Reflexões sobre um ‘Império Pagão’ e o Brasil

Após a leitura de um texto do filósofo pagão Alain de Benoist, senti que parte das idéias manifestas tempos atrás (diante na nebulosa leitura do “Imperialismo Pagão” de Julius Evola) sobre certos temas políticos foram organizadas com maestria. Mesmo para quem, profissionalmente, lê filosofia, não deixa de ser impressionante a capacidade de síntese e formulação de certos sujeitos. Recomendo ao leitor aventureiro que por ventura cá aporte, que leia o texto do filósofo francês antes de prosseguir cá. O nosso, talvez, seja uma mera “sombra” projetada timidamente em direção aos Trópicos.

E talvez uma sombra “fuleira”. O tema é por demasiado complicado, requer mais estudo e leituras de minha parte (confesso) e por isto mesmo, muito resisto em divulgar pensamentos cuja lapidação ainda não me transparece a segurança necessária que este tema requer. Afinal, é fácil passar-se por ridículo em tais questões e mais fácil ainda cometer deslizes. Além de que, idéias “esdrúxulas” e pouco presentes nas discussões mais cotidianas, tendem a cercarem-se de uma aura de excêntrico para além do normal. Mas o faço por achar necessário chamar atenção para o tema, mais do que para arvorar-me de propor uma solução e uma palavra final. Para alguém que estuda filosofia, entrar numa discussão ou mesmo acompanhar uma certa reflexão é sempre mais penoso quando não há um claro rigor conceitual e termos elucidados previamente. Infelizmente, não me ative a elucidação conceitual prévia por motivos econômicos: acreditei que deixaria o texto maior ainda, mais prolixo e como se tratava de algo a ser reelaborado depois, tomei a liberdade de usar termos como “dissidência”, “nacionalismo” de modo um tanto quanto intuitivo. Vamos lá.

Falência da República Nova?

Diante das tremendas reviravoltas políticas que mergulharam o país em águas turbulentas e muito sujas, cresce, cada vez mais, o sentimento de que, de certa forma, a República Nova está falida. Que o Sistema todo está viciado, corrompido e que, não só não funciona agora, como, muito provavelmente, não funcionará mais (se é que algum dia funcionou bem). Ou seja, que o problema é endógeno e existe a priori no Sistema. Uma vez que cresce a percepção de que o problema é o Sistema em si, cresce a percepção da necessidade de alternativas globais, não para salvar o Sistema, limpando-o, reformando-o, mas para substituí-lo eficazmente. E aí que ganha corpo os projetos e fabulações: gente que defende intervenção militar e um regime de exceção, gente que defende que é a hora de organizar um levante “popular” comunista para tomar o poder (a retomada, pelo menos retórica, do discurso “Radical” na Esquerda), gente que defende que a única solução é que o Estado seja abolido para que possamos viver num suposto paraíso anarco-capitalista, etc. Abundam soluções de Reforma Radical, ou melhor, de Substituição do Sistema, mais do que de “reforma” do mesmo. Creio que não seja tolice falar que tal reivindicação cresce. Dentro desta perspectiva, claro, também ganha espaço timidamente a Causa Monárquica, encabeçada por um setor minoritário de católicos e de conservadores em geral.

De repente, todos apontam soluções e dão seus pitacos: é a própria conjuntura que clama. No entanto, há muitos (a Grande Mídia, por exemplo?) que preferem alimentar a visão de que os problemas manifestos são meramente contingentes e não propriamente estruturais, e que tudo se resolverá com a mera substituição do conluio de partidos que nos governa: basta uma nova eleição e, voilá, “zerou” tudo, daqui pra frente tudo estará bem porque… aprendemos a lição e os mesmos erros não serão repetidos, certo? Os que se beneficiam do Sistema que aí está, são, óbvio, os primeiros a desacreditarem e ridicularizarem as concepções que apontam para a localização do problema no próprio Sistema e não só nos agentes e operadores corruptos do mesmo. De outro lado, certo estado de letargia e ignorância sobre as possibilidades, a real ausência de um debate que discuta e publicite as percepções sobre os problemas do próprio Sistema e não apenas de seus agentes contribui para formar uma cortina de fumaça e para, por a cumplicidade calada, fazer a “ridicularização” ter eco. Ainda não se criou o clima que houve no plebiscito sobre a instituição da Monarquia em 1993. Liberais e Socialistas de variegadas matizes se unem, como esperado, para rirem juntos de uma alternativa monárquica, ou militarista, ou o que quer que seja (especialmente quando saí dos limites modernistas), com o aplauso da Mídia e dos Bancos: a final, a elite progressista e “prafrentex” está empenhada em fazer o mundo “progredir”, não em “regredir”, certo?

As saídas que nos apontam, as saídas de sempre.

As alternativas, mesmo na manutenção do Sistema, de certo status quo, nos são apresentadas pelos atores políticos majoritários como uma espécie de luta para sermos dominados escondida num jargão economista e “patriótico”/anti-imperialista-yankee: ou formalmente pelos EUA, como capachos obedientes e orgulhosos, ou formalmente pela Venezuela/Cuba, como um capacho musculoso orgulhoso. Com a saída formal do PT do Governo do país, a via “Bolivariana” perdeu um pouco de força, pelo menos em termos institucionais, na própria acção do Governo. Mas os seus rancorosos defensores, ainda guincham, azurram e coiceiam chamando atenção a cada tropeço, alimentando esperançosos o ar trotskysta de “quanto pior, melhor” e espumando ávidos pela vingança. Por outro lado, os que encantados pelo desejo de serem os EUA do hemisfério Sul, decepcionados, começam a deixar claro que aliar-se com patriotas/nacionalistas e conservadores já não basta, demarcando com clareza a linha divisória entre os paladinos joviais do Libertarianismo (Instituto Mises, MBL e demais) dos trogloditas “reacionários” retrógrados estatistas (religiosos, “bolsominions”, viúvas-do-Enéas, etc.). Finalmente, como esperado, Liberais e Conservadores começam a perceber que possuem agendas diferentes. Além de que há muito a amadurecer em certos debates. Os liberais, por exemplo, louvam certas coisas como se fossem grande invenção do Liberalismo e os Esquerdistas automaticamente se tornam contrários, apenas para contraporem ao que os ditos liberais clamam e vice-versa, sem que ninguém busque compreender mais fundo mais nada. Um exemplo besta: na Antiguidade nem no mundo Medieval o que podemos comparar com poder “público”/Estado obrigava ninguém a pagar algo como o nosso FGTS e nem por isto uma pessoa em sã consciência chamar-lhes-ia de “liberais” (poderíamos estender para assuntos como Universidades/Academias privadas, etc.). Mas se o Governo decidir flexibilizar ou torná-lo facultativo, os liberais gritarão orgulhosos e buscarão registrar em pedra que tal foi uma vitória do Liberalismo. Claro, motivações podem até ter sido inspiradas por certos ideais modernos, mas o ponto é que nem tudo parece ser o que é, única e exclusivamente por que eu não gosto de quem estar a dizer. A cegueira historiográfica para tudo que antecede os últimos 200-250 anos é impressionante. Enfim…

O cenário de uma Esquerda que ainda está atordoada e com uma parcela significativa vivendo na irrealidade, de uma “Direita” que se divide e finalmente percebe que o entendimento entre Liberalismo e Conservadorismo tende a zero, seria o cenário perfeito para a emergência de uma via diferente, de um projeto que protagonizasse nossa liderança (Brasil) enquanto o poder inconteste da América do Sul, e não a nossa sujeição. Esta deveria ser a via para qual convergiria nacionalistas, descontentes patrióticos em geral (inclusive ex-brizolistas, diga-se de passagem), reacionários, certos religiosos, etc. Mas ao invés de fazer romper uma frente forte e ganhar espaço, não tem havido convergência numa via alternativa nenhuma, e parece até que se tem sufocado mais possibilidades de prosseguir, seja por puritanismo apriorista (como se um movimento político, desde de seu início, fosse petrificado e perfeito, como se não mudasse e se ajustasse com o andar da carruagem e certas contingências da Fortuna) seja por uma falsa percepção, mais comuns entre certos setores da dissidência, de que os problemas geopolíticos globais devem se sobrepôr a realidade local e tópica de certos problemas nossos. Soma-se a isso, a crença “viralatística” cega de que certos autores estrangeiros estão sempre em melhor condição de descrever a conjuntura de nosso país (e o fazem, muitas fezes simplisticamente, a partir de seus pressupostos geopolíticos prontos e sem terem acesso a informações “menores” – geralmente pouco destacadas na grande Mídia –  mas que apontam detalhes cruciais) do que nós mesmos. Nisto padece certa dissidência e certa ala da Direita liberal, mais do que a Esquerda propriamente. A cobertura do processo de impedimento da então presidente Dilma, por exemplo, foi claro neste quesito. Para mim (o leitor poderá ter uma posição diferente), pelo menos, ficou muito claro como as situações de conflito em países distantes também devem ser muito mais complexas do que o que é pintado por analistas e intelectuais (e pela Grande Mídia, assim como por instituições como ONU) para nós, ou melhor, para que nos posicionemos apaixonadamente do lado que gera a narrativa. Claro, como os sujeitos não estão cá, muito tem de ver com as fontes de informação às quais são expostos e que utilizam para gerar suas bases para extraírem suas conclusões. Mas ao ver gente estrangeira que admirava e respeitava, simplesmente repetindo a baboseira PTista de “golpe”, sabidamente falsa e mentirosa, abriu meus olhos para a prudência em ter um certo pé atrás quando estas mesmas pessoas descreviam, simplisticamente, certas realidades conflituosas em países distantes. Há lados sim, e como disse um amigo, por vezes nunca teremos como saber qual é o “certo” e simplesmente seremos cobrados a nos posicionar e lutar. OK. Mas isto não nos exime de uma certa prudência intelectual, especialmente quando não se é este tipo de sujeito que vive e se guia por gurus estrangeiros. Para mim ficou mais claro que é necessário mais ceticismo em certas abordagens.

A moralização do embate numa espécie de maniqueísmo declarado, gera seu esvaziamento político e uma transformação na luta entre o lado do Bem contra o lado do Mal (do “Satanás”! Veja que tanto Bin Laden, quanto Bush, quanto Dugin caracterizam assim o oponente em certos momentos) deveria ser o suficiente para despertar certo ceticismo nas mentes não tão afetadas pelo binarismo do deserto semita. A grande questão é que, de repente, do alto de nosso trono social-media, cegos pela análise de conjuntura distante e “inteligente” dos intelectuais que admiramos, julgamos saber mais e melhor sobre as situações do que os sujeitos que estão lá vivenciando a coisa na pele. É sobre esta postura petulante e imprudente intelectualmente que precisamos estar alertas. Este ponto merece ser frisado.

Há os que, apesar de concordarem que o bom mesmo, seria o Brasil não ser capacho/vassalo de ninguém, no final das contas, dada a impossibilidade disto, se inclinam na prática ou no fundo pensam que seria melhor ser vassalo de A que de B. É mais ou menos o que certos patriotas bolsonaristas dizem (preferindo os EUA) e mais ou menos o que aferimos de certos “dissidentes” (que preferem a “Pátria Grande” bolivariana)… Ambos se acham justificados, e conseguem certo malabarismo (mais ou menos cheio de movimentos espetaculares) discursivo para encorparem as respectivas posições. Mas talvez, também se achem justificadas as outras possibilidades que a estes dois interessa negar: voltar a Portugal (reestabelecer o Império Trans Atlântico!), ceder algo aos nativos, ou ainda, assumir tenazmente a não-sujeição ou entrega alguma! Fato é que, no final das contas, uma divisão permanece, se aprofunda, e vetores unificadores ainda não ganharam corpo para ocupar um espaço vital que, se não ocupado em breve por tais vetores, tornar-se-á refém (novamente) do acordão do status quo.

Erros da Dissidência?

A dissidência deveria, justamente, estar a lançar propostas e trabalhar vanguardas, justamente por estar (ou dever estar) criticando as duas tendências majoritárias; e por isto, talvez, haja mais linhas cá sobre ela do que sobre as demais, além de que, justamente por me sentir, pessoalmente, mais próximo e representado em certas bandeiras da dissidência do que por outras posições, me vejo na obrigação moral de expor o que me parecem ser os erros mais do que noutras opções. E claro, não posso deixar de parabenizar o trabalho de certos camaradas e de registrar que há acertos também. Apenas que para o que está sendo refletido cá, neste momento, precisaremos focar nas críticas.

Para os que se dizem tradicionalistas, persistir na aposta “política” ao invés do retorno às religiões é persistir no erro da modernidade: politizar a fé, ou usar a política para reestabelecer certa fé, ao invés de espiritualizar a política. Para um tradicionalista coerente, não há “ideologias políticas” dispostas no mercado moderno de opiniões, o que há é sua Religião. E só. Compreender a profundidade disto é alcançar a libertação do cárcere mental “militante”. A discussão sobre ideologias políticas é moderna, e as possibilidades de conversão/adoção delas, independentemente dos desdobramentos e consequências religiosas, só surge a partir da dissociação entre Religião e Política, só na Modernidade que faz sentido falar-se em “pagão”-liberal ou “cristão”-socialista; os próprios cristãos, pelo menos os católicos, perceberam que, de fato, a única possibilidade de ideologia política coerente para eles é… serem “Católicos” (o que significa serem distributistas-monárquicos!). Para os pagãos também e, antes ainda. Entrar no jogo de defender “ideologias políticas” é saltar direto para o Modernismo: o asatruar deve defender, politicamente, a Ásatrú, o helênico, o Hellenismos, o pagão romano o SPQR (seja imperial ou republicano), etc. Se não parece tão claro assim o que isto significaria em termos práticos, isto quer dizer que precisamos de mais filósofos e politeólogos nos digam, que mais estudos, reflexão e imersão são necessários, não é por não vermos facilmente tais coisas que devemos concluir, de uma vez por todas, que as mesmas não existem. Simples assim: não há ideologia política além da Religião. Nem uma primeira teoria política, nem uma segunda, nem uma terceira e nem mesmo uma quarta (se esta for encarada como “ideologia política”). É preciso esvaziar o conteúdo ideológico e retornar às grandes questões políticas: regimes de governo, legitimidade do poder político, Soberania e o papel do regente, Identidade e tradições dos povos, etc. Enquanto não se compreender que as grandes lutas, golpes entre reis, monarcas, imperadores (seja entre os Romanos, Gregos, Celtas, Germânicos, Eslavos, etc.) não eram por “ideologias” políticas: é incrível como as pessoas têm dificuldade de pensar a luta política, como algo além e anterior a briga entre liberais e socialistas, liberais e conservadores, etc. Talvez até, usando certa concepção schmittiana, possamos dizer que, dentro de uma perspectiva antiga (me refiro aos filósofos greco-romanos, mas também a visão aristocrática e monárquica germano-celta), a Modernidade gera o esvaziamento do Político. A ideologização da política, só possível ou majoritário onde o pensamento religioso não mais impera, é uma espécie de superstitio que leva a uma perigosa μανία, essencialmente, niilista, apesar de não ver-se assim.

Mesmo entre os que, inicialmente, propunham como resposta aos problemas do país o desenvolvimento da 4ª teoria política duginista, parece ter havido um retrocesso: ao invés de persistirem na profunda, honrosa e complexa questão metafísica do “Logos Nacional”, a partir da qual emergirá uma resposta genuína, preferiram retroceder (talvez pelo imediatismo juvenil da vontade de militância) a uma espécie de “brizolismo” mais ou menos velado sob o nome de “socialismo patriótico”. Para confirmar o mal-estar da situação, basta fazer o exercício contrário: substituir o termo “socialismo” por “liberalismo”; inclusive, leitor, quando a ver alguém curtindo ou fazendo propaganda de regimes comunistas, países ou de coisas do tipo, basta imaginar o contrário (ou seja, que estejam a fazer propaganda e curtir páginas de capitalismo, EUA, etc.) para ver o quão enviesada a coisa está! Mesmo na questão do Logos Nacional, excluir o passado Império do Brasil do itinerário formativo e de possibilidades válidas/positivas, faz tanto sentido quanto excluir o Csarismo russo do ideário formativo do Eurasianismo duginista. O próprio Dugin, inspirador da discussão toda nos termos de “Logos Nacional” numa parcela grande do meio dissidente brasileiro, já admitiu mais de uma vez que o Império russo, ortodoxo, mais do que a USSR, faz-se presente no horizonte mirado geopoliticamente. Por cá, ao invés de revisitarem toda a literatura (claro, passível de crítica e revisão) sobre Quinto Império, misticismo sebastianista, Nova Roma darcyribeirista, etc. voltam as forças para propagar Socialismo… É de um profundo mal gosto a babação abjeta da Comunagem e a louvação de toda desgraça vermelha por mera birra anti-liberal, fico pensando como estas pessoas seriam vista por um tipo radicalmente anticomunista que dizem admirar como o de Evola. Não deixa de ser espantoso ver quem diz “combater a Modernidade”, de modo muito eloqüente, fazê-lo com ainda mais “modernismos”: é necessário abandonar com desprezo o fetiche “proletarista”, banir o romantismo moderno por “socialismos, trabalhismos, libertarianismos, militância operária, etc.”, deixar de lado o jargão (e o sequestro mental decorrente dele) marxista e economicista. A verdadeira ruptura com a Modernidade será emendar o rompimento pós-Maquiavel: Religião/Ética-Política, mantê-lo, será um contrassenso para quem fala em superá-lo. Erram os que, posando de “dissidentes” ou o que o valha, querem ser mais comunistas que os que se dizem comunistas às claras. Erram os que dizem estar para superar as ideologias modernas e se recusam, com veemência, analisar ou reelaborar possibilidades aristocráticas, “teocráticas”, monárquicas, imperiais e mesmo de democracias diretas à Atenas (em pequenas cidades), forjando uma colorida nuvem de fumaça para encobrir a defesa final de posições modernas fracassadas, coloridamente somando esforços para salvar o fadado Socialismo por mero ressentimento antiliberal ou anti-olavético. É de se desconfiar se não há um trabalho de Quinta Coluna operando nisto tudo, enganando uma ruma de jovens com uma conversinha fiada.

Mesmo que a questão fosse apenas acerca de “ideologias políticas”, também erram por mirarem demasiado no “Grande Jogo partidário”. Deveriam ter compreendido que mirar em Brasília é desperdiçar munição na atual conjuntura, uma vez que o “Sistema” está blindado contra tais fogos – acreditam que podem replicar o mesmo procedimento que os grandes partidos da agora “oposição” (a Esquerda decadente, PT e cia.) para obter os mesmos resultados, sem notarem que o resultado é diferente e não só pela diferença de poder de fogo: ao invés de se fortalecerem como uma posição autônoma, terminam por só fortalecer os grandes partidos da mesma Esquerda decadente e a afastar possíveis simpatizantes e adeptos que, com razão, desprezam o esquerdismo mas que também não se veem nas loucuras dos libertários/neo-liberais. Além de que o foco da “propaganda”, o alvo mirado, deveria ser muito mais “local”: grêmios, associações de bairro, associações de estudantes, profissionais, etc. Aí sim, haveria mais efetividade no engajamento. Mirar em Brasília e recusar-se a “competir” com a Esquerda decadente em sua confortável zona de “trabalho de base”, me parece irracional e poderia dizer que se explicaria mais como uma evidência de quinta coluna. O abandono da militância (que, obviamente, vai requer uma adequação e uma “deserquedização” do discurso) sobre categorias profissionais chave, como policiais, militares, pequenos produtores rurais, etc. (ao contrário do que fizeram a FN na França, o Khrysi Augi na Grécia, etc. ) por mero “ranço” e preconceito contra a influência de um Conservadorismo “vago” e uma propaganda liberal (que ganhou espaço entre estes setores, justamente, por não haver vácuo de poder: se Esquerda não os mira ou se é alvo de seu “ódio”, os liberais, mesmo que inicialmente pouco simpáticos a estes, terminam por projetar influência) é um erro. Não parece muito tático, ou realista, decidir disputar espaço ou o mesmo público da Esquerda decadente, quando esta já detém o território/pessoal, estrutura, dinheiro, anos de domínio, os conceitos/linguagem, no final, buscando “ensinar a missa ao padre” como diz o ditado popular; abandonando por completo um público mais amplo e potencialmente tradicionalista (ou ao menos, mais afeito à religião) e/ou nacionalista por negar-se a reconhecer que muitos se tornaram influenciados por pautas liberais e sionistas mais por ausência de alternativa perceptível (que não seja “comuna” e/ou socialista) do que por real convicção ideológica.

Ao colocar-se do lado oposto aos Reacionários (reais e fuleiras), conservadores-de-facebook e Conservadores reais, militaristas, etc. Escolheram, diretamente, fortalecer os declarados inimigos: a Esquerda decante e os Liberais. Fica difícil, diante de tal quadro, não ver que o que restará a este pessoal, mesmo que dotado das melhores intenções, pois as reconheço (e considerando que não estejam sendo guiados por uma quinta-coluna), é ser engolido por quem dizem também combater (a Esquerda) mas de quem adotam tudo (linguajar, estética, temas-chave, foco da militância, etc.). E claro, também fica difícil acreditar que “combatem” (no caso da Esquerda) a quem, a toda hora e sem que ninguém peça, fazem questão de dar provas de amor e de defenderem com afinco, ante os menores ataques. Talvez nos digam que tais “provas de amor”, se justificam por “Entrismo”, ou seja, por buscarem no futuro exercer alguma influência ou controle sobre um “movimento” já estruturado, erram mais ainda: os Marxistas, assim que virem do que se trata, nunca os aceitarão e serão os primeiros aos chutarem para fora aos gritos de “Não Passarão!”. Se puderem, os fuzilarão com muito gosto. Receberão facadas e mais facadas pelas costas e vistos pelos “direitistas” como “Esquerdistas” e pelos esquerdistas como “faxistas”, não haverá socorro nem solidariedade, de lado algum. Não há aliança programática possível com as forças mais radicais da Esquerda: ao contrário dos opositores, este povo é ideologicamente muito mais doutrinado e “religioso” (enfeitiçado pela superstição vermelha) e não tardarão em notar o perigo e esforçar-se-ão em exterminá-lo de suas fileiras o quanto antes. Pressupor a burrice generalizada destes parece-me com o erro comum de subestimar o inimigo.

Por fim, precisamos retornar a visão de que, não se trata de “ideologias” políticas modernas, mas, justamente, de algo anterior e além. E mais: talvez, nos tempos de Fim de Era que presenciamos, se trata mais de sobreviver (Cavalgando o Tigre) do que de “salvar” (ressuscitando “socialismos” ou o que quer que seja) e garantir o legado identitário dos nossos para o pós-catástrofe (Guillaume Faye).

Erros dos Nacionalistas?

O sonho de um “nacionalismo” nos moldes da 3ª via, “totalitário”, homogenizador e disciplinador ainda ronda as mentes de alguns sujeitos, especialmente pelo seu cariz moralizante e esteticamente ordenador. No entanto, tal sonho aposta no Iluminismo progressista e crê que, num país de dimensões continentais, será possível uma homogenização cultural. Não é de estranhar que os mais simpáticos proponentes disto sejam, até onde vi (reconheço que pode ser um pré-conceito), sujeitos de cidades grandes/metrópoles, ou seja, pessoas com um notável nível de “desenraizamento” (se comparado com gente de cidades pequenas), por vezes filhos de emigrados das zonas rurais/cidades pequenas e já criados nas grandes cidades. Projetam, mesmo inconscientemente, uma unidade cultural artificial talvez já internalizada a partir da colcha-de-retalhos metropolitana que experienciam no dia-a-dia; do Estado-Nação (posteriormente, burguês), importado da realidade de pequenos países europeus forjadas na luta contra “intromissões” imperiais. O Nacionalista “padrão”, no Brasil, será antirregionalista e anti-imperial por natureza, mais ou menos como já o fora o ídolo Vargas: a exaltação (“universalidade”) do padrão nacional, comprimirá, necessariamente a orgânica e real identidade das verdadeiras nações (sob a desculpa de combater o “separatismo”) e sua necessidade de centralidade e controle total, inflacionará o Estado ocupando-o das menores questões, sufocando a atividade política “natural” no povo (clãs, comunidades religiosas, corporações de ofício, etc.) – contrariando o princípio Imperial e mesmo da subsidiariedade federalista – por vezes, demonstrando uma real desconfiança e policiamento do próprio povo, privando-o do acesso a armas e livre organização como testemunhado na História. Não ha novidade nisto, o próprio Evola criticou tal coisa duramente em sua crítica do Fascismo, e o fez com razão.

Fechar os olhos e o nariz, e sair repetindo que não há nações dentro do Brasil, não é a solução. Por outro lado, há quem combine uma postura nacionalista com uma possível reintrodução do monarca – proposta esta que pode, de fato, reduzir certas aspirações ditatoriais (especialmente se reestabelecido o poder Moderador dentro um sistema Parlamentarista em um Federalismo, de fato, como veremos mais a frente) se forem consideradas uma série de fatores. Sendo neste caso o termo “Nacionalismo” muito mais um indicativo de uma postura pró-expansão/salvaguarda dos interesses gerais, como um vetor articulador, mas sendo, na prática, um Imperialismo, mais do que propriamente um regime de 3ª via. No entanto, os proponentes mais ativos de tal arranjo, por vezes, erram em fingir que será perfeitamente possível restaurar o Império de uma maneira inteiramente católica, como se o país não estivesse diferente em termos religiosos do que era nos tempos de nosso último imperador. Para os que pensam que “ou um Império estritamente católico, ou nada” há pouca margem para o diálogo, especialmente para os que conscientemente alimentam o ranço totalitário inerente às religiões abraâmicas do deserto. Por mais que estejam justificados em alguma medida (o Brasil, apesar da ascensão evangélica ainda continua, por enquanto, majoritariamente católico), nós Indo-Europeus de espírito, preferimos um modelo “Romano” de tolerância religiosa e de modo inegociável: nossa sobrevivência depende disto, como apontaremos mais a frente.

No entanto, os “unionistas/integralistas” (chamemos assim, os Nacionalistas mais 3ª via) erram em negar que haja razões para maior autonomia das regiões/nações do Brasil. Cegos por um centralismo utópico num país destas dimensões, negam e riem que se fale, sequer, em “nações” orgânicas dentro do Brasil. Não veem o pressuposto forçado e artificial, quando não positivista ou “fascista”, de gritarem um “só povo, um só país, um só líder!” São os grandes desenraizados, que fingem saber ou conhecer as realidades orgânicas tradicionais para negá-las… São os inimigos internos da diferença, “culturicidas”, que não medem palavras para falarem mal do “imperialismo yankee de Hollywood”  ou do “massacre sionista contra a Palestina” mas ignoram propositalmente o genocídio cultural perpetrado pelo massivo lixo cultural midiático “homogenizante” irradiado dos centros de poder midiático brasileiro (o “imperialismo cultural favelado”). Vargas foi, talvez, o grande executor de uma tentativa relativamente bem sucedida de “homogenização” do Brasil, da exaltação do “Rio de Janeiro” como sendo o Brasil (talvez inspirado pela teimosia “unionista” dos Integralistas, inspirados pelos nacionalismos europeus) que desde então, só ganhou corpo e progrediu (especialmente após a massificação das TVs: as novelas televisionadas alcançaram com mais rapidez e eficácia, em poucos anos, fazendo cair costumes e modos de falar tradicionais, aculturando os rincões no “streaming” Rio-SP). Há sim, países dentro do Brasil. Enquanto isto for negado, não haverá saída nem resolução para a questão da Identidade Brasileira.

Erros do Separatismo?

Os separatistas erram por desconsiderar, boa parte das vezes, o aspecto geopolítico maior, vindo a colaborar com um projeto externo de “Divide et Impera”. Seja por um ranço cego ao Brasil, que na verdade é o retrato do Rio de Janeiro (no qual, com razão, não se vê), seja ao seu centro de poder político (Brasília). Já escrevemos sobre este tópico cá mais de uma vez. É difícil evitar a interferência externa nociva em um ambiente de eventual guerra fratricida (vide Ucrânia), mesmo que seja numa “guerra” de geração diferenciada, do tipo cibernética, cultural e midiática. É corrente o recurso a poderes externos (por cá mesmo, a Confederação do Equador, buscando tornar o Nordeste independente, foi buscar ajuda nos EUA…, para lembrar só este exemplo) fazendo com que o pagamento por tal serviço, seja demasiado caro: quando não custa as almas e os bolsos dos cidadãos, além da cabeça dos governantes, causa traumas coletivos duradouros, podendo gerar sujeições e “escravização” vergonhosa, piorando ainda mais o quadro. Sair de uma “vassalagem” para entrar noutra, pode não ser tão vantajoso quanto parece. Além de que, com todo os problemas, os demais países que compõem este grande Brasil compartilham de uma mesma história geral fundante, inauguradora, enraizada na língua. Um separatismo que busque romper com tão profundo laço, vai requerer muito esforço de uma identidade artificial fabricada sob medida, alimentada pelo ranço e negação, num grande projeto de revisão histórica que percorrerá gerações e sem garantia de sucesso.

Então, um Novo-Imperialismo seria a solução?

Uma maneira de resolver a real necessidade por mais autonomia cultural e política dos “países/regiões” com a preservação da integralidade geopolítica é um Novo-Império. Ainda por cima, pode resolver melhor a questão da Identidade Brasileira e fundamentar uma real solidariedade e reconciliação. Há ainda, as possibilidades mais ousadas, da permissão de províncias a partir de requisitos/demandas étnicas ou religiosas: bolsões étnicos (não muito diferentes do que já existe em termos de reservas indígenas e “quilombos”) e talvez até mesmo religiosos (algo similar as comunidades “Amish” nos EUA, por exemplo). Talvez até mesmo para certos aventureiros “ideológicos”, já existentes em comunidades eco-alternativas/”permacultureiras”. A possibilidade de se resolver harmonicamente demandas justas, digamos, “nacional-anarquistas”/(neo)tribalistas sem que haja uma perda de unidade geopolítica maior por si só já é interessante. Isto seria feito a partir de uma super-estrutura jurídica imperial (subsidiária), a partir da qual a legislação da província encaixar-se-ia e da seção obrigatória, sob forma de tributo direto unificado e/ou direcionamento, de força humana e monetária para a manutenção das estruturas imperiais (políticas e militares: quartéis, colégios, uma grande universidade que concentrasse os melhores das universidades autônomas, hospitais, etc.). No entanto, seria necessário discutir e decidir sobre um limite constitucional para tais “divisões” de províncias a partir de critérios meramente religiosos (afinal, em que medida caberia a todo grupo religioso, especialmente os que não são propriamente étnicos, reivindicar um “país” só seu?).

Um exército imperial, formado a partir da seção cíclica obrigatória e proporcional (talvez anualmente e como uma espécie de “serviço militar obrigatório”) de forças das províncias talvez diminuísse a necessidade de “legiões” estacionadas nas províncias, quase como forças de policiamento contra “independentismos” como no passado romano. Cada província/nação teria autonomia jurídica de autodeterminação: poderia haver províncias democráticas presidencialistas, republicanas, ou talvez mesmo monárquicas, desde que os representantes estivessem submetidos a auctoritas (no sentido de Evola) do Imperador. Se deve haver um representante (ou dois?) destes governantes, eleito(s) a partir deles próprios e com mandato limitado, com uma espécie de “cônsul” ou “condutor”, tendo o Imperador como uma encarnação de um poder moderador e da continuidade regencial, numa espécie de “Diarquia” (ou “Triumvirato” no caso de 2 cônsules), é algo a se considerar. Talvez caiba também perguntar como seria e se haveria espaço para uma espécie de “Senado” ou representação direta de magistraturas provincianas (“tribunos”), ao exemplo de Roma. Uma oportunidade para reascender corporações ofício em substituição aos inúmeros sindicatos dominados por partidarismos sectários, entre tantas outras coisas, para derem lugar permanente em tais representações (Senado ou Tribuna imperial). Na verdade, há muito espaço para reflexão.

Nem tudo precisa ser “retirado do zero”, não é preciso inventar a roda. A questão é que negar-se a tal reflexão, ao mero exercício de pensamento, jogar fora esta possibilidade sem sequer estudá-la, especialmente para nós “pagãos”, talvez não seja tão prudente assim, afinal, fora o modelo (no caso romano, claro) que se desenvolveu com certo sucesso na história do Ocidente de uma perspectiva política que ultrapassou o domínio dos “estados-nacionais”. E se tal quadro novamente se apresenta, quando organizações supra-nacionais invariavelmente se formam, não custa revisitarmos tal perspectiva para ver se algo é válido hoje.

Mas um Federalismo não basta?

Talvez alguém defenda que, na atual conjuntura de emergência de estados supra-nacionais (“Blocos Econômicos” e militares), um simples federalismo pautado nos princípios liberais e/ou modernos é suficiente, afinal, o laicismo estatal assegura um igual tratamento a todas as religiões e impede, em teoria, uma luta entre as mesmas na esfera regencial suprema, além de não constranger institucionalmente religiões minoritárias, frisando uma simbólica subjugação à “Religião Oficial” do Império, ao “Culto Imperial”. Traduzindo: um Federalismo decente, bastaria e nos pouparia da briga religiosa.

Esta posição é difícil de contra-argumentar por não havermos experienciado, de fato, em nossa história de país um federalismo mais “aberto”, capaz de ajustar-se. A Primeira República, em um certo sentido, fora mais federalista que a nova e nos é vendido que, implicitamente, tal “liberdade” gerou uma crise política de lutas internas que levou a instauração de um Dictadura (Estado Novo). Saímos de um sistema imperial à força, arrancados por meio de golpe militar para entrarmos numa República, cuja falta de adaptação, levou a uma ditadura centralizadora. Daí que, talvez, concedendo o benefício da dúvida, em teoria, seja possível um Federalismo cumprir as vezes de um “Império” na prática, sem a figura de um Imperador e da investidura espiritual e epistêmica que tudo isto traz.

No entanto, stricto sensu, cairemos no “modernismo” parecido ao antes indicado nos que buscam ideologias socialistantes ou liberalizantes como solução. A falta do centro espiritual na compreensão da interação com a Soberania da Terra é um fator que, ao menos na óptica Indo-Europeia, levará a uma desordem cataclísmica não oferecendo “solução” política duradoura. Sob esta perspectiva, o reconhecimento da interação religiosa com a Soberania é condição sine qua non (talvez, reconheço, esteja a falar a partir de uma compreensão demasiada céltica). E de fato, alguém dirá, nós Indo-Europeus de espírito não temos o direito de impor nossa visão sobre como a ordem política e divina interage sobre todas as pessoas. E como não temos força numérica nem política para dominarmos o país e impor nossa visão à força, temos de reconhecer nosso lugar minoritário e rezar ao papai “Estado” para que nos preteja da extinção, certo? Bem, há muito a se colocar nestas coisas: pessoas como eu, por exemplo, estão convictas da objectividade da concepção religiosa Indo-Européia em termos de sociedade (o que significa dizer que, mesmo que as pessoas não acreditem na ordenação funcional na sociedade, ela existirá mesmo assim, mal ou bem, melhor ou pior), e que talvez, por isto, não se trate (ou para nós, ao menos, não se trataria) de uma mera discussão relativista culturalista de “impor” x ou y. Mas claro, que há a questão mais espinhenta: como conceber um Império (que pressupõe uma dimensão religiosa) numa sociedade plurirreligiosa?

Os que veem os EUA como um exemplo razoável de mais federalismo laicista e apontam para a estabilidade jurídica (e política…?) que sedimentou quase 200 anos de Potência global, talvez tenham que ceder que, ao menos nos 100 primeiros anos (e não só, mas para ser bem generoso), era comum entre as elites governantes um projeto quase messiânico (especialmente em certos círculos protestantes) do Excepcionalismo Americano como vetor espiritual mobilizador do Logos Nacional americano. Talvez seja suficiente para defendermos que não havia um laicismo stricto sensu. Em todo caso, a História do Ocidente demonstra o que imperadores cristãos radicais podem fazer contra religiões minoritárias, antes que alguém censure, convenhamos que tais exemplos históricos são uma justificativa razoável para certa desconfiança por parte dos nossos. E isto nos leva a um dos grandes entraves.

O problema de um Imperador cristão, para os não-cristãos

O grande entrave para concordar-se em ser governado por um Imperador de uma dada religião diferente da sua, especialmente quando se crê que a religião do imperador, por natureza, o conduzirá a descriminar negativamente e perseguir é quase “default” no caso dos “pagãos”. Em dado sentido, também pode haver a mensagem simbólica de sujeição de religiões a uma dada religião “superior”, simbolicamente acima no aspecto regencial. Para que um cristão sinta algo parecido, pedimos que imagine-se na iminência de ser governado por um muçulmano… Felizmente, ou infelizmente, não é um problema que nos afete somente: o próprio texto do Benoist citado acima passa ao lado desta questão e não mira nela diretamente. Uma União Européia transformada num Império das nações e povos europeus, teria de enfrentar a mesma questão e o próprio Evola só a concebeu dentro de uma visão pagã.

O grande problema de uma perspectiva imperial em sua dimensão espiritual é, justamente, que tal referencial funcionará harmonicamente dentro de um referencial religioso específico. A partir do momento em que referenciais exclusivistas (que não admitem “perspectivação” ou “tradução”) entram sob o escopo do Império, negam-se a reconhecer a autoridade espiritual presente e a rejeitam. Foi justamente o caso do Cristianismo (mais até que do Judaísmo, dado o não proselitismo no segundo e a destruição a força do centro simbólico de poder, que foi a destruição do Templo) no Império Romano. O Cristianismo só admitirá, em última análise, dado seu exclusivismo e expansionismo latente, um Império que seja cristão. E um Império cristão (uma vez que haja concórdia entre eles, afinal, somente o catolicismo possui uma doutrina clara sobre isto, evangélicos, espíritas e outros, nada), terá os não-cristãos como membros “espirituais” alógenos, como uma comunidade apartada, de “infiéis” e “gentios”. É difícil crer que depositem em tais comunidades, ou em tais cidadãos, a mesma confiança política e jurídica que depositariam entre eles, uma vez que veriam problemas morais ou “demoníacos” nestas comunidades. Por isto, não seria de estranhar que nós acreditássemos que somente um Imperialismo “Pagão”, ou seja, que estabeleça uma dimensão espiritual apta a “tradução” noutras linguagens religiosas (e portanto, que não reivindique um Exclusivismo) seja melhor realizável.

No entanto, num contexto social onde somos minorias das minorias, impor tal percepção nestes termos é inviável. Para nossa sorte, tal “paganismo” é perfeitamente defensável filosoficamente em torno do ideal de tolerância religiosa que pode gerar um condicionamento jurídico estrito. Por mais que certos setores do Catolicismo, por exemplo, repreendam justificadamente (dentro de seus princípios e referências) o Ecumenismo e mesmo o Perenialismo (guénoniano, não o tomista), que poderiam oferecer possíveis ferramentas teóricas de “tradução” e ressignificação, é fato que há uma direção e aceno formal neste sentido (de uma “tolerância” e diálogo interreligioso) também desde o Concílio Vaticano II, e os radicais que as negam, talvez terminem “isolados”.

Em todo caso, há a necessidade de mais discussão e reflexão, reflexão esta, inclusive, que pode gerar desdobramentos totalmente diferentes e que talvez até nos afaste deste conceito. E claro, é fácil rejeitar tais constructos. Mas como solução, especialmente para quem fala mal da Modernidade e gosta de posar de Tradicionalista e mesmo de um Reconstrucionista mais sério, o que propor então de viável? Vamos desenvolver as opções, pois! Talvez, descubramos que grande projetos como “Impérios” sejam quimeras e que um “neo-tribalismo” (que dialogue com as iniciativas modernas de Permacultura, Nacional-Anarquismo, Municipalismo Libertário, etc. e com as instituições comunitárias tradicionais em extinção) sejam o caminho viável, a luminosa manifestação sócio-política de nossas compreensões religiosas. Talvez, e confesso, desconfiado que sou dos “grande projetos” políticos e afeito que sou a uma dimensão mais regional e tópica, inclino-me mais para uma reflexão mais centrada nas pequenas comunidades locais do que para um Imperialismo grandioso… mas vamos lá, exercitar nosso pensamento, precisamos elaborar, fazer parir ou pelo menso esclarecer a partir do estudo de nossas próprias histórias religiosas e mitos, propostas, preferencialmente boas, para grandes e pequenas organizações humanas, saindo de vez da discussão “ideológica”.

E o “Império” é uma destas macro-organizações humanas a se considerar. O fato é que os cristãos, mesmo historicamente, não são nem os criadores nem os únicos “donos” da ideia de Império – nunca foram – abandoná-la por receio de um circunstancial protagonismo deles nas circunstâncias atuais (ou por birra contra o atual representante da casa dos Orleáns e Bragança), não é um argumento suficiente. Numa época de “desertos” e de abismos gigantescos é importante aumentarmos nossos postos de observação e plantarmos árvores. Mesmo para os pagãos aos quais desagrada uma idéia de Império, dever-se-ia apoiar sua reapropriação e estudo: é mais uma possibilidade, mais uma forma válida de revigorarmos nossa herança e capacidade reflexiva em filosofia política.

Vitória de Trump nos EUA e Mangabeira Unger

O assunto da vitória do tal Donald Trump nos EUA é aquele tipo de assunto inescapável. E para nós cá, tão presos às manchestes cotidianas de nossa realidade local e nacional, não deixa de ser curioso ver as reações dos “movimentos sociais” de lá (todos pró-Hillary), com protestos, “ocuppy”, e o escambau (suspeito que arquitetado a partir de fontes Alisnkyanas e Sharpeanas) e como se parecem com certas coisas de cá. Coincidência não? E coincidentemente com o selo “Soros” de patrocínio…

Em todo caso, em meio a toda sorte de falatório, o que talvez seja meu intelectual esquerdista (pois é, pra não dizerem que sou um reacionário radical) favorito, trouxe uma visão interessante que achei por bem compartilhar cá:

Entrevista de Magabeira Unger a BBC sobre a vitória de Trump (clicar para ler).

Um singelo registro de uma reflexão matutina

Após faltar a última assembleia do sindicato de servidores de onde trabalho, semana passada, chego para trabalhar hoje e descubro que decretaram greve: erro meu, passei o final de semana sem abrir minha caixa de e-mails.

É difícil expressar bem o misto de tristeza e revolta diante da situação planejada das invasões e greves (por motivações político-partidárias, sejamos francos) no sistema de ensino do nosso país. E é fácil constatar o aparelhamento partidário de supostos mecanismos de representação “classista”. Até então, a “modinha” das invasões era apenas uma esquisitisse distante, até transformar-se numa bizarra realidade. E diante disto que venho cá no blog, de certa forma, para dar alguma vazão a uma série de pulsões reprimidas. Não consigo me sentir bem, meu senso de dever parece ser afetado, sinto-me moralmente incomodado quando algo assim acontece, sabendo eu o quanto nossa categoria recebe bem (comparado com os demais professores das redes públicas estaduais e municipais) e o quanto precisamos de ensino de fato, trabalho, compromisso para a situação deste país comece, de fato, a promover uma melhora durável. Não há necessidade para expor motivos e mais motivos para ser contra toda esta bagunça. Creio que textos como este (clicar para ler) já o fazem bem. Apenas acrescentaria que, dentro de uma perspectiva mais religiosa, há o agravante da subversão espiritual da relação sagrada do aprendizado (hierárquica, etimologicamente, mesmo que dentro das conveções e estruturas modernas, com todas as suas limitações e problemas, do processo de instrução formal de nossa sociedade). O que há de “sagrado” no processo, já fora machucado, mal tratado e surrado, mas ao invés de buscarmos resgatar e valorizar o que sobrou, este tipo de loucura “blasfemosa” vem para destruir de vez… E o pior é que, não raro, se não em boa parte, as ondas destruidoras vêm dos próprios professores. Renunciaram as funções “bramanescas”, rebaixaram-se de vez ao “shudraísmo” e reclamam quando são tratados assim pelas elites financeiras e políticas do país, cegos pela loucura fanática do fetiche proletarista. Se há algo de bom nisso, escatologicamente, é que o afundar-se acelerado nesta degradação é, por outro lado, o aceleramento da limpeza vindoura. Um novo ciclo, saudável e forte, se fortalece no horizonte.

Mas, por enquanto, fica só a mirada esperançosa; o sentimento de “impotência” diante das desgraças nem sempre leva a resignação: uma parte dele está buscando meios de “furar” e incentivar a destruição do capenga movimento grevista (por dentro e por fora), uma outra está buscando também elaborar iniciativas que minem ou usem a invasão discente (romanticamente chamada de “ocupação”) contra si mesma: utilizando o espaço para formar uma milícia estudantil para afrontar (com métodos realmente “sorelianos”) os esquerdistas de dentro para fora. Isto é possível. Na verdade, é perfeitamente possível e seria estética e moralmente belo. Mas outra parte de mim, uma parte forte, simplesmente prefere, numa espécie de “nojo” esnobista, virar o rosto (afinal, dentro do que pude, expressei-me contra e me posicionei contra, sou parte vencida, pois) e egoísticamente encarar como muitos (incluindo a maioria dos professores agitadores e panfletários) fazem, como um tipo de “férias”: colocar projetos meus em dia, aproveitar o tempo livre para realizar tarefas e serviços pendentes… A tentação a desistir do público (“eles se merecem”) e voltar-se para minha família, religião e propriedade é demasiado forte. Quando não se tem o saco (ou o estômago) para o trabalho “de chão”, se fica terceirando esta função e desejando que um “salvador” apareça para fazer o trabalho (sujo?) por nós. Cavalga-se o tigre e sonha-se com a oportunidade de desferir o golpe final quando o mesmo cansar. Não se trata de abandono do posto, mas justamente da permanência nele: no front onde nos alistamos e onde temos servido.

E aqui surgens as constatações: a maiora apática, ou mesmo que “contrária”, termina pela inércia (justamente por esta espécie de justificada forma de ceticismo político), a permitir o sucesso dos mal-intencionados. E a radicalização de um grupelho destes (infestados de militantes, 24h/7 dias por semana, travestidos de “professores”) urge, pede, conclama, que se forme uma radicalização no lado oposto. É a natureza dialética que sugere e aqui é onde estes sujeitos merecem ser testados: no combate, na violência regeneradora e santa. Mas é outro front, o front da Ação. Eles já estão com o do Pensamento e o da Ação operando, do outro lado se duvida se o do Pensamento está operando mesmo e se o da Ação existe ou poderá existir. Precisamos, urgentemente, continuar a dizer-lhes que sim, que devem insistir com mais afinco na feminização, no uso de drogas, na depravação sexual, na dependência burguesa acomodada da tecnologia, na completa seção aos sentidos e aos vícios, na completa falta de regra, medida e hierarquia. Nós e os nossos, pelo contrário, devemos investir e treinar: moldar nosso corpo, controlar os sentidos e impulsos, armar-se bem, acostumarmo-nos a privação e ao sacrifício. O Estado, esta palavra bonita para descrever nosso governo instituído, é mentalmente refém deles, é conivente para com eles, é ideologicamente aparentado e posa de “pai” que dá bronca no filho mimado apenas para aparentar, ou dar satisfação social. A conivência das gestões das universidades e Ifs invadidos não é simples covardia, mas sim uma afirmação clara e em bom som, de que se sentem desobrigadas a cumprirem suas funções executivas do Poder Público por discordâncias com as cores ideológicas do atual governo, são uma clara demonstração de que lado estão. E… como fazer algo contra, quando os que deveriam fazer (e por vezes até possuem a responsabilidade e imputação jurídica para tal), estão por ajudar os que deveriam combater? Como defender estas fachadas que terminam por apoiar os que as golpeiam? Devemos esperar “merdas” acontecerem para acelerar as últimas consequências? Devemos causar e instigar as últimas consequências?

Lutar o bom combate é difícil, quando certo lado esquerdo é tão afeito a baixarias, fraudes e covardias diversas… e certo lado direito, quando não se esconde, termina por causa repulsa. Bem, são só pensamentos e talvez alguns estejam retorcidos pela irascibilidade.

Confabulações sombrias 1

Os que me conhecem, sabem de minhas inclinações políticas e de minha crítica ao governo do PT. Nisto, mesmo que por vias diferentes, termino no rastro de meu pai, confesso, ferrenho anti-PTista desde os tempos em que trabalhou no ABC paulista e viu pessoalmente a ação do sr. Lula quando era um mero sindicalista. Por outro lado, também sabem de minha crítica aos EUA, apesar de reconhecer que agem em prol do país deles, e a toda a estrutura de Revoluções Coloridas e engenharia social liberal-progressista (que cá é aplicada pelo PT também, talvez até com mais ênfase, como se tivesse que provar ser digno de confiança pelo Financismo Global). No entanto, como não sou um cidadão do mundo, não consigo, por mais que tente, sobrepor as questões geopolíticas externas às internas. As internas, pra mim, concretamente, diariamente, aparecem em primeiro plano, o que, no final das contas, me deixa mais próximo dos meus amigos e familiares, gente de valor provado, unidos contra este governo e mais distante dos teóricos do mundo perfeito, alguns deles conhecidos e mesmo “chegados”, que enchem os espaços virtuais, pendurados em cima do muro ou receosos em assumir que apoiam o PT ou que são virulentos anti-comunistas, mas que toleram os comunistas por ódio às Olavetes. Dito isto, vamos ao que, efetivamente, eu deseja cá compartilhar:

Em mero exercício de pensamento, mera especulação, um mero pensamento sombrio.

  1. considerando o tom das conversas grampeadas entre o sionista Jacques Wagner e o Rui Falcão.
  2. considerando certos “silêncios” de setores atuantes da militância PTista como sendo um silêncio de quem está trabalhando e não de quem está atônito.
  3. considerando mais uma ruma de coisas:

Se – SE – eu fosse o estrategista do PT, neste momento, estava desejando que as manifestações do dia 18 (hoje) aconteçam de “todo jeito”, de “bolo” – se for muita gente, ótimo, se não, OK também, será tempo ganho e propaganda jornalística pelo final de semana garantido, de todo modo. O que importaria seria ganhar tempo: tempo para comprar apoio do Congresso, para inviabilizar o Impedimento, para atacar a Mídia opositora (ou que ficou em cima do muro), para organizar a militância.

O importante mesmo seria “ganhar” a classe baixa, a mais “minoria”, caricata pobretã de todas – e para tal, num contexto de Guerra Total, mentiria terrivelmente, dizendo que os inimigos, os “Golpistas”, vão acabar com todas as conquistas sociais amanhã, caso Lula seja preso hoje. PRONATEC, SUS, tudo, absolutamente tudo, afinal o Brasil não existia antes do PT. Não se trata de mentir, mas de arregimentar com tal artifício o máximo de gente inculta e ingênua, e mais importante ainda, de gente que se sinta grata, verdadeiramente, devedora do governo do PT. Ter o apoio destas massas é condição sine qua non para a primeira linha de resistência.

Os movimentos “sociais” são inorgânicos e inexpressivos na conjuntura geral, é necessário que esta parcela da massa, anônima, engrosse as fileiras. Tal enchimento os faria parecer legítimos, orgânicos e expressivos. Toda a máquina e todos os centavos acumulados nos últimos anos para isto devem ser empregados. Gente na rua, Vermelho, Estrela do PT, Foto de Lula, o Deus Lula e sua sacerdotisa Dilma, no culto glamouroso da materialista “religião” PTista.

Ao mesmo tempo, paralelamente, eu aceleraria o contrabando de insumos de guerrilha vindos da Venezuela e Cuba: fuzis, munição, explosivos, pessoal capacitado. Reteria uma parcela do MST para ir operando a logística: receber, transportar, “aquartelar” os insumos estrategicamente por todo o Brasil. A outra parcela do MST, talvez até minoritária, iria para as ruas cumprir seu papel de fachada. O importante seria ter um Boi de Piranha, para chamar e reter a atenção pública e livrá-la de perceber a preparação da guerrilha. Esta seria a preparação para uma segunda linha de resistência.

Faltaria uma “false flag”. No caso, bastava colocar um PTista qualquer para, vestido de verde e amarelo, armado, matar alguém do MST ou simular um atentado contra algum PTista do alto escalão (ou contra uma sede emblemática do Partido). Pronto, este estopim seria aceso no momento certo, caso o Projeto do PT fosse, de fato, sofrer o golpe fatal por parte dos instrumentos jurídicos institucionais. Se a primeira linha de resistência ainda existir, afinal, suponhamos que houvesse algum êxito em mobilizar os “Excluídos do Mundo” (como chamava Ernst Bloch), ela poderia ser reforçada/inflamada se o false flag envolvesse algum tom sórdido ou sádico (como o assassinato de uma família “inocente” de algum assentamento do MST). Toda a grana mandada pra fora, pra os “camaradas” vermelhos (Cuba, África, América Latina), seria cobrada de volta por meio de armamento e apoio.

Aí a segunda linha, de guerrilha e das vias de fato, emergiria com alguma desculpa moral ou justificação romantizada que caísse bem aos olhos do “mundo” (leia-se a “intelligentsia” midiática progressista-humanista, por vezes de Esquerda, do mundo).

Se – SE – com a emergência da ação de Guerrilha não se alcance êxito rápido, suponhamos que houvesse uma resistência cidadã armada espontânea com apoio de setores das PMs estaduais, entraríamos na terceira linha de resistência que seria o chamado oficial para as Forças Armadas da Venezuela (e Bolívia, talvez Cuba) entrarem ou apoiarem. Comunistas de toda a América Latina viriam para uma tão sonhada “guerra santa”. Obviamente, que neste ínterim, teríamos um terrível “maiden”, pelo menos nos grandes centros como SP e Brasília, que traria a superfície os tentáculos Bolivarianos e do Tio Sam (se bem que, neste momento um Trump da vida tem preocupado mais o stablishment lá que uma possível ascensão do “comunismo” no Brasil), de modo que muito tristemente, deixaria de ser algo pelo Brasil e passaria a ser algo pela “Pátria Grande” bolivariana ou pelo jugo Yankee. Seria a realização depressiva da nadificação do país: ou um grande apêndice bolivariano ou um grande quintal yankee.

Ora, algum leitor talvez pergunte, por que deixei de fora as FAs do Brasil?

Bem, suponhamos que a amizade de uns generais com o então Ministro da Defesa, o comunista Aldo Rabelo, seja, de fato, verdadeira. Suponhamos também que seja verdade a conversa de que a ABIN estava monitorando o juíz federal Sérgio Moro e repassando os informes para o Governo, ou seja, agindo em favor deste governo. Suponhamos também que, os setores radicalmente anti-PT das FAs estejam na reserva, herdeiros do imaginário da Guerra Fria, esbravejando espumantes mas presos, pelo dever assumido noutros tempos, hierarquia ou pelas condições gerais e que, no final das contas, prevaleça o entendimento entre os que estão na ativa de que este governo é o legítimo e que deve ser mantido a todo custo. E por último, suponhamos que, de fato, as FAs não desejem “se queimar” intervindo. E mais, no pior dos quadros, não saberíamos em favor de quem se poderia dar tal “Intervenção”, já que, para o bem e para o mal, o pessoal de hoje não é o mesmo dos anos 60.

Se tomarmos estas suposições, as FAs não interfeririam até romper, de modo quase “regular”, uma guerra civil de fato. Ou seja, talvez já depois de atores bolivarianos mostrarem as caras à luz do dia em solo nacional, e dependendo do nível, na superfície, da tensão geopolítica mais ampla, a intervenção poderia ser em favor de qualquer dos lados, para a decepção dos que sonham com uma Intervenção Militar nos moldes de 64.

Ou seja, em modo de tudo ou nada, de Guerra Total, o PT teria mais meios de resistir do que pensa boa parte daqueles que o PT chama de “classe média” ou, simplesmente, de golpistas. Resta agora saber confabular, imaginar e exercitar o pensamento de como seria na outra perspectiva, imaginar a derrota final do PT.

Pensamentos sindicais

Não acompanho movimentações sindicais de dentro – poderia fazê-lo – mas prefiro me inteirar do possível por fora, e ao longo destes anos trabalhando como funcionário público (estadual e federal) algumas convicções se reforçaram em mim e diante do cenário que aparece no plano nacional, em especial dos professores estaduais, resolvi expor algumas delas achando que talvez seja útil para alguém.

Antes de mais nada, me parece que, nos últimos anos, em todas as greves que vi do setor, cá ou noutros estados, não houveram sucessos reais. Houveram aqueles “sucessos” de tapinhas nas costas entre os companheiros, aqueles tapinhas de sorriso insosso e frases de otimismo forçado pra esconder o que realmente se passou. Creio que boa parte dos desarcertos disto tudo sejam resultados diretos de três grandes fatores. O primeiro diz respeito a própria concepção de “sindicato” de professores. A segunda diz respeito ao erro de tática da luta sindical e o terceiro ao monopólio dos sindicatos por parte de certos partidos e tendências ideológicas. Vou tentar expor do modo mais econômico possível.

1.

O primeiro erro me parece ser o do pressuposto de que o esquema clássico da luta sindical pode ser transplantado, sem nenhum ajuste, para o serviço público. O esquema conceitual marxista da Luta de Classes, força a identificação do professor com um proletário e do governador com o patrão, considerando que a situação das empresas privadas é a mesma do serviço público. Isto não me parece que é assim, nem muito menos que funciona assim, mesmo após tanta doutrinação e pressupostos não revisados. O professor poderia, muito mais, como o médico e outros servidores, ser visto como um membro do Executivo, como o policial, ele é parte do Estado, representante deste em certa medida, executor direto de uma função constitucionalmente atribuída ao Poder Público. Me parece, a princípio, que ele não deveria ser visto como um “trabalhador terceirizado”, contratado para um serviço que não fosse final ou importante. Ele deveria ser visto como agente do poder público no campo da Educação, como parte do Estado, e uma parte “fixa”, ao contrário da contingência dos mandatos eleitorais.

Outro ponto importante me parece ser a incorporação de uma espécie de lógica liberal de “livre-concorrência” entre os sindicatos, permitindo que surjam milhares deles para a representação de um ofício, por sua vez, subordinadas as diversos sindicatos de sindicatos. Há uma recusa de unidade impressionante, camuflam o interesse monetário (sobre taxas de arrecadação) com a desculpa de que centralizar e unir a representação da classe é coisa “faxista”, etc.

2.

Os principais erros táticos dos sindicatos me parece que poderiam ser resumidos na seguinte assertiva: estão querendo ensinar a missa ao vigário. Os governos dos estados em boa parte, e em especial ao do País, é formado por ex-sindicalistas, pela gente que profissionalizou o sindicalismo no país. Utilizar as mesmas receitas é jogar com as cartas marcadas e contra quem deu o baralho. Seria necessário novas táticas, cujos movimentos não possam ser previstos e evitados pelos antagonistas, utilizar a imprevisibilidade, reforçar acordos sólidos de cooperação verdadeira e orgânica com os outros sindicados e representações dos demais funcionários públicos, etc. Neste quesito, em especial, repito cá uma indicação que fiz num áudio nos tempos do blog PBPagã ao comentar uma repressão policial a um movimento grevista de professores (que parece ter se repetido de forma ainda mais intensa no Sul do país): os políticos jogam a PM contra os professores, estimulam o excesso (seja pela ordem expressa de um lado, seja pela irresponsabilidade dos religiosos da “lutadeclasses”), a mídia cai em cima do excesso da PM e os que ordenaram tal, ou permitiram e são responsáveis, ficam incólumes, “salvos”; de repente todos esquecem que a PM está juramentada a cumprir ordens, que não age sem que haja, lá no fim da cadeia de comando, uma responsabilidade politicamente atribuída… A saída seria uma união, sedimentada com compromisso “sagrado”, entre os representantes de policiais e professores, entre os executores da força e da persuasão educativa. Esta aliança, entre “brâmanes” e “xatrias”, verdadeiramente, tremeria qualquer governo e seria um poder realmente capaz de algo. Permitir a estratégia de dividir pra conquistar e da ocultação das responsabilidades não dá certo, nem dará… Termina que, basicamente, a truculência vira boi de piranha e serve para resguardar os reais responsáveis – que ficam na penumbra – e para fortalecer o discurso divisionista e rancoroso dos setores da extrema-esquerda que controlam os sindicatos, o que nos leva ao terceiro problema.

3.

É complicado de haver real oposição e comprometimento com a classe quando os representantes via sindicato, no final das contas, quando o nó arroxa, são do mesmo time do governo; No final, estão todos do mesmo lado, seja por os primeiros ambicionarem cargos políticos no governo seja por compartilharem do mesmo conjunto ideológico, preferindo o atual governo ao “bichopapão” da oposição satânica. Começa a acontecer greves “meia-bocas”, greves que são puxadas pelas bases contra a implicância dos sindicalistas profissionais, quando não são autossabotadas pelo próprio sindicato – por um lado se cria um movimento, um algo, para aplacar os radicais e insatisfeitos, mas por outro lado já se assegura que a coisa não vai longe, que não se “mije fora do penico”. Mesmo que hajam brigas reais (por exemplo, os sindicalistas são trotskistas e o governo é da esquerda-progressista, como se estes setores brigassem… mas imaginemos), todos se tornam amiguinhos contra os malvadões da oposição. Eis a grande brecha, que permite que o governo, inclusive o federal, se aproveite dos confrontos e desacertos, especialmente quando cometidos em um estado onde governa a oposição… Rapidamente, surgem discursos inflamados, mas quando um governo aliado ou do próprio partido do governo, faz coisas semelhantes ou piores, se silencia ou se diminui os fatos e esse pessoal, que se julga exemplo, tão politizado e do bem, engole quieto, por que, no final, compartilham da mesma fé.

Por outro lado, se os sindicatos não fossem tão maciçamente controlados por ideologias da religião da “lutadeclasses” talvez houvesse uma maior possibilidade para pensar em táticas e estratégias inovadoras. A velha ladainha da “puliça-faxista” (que oculta a real responsabilidade de quem dá ordens a PM), o velho romantismo do confronto do “bem” x o “mal”, etc. Já há tempos que é instrumentalizada e mapeada por qualquer um que tiver o mínimo de disposição para analisar com seriedade as coisas. Por um lado, os velhos sindicalistas são sujeitos aburguesados (dentro dos próprios conceitos marxistas), acovardados ou conformistas, se não com as instituições, mas com os tais conceitos marxistas – tratando-os, na prática, como “sagrados”, como doutrina religiosa inquestionável, negando-se radicalmente a questioná-los criticamente ou a se quer pensarem se sua suposta eficácia realmente é eficaz. Por outro lado, os professores mais politizados que não se identificam com a extrema-esquerda e/ou este conjunto de crenças, ficam isolados, sem organização e perdidos, e terminam ou por converter-se, alimentando o “sistema” interno, ou por afastarem-se, evitando sua mudança. E nisto nada se resolve, os de sempre se beneficiam, e as engrenagens giram no eixo.

Tem gente neste meio que sabe disto tudo, mas por cegueira dogmática, ou psicopatia mesmo, insistem na Luta de Classe desejando ardentemente que um dia sua tão sonhada guerra civil estoure e ele possa ajudar (engraçado que os tipos que sonham com tais coisas, ao contrário de 30 anos atrás, são os mais burguesinhos, que se travestem de revolucionários como fetiche pessoal de autoconvencimento e adereço estético) a implantação messiânica do Reino dos Céus Comunista na Terra, este são desejosos que alguns inocentes percam a vida, que alguns companheiros sãos sejam realmente mortos, se necessário for. Mas não representam a totalidade, pelo que vi, dos sindicalistas, claro, há os que só querem a promoção política, os que só visam o lucro, não trabalhar (viver da representação), aproveitar-se da vida social e dos encontros, farrar, passear “de graça”, etc. – mas também há pessoas realmente crentes de que poderão melhorar a vida e as condições dos companheiros de ofício e é a estes que me direciono.

Tentando resumir, ao que me parece (e claro, sou um mortal comum, estou ciente de que provavelmente esteja errado), os sindicatos dos professores públicos precisam de uma faxina (precisam ser exorcizados de certa hegemonia partidária e ideológica), suas estratégias e táticas precisam ser atualizadas, reorientadas ou refundadas completamente (especialmente levando em conta sua ação conjunta com os demais agentes do Estado) e sua própria concepção-base precisa ser revista. É preciso ousar questionar o dogma da importação da Luta de Classes do serviço privado para o público, é necessário ver alternativas (como as visões corporativistas), é necessário admitir que esta via batida já não oferece real oportunidade de uma mudança significativa.

Imaginar a continuidade do diferente para chegar ao resultado do igual

Este texto fora motivado por recentes percepções dentro de um referencial Céltico, mas creio que seja útil para outros referenciais reconstrucionistas também.

Que a Deusa da Aurora ilumine com seus raios santos nossas mentes e nossos corpos.

É comum entre os RCs (Reconstrucionistas Célticos) dizerem “nossa religião é sobre o estado das coisas como se houvesse sobrevivido até nossos dias, como se não houvesse ruptura”. Este é um raciocínio que me parece acertado metodologicamente. No entanto, muitos ao dizerem isto ignoram (seja por real ignorância ou por preguiça) o peso do Cristianismo, e de sua influência nos valores laicos no Modernismo/Iluminismo que reverberam até hoje forjando os valores dos nossos dias.

Neste caso, em especial os americanos, imaginam um RC cripto-liberal, ou seja, modernista – que abraça cegamente (é diferente de abraçar após revisar criticamente) como “avanço”, “desenvolvimento natural dos tempos” e “progresso”, os pressupostos ideológicos do “desencanto do mundo”, do Humanismo e Egoísmo Modernos, a ideologia dos Direitos Humanos, do Materialismo e dos pressupostos da democracia laica liberal/moderna.

Os precursores (e convenhamos, são norte-americanos) são importantes por isto, pelo trabalho pioneiro. No entanto, isto não quer dizer que tenhamos que copiá-los cegamente em tudo, principalmente quando vemos gente do meio RC nacional se basear – sem saber, ou sabendo – nestes pressupostos modernistas dos norte-americanos como justificação para imitarmos ou apoiarmos certas conclusões. As mudanças do tempo, não significam que não haja pilares perenes, imutáveis; ou pelo menos, que não hajam certos padrões imutáveis. E nisto é que a influência cristã se esconde – enganados pelo pressuposto de uma ‘rigidez petrificada em livro das religiões abraâmicas’ versus ‘uma suposta ausência de rigidez das religiões tradicionais’ – os sujeitos crêem que toda rigidez ou noção de perenidade/imutabilidade é, automaticamente, sinônimo de abraamismo, e nisto tentam justificar a cega aceitação do Modernismo, como sendo uma espécie de consequência lógica e movimento justificado pela Tradição (pelo esquema conceitual Indo-Europeu). O problema deste pressuposto é de reduzir e simplificar a diferença entre as tradições religiosas abraâmicas e as demais a um suposto apego a uma concepção de doutrina imutável. É um simplismo tosco. Por mais que não hajam “bíblias”, ou “torás” ou “corãos” para os demais povos, isto não quer dizer que não creiam nem tenham em suas bases religiosas princípios vistos como perenes/imutáveis/imorredouros. Só diz que não sentiram a necessidade de registrá-los em livro, seja por acreditarem que não era necessário (uma vez que estão dispostos na Natureza), ou por considerá-los demasiadamente santos, etc.

Imaginar como seria se a continuidade não fosse rompida, não significa chegar exatamente às mesmas conclusões morais e políticas do Humanismo Moderno Ateísta, fruto do cristianismo laicizado e da especificidade histórica do ocidente católico. O exemplo óbvio da continuidade Indo-Europeia não rompida é a Índia – a Índia do séc. XIX (antes de ser contagiada pelo ocidente moderno) é um bom exemplo, um real, não um imaginário – e que demonstra claramente as diversas modificações e desdobramentos históricos (em termos de concepções filosóficas e movimentos religiosos e/ou reformistas), mas a manutenção, grosso modo, de pilares metafísicos perenes.

Talvez, o cripto-liberalismo deste sujeitos simplesmente repita o padrão judaico de “historicização” do mito (Vöegelin, Eliade) e os faz crer, lá no fundo, que o “que passou, passou”. Não percebem a obviedade de que as religiões Indo-Europeias tem de ver com a a atualização do tempo mítico, de uma afirmação a-temporal de certos valores e bases transcendentes.

Daí que quando o nó aperta, o que vemos são os sujeitos mostrando que, no fundo, são materialistas históricos, descrentes nas estruturas metafísicas tradicionais, simples humanistas “nerds” com fetiches medievalistas e com hábitos “estranhos”. Os mitos são mera “literatura”, poesia, “símbolos” e certas crenças tradicionais são escondidas, trancados no armário, pois levá-las à sério hoje em dia – em pleno séc. XXI (como se isto significasse alguma coisa para quem não põe fé num tempo linear e progressista) – envergonha a tão importante fama de inteligente, “descolado com consciência social”, etc.

Nossos ancestrais célticos, em se tratando de política, por exemplo, viam que o poder legítimo possui uma clara origem divina. Por que devemos deixar esta visão de lado? Será que ela não se fundamenta em um destes pilares perenes, conectados a própria existência e fé nos deuses enquanto poderes reais? Quando um evangélico nos diz que o poder político emana de Deus, devemos discordar dele se com isto quer dizer que somente o deus de Israel, que ele supõe como sendo único, é a origem de todo o poder político sobre a face da Terra; mas se, por outro lado, ele quer dizer com isso que o poder político legítimo possui origem transcendente, não vejo como, por exemplo, esta afirmação seria negada por um druida antigo. Claro, um evangélico muito dificilmente falaria algo assim neste segundo sentido, realmente, mas consideremos esta possibilidade. Para nós, esta fonte transcendente (do exemplo acima) se imanentiza na Terra local e requer que o líder político, o governante, una-se, “case-se” com ela para obter a legitimidade/sanção que seu governo necessita para que tenha êxito. Do contrário, sem tal “graça”, sem tal procedimento, todo êxito do governante será enganoso e sem sua Verdade (fír flaithmon) a Soberania (deificada) o desprezará, o caos se insurgirá, a ordem cósmica (transcendente) enfraquecerá e até as colheitas e o solo sofrerão… E claro, nossos Ancestrais sabiam que o governante, sendo o pico de um monte, uma ponte, mesmo que não queira, concentra em si o mais alto grau de responsabilidade (conclusão parecida, mas desenvolvida filosoficamente se acha no “Princípio Responsabilidade” de Hans Jonas), sendo seu dever sagrado, ceder seu posto quando de uma crise, quando não encarar o sacrifício (o regicídio) e restaurar com seu sangue as condições para o restabelecimento da ordem cósmica para os seus.

Isto não era compreendido assim à toa, como mero fruto sórdido da imaginação de nossos antepassados, tal posição reflete (pelo menos, se cria e se pode crer hoje) luzes a-temporais e se fazia sentido antes, pode fazer hoje também. Sim, leram bem, “pode”. Se deve ou não, podemos discutir, mas a possibilidade do “pode” é incontornável. O chato é ver gente nossa que abre a boca para dizer que compactua e crê nestes princípios tradicionais (e nos deuses dos quais emanam ou os quais “encarnam”, dependendo do ponto de vista), quando deparado com uma crise política em seu país, defender muito rapidamente e sem qualquer mostra de escrúpulos o imobilismo tosco (culpando o “sistema” e retirando qualquer possibilidade ao governante do país, no final das contas apoiando sua permanência decadente e anti-natural) ou berrar contra um religioso que diz – sendo coerente com os preceitos da fé dele (com a qual não somos obrigados a concordar, claro) – que o poder deve originar-se em Deus ou algo assim. Como se nossos princípios religiosos não possuíssem consequências políticas que, aos olhos do “humanista-ateu-moderno-iluminado-dos-últimos-dias”, fossem condenáveis como “superstição cruel”, “retrógrada” e “bárbara”… Se abre a boca soberbo para falar de estamento social na Antiguidade, de funções, importância das linhagens e o escambal, e quando o nó aperta, toma como certeza absoluta indiscutível as ficções modernistas de “poder popular”, “rompimento da linhagem” ou aquela rousseauniana de que o “povão”, o “populacho”, é essencialmente sempre bom e infalível, ou de que certos movimentos sociais instrumentalizados por ideologias revolucionárias possuem alguma legitimidade por se dizerem “populares” ou “representante dos desfavorecidos”… Eu não consigo ver tais coisas e permanecer “calado”, e tento, por vezes bem mais do que deveria, e é por isto que escrevo este texto. Os apressados, tenham calma, não estou advogando que devamos todos nós, no momento político acirrado (e até perigoso) armar um “regicídio” (se algo deste tipo acontecesse, convenhamos, talvez só beneficiasse o PT que até transformaria a presidente em Santa Imaculada e embalsamaria seu corpo e o deixava exposto ad saecula saeculorum) e coisa do tipo. Meu intuito é muito mais chamar atenção para a consistência interna e para as possibilidades abertas que os pensadores e líderes genuínos  (os não-genuínos nem sempre são problema, a Natureza, cedo ou tarde, os descartará) não podem negligenciar.

Bem, mas, voltando, o realmente importante é que não temos de simplesmente copiar os norte-americanos e colocar isto como a única possibilidade, ou como a possibilidade certa e válida. O medo de soar “radical”, “fundamentalista” é perfeitamente compreensível quando os abraâmicos nos dão amostras diárias da ruindade que isto pode ser; mas isto não significa que temos de ser humanistas ateístas moderninhos (muito comportadamente agradando os “bem pensantes”, hã?!) e ainda por cima fingirmos que estamos fazendo, exatamente, como seria se a continuidade histórica não tivesse sido rompida.

Arquia, anarquia e pensamentos (12/12/2013)

Originalmente publicado no finado PB Pagã em 12-12-2013

Saudações.

Vai e volta, encontro-me com o termo “anarquismo”, utilizado por gente de extrema (esquerda ou direita), capitalistas burguesinhos, gente de classe média “nerd” ou gente de classe média típico bicho-grilho-hippóide-de-Humanas, nacionalistas (sim, há o nacional-anarquismo) etc. É um termo bem presente. Mas, ao meu entender, em certos usos, é um termo falho. Escrevo esta postagem visando demonstrar o motivo.

Basicamente, minha implicação é de ordem etimológica.

Etimologicamente, anarquia é um termo que aponta para “desordem”, é “falta de princípio director, governo, comando”. Este “-arquia” é a mesma “arkhē” dos filósofos Pré-Socráticos. E isto deveria ser o suficiente para invocar o peso (ontológico) da noção “-arquia”. Eles, como todos os povos tradicionais de que se tem notícia, acreditavam na existência de um princípio ordenador do que existe. No pensamento religioso, tal princípio é sagrado (em grego “hieros”), sendo ele próprio, a ordem natural das coisas, a ‘hierarquia’ (“hieros”+“arkhē”). Este princípio, tanto para os Pré-Socráticos (cuja inovação fora iniciar a investigação racional e dessacralizada deste princípio ou conjunto de princípios) como para os religiosos, é pré-existente (ante rem), ou no mínimo, ontologicamente congénere com as coisas (in re). Há uma hierarquia no mundo, na natureza das coisas, seja ela característica inseparável do que é (in re) ou de origem divina e premeditada (ante rem), simples assim. Estamos nos referindo a uma crença profunda, e até onde sei, presente em todos os povos, ao menos no mundo antigo. Dependendo dos povos e culturas, tal percepção da hierarquia natural é estendida, com maior ou menor grau, a organização política e sócio-económica da sociedade.

Podemos postular, sem agravo, que o pensamento tradicional é caracteristicamente ligado a tal percepção de uma ordem configuradora do ser. Podemos também estender filosoficamente tal noção aproveitando os conceitos desenvolvidos para a questão dos universais e aplicando-os cá. Neste caso, teremos os crentes na existência de uma hierarquia prévia (ante rem) ao que é, estabelecida teogonicamente, no que é (in re – idéia próxima da Pitagórica de que há uma ordem directora matematizável na estrutura do próprio universo; pressuposto parecido foi assumido pela Ciência Moderna desde de Galileo e ainda rende frutos na matematização da Física e nas tentativas de síntese do tipo Teoria Geral) e os crentes numa hierarquia posterior as coisas (post rem), seja pela argumentação de que nosso aparelho gnose-sensorial organiza/hierarquiza as nossas percepções e representações em nossa mente por sua própria natureza (similarmente as categorias a priori de Kant e o modelo epistemológico deste) ou pela própria linguagem que utilizamos para pensar e descrever o que existe postular uma hierarquia, uma organização directora (ou seja, por existir na linguagem – seria a postura mais próxima do Nominalismo, digamos).

Claro que ao longo da história, a percepção da hierarquia, sagrada, efectivou-se também como uma “disarquia”, perdendo o carácter sacro, instrumentalizando-se como injustiça e desregramento no mando político de sociedades. Quando o princípio director e governante perde sua orientação transcendente, a coisa desanda, deixamos de ter uma hierarquia, em seu sentido próprio, e passamos a ter uma caricatura, muitas vezes prejudicial, uma ‘disarquia‘. Ou seja, o problema não é ter os melhores no topo, o problema é quando “os melhores” não são Os Melhores. Esta é a real injustiça social (qualquer um que leu a República de Platão bem lida, deve ter compreendido esta lição tradicional). Isto é o que havia de real quando um Rousseau da vida, zombou de um gordo e efeminado Luís XIV, em contraposição ao camponês rude e viril; mas com o Rousseau, a coisa não parou por aí, ele acreditava que o problema era a própria noção da desigualdade natural, e da “hierarquia”, não se tratava de não ter Os Melhores no topo, mas sim de não haver ‘melhores’! Ou seja, jogou-se o bebê junto com a água, e de lá pra cá, muito anarquista (o francês Proudhon que o fale, lembrando que este terminou por influenciar o russo Bakunin) segue esta rota irrefletidamente.

Há quem ache que tal ideia “encantadora” – de “não haver melhores”, serem todos iguais, o Igualitarismo aí pressuposto – ganhou corpo e se disseminou com o Cristianismo (Nietzsche, Evola, Alain de Benoist, Faye, etc.), como é bem sabido.

Uma vez que não há melhores, nem superiores, o Sujeito moderno, Liberal, torna-se autónomo no sentido etimológico do termo (“aquele que rege a/legisla para si próprio”), daí, passar a ver todo poder externo a si (o Estado, especialmente após o trauma “absolutista-hobbesiano”) como opressor é um pulo. Ou seja, partindo do Igualitarismo e do Modernismo (do Sujeito Moderno) é fácil chegar (se é que não é uma consequência lógica!) ao anti-Estatismo, o tal Anarquismo – seja pela Esquerda (classicamente, pela via sindical-socialista até o trotskismo), seja pela Direita (pela intensificação e máxima potencialização do liberalismo, no Libertarianismo/Anarco-capitalismo). Ambas as visões não enxergam um princípio ordenador prévio (ou congénere) para a existência, não conhecem a ideia hierárquica em seu sentido originário, ao contrário, denunciam tal discurso como religioso, reaccionário, alienante e opressor e assimilam, instantaneamente, o termo “hierarquia” à injustiça e usurpação. Ambas visam a horizontalização igualitário-materialista, o Paraíso messiânico terreno, seja pela redistribuição directa de riqueza (Esquerda), seja criação de mecanismos que permitam o igual acesso ao consumo (Direita). Por mais que as ideologias elaborem conceitos-chave que não possuem qualquer validade científica e sirvam como depositários da fé de seus crentes (sendo análogos aos mitos e aos conceitos religiosos), como a “Mão Invisível da Economia” ou a “Luta de Classes”, suas pretensões de superioridade à religião e pseudo-cientificismo (pelo menos no caso do Marxismo), terminam por encantar a intelligentsia ávida do status da superioridade intelectual.

Antes que algum gaiato venha cá dizer (por proselitismo ou por real “comoção” e desejo por “iluminar esta mente escura”) que entendi tudo errado, informo que estou bem ciente dos usos do termo no final do século XIX e começo do XX. Conheço algo do Proudhon, algo do Bakunin, algo do Trotsky, do Marx (o fim messiânico de sua promessa teórica, o tal do comunismo real, o “anarquismo feliz”) e mesmo de gente que é utilizada, especialmente pela anglofonia, como “ancestral” do Libertarianismo e do Anarco-capitalismo, como Thoreau. Compreendo quando se fala de “gestão orgânica”, “governo espontâneo”, “livre associação comunitária”, “voluntarismo” e tantos outros conceitos para expressarem a alternativa a um Estado (termo latino, usado já na época de Cícero), o Estado Moderno, Hobbesiano, Westfaliano; e mesmo concordo que a ideia de “livre aceitação” de uma forma de governo ou manifestação hierárquica é, fundamentalmente, uma boa idéia. Compreendo até a mitologia dicotómica do Estado=Mal x Não-Estado/Anarquia=Bem, etc. E o pior, até venho lendo com certa constância algo do anarco-primitivismo, anarco-nacionalismo e outras variantes. O que estou dizendo é que não concordo com o uso do termo “anarquia”, principalmente quando ele denota a existência ainda de alguma “arquia”, mesmo que não seja a do Estado Moderno Hobbesiano. O que estou dizendo é que não vejo nenhuma razão para resumir biunivocamente “arquia” a Estado Moderno Hobbesiano/Westfaliano/Burguês. Ou seja, o fato de não haver o Estado Moderno não quer dizer que haja “anarquia”. Simples assim.

E por isto fala besteira ou simplesmente atesta sua idiotice (ou má-fé, do mesmo modo que os marxistas que falam na baboseira mentirosa de “comunismo primitivo” ou os seus ancestrais ideológicos que falavam em “cristianismo antes de Cristo” – ou toda e qualquer prática fraudulenta de alteração e revisão do passado sob orientação ideológica do presente, por mais que não seja por “má fé”, que se admita ao menos que é por motivos estratégicos e de “propaganda”) quem fala em reinos medievais “anárquicos” ou tribos celtas e germânicas “anárquicas”, etc. Não importa quão disseminado esteja, nem quantos seguidores tenha ou quantas entradas na Wikipédia disponha.

E mais, creio que para um religioso que adere a uma religião antiga ou de inspiração/restauração destas (como é o caso dos Neopagãos), digo que ele adere também a uma visão que estipula, tradicional e necessariamente, “hierarquia” (em seu sentido etimológico e ontológico) e que por isso mesmo não pode simplesmente abrir a boca em favor de “anarquismo” (no sentido etimológico que abordei acima) sem que se contrarie. As crenças na existência de alguma forma de “arquia” (ante rem, in re, post rem, nominalisticamente, etc.) e na sua ausência (“anarquia”) são mutuamente excludentes. Como disse, me refiro a alguns usos específicos (especialmente aos usos de origem religiosa não-cristã, pois dentro do cristianismo primitivo parece ter havido uma brecha que os anabatistas revisitaram) e exponho cá os motivos. Tal exposição não visa ser o início de uma cruzada contra o termo, mas antes chamar atenção para sua dimensão etimológica e as possibilidades de nos reapropriamos dela de um modo que me parece menos problemático. Aos camaradas pagãos e correligionários, recomendo que utilizem simplesmente “tribalismo” ou “primitivismo” ou algo do tipo.