosso diminuto contributo, na difícil manutenção da ordem cósmica, na Grande Guerra. É uma opção humana engajar-se, digo mais: é uma opção radical.

O segundo maior erro da Nouvelle Droite – Guillaume Faye (15/12/2013)

Originalmente publicado no finado PB Pagã em 15-12-2013

Abaixo segue um pequeno trecho onde o filósofo e polemista (pagão, atualmente ligado ao movimento Terre et Peuple) francês Guillaume Faye fala sobre os erros do movimento político e cultural Nouvelle Droite do qual o próprio fez (e de certa forma, ainda faz) parte, no seu livro L’Archéofuturisme. Estou relendo este livro (pois é, estou dando-me o luxo de reler umas coisas) e achei por bem postar cá esta passagem. Farei uns pequenos comentários, que em nenhum momento visam esgotá-lo, pois, após o texto que serão marcados por números.

[N.T. o autor inicia a apresentação do que considera serem os maiores erros da Nouvelle Droite ao longo dos anos] (…) Segunda erro maior: a instrumentalização e a politização do paganismo. A partir de uma contestação justa, do tipo nietzscheana – a nocividade igualitária, homogenizante e etnomasoquísta do evangelismo cristão – a ND [N.T.: para “Nouvelle Droite”, doravante] construiu um corpus neopagão portador de muitos handicaps. Paradoxalmente, este neopaganismo partia de um ponto de vista cristão inconsciente: opor a um dogma uma contra-doutrina. “O” paganismo não existe; há “uns” paganismos potencialmente inumeráveis[1]. A Nouvelle Droite se apresentou implicitamente como uma “Igreja Pagã”, mas sem divindade. A natureza mesma do conceito pagão proíbe tomá-lo como bandeira metapolítica, como é possível de se fazer nas religiões judia, cristã e muçulmana.[2]

Segundo handicap: um anticatolicismo virulento (a indiferença haveria funcionado melhor), flertando umas vezes com o anticlericalismo, com uma simpatia aberta pelo Islã, atitude perigosa nestes tempos de ameaça islâmica objetiva contra a Europa e posição ideologicamente absurda, porque o Islã é um monoteísmo teocrático, rígido, uma pura “religião do deserto”, maior que o henoteísmo católico clássico, fortemente imerso no politeísmo pagão[3]. Além de que, a essência da visão pagã não é definir-se “contra”, mas “após” ou “junto a”, o que parece muito mais criador e inovador. Eu também pratiquei esta atitute errônea que, desgraçadamente, a ND nunca se corrigiu.

Terceiro handicap (que desenvolveremos um pouco mais para frente): este paganismo estava e parece sempre flanqueado por um folklorismo sem bases reais na cultura concreta dos Europeus (ao inverso dos Estados Unidos!), frente ao qual sempre enfrentei.[4]

Resultado: um público potencial que nunca se cercou da ND, outro que sumiu.[5] Por quê? Porque muita gente não entendeu o porquê desta sobrevalorização pública do paganismo, este privilégio ideológico que lhe estava concedido, que primava sobre outras questões muito mais importantes, de ordem concreta e política, como o é, por exemplo, a destruição da etno-esfera européia ou o masoquismo antinatalista dos governos. Outra consequência: a valorização do paganismo como imagem de marca pública tinha, sobretudo na França, um efeito midiático repulsivo. Dizer-se pagão publicamente é assimilável a “militar numa seita”, tal como me disse um dia um grande atriz francesa, próxima das ideias da ND, mas reticente, como muitos, a mistura de ideologia política com a temática para-religiosa. Podemos deplorá-lo, mas é assim: há regras de propaganda ineludíveis.[6]

E quanto aos ataques contra a Igreja católica, seria melhor dirigi-las ao quasitrotskismo, o imigracionismo e a auto-etnofobia do alto clero, adepto do retorno às fontes monoteístas evangélicas puras e duras, as do “bolchevismo da Antiguidade” [N.T.: expressão utilizada por Alain de Benoist para descrever o Cristianismo, sobretudo o dos primeiros séculos]. Alto, clero masoquista e imbecil, que alimenta oficialmente a criação de mesquitas em solo europeu![7]

Há dois livros que me marcaram para sempre: o Anticristo de Nietzsche e Os deuses da Grécia de Walter Otto. Assim como o “juramento de Delfos” iniciado por Pierre Vial no início dos anos oitenta. Ali, no santuário de Apolo, quando o Sol desponta, os herdeiros da Grécia e da Borgonha, da Toscana e da Baviera, da Bretanha e de Valônia, de Flandres e da Catalunha juraram preservar a alma pagã. Muito bem. Mas todos estes atos pagãos devem realizar-se na parte interna da ação.

A alma pagã é uma força interior que se expressa com toda uma expressão ideológica e cultural. É semelhante ao coração de uma central nuclear. Não tem que aparecer explicitamente sob a forma de bordões instrumentalizados. Não se deve dizer “sou pagão”. Se deve sê-lo.

Mais prosaicamente, creio que a insistência sobre o tema do paganismo como bandeira para-política criou uma confusão mental entre o público natural da Nouvelle Droite: como se desviasse a atenção sobre outras questões secundárias. E mais, esta insistência criou um conflito com os “católicos tradicionalistas”, realmente menos cristãos que os curas esquerdistas…[8]

A instrumentalização do paganismo foi um tremendo erro de comunicação e de propaganada. A ND privou-se de uns meios católicos favoráveis a suas ideias, mas efetivamente ligados a suas tradições de campanário. Grande torpeza cometida desde os seus inícios. Outra das coisas que devem ser corrigidas.[9]

[1] OK, mas isto não impede que se refira a delimitação religiosa-cultural específica, como a dos Indo-Europeus, que, apesar das diferenças, trazem em si um conjunto de práticas de origem comum, sendo todas “religiões irmãs”, muito mais inteligíveis entre si do que entre qualquer outras extra-indoeuropéias. No entanto, o ponto que o Faye aponta, ao que parece, é a falta de “precisão” – que paganismo? A religio romana, o hellenismos, ásatrú? Faltou “concretude”, ao que parece.

[2] Em se tratando das grandes religiões tradicionais indo-européias, faz sentido. Mas certos cultos específicos, pagãos, alcançaram patamares aparentados à via metapolítica, como o Pitagorismo, o Mitraísmo e mesmo o culto Odinista, em alguns casos “fechado” entre a elite guerreira, da Era Viking.

[3] Por mais que concorde com o essencial – de que o negativismo do “anti-” (-cristianismo, -catolicismo, -protestantismo, -islamismo, etc.) não é essencial, nem característico ao paganismo e que é um erro de juventude comum – creio que é um erro compreensível, e talvez, em alguns poucos casos, até necessário, dado o peso ainda hegemônico do Cristianismo e a necessidade de descristianizar-se radicalmente (no sentido de “até a raiz”).

[4] Isto não está bem claro, mas talvez seja traduzido por “academicismo” e demasiado “elitismo” (no sentido de estar circunscrito a um grupo fechado e pequeníssimo de pessoas), impossibilitando o crescimento orgânico e o enraizamento real na produção cultural (seja nas subculturas juvenis, arte pop, etc.) e/ou a repaganização do folclorismo ainda vivo. Eis a importância de um paganismo que possibilite fundir-se com o regionalismo identitário e cultural, restaurando a integralidade de mundivisão desde cima.

[5] A preocupação com a eficácia da “propaganda” da ND, em vistas de suas aspirações políticas e culturais, sobretudo as políticas – um dos grandes motivos para os apontamentos do sr. Faye, como fica claro no texto – é quase inexistente dentro de uma ótica não-proselitista (como é a pagã). Se o grande erro da ND foi de marketing, então isto não foi lá um grande erro, pelo menos não sob a perspectiva estritamente religiosa. No entanto, há algo de mais profundo nesta questão – e que já tocamos cá – trata-se da expansão, do crescimento (não só qualitativo, mas também quantitativo) do paganismo, de sua expansão religiosa. Como se dará? Como resolver e elaborar atratividades não posélitas? Como não fazer proselitismo? É uma questão aberta e que vez ou outra aparece, por exemplo, na blogosfera pagã anglófona (majoritariamente comprometida com o politicamente correto e com os valores liberais norte-americanos). Podemos cuidar apenas da qualidade e esperar que esta, por si só e com o passar dos anos, reluza e frutifique, traduzindo os frutos e a luz, digamos, em uma expansão numérica, tímida e constante. O grande risco é termos tal cuidado interrompido violentamente por algum interesse religioso totalitário, risco real cá (sim, me refiro a “evanjas”) e na Europa (onde a expansão islâmica já dá sinais bem claros); uma maneira de evitar tal risco é, justamente, tendo um número mais significativo (o que por sua vez, supõe-se, permitirá mais disposição para o combate), e aqui novamente se cai na questão da expansão qualitativa aliada/conjunta a uma forma de expansão quantitativa.

[6] Isto não me parece um empecilho de todo, essencial e perene, antes, um empecilho contingente, fruto, justamente, da hegemonia cristã-esquerdizante (de uma elite majoritária ateizante de um lado, que se ri do paganismo como uma espécie de “ridícula extravagância plebéia de fantasias New Age”, e de uma pequeno resquício de elite beata, que por definição, está interessada em combater tal “perigo” assegurando sua “posição” e suposta legitimidade). Reconhecer que ela existe é uma coisa, não combatê-la é outra. OK, sob a perspectiva do combate (a “propaganda” serve a este propósito, pois), nem toda estratégia é boa, além de que há táticas que podem gerar recuos, ao invés de avanços. Se for neste sentido que o sr. Faye fala, então o fala razoavelmente. Se for por “derrotismo” ou crença na imutabilidade da opinião médio-burguesa ou das elites que “fabricam” a opinião pública, então não me parece falar razoavelmente.

[7] No nosso contexto, o apontamento é útil para levar a percepção de que uma coisa é Catolicismo Popular, repositório repleto de substratos pagãos e braço próximo e “familiar” para nós, outra coisa é o Catolicismo do Alto Clero. Interessante é notar que o Catolicismo do Alto Clero, justamente, flerta com as demandas da Teologia da Libertação e fez o Concílio do Vaticano II, é o clero “progressista”, mais aceito e elogiado pela intelligentsia de esquerda/humanista (talvez, por estes descenderem daqueles). Por outro lado, esperar dos Católicos Tradicionalistas, que tendem a valorizar um pouco mais as tradições populares (ou seja, as heranças pagãs), que demonstrem filopaganismo é demais. Por mais que muitos deles saibam que são devedores de pagãos como Platão e Aristóteles, acreditam no próprio discurso de que sua teologia é uma superação (para nós não é) e que o paganismo deve ser combatido, no final das contas, por mais que se tenha de tolerar os “desvios” das pessoas comuns. Só um católico tradicionalista e perenialista (no sentido schuoniano, não no sentido tomista) pode tolerar pagãos de modo mais tranquilo. E caso os católicos perenialistas ficassem mais comuns, os tradicionalistas seriam os primeiros (bem antes dos progressistas) a denunciá-los como heréticos… Logo, focar as críticas no Alto Clero, por mais que “agrade”, eventualmente, setores mais tradicionalistas do Catolicismo, não tornará o paganismo mais aceito por estes; pode, talvez, fazer com que um ou outro sujeito se torne herético ou se converta a alguma fé pagã, mas creio que é algo muito difícil.

[8] O que falei no ponto [7] basicamente cabe aqui. Fazer as coisas buscando “agradar” o beatame, passar-se por “bom moço” e “cordeirinho manso”, é esperar demais. Não precisamos, absolutamente, da aprovação dos cultores do judeu morto. Se se trata de utilizar táticas que preservem de modo mais confortável alianças temporárias, vá lá. Se se trata apenas do medinho de desagradar, paciência…

[9] A instrumentalização do paganismo (se de fato foi isso, e não a tentativa de produção de linhas políticas e culturais pagãs, como as outras religiões fazem, produzem linhas políticas e culturais religiosas) é um erro em si, não um erro apenas por que diminuiu o potencial de marketing ante as audiências cristãs. Mesmo que tal instrumentalização houvesse surtido efeitos positivos, ainda sim, seria um erro. O Guerreiro pode até elevar-se ao Sacerdote. Mas sua usurpação definitiva é um sacrilégio em sentido estrito, o qual a História testemunha só resultados nefastos.

Alguns informes e anotações

Faz tempo que não venho cá no blog por uma série de motivos que não cabem compartilhar cá, mas vim hoje atualizar alguns informes e compartilhar uns pensamentos. Recentemente tive a oportunidade de participar de dois eventos podendo proferir falas nos mesmos e algo me chamou atenção em ambos. Já digo o que foi, deixa-me registrar umas notas – sob a forma de meros tópicos, mais ou menos como foram esboçadas – das falas caso interesse a alguém.

Primeira fala: “Celtismo, Escatologia e Mundivisão contemporânea” no dia 20/04/2014 durante o V EBDRC em Recife, PE.

Introdução e apresentação.

Definições expostas:

1. Celtismo (englobando os diversos movimentos druídicos e reconstrucionistas célticos)

2. Escatologia (desde a apresentação etimológica grega e os primeiros usos aos usos teológicos e filosóficos)

3. Tradicionalismo Indo-Europeu (diferenças e semelhanças para com o conceito de Tradição dos perenialistas – Guénon, Schuon, Coomaraswamy – e diferenciação evoliana [“tradição hiperbóreo-mediterrânica” como apresentado no Imperialismo Pagão], abordagem que aponta para a complementariedade entre a aproximação linguístico-antropológica [acadêmica] e a místico-metafísica [religiosa])

4. Mundivisão Moderna e suas características (Modernismo filosófico, antecedentes e principais formuladores – Descartes, Locke, Hume, Iluministas, Kant, etc – principais diferenças em relação à mundivisão antiga/tribalista)

Por qual motivo se deve falar em Escatologia?

1. integralidade metafísica e necessidade filosófica (cuja existência é justificável dada as atribuições clássicas dos druidas) para evitar anacronismos e incoerências (uma vez que a honestidade e busca pela excelência são valores sagrados)

2. propiciação de um terreno de vanguarda metafísica que ajude na formulação de conceitos e na reflexão que dialogue com a percepção religiosa dos ciclos do tempo

Problemas.

1. livrar-se de prejuízos cristãos descabidos, assim como de posturas cripto-cristãs

2. eficiência limitada da mitologia comparada (e da abordagem acadêmica)

3. dubitabilidade da inspiração pessoal (e da abordagem místico-esotérica)

Percepção escatológica dos Celtas.

1. evidências na literatura greco-romana (Estrabão, etc.) e no corpus arqueológico (Iconografia e simbolismo religioso, etc.)

2. evidências na literatura medieval hiberno-britônica (Fáistine leis a Morrígu, Ystoria Taliesin e diversas passagens na poesia atribuída a Taliesin e Myrddin), hermenêutica e exegese

3. evidências em práticas folclóricas e concepções populares dos povos célticos e que foram célticos (e o trabalho complexo de separação do substrato céltico/indo-europeu das noções escatológicas semitas)

4. Idades (*ay[s]ta), ciclos e o combate (emanação da oposição primordial entre Água x Fogo?) pela ordenação cósmica (*belyos bitows), desestruturação (“despencamento do céu, abertura da terra e elevação dos mares”) e reorganização (imperecibilidade do “grande mundo”)

5. sacralidade temporal, involução, Outromundo, moralidade e escatologia (desestruturação social [incluindo a familiar], juramentos e o “fim dos tempos”), etc.

Consequências para o Celtismo contemporâneo.

*pressuposto: não ao provincianismo e amadorismo religioso!

1. enriquecimento filosófico das metafísicas (seja no Druidismo Romântico/Meso-druidismo, Neo-druidismo ou nos Reconstrucionismos Célticos)

2. exposição de problemas ou incompatibilidades com desenvolvimentos do pensamento moderno/ultra-moderno (que se diz “pós-moderno”) e seus desdobramentos político-sociais (como a crença no progressismo/evolucionismo social)

3. assim como exposição dos pressupostos científicos oriundos de uma visão linear-cristã laicizada na Modernidade

4. fundamentação metafísica do vaticínio e das “visagens” (e das “viagens xamânicas”)

5. possibilidade da retomada de tentativas de compreender os desdobramentos sociais/geopolíticos sob um prisma religioso (com isto, contribuindo para o “re-encantamento do Mundo” e para a superação efetiva do positivismo/materialismo moderno)

6. outras possibilidades

Finalização e abertura para questionamentos.

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Segunda fala: “Ascese e tripartição entre os Celtas” no dia 25/04/2014, durante o III Encontro Parahybano de Estudos Tradicionais em João Pessoa, PB.

Apresentação e introdução geral.

Definições:

1. askēsis, dos primórdios gregos (e da eventual relação com as correntes de mistério do mundo helênico) ao vocabulário teológico cristão – justificação do uso do termo para as visões religiosas dos celtas

2. tradição Indo-europeia

3. Celtas e religião céltica

Pressupostos:

1. acerca dos mitos (“vestimentas” de princípios perenes) e das fontes (combinação das fontes acadêmicas – arqueológicas-liguísticas-antropológicas – e da exegese/hermenêutica literária)

2. origem do ser-humano (*gdonyos) – criação a partir dos elementos do mundo e/ou descendência divina (rápida exposição sobre a necessidade de justificação genealógica da nobreza como descendente de certas divindades, exemplos do reclame de descendência divina na literatura medieval e greco-romana), a questão da involução

3. tripartição e trifuncionalidade: naturezas humanas, estratificação social e demandas religiosas

4. Pós-morte: destinos e compreensões básicas

Ascese e heroificação

1. a questão da heroificação e suas diferenças para a deificação (theōsis)

2. a via para os intelectuais/sacerdotes: serviço dos deuses, instauração/legislação/reforma sócio-política, elaboração/“revelação” cultural-metafísica-poética-contemplativa

3. a via dos guerreiros: heroificação pelo valor pessoal, pela defesa da *towtā/país, pela defesa da cultura-religião

4. a via dos produtores: pelas obras deixadas, pela habilidade pessoal e pelo serviço geral

5. moralidade e ascese, exercício das virtudes e a questão da radicalidade (exemplos citados pelos comentadores greco-romanos e pela literatura medieval hiberno-britônica)

Questões gerais.

1. uma questão antiga: Destino x Liberdade (seriam os rasgos de voluntarismo heróico e mudança do destino pessoal um dote de poucos, dado a suas origens excepcionais – divinas?)

2. necessidade/determinismo x voluntarismo nas outras concepções Indo-Européias em suas relações com o propósito da existência humana (dharma, wyrd/ørlǫg, moira, fatum, kismet, as determinações de Laima para os Lituanos, etc.)

3. a “companhia dos deuses” no Outromundo, banquetes, ilhas e as continuidades funcionais

4. sensibilidade à ascese religiosa nos estratos sociais e seu papel no culto público, familiar e nos ritos pessoais

Reflexões

1. as possibilidades dos caminhos de ascese no celtismo contemporâneo – lacunas e problemas e a necessidade de fundamentação metafísica e integralidade doutrinária para os grupos

2. Orfismo, Pitagorismo, a questão das correntes iniciáticas e a “volta ao divino” (unio mystica?) – porta de entrada para o Neo-platonismo e a mística tardo-helênica

3. possíveis consequências culturais, políticas e sociais

Encerramento e abertura para questões.

~

Voltei. Bem, o que me chamou atenção foi algo simples. Em ambos os eventos fiquei surpreso com a quantidade menor de pessoas em relação ao que havia pressuposto que participasse. No caso do Encontro Parahybano de Estudos Tradicionais, a surpresa foi maior ainda – realmente uma pena que nomes altamente qualificados como Agassiz e Vinícius tiveram tão pouco público falando sobre assuntos cruciais para qualquer um com o mínimo de interesse na área (sem contar que o debate e perguntas foram do mais alto nível). Fica a prova de que “curtidas no Facebook” não dizem absolutamente nada sobre a presença das pessoas nos eventos (já havíamos notado isto, no caso de eventos religiosos do Castro). Parece que, cada vez mais, fica difícil organizar qualquer coisa efetivamente fora do mundo virtual – este mundo virtual que, apesar da grandiloquente aparência libertadora, nestas horas parece um aprisionador gigante das almas, usando grilhões de preguiça e futilidade. Uma pena, realmente.

Livros, novidades e projetos

Saudações.

Faz tempo que não venho cá. Estou numa agradável e terrivelmente desafiante batalha do cotidiano que me afasta do mundo virtual ainda mais. Bem, recentemente também sofri um pequeno acidente (que me custou uma fratura) e ainda estou me recuperando. A parte boa é que tive tempo de atualizar umas leituras e venho cá compartilhar umas palavras sobre as mesmas.

Há umas coisas para adiantar – meu camarada Dídimo Matos que o diga – tendo em vista o encontro que organizaremos em Setembro. Pois sim, há um atraso considerável de minha parte – mas me vejo justificado pelas circunstâncias combativas atuais. Em todo caso, estamos planejando uma mesa-redonda aberta (e direcionada especialmente ao público universitário) para tratar de temas de Política, Dissidência e outros em breve e virei compartilhar cá. Mas vamos aos textos.

Alain de Benoist. Comment peut-on être païen/On Being Pagan.

Um dos melhores textos de Filosofia que li na minha vida. Um texto profundo, erudito, impactante. Não apenas pelo talento literário do autor, mas principalmente pela robustez filosófica. O texto talvez pressuponha alguma leitura de Nietzsche, Heidegger ou de um autor como Porfírio ou Celso, mas de modo algum deixa de ser essencial para compreender a mentalidade pagã tradicional em sua oposição inconciliável (em certos pontos) com a visão judaico-cristã. É uma jóia para os interessados nas diferenças e mais ainda para os que desejam viver as diferenças e aspiram a uma visão realmente integral e orgânica de uma mundivisão Indo-europeia atual e coerente. O texto ainda deixa demasiadamente claro o fundo cristão/judaico laicizado de muitas ideologias modernas, dos Direitos Humanos (e o Humanismo Moderno), ao Marxismo – que se enxergam como intelectualmente superiores ou universalmente válidas, supostas “evoluções” a quem todos os predispostos a serem parte da intelligentsia das “elites” acadêmicas devem se curvar cegamente. Claro, também é ótimo para desmascarar posturas “fakes” (de gente que se diz pagã mas opera completamente sob uma lógica cristã) e identificar incoerências. É um texto que me incitou seriamente ao pensamento de traduzí-lo; é um livro basilar para as fileiras de estudiosos simpáticos ou assumidamente pagãos, já há muito desconfortáveis com as mesmices esquerdizantes-liberalóides das vias apresentadas/doutrinadas pela tendência hegemônica da intelligentsia de nossas academias e, ao mesmo tempo, nada confortáveis com o tradicionalismo beato do Conservadorismo Católico.

Os outros dois títulos visam contribuir no preenchimento de minha falta de conhecimento sobre algumas áreas do pensamento político contemporâneo, especialmente de viés pagão/identitário/nacionalista.

Kai Murros. Revolução: como fazê-la numa sociedade moderna.

Para quem tem familiaridade com a literatura “revolucionária” (de Esquerda, claro), e principalmente, está aberto a revisões, o livro será uma atualização bem interessante. De minha parte, achei desagradável a demasiada utilização – a cima de tudo, a defesa – do método “materialista histórico” marxista. O autor não justificou de modo filosoficamente sério o porquê de termos que seguir tal “método”, na verdade, simplesmente não justificou. Ficou como que um dado da natureza, coisa que não precisaria de explicação. Mas precisa. O texto possui todo um tom extremamente pragmático, estoico, de capítulos e frases curtas, compactas e duras – sem floreios literários, sem rebuscadas estilísticas. De fato, o texto soa naquela agradável atmosfera rude do campônio ou do trabalhador, sem esnobismos. Mas tal atmosfera – e caso vise cativar o leitor simples da classe trabalhadora – não justifica por si a tal “metodologia”. Há algo obscuro nisto e que merecia clareamento. Para os ortodoxos trotskistas haverá algo que talvez traga um desagrado profundo: a insistência no abandono de um projeto “global” (endógeno a Esquerda revolucionária), mundialista da revolução em favor de um caminho viável (como o Chavismo bem o mostra) – a revolução nacionalista, cerrada às fronteiras nacionais. Não se trata de uma mera redução na aplicação de “princípios universais”, mas mesmo na  remodelação dos princípios teóricos pela realidade nacional, trata-se do particular por sobre o “universal”, deve-se, pois, moldar uma ideologia verdadeiramente popular (e não apenas “virtualmente” ou – como fazem os comunistas “fraudulentamente” popular, como se o povão fosse ateísta e completamente materialista, etc.), realmente alinhada ao Gênio Nacional. É um livro com críticas muito interessantes e um conjunto de tijoladas nos trotskistas e revolucionários parados no tempo, que remoem “gagás” as ideias de 100 anos atrás como se fossem dogmas religiosos imutáveis e incriticáveis, quase como leis positivistas da Física Social comtiana. Para os que se alinha mais à Direita, o livro tem uma visão que explica muito das estratégias utilizadas no que está ocorrendo nos movimentos populares de Terceira Posição que ganham cada vez mais espaço pela Europa (Casa Pound na Itália, Aurora Dourada na Grécia) ou que já se sedimentaram em certos recantos próximos (Bolivarianismo, etc.) – que se apresentam como a real oposição (ao contrário do Esquedismo que só finge ser “oposição” ao sistema) ao que aí está. Há uma latência de potência nietzscheana (lembrou-me do Mangabeira Unger) que é conclamada neste texto, para além do racionalismo liberal-ateísta, para além do socialismo-comodista de classe média, para além da mediocridade – e nisto, independente de se concordar com os argumentos do autor ou não, é algo a ser conhecido por quem estuda Política e deseja compreender os movimentos das diversas correntes, das mais centrais e hegemônicas às mais marginais e dissidentes.

Guillaume Faye. El Arqueofuturismo/L’Archeofuturism.

Este ainda não terminei – mas o estarei em breve. É uma tijolada, de fato, perfeitamente inserida na tradição nietzscheana de filosofar com o martelo. Primeiro, confesso, iniciei tal leitura por curiosidade – uma curiosidade ingênua mesmo – que surgiu após o rompimento da resistência contra o autor. Para quem não sabe, o autor tende a estar associado com uma visão radical (coisa que ele defende como metodologia, inclusive, para gerar o que chama de “ideochoques” – choques causados por ideias radicais ou tão dissidentes que rompam o status quo/inércia intelectual forçando o pensamento) eurocêntrica, visceralmente anti-islâmica e por vezes associada ao racialismo, ou seja, o sujeito está associado com a aquela ala do Paganismo na qual se coloca Varg Vikernes. Daí que a ideia original era ler para conhecer mesmo, para poder fundamentar qualquer crítica ou posição. Considerando a resistência inicial esperava uma leitura pouco agradável e mesmo tortuosa. Bem, devo admitir que me surpreendi. O sujeito se utiliza de uma riqueza de conceitos e faz uma defesa (incrivelmente) coerente de sua “radicalidade”. O livro é cheio de críticas muito bem elaboradas aos mais diversos aspectos da batalha política (dos partidos instituídos e suas ideologias oficiais, aos meios de comunicação, cinema, literatura, etc.) – seguindo a trilha do gramscismo à Direita da Nouvelle Droite francesa (de Alain de Benoist, que acusou as posições de Faye de racistas – vale lembrar que o Faye criticou duramente o de Benoist, Alain Soral e Christian Bouchet – e por sua vez foi chamado de “agente sionista”), corrente que critica desde dentro (lembrando que Faye está mais para o Terre et Peuple, uma espécie de think-tank pagão francês) e acusa de estagnação política e falta de ousadia prática. Claro, há muita coisa a “ruminar”, por exemplo a crítica do Faye ao “terceiro-mundismo” do Benoist e da Nouvelle Droite (e que se poderia estender a Aleksandr Dugin) que leva a toda uma mudança de estratégia Geopolítica e de revisão de prioridades políticas para a Europa, entre outras coisas. O autor sugere o conceito de de Arqueofuturismo como uma saída para além do que considera como sendo a Convergência das Catástrofes (o colapso iminente da sociedade ultra-moderna), uma renovação do Arcaico no Futurista – um conceito interessante – pensado para uma transvaloração do mundo que aí está, como projeto para um depois. Enfim, mais uma leitura importante para quem está buscando entender as estratégias e visões das alas mais “revolucionárias” e radicais do pensamento político de cunho pagão.

E é só. Inté.

Uns Pensamentos sobre o Separatismo do Nordeste

Saudações.

Venho cá registrar umas ideias gerais e pensamentos dispersos que por isso, talvez, não sejam lá tão claros de imediato. Estou em duas leituras (quando o tempo permite, pois) relacionadas à questão separatista, a primeira do meu conterrâneo Allyrio Meira Wanderley, “As Bases do Separatismo” (1935) e a segunda, um estudo do também nordestino (o sujeito é de Vivência, cidadezinha quase na fronteira com a Parahyba) Manuel Correia de Andrade “As raízes do separatismo no Brasil” (1998). O primeiro é um livro que advoga o separatismo da primeira a última página, um clássico – que misteriosamente – é “esquecido” pelos meus colegas na academia e jogado para debaixo do tapete pela intelligentsia parahybana seja de qual matiz for – até mesmo as obras de literatura do sujeito não são citadas! O segundo, tenta (e consegue) traçar um percurso histórico dos diversos movimentos separatistas ao longo da história deste país e advoga um “não-separatismo”, que por falta de termo melhor, chamarei de “integralismo” (sem o “i” maiúsculo, afinal não se trata do movimento de Plínio Salgado, Miguel Reale e Gustavo Barroso).

Eu sempre tive certa simpatia pelo Separatismo, na adolescência mesmo cheguei a acreditar que isto seria realmente bom. Hoje já não acredito que um simples separatismo resolva nada. Só resolveria dentro de uma série de outras medidas que o precedem em importância e significado, de modo que o separatismo somente, por si só, talvez, fosse até mais danoso ao Nordeste no atual estado das coisas. E vim ler os livros mais por me sentir na obrigação de conhecer o sr. Allyrio Wanderley (que me parece um autor importante para a literatura nordestina), em especial, e tentar compreender como isto tudo se encaixa com a problemática do “nacionalismo” e com o problema da identidade brasileira.

Bem, compartilho cá minhas impressões iniciais que espero maturar.

O texto do Allyrio é de uma escrita de outro tempo e tem o ar do Pico do Jabre, tamanha a visão de um sujeito que parece falar de um miradouro sereno. O texto merece uma analisada minuciosa e uma crítica séria, que obviamente não acontecerá agora.

O outro texto é de uma escrita extremamente agradável também, apesar de certos ares que as vezes soam esquerdófilos. O início do texto é sobre Geopolítica e o principal argumento utilizado pelo sr. Manuel Correia de Andrade contra o Separatismo é de ordem geopolítica também – isto (o Separatismo) representa um enfraquecimento estratégico e um “tiro no pé” no jogo de influências e zonas de poder do mundo. De fundo está a visão de que, dividindo, somos mais facilmente conquistados e que grandeza e extensão territorial, representa – ao menos em potência – grandeza e extensão bélica e civilizacional. É o Grande Brasil, o Gigante do Hemisfério Sul. Este argumento é persuasivo e suspeito que remonte, de fato, ao Integralismo ou ao menos a certas influências deste no tecido ideológico da primeira Era Vargas (do Estado Novo). Se não remontar ao primeiro “nacionalismo” da República Velha (positivista e liberal/”burguês”). O autor parece acreditar que as forças centrífugas/internas/separatistas só agem na prática por favorecimento externo (por subsídios de potências estrangeiras ou de complôs globalistas) ou por desígnios econômicos (da “banca” mundial), sem espaço para um identitarismo real.

Que se divide e se conquista o dividido mais facilmente, disto não tenho dúvidas; mas tenho sobre tal pressuposição de que a grandeza territorial potencializa a grandeza civilizacional e bélica (e portanto, de capacidade de ocupar espaços de poder no mundo). Claro, há sempre alguns idiotas, que pela real ignorância da história do país que dizem amar, abrem suas bocas para proferirem que tais ideias separatistas são parte de um complô estrangeiro (ou mais modernamente “marxista-subversivo”) para dissolução do Brasil etc., radicalizando o que o próprio Manuel Correia de Andrade parece acreditar. O problema é também se recusar a analisar à sério este pressuposto da grandeza territorial.

Mas acredito que este pressuposto deva ser analisado. Como quantidade não é qualidade, pequenos territórios (como a Hélada), ao longo da história, geraram legados civilizacionais e/ou exércitos de elite que cumpriram perfeitamente “obras” geopolíticas duradouras e profundas. Roma não venceu Cártago e dominou a Gália “grande”. Muito menos Esparta dominou a Hélada toda sendo uma grande extensão territorial, nem Portugal, nosso pai, fundou-nos e ao império transatlântico. Ter um “Gigante Adormecido” (nas palavras do cantador repentista Valdir Teles cantando com Ivanildo Villa Nova no mote Retratos do Brasil), como se tem mostrado por mais de século, não é lá tão vantajoso como nos querem fazer acreditar. Cada vez mais, pelo menos a julgar pelos últimos anos, se tem um “Gigante Bocó”, um grande, mas lerdo, bisonho desajeitado e “boca-aberta” país, para o qual insistem em nos fazer acreditar, os apaixonados, que este é o Grande Brasil, mesmo que agora esteja deste modo; devemos tê-lo como uma miragem, estrela-guia ou no “melhor” dos casos (pelo menos, mais tradicionalmente), como uma profecia “messiânica”, que há de se cumprir no despertar do gigante adormecido no futuro.

Não sei se pelo fato de toda a classe política atual haver sido formada ideologicamente no programa (Integralista/Varguista) – em curso até hoje – de “unificação e homogenização” do Brasil, da construção da Nação (do Samba e do “morro favelado”) – de uma única e integral (cultural, moral, linguística e etnicamente), onde atualmente resistem ao menos duas (o Nordeste e o Sul), de forma tão profunda que se tornou incapaz de se perguntar mesmo “que programa de unificação e homogenização” é esse. “Naturalizou-se” o projeto de tal forma, que parece impossível questioná-lo. Repensar isto, parece-me tão profundamente radical e na contramão dos alicerces das ideologias hegemônicas no país que o indivíduo que o faz, sente-se nadificado num abismo político e como que posto fora da realidade.

Teoricamente, somos uma federação. Isto deveria acalmar os ânimos e permitir a cooperação de ambos os separatistas e os “integralistas”, e nisto podemos dizer ao separatista que talvez o ponto seja fazer a federação ser mais real/efetiva, sendo o separatismo desnecessário. Além de que historicamente, poder-se-ia ter um grande poder bélico em um aglomerado mais “frouxo” como em uma aliança forte (constitucionalmente assegurada) entre nações (que comporiam o Brasil) independentes ou mesmo uma centralização “espiritual” (que coadune características de um bloco econômico comum – livre comércio e talvez moeda única, compartilhamento de energia – e do senso de herança histórica comum) do tipo “Império” ou “Reino Unido”.

Em todo caso, numa coisa o separatista me parece correto: na rejeição deste modelo de brasilidade homogênica, que nos diz que ser brasileiro é ser a mulata nua dançando samba, Carnaval, ver o corcovado e o Cristo Redentor e ser o feliz malandro de favela, que apesar disto é “gentche boa” com seu “churrashco na laje”. O sertanejo cônscio, como o caudilho dos pampas (e mesmo, penso, alguns pantaneiros) estão corretíssimos em não se verem nisso, pois, ontologica, fenomênica e metafisicamente, não são isto. E não deixa de ser curioso, como mesmo após tantos e tantos anos de intensa propaganda massificante (especialmente após o advento da TV, cujas principais emissoras são as exportadoras desta brasilidade homogênica – que na verdade é um “riodejaneiramento”, uma espécie de globalização em pequena escala exportada pelas novelas e programas de auditório – sediadas justamente no epicentro fluminense) ainda há resistência. E o próprio sr. Correia de Andrade reconhece o poder fortíssimo e o sucesso da mídia na homogenização cultural/étnica do país.

Nesta “batalha” estão as dimensões mais diversas, da herança de valores tradicionais, do projeto de futuro, do projeto esquerdista para o país, dos valores liberais e do que pode ser propriamente definido como conservadorismo no Brasil. Está em jogo os “Brasis Profundos”, culturas, hibridismos, heranças e modos de vida. A preocupação dos que amam sua cultura, se orgulham de suas tradições e heranças, e do que deve ser imerso pela homogenização globalizante.

A grande questão é justamente como conciliar isto (a justa rejeição da brasilidade homogênica do “riodejaneirismo”, rejeição levada em frente até a posição do Separatismo) com as dimensões e desafios geopolíticos mais abrangentes – que aparentemente requerem um país “unificado” e territorialmente extenso.

É uma questão fora de moda. Definitivamente. E talvez, seja um espectro ou fantasma que só ronda alguns lugares do país ou ainda, algumas pessoas de alguns lugares. Sinceramente não sei. Apenas noto que quanto mais leio, mas claro é-me a fragilidade da “identidade” do brasileiro e o quão recente (e aberto ainda!) é nosso projeto de “nação” (e o quão são nossos sociólogos, tão badalados e “infalíveis” em seus motes perfeitos e inquestionáveis do que é a “brasilidade” e o “verdadeiro brasileiro”). Ver esta construção enquanto tal e a insurgência dos separatismos ao longo da história do país, automaticamente nos faz pensar nas possibilidades. Possibilidades estas já pensadas antes ou novas, quem sabe. Em todo caso, espero terminar estas leituras em breve.

Comentário sobre um vídeo do professor Ricardo da Costa e do debate deste com o prof. Johnni Langer

Este comentário está aqui por um motivo: desencargo de consciência. E só. Achei necessário comentar – na verdade, registrar publicamente na internet, mesmo aqui neste solitário e fantasmagórico blogue – algumas coisas relativas ao vídeo e ao “debate” entre os historiadores profissionais o prof. Ricardo da Costa e o prof. Johnni Langer e aqui está tal registro do meu parecer – não que tenha sido requerido, claro. E é isso mesmo, um mero parecer, não um pedido de intromissão.

Antes de mais nada: não sou historiador – e para uma mente movida ao mínimo de apelo sadio ad uerecundiam esta seja já a confirmação de não que deve prosseguir a leitura. Daí que não só é possível que talvez cometa algum percalço, como é provável – caso isto ocorra, por favor leitor, corrija-me. Para entender tudo, peço ao leitor que antes de continuar leia:

Começarei falando do vídeo do prof. Ricardo comentando rapidamente o que me parece relevante, depois aterei-me a conversa deste com o prof. Johnni Langer onde aponto a eficácia do argumento do prof. Ricardo, mas levando uma ressalva quanto a ponto debatido terminando formulando meu parecer sobre.

O vídeo.

Postei-o aqui recentemente. Bem, estou convencido de que há uma atmosfera estranha no meio acadêmico, em especial no meio das ditas Ciências Humanas, e nisto concordo com o prof. Ricardo se por isto ele se refere a “crise”. O termo crise (do grego ‘krisis‘) é por demais forte, e geralmente tem certa conotação moralmente desconfortável para os não-alinhados, para os afetados por ela. Os causadores ou sujeitos aproveitadores dela – talvez não considerem que haja tal carga desconfortante. Daí que se tal “crise” é o corolário da Esquerda e do pensamento Esquerdista no mundo acadêmico, é sentido como “crise” pelos não-alinhados – mas não pelos Esquerdistas. O que uns chamam de crise, outros talvez chamem de “ápice”.

Eu me considero como um dos não-alinhados com a Esquerda. Por incrível que pareça, minhas aulas de grego com o prof. Henrique Murachco trouxeram minha cabeça para o mundo antigo de vez e durante a graduação, era uma das poucas vozes dissidentes dos marxistas que não liam Marx. Agora lecionando (e como disse certa feita o sr. Olavo de Carvalho, “isto não é lá grande coisa”) volto eu a ver movimentos estudantis e chavões esquerdistas repetidos. De fato, pelo que conheço – dos cursos de História, por exemplo – há uma presença maciça de autores ligados ao Marxismo em algum grau, e que cerram fileiras e mais fileiras criando uma, digamos (olha eu utilizando um conceito “marxista”, na verdade gramsciano), Hegemonia.

O prof. Ricardo parece apontar para uma visão geral de mundo Relativista, líquida, onde mesmo a concepção de verdade (“tradicional” – a por correspondência nos moldes aristotélicos) é posta em questão no cotidiano. Para os filósofos esta querela não é nova, nem está completamente superada (por exemplo, Steve D. Hales em seu Relativism and the Foundations of Philosophy apresenta uma formulação filosófica do Relativismo logicamente imune ao problema da autorrefutação – o grande problema de qualquer Relativismo, ou de proposições que caem sob seu próprio escopo, como “Não existe a Verdade”), mas se restringe a um campo “técnico”, especializado, na distante e estranha Lógica e Epistemologia contemporâneas.

O problema é o aparecimento de alguns vultos de certas sombras destas nas modas intelectuais pós-modernistas, combustível para as fornalhas vermelhas que aquecem os CA’s, cartilhas dos Movimentos Sociais, Departamentos de Humanas etc. Isto é o que gera certos posicionamentos dos estudantes, certo estado de apatia, certa paralisação dos mecanismos básicos de qualquer ensino-aprendizagem universitário (tradicional) à serio, e por outro lado, certa instauração de uma Polícia Ideológica que exclui sumariamente os dissidentes (como o prof. Ricardo bem testemunhara) ou meros críticos e de uma Politização radical. E aqui o prof. Ricardo apresenta o ocorrido na conversa com prof. Johnni Langer como exemplo a sua plateia – um exemplo induzido (com certa chacota sobre “neodruidas” e Stonehenge) a considerar que mesmo entre Profissionais sérios (e o trabalho do sr. Johnni Langer sobre religião Viking é o mais sério que conheço em termos de lusofonia) há essa atmosfera de “crise”, onde uma tal proposição “Não se pode julgar” dita pelo mesmo, é autorrefutativa ou descabida por ser ela própria um julgamento.

O debate sobre a questão do Julgamento.

Se isto é correto e se o messias judeu dos cristãos disse algo assim – que não se deve julgar (Mt. 7:1-2) – ele próprio não deu o exemplo, pois ao dizê-lo, julgou. E utilizar este argumento contra Johnni Langer e não usá-lo contra Jesus requer uma explicação a mais. Mas deixemos de lado esta explicação. Mas afinal, ao dizermos que “não devemos julgar” estamos já julgando? O óbvio ponto é como entendemos “julgar”. Se por julgar, entendemos a faculdade de discernir, justa e logicamente a partir de evidências/premissas, seja por deduções ou inferências, de fato – esta proposição nos convida a fazer algo impossível: privarmo-nos de uma característica essencial. Mesmo Jesus falou “julgar” (na passagem referida, está o verbo grego ‘krínō‘ – por incrível que pareça, é a mesma raiz que está na palavra ‘krísis‘, e lembro -me de uma aula do prof. Murachco em que explicara longamente a conexão etimológica entre as duas, coisa que só vim confirmar anos depois lendo o Chantraine) mais ou menos neste sentido (apesar de não ser difícil dar qualquer arrodeio somado com blá, blá, blá “teológico” para dizer o contrário e “livrar” Jesus).

Mesmo que tenhamos motivos claros para desconfiarmos da certeza de nossos julgamentos, é-nos impossível fugir deles. Por isto, acho antinatural o reclame de Cristo de que devemos não julgar – digo-lhe que é algo impossível como é não ser julgado por outrem, e por isto também (e para ser coerente), concordo com o prof. Ricardo da Costa.

Aqui é o ponto. O prof. Ricardo tem um argumento bom e fez bom uso dele. Basta ver os artigos em que se deram a discussão. O prof. Johnni Langer, em sua réplica, nada fez para desmontar o argumento ou elucidar mais nada. Deve ter ficado claro que escolheu um ângulo infeliz para atacar ao utilizar tal arma frágil.

No entanto, o ar de “supremacia” da moral cristã e do pensamento teológico medieval sobre os bárbaros empaladores de criancinhas vikings não é tão lógico assim, ou pelo menos não pode ser inferido tão facilmente de uma proposição como “não se deve julgar”. Explico.

A queixa do prof. Langer, se a entendi bem, é de que há certa “parcialidade” no texto, que conduz a afirmação estereotipada dos Vikings como desumanos e atrasados, para quem a adoção do Cristianismo representou um avanço e humanização. E nisto sua consideração de que se deve não ser parcial, coisa que ele formulou catastroficamente (e erradamente) como “não se deve julgar”. Pois, termos como “atrasados” e “avançados” são relativos a determinado contexto. Como “maior que” e “menor que” em Matemática – e isto não quer dizer que os matemáticos seja Relativistas Pós-Modernos. Do mesmo modo que um simples reconhecimento de que determinados predicados são relativos (ou ‘subjetivos’) não torna alguém necessariamente Relativista no sentido mais forte e pós-moderno do termo, pois nada impede que se reconheça predicados absolutos como “infinito” na frase “a burrice é infinita” (cá pra nós, o uso recorrente de imagens e indiretas na tréplica do professor Ricardo soa algo desequilibrado).

Suponhamos, pois o seguinte modelo simplista: temos um fato – que por si, não é “relativo” – mas temos interpretações n sobre o mesmo. Neste sentido, boa parte do trabalho historiográfico seria de construção discursiva de interpretações (ou modelos interpretativos) sobre fatos averiguados objetivamente (na verdade, o próprio trabalho de averiguação objetiva – ou mesmo de sua possibilidade – é questionado por uma ruma de gente, que agora não vem ao caso). Daí que não é de espantar que se tenha interpretações conflitantes, não só sobre o mesmo fato, mas pelo número de fatos tomados como basilares em dada interpretação ou para uma interpretação mais adequada. Ou seja, haverem interpretações conflitantes ou dissidentes não é necessariamente problema – já que seria “natural”, o problema é decidir qual interpretação é mais adequada de acordo com a totalidade dos fatos (e nisto, no meu ver precisamente, entra o debate técnico dos Historiadores profissionais). Ou seja, decidir qual modelo explicativo é melhor (no sentido de ser melhor embasado nos “fatos averiguados objetivamente”). E este trabalho requer, pelo menos teoricamente, honestidade para com tal averiguação objetiva dos fatos. Assim como pressupõe uma plataforma comum de diálogo (mesmo que haja uma plataforma metodológica diferente), mesmo entre as interpretações conflitantes – ou seja, requer certo cânon interpretativo, seja a adoção de um pressuposto metodológico ou interpretativo comum, ou outra coisa.

Daí que considerando assim, eu, por exemplo, sou favorável a revisionismos em História – a formulação de hipóteses interpretativas concorrentes, pelo menos teoricamente, força as interpretações dominantes a se melhorarem – pela elucidação do modelo ou da exposição das fontes/fatos objetivos – ou caírem por terra, caso sejam mal formuladas ou baseadas em “fatos” forjados etc. É mais ou menos como a proposta do sr. Paul Feyrebend no Contra o Método, mas aplicada à História. Neste caso, ao meu ver, quem tem a ganhar é a verdade – o modelo explicativo mais correto (e completo) em relação as fontes objetivas factualmente consideradas – ou pelo menos, se ganha em progresso/melhora no rigor dos modelos explicativos.

Isto no mundo real, tem de ver com o apaixonamento por bandeiras que muitas vezes pode determinar a direção interpretativa de um fato e transcendem o mero interesse histórico. Tais apaixonamentos servem de óculos pelos quais enxergamos o restante. Por exemplo, imaginemos o seguinte: temos um relato textual de um monge franco que narra a prática de empalamento de crianças por parte dos cruéis Vikings no assalto de uma costa próxima a um mosteiro. Há o texto, é um fato. Agora, como entendemo-lo? Se se é cristão, e se deseja mostrar o terror e desumanidade dos Vikings (ou se se parte da infalibilidade de qualquer relato cristão), simplesmente tomamo-lo como relato não só fidedigno, mas prova inconteste de tal atrocidade, por ser um relato absolutamente verdadeiro e certificado de tal. Mas se alguém discorda, e diz que esta fonte primária, na verdade não é uma fonte primária mas sim um relato imbuído de propaganda e intenções difamatórias e que por isto, não é tão fidedigno assim, como fazemos para decidir qual interpretação é melhor? Este é o ponto.

Aqui temos de comparar a construção dos modelos explicativos e as fontes utilizadas por eles (e muitas vezes, as fontes das fontes). Por exemplo, suponhamos que o segundo historiador utilize para descreditar o relato do monge franco o seguinte: 1. recorra a relatos autóctones/endógenos que descrevem costumes mas não incluem tal prática, 2. recorra a uma análise linguística para saber se tal prática é nomeada e como é referida no idioma dos Vikings, 3. recorra a narrativas contemporâneas outras de outros monges que sofreram presenciaram ataques Vikings (de preferência sem que um tenha conhecimento um do outro) e que não narraram tal prática (que se feita, mereceria o relato, pois). 4. que os critérios de moralidade de ambas as culturas são incomensuráveis ou ainda equipolentes, pois mesmo a “inteligentsia” monástica (por exemplo) sancionara certos atos cruéis (noutros contextos, como nos processo de heresia) tanto quanto o empalamento etc. 5. haja a intenção do monge em denegrir a imagem dos invasores (atestada por outras cartas suas, etc.); ou ainda 6. que ainda que o dito monge franco, por exemplo, “aumentou” ou narrou erradamente algum fato conhecido. Paremos, por aqui. O ponto é que a partir destes 6 pontos, se poderia advogar, adequadamente, que o testemunho do monge não é tão fidedigno assim.

Novamente, a questão é a análise das fontes, aí é onde a discussão deve se dar. Não há problema em “histórias partidaristas” (se é que possível fazer uma que não seja em algum grau). Que cristãos escrevam livros do tipo “A História segundo o Cristianismo” ou que os marxistas escrevam livros do tipo “A História segundo a luta de classes” etc. Mas que isto seja feito nas claras, que se deixe claro a diretriz ideológica/religiosa dali. O problema está no oferecer gato por lebre. Em tentar, na surdina, passar-se pela “oficial”, a verdadeiramente absoluta História. E se há cristãos que criticam isto nos Marxistas (de reescreverem e na surdina instaurarem sua versão como hegemônica), mas fazem o mesmo (ou desejam), paciência – alguns, parece-me, criticam pelo ranço do privilégio perdido em reescrever, pela existência de uma concorrência (e de um forte que age como eles). Não me refiro ao prof. Ricardo da Costa, pois, mas tenho em mente certos revisionistas da Inquisição etc. que se portam exatamente como os  marxistas que tanto odeiam. Que as interpretações concorrentes digladiem-se entre si – havendo condições justas de pesquisa e divulgação de resultados (e este ponto é realmente importante – pois a interpretação hegemônica geralmente toma medidas práticas para minar/demonizar a concorrência), as mais bem fundamentadas permanecerão (talvez revisadas e corridas); mas as caras, com suas bandeiras a vista.

Voltando ao caso do prof. Johnni Langer e do debate com o prof. Ricardo da Costa, se o sr. Johnni Langer reclama de um (suposto) partidarismo cristão no texto, fê-lo erradamente. Por outro lado, há uma sobrelevação da mera análise de fontes quando o prof. Ricardo da Costa, expressamente, advoga a superioridade cultural do mundo cristão; e no ar fica como se a religião dos Vikings legitimasse e fomentasse a prática do empalamento de crianças, e que toda pessoa que se identifica com esta religião (em especial, hoje) fosse um empalador de criancinhas em potencial. Bem, primeiro, não é bem assim – i. É preciso ter evidências de que os textos de narrativas mitológicas de de caráter sacro dos Vikings defendam esta prática, para só então, deduzirmos que seja sancionada e fomentada pela visão religiosa. ii. Que mesmo que fosse, identificar-se religiosamente hoje com tais povos não requer necessariamente que o sujeito esteja moralmente obrigado a praticar isto hoje, como há cristãos hoje que não queimariam hereges ou os colocariam em damas de ferro (práticas, diferentemente do que sabemos do empalamento dos Vikings, sancionadas e aprimoradas pela visão religiosa cristã daquele dado período histórico). Daí que se o prof. Johnni Langer for um “neodruida” (nas palavras do prof. Ricardo da Costa em seu vídeo – em sua tréplica o prof. novamente confunde Celtas com Germânicos – coisa que não seria de espera de um historiador conhecedor de Vikings – ao falar da estultice dos primeiros onde supostamente Aristóteles teria concordado – creio que refiram-se ao livro 3 da Ética a Nicômaco do estagirita – onde não está bem assim, o que me soa um comentário despropositado) isto não o faz um empalador de criancinhas, como se, se o prof. Ricardo da Costa fosse católico não faria dele automaticamente um queimador de hereges, torturador de mulheres, obliterador de pedofilia alheia ou coisa assim. É simplesmente um non sequitur e tem mero peso retórico; é um, como se diz no popular, “o que é que o cu tem com as calças?”

Por outro lado, para a plateia moderna, e mesmo para mim, fica difícil negar o caráter cruel de um empalamento infantil – e o horror que a imagem gera na mente das pessoas (especialmente, das que como eu, têm filhos pequenos) serve quase como um persuasor (retórico) instantâneo de que quem não praticara isto é, de fato, Superior – e que uma religião que deixa isto passar é Maléfica. Bem, mas analisar isto seriamente requer dissipar-se de tais sentimentos. Afinal, qual o contexto em que tais práticas eram realizadas? Pelo que conheço (e se estiver enganado, alguém me corrija!), geralmente, são práticas de “warfare state”, propaganda de guerra que visa horrorizar (o máximo possível) o inimigo – e isto não tem de ver, necessariamente, com a sanção religiosa. Se assim fosse, nenhum guerreiro/rei cristão empalaria ninguém – uma vez que Jesus não mandou empalar ninguém (que eu saiba). E empalaram (… Vlad, o empalador, o famoso “Drácula” era cristão e ergueu vários mosteiros em seu reinado, para veres como era religioso). Aproveitar um ponto de determinada prática realizada por uma elite guerreira num dado período histórico para condenar toda uma cultura (da qual a elite é parte e não o todo) – e mais ainda uma religião – por todo período histórico anterior e posterior é uma generalização apressada (com ares sofismáticos) e um partidarismo que deve ser posto as claras. Daí que do mesmo modo que o Cristianismo não é culpado por isto (empalamento), a religião Viking não é – mesmo que admitamos que haja padrões de moralidade e de “humanidade” diferentes entre as religiões – e que sejamos cônscios de que o modelo de “humanidade” no Ocidente (que em última instância desdobra-se na noção de Direitos Humanos) e Humanismo laico atual é muito mais devedor da visão cristã que de outras visões.

Não é uma questão de relativizar a prática, mas de pô-la em seu devido lugar – e dissociá-la da religião, como os empalamentos feitos por cristãos são dissociados do Cristianismo. É não usar dois pesos e duas medidas. Se isto é ser imparcial, e se isto é o que o prof. Johnni Langer tentou dizer, então concordo com ele. Se foi isto. No entanto, é fato, que o reclame dele de “não julgar” não foi bom nem nada eficaz e que os argumentos do prof. Ricardo contra isso (este tipo de argumento remonta ao Teeteto de Platão e não tem nada de medieval) estão de bom tamanho – apesar de considerar que explorou isto além da conta insinuando a superioridade da literatura cristã da época – como se esta não fosse devedora inconteste do mundo pagão clássico e como se os cristãos não cometessem lá suas barbaridades em “warfare states” (pode-se argumentar aceitavelmente que nesta época, em grau menor).

Bem, já escrevi alem da conta. Sobre a proposta de “restauração” do prof. Ricardo da Costa, merece outros comentários – e é algo a ser visto em relação a outro texto que apontei cá no blogue (o do Otto Maria Carpeaux, na postagem anterior). Mas fica para outra ocasião.

Inté!