Um singelo registro de uma reflexão matutina

Após faltar a última assembleia do sindicato de servidores de onde trabalho, semana passada, chego para trabalhar hoje e descubro que decretaram greve: erro meu, passei o final de semana sem abrir minha caixa de e-mails.

É difícil expressar bem o misto de tristeza e revolta diante da situação planejada das invasões e greves (por motivações político-partidárias, sejamos francos) no sistema de ensino do nosso país. E é fácil constatar o aparelhamento partidário de supostos mecanismos de representação “classista”. Até então, a “modinha” das invasões era apenas uma esquisitisse distante, até transformar-se numa bizarra realidade. E diante disto que venho cá no blog, de certa forma, para dar alguma vazão a uma série de pulsões reprimidas. Não consigo me sentir bem, meu senso de dever parece ser afetado, sinto-me moralmente incomodado quando algo assim acontece, sabendo eu o quanto nossa categoria recebe bem (comparado com os demais professores das redes públicas estaduais e municipais) e o quanto precisamos de ensino de fato, trabalho, compromisso para a situação deste país comece, de fato, a promover uma melhora durável. Não há necessidade para expor motivos e mais motivos para ser contra toda esta bagunça. Creio que textos como este (clicar para ler) já o fazem bem. Apenas acrescentaria que, dentro de uma perspectiva mais religiosa, há o agravante da subversão espiritual da relação sagrada do aprendizado (hierárquica, etimologicamente, mesmo que dentro das conveções e estruturas modernas, com todas as suas limitações e problemas, do processo de instrução formal de nossa sociedade). O que há de “sagrado” no processo, já fora machucado, mal tratado e surrado, mas ao invés de buscarmos resgatar e valorizar o que sobrou, este tipo de loucura “blasfemosa” vem para destruir de vez… E o pior é que, não raro, se não em boa parte, as ondas destruidoras vêm dos próprios professores. Renunciaram as funções “bramanescas”, rebaixaram-se de vez ao “shudraísmo” e reclamam quando são tratados assim pelas elites financeiras e políticas do país, cegos pela loucura fanática do fetiche proletarista. Se há algo de bom nisso, escatologicamente, é que o afundar-se acelerado nesta degradação é, por outro lado, o aceleramento da limpeza vindoura. Um novo ciclo, saudável e forte, se fortalece no horizonte.

Mas, por enquanto, fica só a mirada esperançosa; o sentimento de “impotência” diante das desgraças nem sempre leva a resignação: uma parte dele está buscando meios de “furar” e incentivar a destruição do capenga movimento grevista (por dentro e por fora), uma outra está buscando também elaborar iniciativas que minem ou usem a invasão discente (romanticamente chamada de “ocupação”) contra si mesma: utilizando o espaço para formar uma milícia estudantil para afrontar (com métodos realmente “sorelianos”) os esquerdistas de dentro para fora. Isto é possível. Na verdade, é perfeitamente possível e seria estética e moralmente belo. Mas outra parte de mim, uma parte forte, simplesmente prefere, numa espécie de “nojo” esnobista, virar o rosto (afinal, dentro do que pude, expressei-me contra e me posicionei contra, sou parte vencida, pois) e egoísticamente encarar como muitos (incluindo a maioria dos professores agitadores e panfletários) fazem, como um tipo de “férias”: colocar projetos meus em dia, aproveitar o tempo livre para realizar tarefas e serviços pendentes… A tentação a desistir do público (“eles se merecem”) e voltar-se para minha família, religião e propriedade é demasiado forte. Quando não se tem o saco (ou o estômago) para o trabalho “de chão”, se fica terceirando esta função e desejando que um “salvador” apareça para fazer o trabalho (sujo?) por nós. Cavalga-se o tigre e sonha-se com a oportunidade de desferir o golpe final quando o mesmo cansar. Não se trata de abandono do posto, mas justamente da permanência nele: no front onde nos alistamos e onde temos servido.

E aqui surgens as constatações: a maiora apática, ou mesmo que “contrária”, termina pela inércia (justamente por esta espécie de justificada forma de ceticismo político), a permitir o sucesso dos mal-intencionados. E a radicalização de um grupelho destes (infestados de militantes, 24h/7 dias por semana, travestidos de “professores”) urge, pede, conclama, que se forme uma radicalização no lado oposto. É a natureza dialética que sugere e aqui é onde estes sujeitos merecem ser testados: no combate, na violência regeneradora e santa. Mas é outro front, o front da Ação. Eles já estão com o do Pensamento e o da Ação operando, do outro lado se duvida se o do Pensamento está operando mesmo e se o da Ação existe ou poderá existir. Precisamos, urgentemente, continuar a dizer-lhes que sim, que devem insistir com mais afinco na feminização, no uso de drogas, na depravação sexual, na dependência burguesa acomodada da tecnologia, na completa seção aos sentidos e aos vícios, na completa falta de regra, medida e hierarquia. Nós e os nossos, pelo contrário, devemos investir e treinar: moldar nosso corpo, controlar os sentidos e impulsos, armar-se bem, acostumarmo-nos a privação e ao sacrifício. O Estado, esta palavra bonita para descrever nosso governo instituído, é mentalmente refém deles, é conivente para com eles, é ideologicamente aparentado e posa de “pai” que dá bronca no filho mimado apenas para aparentar, ou dar satisfação social. A conivência das gestões das universidades e Ifs invadidos não é simples covardia, mas sim uma afirmação clara e em bom som, de que se sentem desobrigadas a cumprirem suas funções executivas do Poder Público por discordâncias com as cores ideológicas do atual governo, são uma clara demonstração de que lado estão. E… como fazer algo contra, quando os que deveriam fazer (e por vezes até possuem a responsabilidade e imputação jurídica para tal), estão por ajudar os que deveriam combater? Como defender estas fachadas que terminam por apoiar os que as golpeiam? Devemos esperar “merdas” acontecerem para acelerar as últimas consequências? Devemos causar e instigar as últimas consequências?

Lutar o bom combate é difícil, quando certo lado esquerdo é tão afeito a baixarias, fraudes e covardias diversas… e certo lado direito, quando não se esconde, termina por causa repulsa. Bem, são só pensamentos e talvez alguns estejam retorcidos pela irascibilidade.

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Pensamentos sindicais

Não acompanho movimentações sindicais de dentro – poderia fazê-lo – mas prefiro me inteirar do possível por fora, e ao longo destes anos trabalhando como funcionário público (estadual e federal) algumas convicções se reforçaram em mim e diante do cenário que aparece no plano nacional, em especial dos professores estaduais, resolvi expor algumas delas achando que talvez seja útil para alguém.

Antes de mais nada, me parece que, nos últimos anos, em todas as greves que vi do setor, cá ou noutros estados, não houveram sucessos reais. Houveram aqueles “sucessos” de tapinhas nas costas entre os companheiros, aqueles tapinhas de sorriso insosso e frases de otimismo forçado pra esconder o que realmente se passou. Creio que boa parte dos desarcertos disto tudo sejam resultados diretos de três grandes fatores. O primeiro diz respeito a própria concepção de “sindicato” de professores. A segunda diz respeito ao erro de tática da luta sindical e o terceiro ao monopólio dos sindicatos por parte de certos partidos e tendências ideológicas. Vou tentar expor do modo mais econômico possível.

1.

O primeiro erro me parece ser o do pressuposto de que o esquema clássico da luta sindical pode ser transplantado, sem nenhum ajuste, para o serviço público. O esquema conceitual marxista da Luta de Classes, força a identificação do professor com um proletário e do governador com o patrão, considerando que a situação das empresas privadas é a mesma do serviço público. Isto não me parece que é assim, nem muito menos que funciona assim, mesmo após tanta doutrinação e pressupostos não revisados. O professor poderia, muito mais, como o médico e outros servidores, ser visto como um membro do Executivo, como o policial, ele é parte do Estado, representante deste em certa medida, executor direto de uma função constitucionalmente atribuída ao Poder Público. Me parece, a princípio, que ele não deveria ser visto como um “trabalhador terceirizado”, contratado para um serviço que não fosse final ou importante. Ele deveria ser visto como agente do poder público no campo da Educação, como parte do Estado, e uma parte “fixa”, ao contrário da contingência dos mandatos eleitorais.

Outro ponto importante me parece ser a incorporação de uma espécie de lógica liberal de “livre-concorrência” entre os sindicatos, permitindo que surjam milhares deles para a representação de um ofício, por sua vez, subordinadas as diversos sindicatos de sindicatos. Há uma recusa de unidade impressionante, camuflam o interesse monetário (sobre taxas de arrecadação) com a desculpa de que centralizar e unir a representação da classe é coisa “faxista”, etc.

2.

Os principais erros táticos dos sindicatos me parece que poderiam ser resumidos na seguinte assertiva: estão querendo ensinar a missa ao vigário. Os governos dos estados em boa parte, e em especial ao do País, é formado por ex-sindicalistas, pela gente que profissionalizou o sindicalismo no país. Utilizar as mesmas receitas é jogar com as cartas marcadas e contra quem deu o baralho. Seria necessário novas táticas, cujos movimentos não possam ser previstos e evitados pelos antagonistas, utilizar a imprevisibilidade, reforçar acordos sólidos de cooperação verdadeira e orgânica com os outros sindicados e representações dos demais funcionários públicos, etc. Neste quesito, em especial, repito cá uma indicação que fiz num áudio nos tempos do blog PBPagã ao comentar uma repressão policial a um movimento grevista de professores (que parece ter se repetido de forma ainda mais intensa no Sul do país): os políticos jogam a PM contra os professores, estimulam o excesso (seja pela ordem expressa de um lado, seja pela irresponsabilidade dos religiosos da “lutadeclasses”), a mídia cai em cima do excesso da PM e os que ordenaram tal, ou permitiram e são responsáveis, ficam incólumes, “salvos”; de repente todos esquecem que a PM está juramentada a cumprir ordens, que não age sem que haja, lá no fim da cadeia de comando, uma responsabilidade politicamente atribuída… A saída seria uma união, sedimentada com compromisso “sagrado”, entre os representantes de policiais e professores, entre os executores da força e da persuasão educativa. Esta aliança, entre “brâmanes” e “xatrias”, verdadeiramente, tremeria qualquer governo e seria um poder realmente capaz de algo. Permitir a estratégia de dividir pra conquistar e da ocultação das responsabilidades não dá certo, nem dará… Termina que, basicamente, a truculência vira boi de piranha e serve para resguardar os reais responsáveis – que ficam na penumbra – e para fortalecer o discurso divisionista e rancoroso dos setores da extrema-esquerda que controlam os sindicatos, o que nos leva ao terceiro problema.

3.

É complicado de haver real oposição e comprometimento com a classe quando os representantes via sindicato, no final das contas, quando o nó arroxa, são do mesmo time do governo; No final, estão todos do mesmo lado, seja por os primeiros ambicionarem cargos políticos no governo seja por compartilharem do mesmo conjunto ideológico, preferindo o atual governo ao “bichopapão” da oposição satânica. Começa a acontecer greves “meia-bocas”, greves que são puxadas pelas bases contra a implicância dos sindicalistas profissionais, quando não são autossabotadas pelo próprio sindicato – por um lado se cria um movimento, um algo, para aplacar os radicais e insatisfeitos, mas por outro lado já se assegura que a coisa não vai longe, que não se “mije fora do penico”. Mesmo que hajam brigas reais (por exemplo, os sindicalistas são trotskistas e o governo é da esquerda-progressista, como se estes setores brigassem… mas imaginemos), todos se tornam amiguinhos contra os malvadões da oposição. Eis a grande brecha, que permite que o governo, inclusive o federal, se aproveite dos confrontos e desacertos, especialmente quando cometidos em um estado onde governa a oposição… Rapidamente, surgem discursos inflamados, mas quando um governo aliado ou do próprio partido do governo, faz coisas semelhantes ou piores, se silencia ou se diminui os fatos e esse pessoal, que se julga exemplo, tão politizado e do bem, engole quieto, por que, no final, compartilham da mesma fé.

Por outro lado, se os sindicatos não fossem tão maciçamente controlados por ideologias da religião da “lutadeclasses” talvez houvesse uma maior possibilidade para pensar em táticas e estratégias inovadoras. A velha ladainha da “puliça-faxista” (que oculta a real responsabilidade de quem dá ordens a PM), o velho romantismo do confronto do “bem” x o “mal”, etc. Já há tempos que é instrumentalizada e mapeada por qualquer um que tiver o mínimo de disposição para analisar com seriedade as coisas. Por um lado, os velhos sindicalistas são sujeitos aburguesados (dentro dos próprios conceitos marxistas), acovardados ou conformistas, se não com as instituições, mas com os tais conceitos marxistas – tratando-os, na prática, como “sagrados”, como doutrina religiosa inquestionável, negando-se radicalmente a questioná-los criticamente ou a se quer pensarem se sua suposta eficácia realmente é eficaz. Por outro lado, os professores mais politizados que não se identificam com a extrema-esquerda e/ou este conjunto de crenças, ficam isolados, sem organização e perdidos, e terminam ou por converter-se, alimentando o “sistema” interno, ou por afastarem-se, evitando sua mudança. E nisto nada se resolve, os de sempre se beneficiam, e as engrenagens giram no eixo.

Tem gente neste meio que sabe disto tudo, mas por cegueira dogmática, ou psicopatia mesmo, insistem na Luta de Classe desejando ardentemente que um dia sua tão sonhada guerra civil estoure e ele possa ajudar (engraçado que os tipos que sonham com tais coisas, ao contrário de 30 anos atrás, são os mais burguesinhos, que se travestem de revolucionários como fetiche pessoal de autoconvencimento e adereço estético) a implantação messiânica do Reino dos Céus Comunista na Terra, este são desejosos que alguns inocentes percam a vida, que alguns companheiros sãos sejam realmente mortos, se necessário for. Mas não representam a totalidade, pelo que vi, dos sindicalistas, claro, há os que só querem a promoção política, os que só visam o lucro, não trabalhar (viver da representação), aproveitar-se da vida social e dos encontros, farrar, passear “de graça”, etc. – mas também há pessoas realmente crentes de que poderão melhorar a vida e as condições dos companheiros de ofício e é a estes que me direciono.

Tentando resumir, ao que me parece (e claro, sou um mortal comum, estou ciente de que provavelmente esteja errado), os sindicatos dos professores públicos precisam de uma faxina (precisam ser exorcizados de certa hegemonia partidária e ideológica), suas estratégias e táticas precisam ser atualizadas, reorientadas ou refundadas completamente (especialmente levando em conta sua ação conjunta com os demais agentes do Estado) e sua própria concepção-base precisa ser revista. É preciso ousar questionar o dogma da importação da Luta de Classes do serviço privado para o público, é necessário ver alternativas (como as visões corporativistas), é necessário admitir que esta via batida já não oferece real oportunidade de uma mudança significativa.