E eis que fui ler o Corão…

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Diante de opiniões tão inflamadas acerca do Islã, é fácil deixar-se ser guiado por simpatia ou antipatia a um certo “bloco”, com o qual, por n motivos, previamente nos identificamos. Afinal, seria toda a questão da “Islamofobia” uma simples construção yankee imperialista para instrumentalizar certa “direita”?

Bem, eu ganhei uma versão do Corão anos atrás em um evento e resolvi fazer o que mais prudente me pareceu para tirar minhas próprias conclusões: ler. Claro, tive certo treinamento, digamos, filológico e hermenêutico (em minha formação em Filosofia) e estou demasiado ciente da importância do idioma original, etc. especialmente em textos que são vistos como registros literais das revelações (diferentemente dos evangelhos cristãos, por exemplo). Mas, estudar o idioma árabe apenas para esta leitura não me pareceu necessário: nas partes em que desconfiei mais da tradução, recorri as ferramentas virtuais (abundantes!) em inglês, que comparam e comentam o árabe original. Bem, ainda não terminei a leitura (estou caminhando para a metade e, confesso, desestimulado), mas resolvi postar cá umas primeiras impressões e reflexões. E claro, é bom dizer em bom som: não sou um especialista em nada disto, tratarei o texto como alguém “de fora”.

Comparado aos textos do Cristianismo contidos na Bíblia cristã (“Novo Testamento” e as cartas de Paulo, etc.), o Corão tem me parecido mais, na falta de uma palavra melhor, “potente”: as revelações se deram a Maomé em diferentes momentos, mas mantém uma maior coerência interna (o que seria de se esperar, no final das contas, é um texto de “uma só cabeça”, diferente dos evangelhos). Talvez o que se possa comparar melhor, neste sentido (de um só autor “inspirado”), seja as próprias cartas de Paulo, mas estas, diferentemente das suratas do Corão (apesar destas também condensarem momentos teofânicos, digamos), foram escritas para comunidades cristãs diferentes e focadas em questões específicas daquelas comunidades. Além disto, há uma retórica mais inflamada e que transparece, de fato, um maior estado de “transe” ou influência mística na escrita de algumas das suratas, em oposição – novamente – a uma prosa mais “tranquila” que predomina nas cartas de Paulo ou na redação de alguns dos Evangelhos. Talvez, caso eu não esteja enganado, este tipo de “atmosfera” discursiva na Bíblia cristã, para comparação, aparece mais em um texto como as Revelações, por exemplo. Pelo menos foi a impressão que ficou em mim.

Ainda em termos de uma certa estilística, pelo pouco que conheço, o Corão traz certas repetições de frases específicas que – não procurei, nem terminei de ler o texto ainda – talvez formem um padrão: e isto seria um apontamento significativo para certa transmissão oral do texto, antes de uma versão escrita final. Mas não conheço absolutamente nada da formação histórica do texto e talvez seja uma divagação errônea.

Em termos de conteúdo, de doutrina, a leitura do Corão me deixou claro certas coisas até agora. Há sim, incontestavelmente, uma instigação a dominação e expansão guerreira, em termos que agradam qualquer um que tenha um mínimo de virilidade. Mas há, justamente, aquele radicalismo exclusivista ainda mais forte e uma instigação direta ao assassínio de infiéis. Eu como um infiel, não posso deixar de notar que estou na mira de muito do que é exposto ali. É um fato, não é conversa de “islamófobo”. Alguém dirá “ah… mas a Bíblia também tem”, bem, eu retrucaria dizendo: “ok, leia o Corão e depois a gente conversa”.

Particularmente, valorizo o aspecto guerreiro às claras, direto, sem subterfúgios, e não seria diferente do que tem nisto no Corão; no entanto, como caio na “carapuça” do inimigo traçado lá, até por ser o tipo de “idólatra irremediável”, é óbvio, que não tenho como não me sentir incomodado pelas ameças e promessas de destruição. E nisto preciso ser claro: não há um Corão dos sunitas e um outro diferente dos Xiitas, não adianta virem cá dizer que “ah… são os alauítas radicais”, ou “ah… são wahabitas financiados pelos yankees isso e aquilo” eu retrucaria, mais uma vez com “ok, leia o Corão e depois a gente conversa”. As passagens (que são muitas, na 2ª surata e 4ª, por exemplo, há as mais memoráveis para mim, até agora) são claras; contorcionismos interpretativos para torná-las “pacifistas” e “brandas” não passam de subterfúgio… Leiam, não acreditem em mim.

E aqui, me vem duas surpresas até agora: a primeira, é a instigação religiosa a migração (hijra) e conquista (de terras não islâmicas). Sim, isto existe e tem um peso de mandamento moral, tanto que, o sujeito que “se nega” a migrar (o sujeito que ama a própria terra e país), o próprio Alá o desaprova (4:95). O segundo é um certo tipo de comportamento de infiltração, fingido e subversivo que fica nas estrelinhas (talvez a afirmação mais literal seja em 3:28), a taqiyya. Para mim, isto foi uma certa surpresa: no meu pré-conceito inicial, não achava que tal coisa estivesse de fato no texto, mas que fosse fruto de comentaristas posteriores (e de fato, este conceito é massivamente desenvolvido nos comentaristas posteriores, xiitas e sunitas, apesar de mais nos primeiros). Confesso também que, a constante retórica anti judaica (a anti cristã tende a ser menos incisiva) me surpreendeu – novamente, antes de iniciar a leitura, partia do princípio que tal disposição fosse histórica e “posterior”, digamos, oriunda dos conflitos políticos locais.

Bem, aí entram minhas rapidíssimas e modestas reflexões. Nesta altura, não me parece lógico alguém que seja um idólatra irremediável celebrar “parceria”, qualquer que seja, com o muçulmano. Um politeísta que louva qualquer iniciativa que promove o Islã (seja xiita ou sunita) ou é um ignorante, e está sendo iludido, ou é alguém que, talvez não seja politeísta de fato, pelo menos não um tipo que deseje viver sua religião em liberdade. Outra coisa que não me parece lógico nesta altura, é gente que condena o comportamento de infiltração subversiva dos judeus, atribuindo-lhes toda sorte de desgraças e perigos, nas sociedades ocidentais não dar um só pio em relação a algo tão claro como perigo de subversão política e cultural da taqiyya (aliada a hijrah) entre os muçulmanos, que, virtualmente, torna qualquer um deles, não-confiáveis a priori (lembrando que o Corão autoriza claramente o muçulmano a mentir e trair os idólatras, vd. 9:3 a 5). Condenar um (suposto) e não outro (que é textualmente factível), ou é fruto da ignorância, novamente, ou de uma preferência velada pelo jugo mouro.

Infelizmente (pois, me pareceu decepcionante, de fato – além de que é uma espécie de “dar o braço a torcer” a pessoas que antes julguei exageradas), para mim já ficou claro, com o que li (tanto que, a preguiça já me diz que nem preciso ler mais, nem preciso terminar de ler o Corão, o que li já basta…) que, invariavelmente, não há “acordo” possível. Minhas pré-disposições oriundas de um otimismo místico guénoniano se foram de uma vez. Como cerrar fileiras com isto?! E vejam que não quero entrar nas questões históricas do que politeístas sofreram ou que estão a sofrer (hindus, politeístas indo-europeus, familiares religiosos nossos, por exemplo) neste momento.

Quando decidi postar isto cá, pensei por um bom tempo se, ao invés de uma postagem deste tipo eu não deveria simplesmente sair copiando e colando versículos de suratas que, no meu ver, falam por si. Claro que, sempre ficaria aquela conversa de “recortes” fora do contexto e de propaganda da “oposição”, etc. Já que estou terminando esta postagem advogando por um distanciamento. Mas desisti: não é preciso isto, antes é mais prudente pedir aos interessados que leiam e tirem suas próprias conclusões.

Se por um lado, temos divergências radicais com o cristãos, ao menos possuímos um histórico civilizacional comum, e podemos estabelecer certas zonas de diálogo ético, pela base helênica (e indo-europeia, gostem eles ou não) nesta matéria que compartilhamos. Mas com o muçulmano, por mais que admire sua disposição guerreira, partimos de um histórico civilizacional não apenas diverso, mas agonístico: olhando para a Reconquista na Ibéria, só consigo me ver batalhando do lado dos meus ancestrais cristianizados… E por mais que estes, olhem para mim hoje com reservas por ser um “idólatra”, entusiasta dos deuses dos nossos ancestrais ainda mais antigos, eu (EU) sinto que homenageio o esforço deles, minimamente, não me curvando em namoros com o Islã: não por pura “birra”, mas justamente, por entender melhor contra o quê eles lutaram, tombaram e venceram. Não se sacrificaram em vão. Pagar a jizya, no final das contas, é o que (eles, os muçulmanos) nos propõem, caso não nos convertamos ou sejamos mortos.

Talvez isto pareça decepcionantemente simplista e seja mais fácil me culpar de “desinformação” ou de ter sido cooptado, ou o que seja. Mas “pagar de pró-muçulmano” por ranço anti-yankee ou por desaforo anti-conservador, seja lá como for, é uma atitude adolescente e perigosamente ingênua. Se tu, leitor, achas que estou sendo precipitado ou preconceituoso (sendo instrumentalizado pelo complô liberal-conserva-xenófobo, ou seja lá como desejas chamar), ótimo – desde que isto te instigues a ler o Corão e tirar, tu mesmo, tuas conclusões.

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Artigo elucidador, conferi:

Do Mau Gosto da Matéria


Voto nulo não anula a eleição. Esse mito surgiu de uma equivocada interpretação da lei eleitoral. O voto deliberadamente nulo, o voto nulo por intenção ou erro no manuseio do sistema de votação, seja cédula, seja urna eletrônica, nunca, nunca abriu a possibilidade de anulação do pleito. Isso se dá apenas e dão somente se a nulidade do voto for sacanagem das grossas, ou seja, a nulidade estiver na intenção do voto propriamente dito, voto que anula eleição é o voto dado com vício de consentimento ou com consentimento fora da normalidade do jogo eleitora. Em miúdos: compra de votos, voto de cabresto, voto coagido, etc.

A idéia surgiu da leitura apressada do seguinte artigo do Código Eleitoral:

Art. 224. Se a nulidade atingir a mais de metade dos votos do País nas eleições presidenciais, do Estado nas eleições federais e estaduais, ou do Município nas eleições municipais, julgar-se-ão prejudicadas…

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