Confabulações sombrias 1

Os que me conhecem, sabem de minhas inclinações políticas e de minha crítica ao governo do PT. Nisto, mesmo que por vias diferentes, termino no rastro de meu pai, confesso, ferrenho anti-PTista desde os tempos em que trabalhou no ABC paulista e viu pessoalmente a ação do sr. Lula quando era um mero sindicalista. Por outro lado, também sabem de minha crítica aos EUA, apesar de reconhecer que agem em prol do país deles, e a toda a estrutura de Revoluções Coloridas e engenharia social liberal-progressista (que cá é aplicada pelo PT também, talvez até com mais ênfase, como se tivesse que provar ser digno de confiança pelo Financismo Global). No entanto, como não sou um cidadão do mundo, não consigo, por mais que tente, sobrepor as questões geopolíticas externas às internas. As internas, pra mim, concretamente, diariamente, aparecem em primeiro plano, o que, no final das contas, me deixa mais próximo dos meus amigos e familiares, gente de valor provado, unidos contra este governo e mais distante dos teóricos do mundo perfeito, alguns deles conhecidos e mesmo “chegados”, que enchem os espaços virtuais, pendurados em cima do muro ou receosos em assumir que apoiam o PT ou que são virulentos anti-comunistas, mas que toleram os comunistas por ódio às Olavetes. Dito isto, vamos ao que, efetivamente, eu deseja cá compartilhar:

Em mero exercício de pensamento, mera especulação, um mero pensamento sombrio.

  1. considerando o tom das conversas grampeadas entre o sionista Jacques Wagner e o Rui Falcão.
  2. considerando certos “silêncios” de setores atuantes da militância PTista como sendo um silêncio de quem está trabalhando e não de quem está atônito.
  3. considerando mais uma ruma de coisas:

Se – SE – eu fosse o estrategista do PT, neste momento, estava desejando que as manifestações do dia 18 (hoje) aconteçam de “todo jeito”, de “bolo” – se for muita gente, ótimo, se não, OK também, será tempo ganho e propaganda jornalística pelo final de semana garantido, de todo modo. O que importaria seria ganhar tempo: tempo para comprar apoio do Congresso, para inviabilizar o Impedimento, para atacar a Mídia opositora (ou que ficou em cima do muro), para organizar a militância.

O importante mesmo seria “ganhar” a classe baixa, a mais “minoria”, caricata pobretã de todas – e para tal, num contexto de Guerra Total, mentiria terrivelmente, dizendo que os inimigos, os “Golpistas”, vão acabar com todas as conquistas sociais amanhã, caso Lula seja preso hoje. PRONATEC, SUS, tudo, absolutamente tudo, afinal o Brasil não existia antes do PT. Não se trata de mentir, mas de arregimentar com tal artifício o máximo de gente inculta e ingênua, e mais importante ainda, de gente que se sinta grata, verdadeiramente, devedora do governo do PT. Ter o apoio destas massas é condição sine qua non para a primeira linha de resistência.

Os movimentos “sociais” são inorgânicos e inexpressivos na conjuntura geral, é necessário que esta parcela da massa, anônima, engrosse as fileiras. Tal enchimento os faria parecer legítimos, orgânicos e expressivos. Toda a máquina e todos os centavos acumulados nos últimos anos para isto devem ser empregados. Gente na rua, Vermelho, Estrela do PT, Foto de Lula, o Deus Lula e sua sacerdotisa Dilma, no culto glamouroso da materialista “religião” PTista.

Ao mesmo tempo, paralelamente, eu aceleraria o contrabando de insumos de guerrilha vindos da Venezuela e Cuba: fuzis, munição, explosivos, pessoal capacitado. Reteria uma parcela do MST para ir operando a logística: receber, transportar, “aquartelar” os insumos estrategicamente por todo o Brasil. A outra parcela do MST, talvez até minoritária, iria para as ruas cumprir seu papel de fachada. O importante seria ter um Boi de Piranha, para chamar e reter a atenção pública e livrá-la de perceber a preparação da guerrilha. Esta seria a preparação para uma segunda linha de resistência.

Faltaria uma “false flag”. No caso, bastava colocar um PTista qualquer para, vestido de verde e amarelo, armado, matar alguém do MST ou simular um atentado contra algum PTista do alto escalão (ou contra uma sede emblemática do Partido). Pronto, este estopim seria aceso no momento certo, caso o Projeto do PT fosse, de fato, sofrer o golpe fatal por parte dos instrumentos jurídicos institucionais. Se a primeira linha de resistência ainda existir, afinal, suponhamos que houvesse algum êxito em mobilizar os “Excluídos do Mundo” (como chamava Ernst Bloch), ela poderia ser reforçada/inflamada se o false flag envolvesse algum tom sórdido ou sádico (como o assassinato de uma família “inocente” de algum assentamento do MST). Toda a grana mandada pra fora, pra os “camaradas” vermelhos (Cuba, África, América Latina), seria cobrada de volta por meio de armamento e apoio.

Aí a segunda linha, de guerrilha e das vias de fato, emergiria com alguma desculpa moral ou justificação romantizada que caísse bem aos olhos do “mundo” (leia-se a “intelligentsia” midiática progressista-humanista, por vezes de Esquerda, do mundo).

Se – SE – com a emergência da ação de Guerrilha não se alcance êxito rápido, suponhamos que houvesse uma resistência cidadã armada espontânea com apoio de setores das PMs estaduais, entraríamos na terceira linha de resistência que seria o chamado oficial para as Forças Armadas da Venezuela (e Bolívia, talvez Cuba) entrarem ou apoiarem. Comunistas de toda a América Latina viriam para uma tão sonhada “guerra santa”. Obviamente, que neste ínterim, teríamos um terrível “maiden”, pelo menos nos grandes centros como SP e Brasília, que traria a superfície os tentáculos Bolivarianos e do Tio Sam (se bem que, neste momento um Trump da vida tem preocupado mais o stablishment lá que uma possível ascensão do “comunismo” no Brasil), de modo que muito tristemente, deixaria de ser algo pelo Brasil e passaria a ser algo pela “Pátria Grande” bolivariana ou pelo jugo Yankee. Seria a realização depressiva da nadificação do país: ou um grande apêndice bolivariano ou um grande quintal yankee.

Ora, algum leitor talvez pergunte, por que deixei de fora as FAs do Brasil?

Bem, suponhamos que a amizade de uns generais com o então Ministro da Defesa, o comunista Aldo Rabelo, seja, de fato, verdadeira. Suponhamos também que seja verdade a conversa de que a ABIN estava monitorando o juíz federal Sérgio Moro e repassando os informes para o Governo, ou seja, agindo em favor deste governo. Suponhamos também que, os setores radicalmente anti-PT das FAs estejam na reserva, herdeiros do imaginário da Guerra Fria, esbravejando espumantes mas presos, pelo dever assumido noutros tempos, hierarquia ou pelas condições gerais e que, no final das contas, prevaleça o entendimento entre os que estão na ativa de que este governo é o legítimo e que deve ser mantido a todo custo. E por último, suponhamos que, de fato, as FAs não desejem “se queimar” intervindo. E mais, no pior dos quadros, não saberíamos em favor de quem se poderia dar tal “Intervenção”, já que, para o bem e para o mal, o pessoal de hoje não é o mesmo dos anos 60.

Se tomarmos estas suposições, as FAs não interfeririam até romper, de modo quase “regular”, uma guerra civil de fato. Ou seja, talvez já depois de atores bolivarianos mostrarem as caras à luz do dia em solo nacional, e dependendo do nível, na superfície, da tensão geopolítica mais ampla, a intervenção poderia ser em favor de qualquer dos lados, para a decepção dos que sonham com uma Intervenção Militar nos moldes de 64.

Ou seja, em modo de tudo ou nada, de Guerra Total, o PT teria mais meios de resistir do que pensa boa parte daqueles que o PT chama de “classe média” ou, simplesmente, de golpistas. Resta agora saber confabular, imaginar e exercitar o pensamento de como seria na outra perspectiva, imaginar a derrota final do PT.

Visões sobre o Caminho do Guerreiro (18/5/2013)

Originalmente publicado no finado PB Pagã em 18-3-2013

 

Saudações.

Um texto escrito meio que a título de notas e que ouso compartilhar aqui, por crer que será útil para alguns – mesmo que seja para despertar uma atitude crítica.

O Cão de Culann e seu cocheiro

i. O Caminho do Guerreiro sofreu um inflexo histórico dentro do Paganismo, outrora fora mais numeroso e novamente deve aspirar a tal. Dentro da tradição, os soldados devem ser mais numerosos que os sacerdotes/intelectuais, apesar de menos que os produtores/artesãos.

ii. Cada religião pagã que novamente renasce, autenticamente fincada na visão arcaica Indo-Europeia, aspira pelo refortalecimento do Caminho da Espada, pelo cultivo da Vontade de Ferro, pois são os Tempos que clamam, o fim de uma Era que impõe.

iii. O Ser no mundo pressupõe a Guerra, o Devir, o Conflito, a tensão de opostos é requisito à harmonia, o conflito é congênito ao que existe, primordial e primevo, como o Fogo e a Água – a união pressupõe a separação, identidade e diferença.

iv. É necessário, pois, resgatar a Metafísica da Guerra, retrilhar o Caminho da Espada, rebuscar a Iluminação no Campo de Batalha; para os feitos tornarem-se imortais e a possibilidade de ascensão ao divino ser concreta. O caminho para a montanha ainda é acessível aquele que batalha e peleja e não apenas para aquele que medita e contempla. A contemplação em excesso, passividade aumentada, leva a um estado efeminado dominante, a um desequilíbrio na balança. É necessário afastar o materialismo vazio, o esporte niilista, o culto ao adorno e parafernália; é necessário resgatar a disciplina viril, excelência austera e o desprezo pela bajulação e falsidade. A honestidade radical e rude, a ferocidade e amizade do cão. Olhemos uma vez mais, mas com um olhar verdadeiro, para os grandes heróis e seus feitos, encaremos uma vez mais o frenesi de batalha. Segue, uma vez mais, o Belo Combate. Compreende a mente de um Aquiles ou Cú Chulainn.

v. Uma moral altiva, aristocrática e uma disposição de espírito vertical. A camaradagem horizontal com os iguais, o respeito sereno para os com os dignos, sacerdotes ou produtores. A disposição ao desafio, ao duelo, ao segredo do juiz escondido que pronuncia suas sábias sentenças no campo de batalha. Saber os sinais no céu ou no sangue, a conquista que do cimo parte. A força espiritual que ganha uma guerra. Do controle sobre si ao controle sobre um exército. A acção ao falatório, as consequências às intenções. Eis o que nos espera.

vi. Juramentos, Lealdade – retomemos sem temor. Com horror fiquemos ante a palavra quebrada. Lealdade, Lealdade, quão séria é tua sombra, quão denso teu olhar. A retomada radical da seriedade da Palavra Dada, da Lealdade ante as dificuldades, do comportamento nobre e virtuoso. Eis o que nos espera.

vii. Miremos o que é são e belo. O que é forte e potente, que perdura e ascende, que faz crescer a força da vida, o poder e sua sensação e a experiência habilidosa. Inimigos existem. Honra também. A misericórdia pode ser um veneno inoculado desde muito, mas que num momento, teremos que extraí-lo. É necessário compreender a natureza do violento, os tipos de violência, os usos honrados e covardes. É necessário compreender a natureza do pacífico, os tipos de paz, os usos benéficos e maléficos. É necessário não estar mais preocupado em agradar a mediocridade e saber que há naturezas e naturezas. É necessário ter coragem para batalhas reais, ir além das batalhas “fakes” da mesquinharia.

viii. É preciso uma reflexão ao abrigo do escudo sob um céu escuro de flechas inimigas, é necessário um pensamento na trincheira esfumaçada na saraivada da metralha. Atônito ante a cadeia dos homens que mergulha, caindo como folhas, no Outromundo, no mergulho do caldeirão profundo, ao retorno, marchando em linha. Façamos o céu rejubilar-se uma vez mais, o chão tremer com nossa marcha, o vento carregar nossos alaridos e cantos aguerridos, após nossas trombetas aterrarem os que fogem. Elevemos nossos estandartes, olhemos orgulhosos o horizonte, certos da uma morte digna e de uma existência honrosa.

ix. Hoje não é fácil, o quotidiano nos cega nas quimeras dos sonhos de consumo. O comodismo nos imobiliza, com seduções fáceis e mesquinhas. Nos obrigam a trocar o irreal e lúdico pelo real e mortífero, nos acostumam a sempre arrumar um bode expiatório e a nunca enfrentarmos o que nos aguarda, o Real.

x. O caminho do guerreiro é também o caminho da política. Política e Guerra. Discernir o amigo, o inimigo e o alheio. A militância numa causa, o manejar de uma bandeira, uma postura activa e comprometida, em favor dos valores tradicionais da cultura religiosa. O caminho do guerreiro é também um caminho patriótico. O guerreiro do mundo inteiro é o guerreiro de todos e de ninguém, de toda guerra e de nenhuma. Todos os heróis tiveram pátria/clã/nação sendo honrados e admirados mesmo pelas pátrias/clãs/nações inimigas. O brio excelso extrapola o particular numa fagulha do universal, reflectindo o sol que brilha por sobre todos. O cosmopolitismo/universalismo real tem dificuldade de casar-se com o Caminho da Espada (possui maior facilidade com o caminho do sacerdote/intelectual). Em algum momento, é necessário tomar partido, preferir corajosa e vigorosamente, reconhecer pelo que se luta, solidarizar-se com os seus. Rechacemos o costume covarde de querer agradar a todos, de querer ser o diplomata perfeito, de ser o perfeito impessoal. Não compactuemos com a covardia e o engano deste costume.

xi. Atenta para não cair em certas armadilhas mais frequentes nos caminhos do Radicalismo e Extremismo. Atenta para não ceder por completo a lógica da disjunção exclusiva e revogar por completo a lógica Indo-Europeia da conjunção, atenta para não transformar-te num radical abraâmico que acha que é pagão, cego pelo absoluto da exclusividade. É um erro demasiado sério que deve ser evitado. Atenta igualmente para não cair no subjectivismo e egoísmo “liberal”, no fosso moderno entre o Eu e o meu Povo. É parte de um todo e teu semblante se desfaz no esquadrão em movimento, apesar de teu valor pessoal (que é intransferível) se sobressair no calor da peleja.

xii. Repara na Política, repara nos partidos, repara nos líderes. Lembra-te que, se convier ao teu destino, poderás liderar, ou se não convier, poderás ser liderado, ou alternar entre estas posições conforme a linha traçada. Tenha atenção nas causas que propagandeiam, nas lutas que se levantam. Examina e compara com os paradigmas da tua tradição. Pergunta como os heróis e antepassados veriam e se há algo de novo que merece uma real mudança. Tenha uma atitude combativa. Repara nos exércitos patrióticos e nas forças estabelecidas de defesa social, mesmo que constantemente apresentem seus erros e problemas, pois, para o bem ou para o mal, isto é que vive agora, que recua comunitariamente ao passado; as roupas e equipamentos mudam, as cores e formas, as virtudes e vícios, os excessos e faltas, mas algo permanece ali representado: o espírito combativo, o impulso guerreiro. Não há dinheiro ou salário que pague uma vida, nem ouro que compre o valor individual num embate ruidoso.

xiii. O caminho do guerreiro deve ser vivido profissionalmente, sempre que possível. Procura, pois, servir nas profissões que assim o possibilitam: Polícias, Exército, Bombeiros, etc. Pratica jogos que simulam (o jogo nasceu da simulação do combate) e aperfeiçoam, mas não o pratica como um “burguês”, pelo fetichismo em si mesmo fechado, pelo culto do exterior e pelo mero êxtase dos sentidos. Pratica como “hobbista” e não como profissional, pratica com um propósito claro e distinto, com uma finalidade prática e útil. Acostuma-te com armas, suas diferenças e propósitos, conheça-as cada uma, na sua saúde ou doença: são ferramentas e extensões de teu próprio corpo as quais nossos antepassados costumavam levar nos próprios túmulos e piras consigo ao Outromundo.

xiv. Disciplina e hábito, treino e condicionamento. Exercícios. Saúde e vontade de aço. Corpo são, mente sã. Alguns simplesmente não entenderão – talvez seja necessário sentir, além de compreender. É verdade, há algo de profundamente terrível, há algo de profundamente perturbador e que pode levar ao asquerosamente sanguinolento e brutal, diriam os romanos: bellum dulce inexpertis. É onde desponta o melhor e o pior, é onde a natureza humana se perde e se encontra, se desfaz e se constrói.

xv. Peior est bello timor ipse belli. Há guerras e guerras e diversos frontes. Uns mais arriscados, mais visíveis e brutos, outros mais seguros, escondidos e delicados. Há grandes batalhas e pequenas batalhas, encontros rápidos e longos. Há recuos e avanços, derrotas e triunfos. Às vezes mesmo uma injustiça pode cair sobre nós, como uma nevasca terrível que alcança um desabrigado nu, e demorar com seu peso a nos fazer mover e reagir. Mas lembremos da Noite Mais Longa, sua escuridão e promessa, do Sol Invicto que desponta depois.

xvi. Mesmo uma vida corriqueira, imersa em rotina e com seus momentos de banalidade, pode oferecer um lapso, uma brecha e oportunidade, de no passo honesto e firme, destemido e virtuoso, mesmo que nas pequenas coisas, de uma vida que vale a pena, de uma existência heróica e bela. Não é preciso equipamento caro, nem a mais recente tecnologia – não invejes quem somente disto dispõe, portanto. Uma vida simples e excelente brilha com algo de heróico, um heróico um tanto estóico, por sobre os feitos comuns do vulgo. O exemplo para teus filhos, a fortaleza para tua casa, a companhia para teu cônjuge, um orgulho aos teus maiores e, quem sabe, uma luz para teu povo.

xvii. Quando a espada, a enxada e a récita integram-se num todo orgânico, o mundo harmoniza-se são na dinâmica do que é natural, elevando-se como incenso espesso de um fogo sacrificial, obtendo a presença dos deuses grandiosos e a possibilidade do fenomenal, do que transvalora o comum, numa momento epifânico luminoso. O caminho da espada não é para todos, como não é a vida intelectual/sacerdotal, e mesmo não é a produtiva/artesã; mas é algo que pode ser compreendido por todos que há diferentes caminhos e passos e que a desigualdade é natural. A natureza selecciona, separa, divide, une. Ressurgirá a tensão atávica pela Irmandade de Guerreiros, “isolados” e devotos, pelas tropas de elite casados com a Morte, pelo desejo de superar e exceder. Não se pode reprimir isto para todo e sempre, nem deixar tal erupção ao léu; ao contrário, sábio e precavido é quem o antevê dentro dos Ciclos do Mundo.

xviii. Uma comunhão de guerreiros talvez tenda (sem moralismos torpes) a uma “milícia”; mas não se trata de incentivar uma militarização do Paganismo, não se trata da transgressão (hybris, peccatum) de submeter o puramente religioso ao político/militar, mas de relembrar que há algo de religioso (muito mais connosco que com as “religiões da paz”) no militar/político. Não se trata de pôr o guerreiro acima do sacerdote/intelectual, mas simplesmente de enfatizar sua igual necessidade.

xix. Se tu és do que carregas contigo uma espada, aceita teu Destino e Natureza. Branda-a alto e não te furtes. Retoma hoje na tua religião o Caminho da Espada, procura os teus iguais, lembra-te que esta classe tendia a ser mais ampla que a sacerdotal. Age. Os deuses da Guerra nos miram. Corramos pelos campos em formação e murmúrio, não temamos a visão do rubro assento onde se senta o Senhor da Guerra, com sua lança e corvídeos (ou abutres). Como cães correndo no campo, como lobos numa matilha pela floresta. Não esqueças que os guerreiros são algo aparentados por dentro, por mais que hajam germânicos e celtas, romanos e gregos, africanos e ameríndios, asiáticos e polinésios. As virtudes excelentes, os códigos de honra – não são brincadeiras, nem “interpretação de papéis”, são reais e podem ser uma vez mais vividos. Integralmente. Sem concessão, sem “RPGísmo” de raquíticos, sem chorumelas desvairadas.

xi. Agora, é necessário uma moção, um movimento, um passo firme. Não basta pensar, apreciar, admirar, é necessário viver.

Os discursos, o Exército Brasileiro e as políticas antidrogas na América do Sul

Texto da sra. Fernanda Corrêa Historiadora, estrategista e pesquisadora do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense. Fonte PND. Vale a lida para os interessados nas questões nacionais.

~~~

 Nos dias 15 e 16 de abril, ocorreu em Cartagena das Índias, na Colômbia, a 6ª Cúpula das Américas. Três questões imprescindíveis para a estabilidade e paz no continente americano permaneceram sem resolução, sendo elas a inclusão de Cuba nos próximos encontros da Cúpula, endosso ao pleito da Argentina pela soberania das ilhas Malvinas e as políticas antidrogas na região sul americana. Dada a importância da política antidrogas no cenário estratégico mundial e a displicência com que os chefes de Estado têm tratado a temática em fóruns e organismos internacionais, se dará a notoriedade que o tema merece no DefesaNet.

Durante as sessões desta Cúpula, o discurso voltado para a regularização e liberação das drogas foi tratado com ênfase por empresários e endossado por alguns chefes de Estado. Há um consenso no Brasil de que a Estratégia Nacional de Defesa (END) tem que estar em plena harmonia com a Estratégia Nacional de Desenvolvimento. O tráfico de drogas, além de um problema político, é também um problema social. Cada Estado é livre para adotar o sistema de políticas antidrogas que preferir; porém, é preciso analisar e contrabalançar se os problemas advindos desta opção e a implementação de políticas públicas que operem na remediação destes problemas são mais compensatórias do que o Estado investir na prevenção dos problemas, fortalecendo e aparelhando as suas Forças Armadas. Os famosos “mulas”, pessoas que se prontificam a carregar as drogas em troca de benefícios pessoais e financeiros, são o que mais são prejudicados pelo tráfico. Em geral, são pessoas desesperadas com dificuldades financeiras, desempregadas e/ou baixa escolaridade. Isso significa, na pior das hipóteses, além dos problemas históricos e estruturais que o País possui, será necessário desviar verbas públicas destinadas aos problemas já existentes para a construção de mais presídios. Cientes de que há uma fragilidade sistêmica e estrutural regional no combate ao narcotráfico, ao invés de reunir esforços políticos e militares, inclusive, com a cooperação militar dos EUA, algumas autoridades políticas e empresariais preferem ceder às pressões e ameaças do crime organizado.

A visão que defendo sobre o papel dos EUA na América do Sul, apesar de concordar com os malefícios desta presença militar na região, é do ponto de vista colombiano. Durante anos, este país tem problemas com guerrilha, assim como muitos países da região também o tiveram. No entanto, preocupados, exclusivamente, com os limites fronteiriços e interesses geopolíticos próprios, os governantes brasileiros se isentaram de participar ativamente no combate as ilicitudes, justificando a sua neutralidade pela não intervenção, não ingerência e autodeterminação dos povos. Esta opção brasileira pela não ingerência, tornou ainda mais grave a situação de repressão à guerrilha para os colombianos, à medida que, ao passar do tempo, estes perceberam vantagens no narcotráfico. Isolados politicamente, enfraquecidos economicamente e fragilizados socialmente, as autoridades políticas e militares colombianas não tiveram outra opção a não ser aceitar a insistente ajuda estadunidense no combate ao crime organizado na região.

Dois discursos precisam ser desmistificados no Brasil: o de que o brasileiro é um povo pacífico e o de que o Brasil não deve intervir em assuntos internacionais. Um país que se encontra na posição de terceiro maior na lista da ONU de homicídios não pode ser considerado tão pacífico quanto se discursa interna e externamente. Além disso, embora o Estado de vigilância permanente nas fronteiras esteja sendo cumprindo pelo Exército Brasileiro, qualquer decisão no plano estratégico que seja tomada, de forma isolada, torna ainda mais custoso e mais trabalhoso o cumprimento de sua missão. Ao zelar pelo pelas fronteiras nacionais, desconsiderando políticas de defesa conjuntas com outros países da região, além de adiar e agravar os problemas advindos do narcotráfico tornam os vizinhos receosos e desconfiados quanto às ambições brasileiras na região.

A estratégia de presença nunca foi uma estratégia militar do Exército Brasileiro; mas sim, uma estratégia de ocupação e domínio territorial dos portugueses ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII. A estratégia de presença conquistou na atualidade a conceituação de Exército de Vanguarda, o qual ainda mantém o combate terrestre em módulos de brigada. O monitoramento, o controle e a mobilidade, tal como preconiza a END, fornecerão apoio logístico as forças terrestres. O cumprimento, de forma eficiente, de proteger a Amazônia, por exemplo, se torna inviável sem o aumento, em curto prazo, do efetivo militar na região, sem o devido investimento em novas aquisições tecnológicas militares, sensíveis e duais, sem a realização de simulações, treinamentos e operações militares que combinem ações de selva e o uso de blindados, revisões e novas discussões sobre a Lei do Abate, mais investimentos em mapeamentos cartográficos da região amazônica, a realização de mais operações do Plano Estratégico de Fronteiras, como as edições da Operação Ágata, e, principalmente, sem a aquiescência e revitalização da indústria de defesa brasileira. Para além destas questões, em âmbito regional, políticas de defesa também precisam ser amadurecidas, planejadas e implementadas, tais como operações conjuntas com as outras Armas e polícias da região, criação de um sistema jurídico regional que puna desde o produtor até o consumidor das drogas, (re)discutir a situação jurídica de territórios indígenas na Amazônia Legal, criar comissões regionais de vigilância das fronteiras, criar empresas bi ou multinacionais que possuam a expertise na fabricação de armamentos, maior integração das economias sul americanas, incentivando a compra de bens destes países e contribuindo com a diversificação de suas economias, firmar acordos de cooperação tecnológica na forma de consórcios regionais, formalizar de acordos regionais de monitoramento do espaço aéreo, unificar procedimentos e negociações entre todos os Estados com interesses convergentes, facilitar a aquisição/ venda de produtos estratégicos de defesa, possibilitando que a fabricação ou parte dela seja realizada em outros países e, principalmente, visão estratégica de mercado. É importante frisar esta última questão, principalmente, no caso brasileiro, pois, como se sabe, boa parte dos armamentos utilizados pelas Forças Armadas brasileiras é de origem estrangeira. Os produtos e tecnologias militares produzidas pelas empresas nacionais possuem excelência em qualidade. Para as Forças Armadas brasileiras é muito mais preferível privilegiar a indústria nacional do que a indústria estrangeira; no entanto, há um certo arcaísmo na visão estratégica de mercado de muitas empresas nacionais durante a fase final da fabricação e mesmo no pós venda de que o cliente que se satisfaça com o bem vendido. Em tempos de paz e, principalmente, em um País que não se envolve diretamente e com frequência em conflitos armados, não falir é uma tarefa de persistência contínua e, sobretudo, de criatividade. Na Europa, em especial, há uma tendência das indústrias de defesa em fabricar produtos de acordo com as necessidades dos próprios clientes. Ou as indústrias de defesa brasileiras mudam sua visão estratégica, principalmente, a de mercado, ou se sujeitam a permanecer a mercê das oscilações da política nacional e internacional. Esta flexibilização, apesar das regras contratuais entre as partes envolvidas, permite que as forças militares cumpram com eficiência as missões que lhes foram destinadas e que as indústrias de defesa sobrevivam em tempos de paz.

Em função do sucesso dos esforços conjuntos entre o Ministério da Defesa, da Polícia Federal e da ABIN, a principal rota do tráfico de drogas na Amazônia brasileira deixou de ser o espaço aéreo para serem os 22 mil quilômetros de rios navegáveis. Um dos principais problemas que o Exército tem enfrentado é a falta de treinamento de repressão ao narcotráfico. Como as polícias federais e estaduais já possuem experiência e maior conhecimento no combate ao crime organizado tem trocado experiências e expertises com as Forças Armadas. No entanto, estas possuem treinamento de operações em selva, efetivos militares, armas modernas, aparatos tecnológicos e veículos militares, como tanques, jipes, blindados etc. Este modelo de parceria institucional tem sido a tendência das Forças Armadas brasileiras atualmente, apoiando logística e estrategicamente as polícias federais e estaduais e a ABIN e ampliando parcerias com instituições, como o IBAMA, o ICMBio, o IPAAM, o Censipam entre outros. A este último atribuirei maior destaque por estar completando precisamente neste mês de abril 10 anos gerindo o Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM), produzindo informações e gerando conhecimentos, alicerçado por um parque tecnológico altamente sofisticado com radares, sensores aeroembarcados, rede integrada de telecomunicações e estações de recepção de dados via satélites que também auxiliam as policias federais e estaduais e as Forças Armadas brasileiras no combate ao narcotráfico na região. Destaque também para o Projeto Radiografia da Amazônia, no qual as Forças Armadas e o Censipam estão produzindo juntos cartas topográficas, náuticas e geológicas do “vazio cartográfico” da Amazônia, área da Amazônia Legal que não dispõe de dados cartográficos detalhados. Além de identificar, monitorar e permitir maior controle de acidentes geográficos na região, este Projeto fornecerá uma importante base de informações que facilitem a implementação de políticas públicas e o desenvolvimento social na região. Isso reforça a importância das articulações de parcerias estratégicas das Forças Armadas com as universidades e instituições de pesquisa de todo o País.

Além dos rios, os criminosos encontram passagens na mata, de um rio para outro. O controle do tráfico nos rios é ainda mais dificultado pela geografia local, em que, além do tamanho da fronteira fluvial, os militares se veem desafiados porque estas malhas fluviais são constituídas parte por savana, parte por selva e parte por água. O exemplo mais emblemático do tráfico de drogas pelas vias fluviais tem sido os 1.200 quilômetros de hidrovia do rio Negro. Além de rota e de distribuição, há a suspeita de que os contraventores estejam refinando as drogas nas imediações de Manaus. Devido à relativa ausência do Estado nestas regiões durante muitos anos, houve um aprimoramento logístico no transporte das drogas, no qual os criminosos tem realizado suas ações desde submarinos, ou melhor, pequenos submersíveis, com reduzidas complexidade e capacidades de submersão e de autonomia. Usufruindo de técnicas e tecnologias sofisticadas, os criminosos têm desafiado as autoridades políticas e militares sul americanas na região amazônica. Embora o Governo brasileiro minimize as preocupações das Forças Armadas com a proximidade de ações guerrilheiras da Colômbia e do Peru com as fronteiras nacionais, o Exército Brasileiro as consideram um risco permanente à soberania nacional. Esta Força tem transferido e mobilizado mais de 3 mil homens para a fronteira com a Colômbia, está criando pelotões especiais de fronteiras, investindo na aquisição de meios de comunicação via satélite e via rádio, como os terminais de dados via satélite Explorer 500 BGAN, e está recrutando soldados entre os próprios nativos da região. Por ser uma área isolada, recrutar os nativos se torna estratégico por dois motivos: evita que estes nativos sejam cooptados pelo crime organizado ou pelas guerrilhas e ninguém melhor do que os nativos para conhecer a geografia, o clima, a fauna e os riscos naturais de uma região tão pouco explorada como essa.

Importante destacar os recentes acordos assinados entre os Governos brasileiro e colombiano para a criação da Comissão Binacional Fronteiriça (Combifron) e a adoção do Plano Binacional de Segurança Fronteiriça. Se a presença estadunidense na região amazônica está sendo válida para a Colômbia, creio que os colombianos possam responder melhor do que eu; porém, há um consenso regional, ressaltado diversas vezes em fóruns e organismos regionais, que, em função de seu peso político e econômico, o Brasil tem que assumir um papel político, econômico, social e militar na região. Considerando os interesses convergentes de outros países que compartilham geograficamente ou não da região amazônica é necessário que mais Estados americanos se empenhem, mais na prática do que propriamente nos discursos, em ampliar, alinhar e viabilizar políticas de defesa antidrogas na região com o Brasil.

Concluo a coluna de hoje ressaltando que um governo que discursa externamente que combaterá com pleno emprego da força o crime organizado regional; porém, contingência o orçamento das Forças Armadas, não está tratando com a devida seriedade a Defesa Nacional e a Segurança Regional.