E eis que fui ler o Corão…

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Diante de opiniões tão inflamadas acerca do Islã, é fácil deixar-se ser guiado por simpatia ou antipatia a um certo “bloco”, com o qual, por n motivos, previamente nos identificamos. Afinal, seria toda a questão da “Islamofobia” uma simples construção yankee imperialista para instrumentalizar certa “direita”?

Bem, eu ganhei uma versão do Corão anos atrás em um evento e resolvi fazer o que mais prudente me pareceu para tirar minhas próprias conclusões: ler. Claro, tive certo treinamento, digamos, filológico e hermenêutico (em minha formação em Filosofia) e estou demasiado ciente da importância do idioma original, etc. especialmente em textos que são vistos como registros literais das revelações (diferentemente dos evangelhos cristãos, por exemplo). Mas, estudar o idioma árabe apenas para esta leitura não me pareceu necessário: nas partes em que desconfiei mais da tradução, recorri as ferramentas virtuais (abundantes!) em inglês, que comparam e comentam o árabe original. Bem, ainda não terminei a leitura (estou caminhando para a metade e, confesso, desestimulado), mas resolvi postar cá umas primeiras impressões e reflexões. E claro, é bom dizer em bom som: não sou um especialista em nada disto, tratarei o texto como alguém “de fora”.

Comparado aos textos do Cristianismo contidos na Bíblia cristã (“Novo Testamento” e as cartas de Paulo, etc.), o Corão tem me parecido mais, na falta de uma palavra melhor, “potente”: as revelações se deram a Maomé em diferentes momentos, mas mantém uma maior coerência interna (o que seria de se esperar, no final das contas, é um texto de “uma só cabeça”, diferente dos evangelhos). Talvez o que se possa comparar melhor, neste sentido (de um só autor “inspirado”), seja as próprias cartas de Paulo, mas estas, diferentemente das suratas do Corão (apesar destas também condensarem momentos teofânicos, digamos), foram escritas para comunidades cristãs diferentes e focadas em questões específicas daquelas comunidades. Além disto, há uma retórica mais inflamada e que transparece, de fato, um maior estado de “transe” ou influência mística na escrita de algumas das suratas, em oposição – novamente – a uma prosa mais “tranquila” que predomina nas cartas de Paulo ou na redação de alguns dos Evangelhos. Talvez, caso eu não esteja enganado, este tipo de “atmosfera” discursiva na Bíblia cristã, para comparação, aparece mais em um texto como as Revelações, por exemplo. Pelo menos foi a impressão que ficou em mim.

Ainda em termos de uma certa estilística, pelo pouco que conheço, o Corão traz certas repetições de frases específicas que – não procurei, nem terminei de ler o texto ainda – talvez formem um padrão: e isto seria um apontamento significativo para certa transmissão oral do texto, antes de uma versão escrita final. Mas não conheço absolutamente nada da formação histórica do texto e talvez seja uma divagação errônea.

Em termos de conteúdo, de doutrina, a leitura do Corão me deixou claro certas coisas até agora. Há sim, incontestavelmente, uma instigação a dominação e expansão guerreira, em termos que agradam qualquer um que tenha um mínimo de virilidade. Mas há, justamente, aquele radicalismo exclusivista ainda mais forte e uma instigação direta ao assassínio de infiéis. Eu como um infiel, não posso deixar de notar que estou na mira de muito do que é exposto ali. É um fato, não é conversa de “islamófobo”. Alguém dirá “ah… mas a Bíblia também tem”, bem, eu retrucaria dizendo: “ok, leia o Corão e depois a gente conversa”.

Particularmente, valorizo o aspecto guerreiro às claras, direto, sem subterfúgios, e não seria diferente do que tem nisto no Corão; no entanto, como caio na “carapuça” do inimigo traçado lá, até por ser o tipo de “idólatra irremediável”, é óbvio, que não tenho como não me sentir incomodado pelas ameças e promessas de destruição. E nisto preciso ser claro: não há um Corão dos sunitas e um outro diferente dos Xiitas, não adianta virem cá dizer que “ah… são os alauítas radicais”, ou “ah… são wahabitas financiados pelos yankees isso e aquilo” eu retrucaria, mais uma vez com “ok, leia o Corão e depois a gente conversa”. As passagens (que são muitas, na 2ª surata e 4ª, por exemplo, há as mais memoráveis para mim, até agora) são claras; contorcionismos interpretativos para torná-las “pacifistas” e “brandas” não passam de subterfúgio… Leiam, não acreditem em mim.

E aqui, me vem duas surpresas até agora: a primeira, é a instigação religiosa a migração (hijra) e conquista (de terras não islâmicas). Sim, isto existe e tem um peso de mandamento moral, tanto que, o sujeito que “se nega” a migrar (o sujeito que ama a própria terra e país), o próprio Alá o desaprova (4:95). O segundo é um certo tipo de comportamento de infiltração, fingido e subversivo que fica nas estrelinhas (talvez a afirmação mais literal seja em 3:28), a taqiyya. Para mim, isto foi uma certa surpresa: no meu pré-conceito inicial, não achava que tal coisa estivesse de fato no texto, mas que fosse fruto de comentaristas posteriores (e de fato, este conceito é massivamente desenvolvido nos comentaristas posteriores, xiitas e sunitas, apesar de mais nos primeiros). Confesso também que, a constante retórica anti judaica (a anti cristã tende a ser menos incisiva) me surpreendeu – novamente, antes de iniciar a leitura, partia do princípio que tal disposição fosse histórica e “posterior”, digamos, oriunda dos conflitos políticos locais.

Bem, aí entram minhas rapidíssimas e modestas reflexões. Nesta altura, não me parece lógico alguém que seja um idólatra irremediável celebrar “parceria”, qualquer que seja, com o muçulmano. Um politeísta que louva qualquer iniciativa que promove o Islã (seja xiita ou sunita) ou é um ignorante, e está sendo iludido, ou é alguém que, talvez não seja politeísta de fato, pelo menos não um tipo que deseje viver sua religião em liberdade. Outra coisa que não me parece lógico nesta altura, é gente que condena o comportamento de infiltração subversiva dos judeus, atribuindo-lhes toda sorte de desgraças e perigos, nas sociedades ocidentais não dar um só pio em relação a algo tão claro como perigo de subversão política e cultural da taqiyya (aliada a hijrah) entre os muçulmanos, que, virtualmente, torna qualquer um deles, não-confiáveis a priori (lembrando que o Corão autoriza claramente o muçulmano a mentir e trair os idólatras, vd. 9:3 a 5). Condenar um (suposto) e não outro (que é textualmente factível), ou é fruto da ignorância, novamente, ou de uma preferência velada pelo jugo mouro.

Infelizmente (pois, me pareceu decepcionante, de fato – além de que é uma espécie de “dar o braço a torcer” a pessoas que antes julguei exageradas), para mim já ficou claro, com o que li (tanto que, a preguiça já me diz que nem preciso ler mais, nem preciso terminar de ler o Corão, o que li já basta…) que, invariavelmente, não há “acordo” possível. Minhas pré-disposições oriundas de um otimismo místico guénoniano se foram de uma vez. Como cerrar fileiras com isto?! E vejam que não quero entrar nas questões históricas do que politeístas sofreram ou que estão a sofrer (hindus, politeístas indo-europeus, familiares religiosos nossos, por exemplo) neste momento.

Quando decidi postar isto cá, pensei por um bom tempo se, ao invés de uma postagem deste tipo eu não deveria simplesmente sair copiando e colando versículos de suratas que, no meu ver, falam por si. Claro que, sempre ficaria aquela conversa de “recortes” fora do contexto e de propaganda da “oposição”, etc. Já que estou terminando esta postagem advogando por um distanciamento. Mas desisti: não é preciso isto, antes é mais prudente pedir aos interessados que leiam e tirem suas próprias conclusões.

Se por um lado, temos divergências radicais com o cristãos, ao menos possuímos um histórico civilizacional comum, e podemos estabelecer certas zonas de diálogo ético, pela base helênica (e indo-europeia, gostem eles ou não) nesta matéria que compartilhamos. Mas com o muçulmano, por mais que admire sua disposição guerreira, partimos de um histórico civilizacional não apenas diverso, mas agonístico: olhando para a Reconquista na Ibéria, só consigo me ver batalhando do lado dos meus ancestrais cristianizados… E por mais que estes, olhem para mim hoje com reservas por ser um “idólatra”, entusiasta dos deuses dos nossos ancestrais ainda mais antigos, eu (EU) sinto que homenageio o esforço deles, minimamente, não me curvando em namoros com o Islã: não por pura “birra”, mas justamente, por entender melhor contra o quê eles lutaram, tombaram e venceram. Não se sacrificaram em vão. Pagar a jizya, no final das contas, é o que (eles, os muçulmanos) nos propõem, caso não nos convertamos ou sejamos mortos.

Talvez isto pareça decepcionantemente simplista e seja mais fácil me culpar de “desinformação” ou de ter sido cooptado, ou o que seja. Mas “pagar de pró-muçulmano” por ranço anti-yankee ou por desaforo anti-conservador, seja lá como for, é uma atitude adolescente e perigosamente ingênua. Se tu, leitor, achas que estou sendo precipitado ou preconceituoso (sendo instrumentalizado pelo complô liberal-conserva-xenófobo, ou seja lá como desejas chamar), ótimo – desde que isto te instigues a ler o Corão e tirar, tu mesmo, tuas conclusões.

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Reflexões sobre um ‘Império Pagão’ e o Brasil

Após a leitura de um texto do filósofo pagão Alain de Benoist, senti que parte das idéias manifestas tempos atrás (diante na nebulosa leitura do “Imperialismo Pagão” de Julius Evola) sobre certos temas políticos foram organizadas com maestria. Mesmo para quem, profissionalmente, lê filosofia, não deixa de ser impressionante a capacidade de síntese e formulação de certos sujeitos. Recomendo ao leitor aventureiro que por ventura cá aporte, que leia o texto do filósofo francês antes de prosseguir cá. O nosso, talvez, seja uma mera “sombra” projetada timidamente em direção aos Trópicos.

E talvez uma sombra “fuleira”. O tema é por demasiado complicado, requer mais estudo e leituras de minha parte (confesso) e por isto mesmo, muito resisto em divulgar pensamentos cuja lapidação ainda não me transparece a segurança necessária que este tema requer. Afinal, é fácil passar-se por ridículo em tais questões e mais fácil ainda cometer deslizes. Além de que, idéias “esdrúxulas” e pouco presentes nas discussões mais cotidianas, tendem a cercarem-se de uma aura de excêntrico para além do normal. Mas o faço por achar necessário chamar atenção para o tema, mais do que para arvorar-me de propor uma solução e uma palavra final. Para alguém que estuda filosofia, entrar numa discussão ou mesmo acompanhar uma certa reflexão é sempre mais penoso quando não há um claro rigor conceitual e termos elucidados previamente. Infelizmente, não me ative a elucidação conceitual prévia por motivos econômicos: acreditei que deixaria o texto maior ainda, mais prolixo e como se tratava de algo a ser reelaborado depois, tomei a liberdade de usar termos como “dissidência”, “nacionalismo” de modo um tanto quanto intuitivo. Vamos lá.

Falência da República Nova?

Diante das tremendas reviravoltas políticas que mergulharam o país em águas turbulentas e muito sujas, cresce, cada vez mais, o sentimento de que, de certa forma, a República Nova está falida. Que o Sistema todo está viciado, corrompido e que, não só não funciona agora, como, muito provavelmente, não funcionará mais (se é que algum dia funcionou bem). Ou seja, que o problema é endógeno e existe a priori no Sistema. Uma vez que cresce a percepção de que o problema é o Sistema em si, cresce a percepção da necessidade de alternativas globais, não para salvar o Sistema, limpando-o, reformando-o, mas para substituí-lo eficazmente. E aí que ganha corpo os projetos e fabulações: gente que defende intervenção militar e um regime de exceção, gente que defende que é a hora de organizar um levante “popular” comunista para tomar o poder (a retomada, pelo menos retórica, do discurso “Radical” na Esquerda), gente que defende que a única solução é que o Estado seja abolido para que possamos viver num suposto paraíso anarco-capitalista, etc. Abundam soluções de Reforma Radical, ou melhor, de Substituição do Sistema, mais do que de “reforma” do mesmo. Creio que não seja tolice falar que tal reivindicação cresce. Dentro desta perspectiva, claro, também ganha espaço timidamente a Causa Monárquica, encabeçada por um setor minoritário de católicos e de conservadores em geral.

De repente, todos apontam soluções e dão seus pitacos: é a própria conjuntura que clama. No entanto, há muitos (a Grande Mídia, por exemplo?) que preferem alimentar a visão de que os problemas manifestos são meramente contingentes e não propriamente estruturais, e que tudo se resolverá com a mera substituição do conluio de partidos que nos governa: basta uma nova eleição e, voilá, “zerou” tudo, daqui pra frente tudo estará bem porque… aprendemos a lição e os mesmos erros não serão repetidos, certo? Os que se beneficiam do Sistema que aí está, são, óbvio, os primeiros a desacreditarem e ridicularizarem as concepções que apontam para a localização do problema no próprio Sistema e não só nos agentes e operadores corruptos do mesmo. De outro lado, certo estado de letargia e ignorância sobre as possibilidades, a real ausência de um debate que discuta e publicite as percepções sobre os problemas do próprio Sistema e não apenas de seus agentes contribui para formar uma cortina de fumaça e para, por a cumplicidade calada, fazer a “ridicularização” ter eco. Ainda não se criou o clima que houve no plebiscito sobre a instituição da Monarquia em 1993. Liberais e Socialistas de variegadas matizes se unem, como esperado, para rirem juntos de uma alternativa monárquica, ou militarista, ou o que quer que seja (especialmente quando saí dos limites modernistas), com o aplauso da Mídia e dos Bancos: a final, a elite progressista e “prafrentex” está empenhada em fazer o mundo “progredir”, não em “regredir”, certo?

As saídas que nos apontam, as saídas de sempre.

As alternativas, mesmo na manutenção do Sistema, de certo status quo, nos são apresentadas pelos atores políticos majoritários como uma espécie de luta para sermos dominados escondida num jargão economista e “patriótico”/anti-imperialista-yankee: ou formalmente pelos EUA, como capachos obedientes e orgulhosos, ou formalmente pela Venezuela/Cuba, como um capacho musculoso orgulhoso. Com a saída formal do PT do Governo do país, a via “Bolivariana” perdeu um pouco de força, pelo menos em termos institucionais, na própria acção do Governo. Mas os seus rancorosos defensores, ainda guincham, azurram e coiceiam chamando atenção a cada tropeço, alimentando esperançosos o ar trotskysta de “quanto pior, melhor” e espumando ávidos pela vingança. Por outro lado, os que encantados pelo desejo de serem os EUA do hemisfério Sul, decepcionados, começam a deixar claro que aliar-se com patriotas/nacionalistas e conservadores já não basta, demarcando com clareza a linha divisória entre os paladinos joviais do Libertarianismo (Instituto Mises, MBL e demais) dos trogloditas “reacionários” retrógrados estatistas (religiosos, “bolsominions”, viúvas-do-Enéas, etc.). Finalmente, como esperado, Liberais e Conservadores começam a perceber que possuem agendas diferentes. Além de que há muito a amadurecer em certos debates. Os liberais, por exemplo, louvam certas coisas como se fossem grande invenção do Liberalismo e os Esquerdistas automaticamente se tornam contrários, apenas para contraporem ao que os ditos liberais clamam e vice-versa, sem que ninguém busque compreender mais fundo mais nada. Um exemplo besta: na Antiguidade nem no mundo Medieval o que podemos comparar com poder “público”/Estado obrigava ninguém a pagar algo como o nosso FGTS e nem por isto uma pessoa em sã consciência chamar-lhes-ia de “liberais” (poderíamos estender para assuntos como Universidades/Academias privadas, etc.). Mas se o Governo decidir flexibilizar ou torná-lo facultativo, os liberais gritarão orgulhosos e buscarão registrar em pedra que tal foi uma vitória do Liberalismo. Claro, motivações podem até ter sido inspiradas por certos ideais modernos, mas o ponto é que nem tudo parece ser o que é, única e exclusivamente por que eu não gosto de quem estar a dizer. A cegueira historiográfica para tudo que antecede os últimos 200-250 anos é impressionante. Enfim…

O cenário de uma Esquerda que ainda está atordoada e com uma parcela significativa vivendo na irrealidade, de uma “Direita” que se divide e finalmente percebe que o entendimento entre Liberalismo e Conservadorismo tende a zero, seria o cenário perfeito para a emergência de uma via diferente, de um projeto que protagonizasse nossa liderança (Brasil) enquanto o poder inconteste da América do Sul, e não a nossa sujeição. Esta deveria ser a via para qual convergiria nacionalistas, descontentes patrióticos em geral (inclusive ex-brizolistas, diga-se de passagem), reacionários, certos religiosos, etc. Mas ao invés de fazer romper uma frente forte e ganhar espaço, não tem havido convergência numa via alternativa nenhuma, e parece até que se tem sufocado mais possibilidades de prosseguir, seja por puritanismo apriorista (como se um movimento político, desde de seu início, fosse petrificado e perfeito, como se não mudasse e se ajustasse com o andar da carruagem e certas contingências da Fortuna) seja por uma falsa percepção, mais comuns entre certos setores da dissidência, de que os problemas geopolíticos globais devem se sobrepôr a realidade local e tópica de certos problemas nossos. Soma-se a isso, a crença “viralatística” cega de que certos autores estrangeiros estão sempre em melhor condição de descrever a conjuntura de nosso país (e o fazem, muitas fezes simplisticamente, a partir de seus pressupostos geopolíticos prontos e sem terem acesso a informações “menores” – geralmente pouco destacadas na grande Mídia –  mas que apontam detalhes cruciais) do que nós mesmos. Nisto padece certa dissidência e certa ala da Direita liberal, mais do que a Esquerda propriamente. A cobertura do processo de impedimento da então presidente Dilma, por exemplo, foi claro neste quesito. Para mim (o leitor poderá ter uma posição diferente), pelo menos, ficou muito claro como as situações de conflito em países distantes também devem ser muito mais complexas do que o que é pintado por analistas e intelectuais (e pela Grande Mídia, assim como por instituições como ONU) para nós, ou melhor, para que nos posicionemos apaixonadamente do lado que gera a narrativa. Claro, como os sujeitos não estão cá, muito tem de ver com as fontes de informação às quais são expostos e que utilizam para gerar suas bases para extraírem suas conclusões. Mas ao ver gente estrangeira que admirava e respeitava, simplesmente repetindo a baboseira PTista de “golpe”, sabidamente falsa e mentirosa, abriu meus olhos para a prudência em ter um certo pé atrás quando estas mesmas pessoas descreviam, simplisticamente, certas realidades conflituosas em países distantes. Há lados sim, e como disse um amigo, por vezes nunca teremos como saber qual é o “certo” e simplesmente seremos cobrados a nos posicionar e lutar. OK. Mas isto não nos exime de uma certa prudência intelectual, especialmente quando não se é este tipo de sujeito que vive e se guia por gurus estrangeiros. Para mim ficou mais claro que é necessário mais ceticismo em certas abordagens.

A moralização do embate numa espécie de maniqueísmo declarado, gera seu esvaziamento político e uma transformação na luta entre o lado do Bem contra o lado do Mal (do “Satanás”! Veja que tanto Bin Laden, quanto Bush, quanto Dugin caracterizam assim o oponente em certos momentos) deveria ser o suficiente para despertar certo ceticismo nas mentes não tão afetadas pelo binarismo do deserto semita. A grande questão é que, de repente, do alto de nosso trono social-media, cegos pela análise de conjuntura distante e “inteligente” dos intelectuais que admiramos, julgamos saber mais e melhor sobre as situações do que os sujeitos que estão lá vivenciando a coisa na pele. É sobre esta postura petulante e imprudente intelectualmente que precisamos estar alertas. Este ponto merece ser frisado.

Há os que, apesar de concordarem que o bom mesmo, seria o Brasil não ser capacho/vassalo de ninguém, no final das contas, dada a impossibilidade disto, se inclinam na prática ou no fundo pensam que seria melhor ser vassalo de A que de B. É mais ou menos o que certos patriotas bolsonaristas dizem (preferindo os EUA) e mais ou menos o que aferimos de certos “dissidentes” (que preferem a “Pátria Grande” bolivariana)… Ambos se acham justificados, e conseguem certo malabarismo (mais ou menos cheio de movimentos espetaculares) discursivo para encorparem as respectivas posições. Mas talvez, também se achem justificadas as outras possibilidades que a estes dois interessa negar: voltar a Portugal (reestabelecer o Império Trans Atlântico!), ceder algo aos nativos, ou ainda, assumir tenazmente a não-sujeição ou entrega alguma! Fato é que, no final das contas, uma divisão permanece, se aprofunda, e vetores unificadores ainda não ganharam corpo para ocupar um espaço vital que, se não ocupado em breve por tais vetores, tornar-se-á refém (novamente) do acordão do status quo.

Erros da Dissidência?

A dissidência deveria, justamente, estar a lançar propostas e trabalhar vanguardas, justamente por estar (ou dever estar) criticando as duas tendências majoritárias; e por isto, talvez, haja mais linhas cá sobre ela do que sobre as demais, além de que, justamente por me sentir, pessoalmente, mais próximo e representado em certas bandeiras da dissidência do que por outras posições, me vejo na obrigação moral de expor o que me parecem ser os erros mais do que noutras opções. E claro, não posso deixar de parabenizar o trabalho de certos camaradas e de registrar que há acertos também. Apenas que para o que está sendo refletido cá, neste momento, precisaremos focar nas críticas.

Para os que se dizem tradicionalistas, persistir na aposta “política” ao invés do retorno às religiões é persistir no erro da modernidade: politizar a fé, ou usar a política para reestabelecer certa fé, ao invés de espiritualizar a política. Para um tradicionalista coerente, não há “ideologias políticas” dispostas no mercado moderno de opiniões, o que há é sua Religião. E só. Compreender a profundidade disto é alcançar a libertação do cárcere mental “militante”. A discussão sobre ideologias políticas é moderna, e as possibilidades de conversão/adoção delas, independentemente dos desdobramentos e consequências religiosas, só surge a partir da dissociação entre Religião e Política, só na Modernidade que faz sentido falar-se em “pagão”-liberal ou “cristão”-socialista; os próprios cristãos, pelo menos os católicos, perceberam que, de fato, a única possibilidade de ideologia política coerente para eles é… serem “Católicos” (o que significa serem distributistas-monárquicos!). Para os pagãos também e, antes ainda. Entrar no jogo de defender “ideologias políticas” é saltar direto para o Modernismo: o asatruar deve defender, politicamente, a Ásatrú, o helênico, o Hellenismos, o pagão romano o SPQR (seja imperial ou republicano), etc. Se não parece tão claro assim o que isto significaria em termos práticos, isto quer dizer que precisamos de mais filósofos e politeólogos nos digam, que mais estudos, reflexão e imersão são necessários, não é por não vermos facilmente tais coisas que devemos concluir, de uma vez por todas, que as mesmas não existem. Simples assim: não há ideologia política além da Religião. Nem uma primeira teoria política, nem uma segunda, nem uma terceira e nem mesmo uma quarta (se esta for encarada como “ideologia política”). É preciso esvaziar o conteúdo ideológico e retornar às grandes questões políticas: regimes de governo, legitimidade do poder político, Soberania e o papel do regente, Identidade e tradições dos povos, etc. Enquanto não se compreender que as grandes lutas, golpes entre reis, monarcas, imperadores (seja entre os Romanos, Gregos, Celtas, Germânicos, Eslavos, etc.) não eram por “ideologias” políticas: é incrível como as pessoas têm dificuldade de pensar a luta política, como algo além e anterior a briga entre liberais e socialistas, liberais e conservadores, etc. Talvez até, usando certa concepção schmittiana, possamos dizer que, dentro de uma perspectiva antiga (me refiro aos filósofos greco-romanos, mas também a visão aristocrática e monárquica germano-celta), a Modernidade gera o esvaziamento do Político. A ideologização da política, só possível ou majoritário onde o pensamento religioso não mais impera, é uma espécie de superstitio que leva a uma perigosa μανία, essencialmente, niilista, apesar de não ver-se assim.

Mesmo entre os que, inicialmente, propunham como resposta aos problemas do país o desenvolvimento da 4ª teoria política duginista, parece ter havido um retrocesso: ao invés de persistirem na profunda, honrosa e complexa questão metafísica do “Logos Nacional”, a partir da qual emergirá uma resposta genuína, preferiram retroceder (talvez pelo imediatismo juvenil da vontade de militância) a uma espécie de “brizolismo” mais ou menos velado sob o nome de “socialismo patriótico”. Para confirmar o mal-estar da situação, basta fazer o exercício contrário: substituir o termo “socialismo” por “liberalismo”; inclusive, leitor, quando a ver alguém curtindo ou fazendo propaganda de regimes comunistas, países ou de coisas do tipo, basta imaginar o contrário (ou seja, que estejam a fazer propaganda e curtir páginas de capitalismo, EUA, etc.) para ver o quão enviesada a coisa está! Mesmo na questão do Logos Nacional, excluir o passado Império do Brasil do itinerário formativo e de possibilidades válidas/positivas, faz tanto sentido quanto excluir o Csarismo russo do ideário formativo do Eurasianismo duginista. O próprio Dugin, inspirador da discussão toda nos termos de “Logos Nacional” numa parcela grande do meio dissidente brasileiro, já admitiu mais de uma vez que o Império russo, ortodoxo, mais do que a USSR, faz-se presente no horizonte mirado geopoliticamente. Por cá, ao invés de revisitarem toda a literatura (claro, passível de crítica e revisão) sobre Quinto Império, misticismo sebastianista, Nova Roma darcyribeirista, etc. voltam as forças para propagar Socialismo… É de um profundo mal gosto a babação abjeta da Comunagem e a louvação de toda desgraça vermelha por mera birra anti-liberal, fico pensando como estas pessoas seriam vista por um tipo radicalmente anticomunista que dizem admirar como o de Evola. Não deixa de ser espantoso ver quem diz “combater a Modernidade”, de modo muito eloqüente, fazê-lo com ainda mais “modernismos”: é necessário abandonar com desprezo o fetiche “proletarista”, banir o romantismo moderno por “socialismos, trabalhismos, libertarianismos, militância operária, etc.”, deixar de lado o jargão (e o sequestro mental decorrente dele) marxista e economicista. A verdadeira ruptura com a Modernidade será emendar o rompimento pós-Maquiavel: Religião/Ética-Política, mantê-lo, será um contrassenso para quem fala em superá-lo. Erram os que, posando de “dissidentes” ou o que o valha, querem ser mais comunistas que os que se dizem comunistas às claras. Erram os que dizem estar para superar as ideologias modernas e se recusam, com veemência, analisar ou reelaborar possibilidades aristocráticas, “teocráticas”, monárquicas, imperiais e mesmo de democracias diretas à Atenas (em pequenas cidades), forjando uma colorida nuvem de fumaça para encobrir a defesa final de posições modernas fracassadas, coloridamente somando esforços para salvar o fadado Socialismo por mero ressentimento antiliberal ou anti-olavético. É de se desconfiar se não há um trabalho de Quinta Coluna operando nisto tudo, enganando uma ruma de jovens com uma conversinha fiada.

Mesmo que a questão fosse apenas acerca de “ideologias políticas”, também erram por mirarem demasiado no “Grande Jogo partidário”. Deveriam ter compreendido que mirar em Brasília é desperdiçar munição na atual conjuntura, uma vez que o “Sistema” está blindado contra tais fogos – acreditam que podem replicar o mesmo procedimento que os grandes partidos da agora “oposição” (a Esquerda decadente, PT e cia.) para obter os mesmos resultados, sem notarem que o resultado é diferente e não só pela diferença de poder de fogo: ao invés de se fortalecerem como uma posição autônoma, terminam por só fortalecer os grandes partidos da mesma Esquerda decadente e a afastar possíveis simpatizantes e adeptos que, com razão, desprezam o esquerdismo mas que também não se veem nas loucuras dos libertários/neo-liberais. Além de que o foco da “propaganda”, o alvo mirado, deveria ser muito mais “local”: grêmios, associações de bairro, associações de estudantes, profissionais, etc. Aí sim, haveria mais efetividade no engajamento. Mirar em Brasília e recusar-se a “competir” com a Esquerda decadente em sua confortável zona de “trabalho de base”, me parece irracional e poderia dizer que se explicaria mais como uma evidência de quinta coluna. O abandono da militância (que, obviamente, vai requer uma adequação e uma “deserquedização” do discurso) sobre categorias profissionais chave, como policiais, militares, pequenos produtores rurais, etc. (ao contrário do que fizeram a FN na França, o Khrysi Augi na Grécia, etc. ) por mero “ranço” e preconceito contra a influência de um Conservadorismo “vago” e uma propaganda liberal (que ganhou espaço entre estes setores, justamente, por não haver vácuo de poder: se Esquerda não os mira ou se é alvo de seu “ódio”, os liberais, mesmo que inicialmente pouco simpáticos a estes, terminam por projetar influência) é um erro. Não parece muito tático, ou realista, decidir disputar espaço ou o mesmo público da Esquerda decadente, quando esta já detém o território/pessoal, estrutura, dinheiro, anos de domínio, os conceitos/linguagem, no final, buscando “ensinar a missa ao padre” como diz o ditado popular; abandonando por completo um público mais amplo e potencialmente tradicionalista (ou ao menos, mais afeito à religião) e/ou nacionalista por negar-se a reconhecer que muitos se tornaram influenciados por pautas liberais e sionistas mais por ausência de alternativa perceptível (que não seja “comuna” e/ou socialista) do que por real convicção ideológica.

Ao colocar-se do lado oposto aos Reacionários (reais e fuleiras), conservadores-de-facebook e Conservadores reais, militaristas, etc. Escolheram, diretamente, fortalecer os declarados inimigos: a Esquerda decante e os Liberais. Fica difícil, diante de tal quadro, não ver que o que restará a este pessoal, mesmo que dotado das melhores intenções, pois as reconheço (e considerando que não estejam sendo guiados por uma quinta-coluna), é ser engolido por quem dizem também combater (a Esquerda) mas de quem adotam tudo (linguajar, estética, temas-chave, foco da militância, etc.). E claro, também fica difícil acreditar que “combatem” (no caso da Esquerda) a quem, a toda hora e sem que ninguém peça, fazem questão de dar provas de amor e de defenderem com afinco, ante os menores ataques. Talvez nos digam que tais “provas de amor”, se justificam por “Entrismo”, ou seja, por buscarem no futuro exercer alguma influência ou controle sobre um “movimento” já estruturado, erram mais ainda: os Marxistas, assim que virem do que se trata, nunca os aceitarão e serão os primeiros aos chutarem para fora aos gritos de “Não Passarão!”. Se puderem, os fuzilarão com muito gosto. Receberão facadas e mais facadas pelas costas e vistos pelos “direitistas” como “Esquerdistas” e pelos esquerdistas como “faxistas”, não haverá socorro nem solidariedade, de lado algum. Não há aliança programática possível com as forças mais radicais da Esquerda: ao contrário dos opositores, este povo é ideologicamente muito mais doutrinado e “religioso” (enfeitiçado pela superstição vermelha) e não tardarão em notar o perigo e esforçar-se-ão em exterminá-lo de suas fileiras o quanto antes. Pressupor a burrice generalizada destes parece-me com o erro comum de subestimar o inimigo.

Por fim, precisamos retornar a visão de que, não se trata de “ideologias” políticas modernas, mas, justamente, de algo anterior e além. E mais: talvez, nos tempos de Fim de Era que presenciamos, se trata mais de sobreviver (Cavalgando o Tigre) do que de “salvar” (ressuscitando “socialismos” ou o que quer que seja) e garantir o legado identitário dos nossos para o pós-catástrofe (Guillaume Faye).

Erros dos Nacionalistas?

O sonho de um “nacionalismo” nos moldes da 3ª via, “totalitário”, homogenizador e disciplinador ainda ronda as mentes de alguns sujeitos, especialmente pelo seu cariz moralizante e esteticamente ordenador. No entanto, tal sonho aposta no Iluminismo progressista e crê que, num país de dimensões continentais, será possível uma homogenização cultural. Não é de estranhar que os mais simpáticos proponentes disto sejam, até onde vi (reconheço que pode ser um pré-conceito), sujeitos de cidades grandes/metrópoles, ou seja, pessoas com um notável nível de “desenraizamento” (se comparado com gente de cidades pequenas), por vezes filhos de emigrados das zonas rurais/cidades pequenas e já criados nas grandes cidades. Projetam, mesmo inconscientemente, uma unidade cultural artificial talvez já internalizada a partir da colcha-de-retalhos metropolitana que experienciam no dia-a-dia; do Estado-Nação (posteriormente, burguês), importado da realidade de pequenos países europeus forjadas na luta contra “intromissões” imperiais. O Nacionalista “padrão”, no Brasil, será antirregionalista e anti-imperial por natureza, mais ou menos como já o fora o ídolo Vargas: a exaltação (“universalidade”) do padrão nacional, comprimirá, necessariamente a orgânica e real identidade das verdadeiras nações (sob a desculpa de combater o “separatismo”) e sua necessidade de centralidade e controle total, inflacionará o Estado ocupando-o das menores questões, sufocando a atividade política “natural” no povo (clãs, comunidades religiosas, corporações de ofício, etc.) – contrariando o princípio Imperial e mesmo da subsidiariedade federalista – por vezes, demonstrando uma real desconfiança e policiamento do próprio povo, privando-o do acesso a armas e livre organização como testemunhado na História. Não ha novidade nisto, o próprio Evola criticou tal coisa duramente em sua crítica do Fascismo, e o fez com razão.

Fechar os olhos e o nariz, e sair repetindo que não há nações dentro do Brasil, não é a solução. Por outro lado, há quem combine uma postura nacionalista com uma possível reintrodução do monarca – proposta esta que pode, de fato, reduzir certas aspirações ditatoriais (especialmente se reestabelecido o poder Moderador dentro um sistema Parlamentarista em um Federalismo, de fato, como veremos mais a frente) se forem consideradas uma série de fatores. Sendo neste caso o termo “Nacionalismo” muito mais um indicativo de uma postura pró-expansão/salvaguarda dos interesses gerais, como um vetor articulador, mas sendo, na prática, um Imperialismo, mais do que propriamente um regime de 3ª via. No entanto, os proponentes mais ativos de tal arranjo, por vezes, erram em fingir que será perfeitamente possível restaurar o Império de uma maneira inteiramente católica, como se o país não estivesse diferente em termos religiosos do que era nos tempos de nosso último imperador. Para os que pensam que “ou um Império estritamente católico, ou nada” há pouca margem para o diálogo, especialmente para os que conscientemente alimentam o ranço totalitário inerente às religiões abraâmicas do deserto. Por mais que estejam justificados em alguma medida (o Brasil, apesar da ascensão evangélica ainda continua, por enquanto, majoritariamente católico), nós Indo-Europeus de espírito, preferimos um modelo “Romano” de tolerância religiosa e de modo inegociável: nossa sobrevivência depende disto, como apontaremos mais a frente.

No entanto, os “unionistas/integralistas” (chamemos assim, os Nacionalistas mais 3ª via) erram em negar que haja razões para maior autonomia das regiões/nações do Brasil. Cegos por um centralismo utópico num país destas dimensões, negam e riem que se fale, sequer, em “nações” orgânicas dentro do Brasil. Não veem o pressuposto forçado e artificial, quando não positivista ou “fascista”, de gritarem um “só povo, um só país, um só líder!” São os grandes desenraizados, que fingem saber ou conhecer as realidades orgânicas tradicionais para negá-las… São os inimigos internos da diferença, “culturicidas”, que não medem palavras para falarem mal do “imperialismo yankee de Hollywood”  ou do “massacre sionista contra a Palestina” mas ignoram propositalmente o genocídio cultural perpetrado pelo massivo lixo cultural midiático “homogenizante” irradiado dos centros de poder midiático brasileiro (o “imperialismo cultural favelado”). Vargas foi, talvez, o grande executor de uma tentativa relativamente bem sucedida de “homogenização” do Brasil, da exaltação do “Rio de Janeiro” como sendo o Brasil (talvez inspirado pela teimosia “unionista” dos Integralistas, inspirados pelos nacionalismos europeus) que desde então, só ganhou corpo e progrediu (especialmente após a massificação das TVs: as novelas televisionadas alcançaram com mais rapidez e eficácia, em poucos anos, fazendo cair costumes e modos de falar tradicionais, aculturando os rincões no “streaming” Rio-SP). Há sim, países dentro do Brasil. Enquanto isto for negado, não haverá saída nem resolução para a questão da Identidade Brasileira.

Erros do Separatismo?

Os separatistas erram por desconsiderar, boa parte das vezes, o aspecto geopolítico maior, vindo a colaborar com um projeto externo de “Divide et Impera”. Seja por um ranço cego ao Brasil, que na verdade é o retrato do Rio de Janeiro (no qual, com razão, não se vê), seja ao seu centro de poder político (Brasília). Já escrevemos sobre este tópico cá mais de uma vez. É difícil evitar a interferência externa nociva em um ambiente de eventual guerra fratricida (vide Ucrânia), mesmo que seja numa “guerra” de geração diferenciada, do tipo cibernética, cultural e midiática. É corrente o recurso a poderes externos (por cá mesmo, a Confederação do Equador, buscando tornar o Nordeste independente, foi buscar ajuda nos EUA…, para lembrar só este exemplo) fazendo com que o pagamento por tal serviço, seja demasiado caro: quando não custa as almas e os bolsos dos cidadãos, além da cabeça dos governantes, causa traumas coletivos duradouros, podendo gerar sujeições e “escravização” vergonhosa, piorando ainda mais o quadro. Sair de uma “vassalagem” para entrar noutra, pode não ser tão vantajoso quanto parece. Além de que, com todo os problemas, os demais países que compõem este grande Brasil compartilham de uma mesma história geral fundante, inauguradora, enraizada na língua. Um separatismo que busque romper com tão profundo laço, vai requerer muito esforço de uma identidade artificial fabricada sob medida, alimentada pelo ranço e negação, num grande projeto de revisão histórica que percorrerá gerações e sem garantia de sucesso.

Então, um Novo-Imperialismo seria a solução?

Uma maneira de resolver a real necessidade por mais autonomia cultural e política dos “países/regiões” com a preservação da integralidade geopolítica é um Novo-Império. Ainda por cima, pode resolver melhor a questão da Identidade Brasileira e fundamentar uma real solidariedade e reconciliação. Há ainda, as possibilidades mais ousadas, da permissão de províncias a partir de requisitos/demandas étnicas ou religiosas: bolsões étnicos (não muito diferentes do que já existe em termos de reservas indígenas e “quilombos”) e talvez até mesmo religiosos (algo similar as comunidades “Amish” nos EUA, por exemplo). Talvez até mesmo para certos aventureiros “ideológicos”, já existentes em comunidades eco-alternativas/”permacultureiras”. A possibilidade de se resolver harmonicamente demandas justas, digamos, “nacional-anarquistas”/(neo)tribalistas sem que haja uma perda de unidade geopolítica maior por si só já é interessante. Isto seria feito a partir de uma super-estrutura jurídica imperial (subsidiária), a partir da qual a legislação da província encaixar-se-ia e da seção obrigatória, sob forma de tributo direto unificado e/ou direcionamento, de força humana e monetária para a manutenção das estruturas imperiais (políticas e militares: quartéis, colégios, uma grande universidade que concentrasse os melhores das universidades autônomas, hospitais, etc.). No entanto, seria necessário discutir e decidir sobre um limite constitucional para tais “divisões” de províncias a partir de critérios meramente religiosos (afinal, em que medida caberia a todo grupo religioso, especialmente os que não são propriamente étnicos, reivindicar um “país” só seu?).

Um exército imperial, formado a partir da seção cíclica obrigatória e proporcional (talvez anualmente e como uma espécie de “serviço militar obrigatório”) de forças das províncias talvez diminuísse a necessidade de “legiões” estacionadas nas províncias, quase como forças de policiamento contra “independentismos” como no passado romano. Cada província/nação teria autonomia jurídica de autodeterminação: poderia haver províncias democráticas presidencialistas, republicanas, ou talvez mesmo monárquicas, desde que os representantes estivessem submetidos a auctoritas (no sentido de Evola) do Imperador. Se deve haver um representante (ou dois?) destes governantes, eleito(s) a partir deles próprios e com mandato limitado, com uma espécie de “cônsul” ou “condutor”, tendo o Imperador como uma encarnação de um poder moderador e da continuidade regencial, numa espécie de “Diarquia” (ou “Triumvirato” no caso de 2 cônsules), é algo a se considerar. Talvez caiba também perguntar como seria e se haveria espaço para uma espécie de “Senado” ou representação direta de magistraturas provincianas (“tribunos”), ao exemplo de Roma. Uma oportunidade para reascender corporações ofício em substituição aos inúmeros sindicatos dominados por partidarismos sectários, entre tantas outras coisas, para derem lugar permanente em tais representações (Senado ou Tribuna imperial). Na verdade, há muito espaço para reflexão.

Nem tudo precisa ser “retirado do zero”, não é preciso inventar a roda. A questão é que negar-se a tal reflexão, ao mero exercício de pensamento, jogar fora esta possibilidade sem sequer estudá-la, especialmente para nós “pagãos”, talvez não seja tão prudente assim, afinal, fora o modelo (no caso romano, claro) que se desenvolveu com certo sucesso na história do Ocidente de uma perspectiva política que ultrapassou o domínio dos “estados-nacionais”. E se tal quadro novamente se apresenta, quando organizações supra-nacionais invariavelmente se formam, não custa revisitarmos tal perspectiva para ver se algo é válido hoje.

Mas um Federalismo não basta?

Talvez alguém defenda que, na atual conjuntura de emergência de estados supra-nacionais (“Blocos Econômicos” e militares), um simples federalismo pautado nos princípios liberais e/ou modernos é suficiente, afinal, o laicismo estatal assegura um igual tratamento a todas as religiões e impede, em teoria, uma luta entre as mesmas na esfera regencial suprema, além de não constranger institucionalmente religiões minoritárias, frisando uma simbólica subjugação à “Religião Oficial” do Império, ao “Culto Imperial”. Traduzindo: um Federalismo decente, bastaria e nos pouparia da briga religiosa.

Esta posição é difícil de contra-argumentar por não havermos experienciado, de fato, em nossa história de país um federalismo mais “aberto”, capaz de ajustar-se. A Primeira República, em um certo sentido, fora mais federalista que a nova e nos é vendido que, implicitamente, tal “liberdade” gerou uma crise política de lutas internas que levou a instauração de um Dictadura (Estado Novo). Saímos de um sistema imperial à força, arrancados por meio de golpe militar para entrarmos numa República, cuja falta de adaptação, levou a uma ditadura centralizadora. Daí que, talvez, concedendo o benefício da dúvida, em teoria, seja possível um Federalismo cumprir as vezes de um “Império” na prática, sem a figura de um Imperador e da investidura espiritual e epistêmica que tudo isto traz.

No entanto, stricto sensu, cairemos no “modernismo” parecido ao antes indicado nos que buscam ideologias socialistantes ou liberalizantes como solução. A falta do centro espiritual na compreensão da interação com a Soberania da Terra é um fator que, ao menos na óptica Indo-Europeia, levará a uma desordem cataclísmica não oferecendo “solução” política duradoura. Sob esta perspectiva, o reconhecimento da interação religiosa com a Soberania é condição sine qua non (talvez, reconheço, esteja a falar a partir de uma compreensão demasiada céltica). E de fato, alguém dirá, nós Indo-Europeus de espírito não temos o direito de impor nossa visão sobre como a ordem política e divina interage sobre todas as pessoas. E como não temos força numérica nem política para dominarmos o país e impor nossa visão à força, temos de reconhecer nosso lugar minoritário e rezar ao papai “Estado” para que nos preteja da extinção, certo? Bem, há muito a se colocar nestas coisas: pessoas como eu, por exemplo, estão convictas da objectividade da concepção religiosa Indo-Européia em termos de sociedade (o que significa dizer que, mesmo que as pessoas não acreditem na ordenação funcional na sociedade, ela existirá mesmo assim, mal ou bem, melhor ou pior), e que talvez, por isto, não se trate (ou para nós, ao menos, não se trataria) de uma mera discussão relativista culturalista de “impor” x ou y. Mas claro, que há a questão mais espinhenta: como conceber um Império (que pressupõe uma dimensão religiosa) numa sociedade plurirreligiosa?

Os que veem os EUA como um exemplo razoável de mais federalismo laicista e apontam para a estabilidade jurídica (e política…?) que sedimentou quase 200 anos de Potência global, talvez tenham que ceder que, ao menos nos 100 primeiros anos (e não só, mas para ser bem generoso), era comum entre as elites governantes um projeto quase messiânico (especialmente em certos círculos protestantes) do Excepcionalismo Americano como vetor espiritual mobilizador do Logos Nacional americano. Talvez seja suficiente para defendermos que não havia um laicismo stricto sensu. Em todo caso, a História do Ocidente demonstra o que imperadores cristãos radicais podem fazer contra religiões minoritárias, antes que alguém censure, convenhamos que tais exemplos históricos são uma justificativa razoável para certa desconfiança por parte dos nossos. E isto nos leva a um dos grandes entraves.

O problema de um Imperador cristão, para os não-cristãos

O grande entrave para concordar-se em ser governado por um Imperador de uma dada religião diferente da sua, especialmente quando se crê que a religião do imperador, por natureza, o conduzirá a descriminar negativamente e perseguir é quase “default” no caso dos “pagãos”. Em dado sentido, também pode haver a mensagem simbólica de sujeição de religiões a uma dada religião “superior”, simbolicamente acima no aspecto regencial. Para que um cristão sinta algo parecido, pedimos que imagine-se na iminência de ser governado por um muçulmano… Felizmente, ou infelizmente, não é um problema que nos afete somente: o próprio texto do Benoist citado acima passa ao lado desta questão e não mira nela diretamente. Uma União Européia transformada num Império das nações e povos europeus, teria de enfrentar a mesma questão e o próprio Evola só a concebeu dentro de uma visão pagã.

O grande problema de uma perspectiva imperial em sua dimensão espiritual é, justamente, que tal referencial funcionará harmonicamente dentro de um referencial religioso específico. A partir do momento em que referenciais exclusivistas (que não admitem “perspectivação” ou “tradução”) entram sob o escopo do Império, negam-se a reconhecer a autoridade espiritual presente e a rejeitam. Foi justamente o caso do Cristianismo (mais até que do Judaísmo, dado o não proselitismo no segundo e a destruição a força do centro simbólico de poder, que foi a destruição do Templo) no Império Romano. O Cristianismo só admitirá, em última análise, dado seu exclusivismo e expansionismo latente, um Império que seja cristão. E um Império cristão (uma vez que haja concórdia entre eles, afinal, somente o catolicismo possui uma doutrina clara sobre isto, evangélicos, espíritas e outros, nada), terá os não-cristãos como membros “espirituais” alógenos, como uma comunidade apartada, de “infiéis” e “gentios”. É difícil crer que depositem em tais comunidades, ou em tais cidadãos, a mesma confiança política e jurídica que depositariam entre eles, uma vez que veriam problemas morais ou “demoníacos” nestas comunidades. Por isto, não seria de estranhar que nós acreditássemos que somente um Imperialismo “Pagão”, ou seja, que estabeleça uma dimensão espiritual apta a “tradução” noutras linguagens religiosas (e portanto, que não reivindique um Exclusivismo) seja melhor realizável.

No entanto, num contexto social onde somos minorias das minorias, impor tal percepção nestes termos é inviável. Para nossa sorte, tal “paganismo” é perfeitamente defensável filosoficamente em torno do ideal de tolerância religiosa que pode gerar um condicionamento jurídico estrito. Por mais que certos setores do Catolicismo, por exemplo, repreendam justificadamente (dentro de seus princípios e referências) o Ecumenismo e mesmo o Perenialismo (guénoniano, não o tomista), que poderiam oferecer possíveis ferramentas teóricas de “tradução” e ressignificação, é fato que há uma direção e aceno formal neste sentido (de uma “tolerância” e diálogo interreligioso) também desde o Concílio Vaticano II, e os radicais que as negam, talvez terminem “isolados”.

Em todo caso, há a necessidade de mais discussão e reflexão, reflexão esta, inclusive, que pode gerar desdobramentos totalmente diferentes e que talvez até nos afaste deste conceito. E claro, é fácil rejeitar tais constructos. Mas como solução, especialmente para quem fala mal da Modernidade e gosta de posar de Tradicionalista e mesmo de um Reconstrucionista mais sério, o que propor então de viável? Vamos desenvolver as opções, pois! Talvez, descubramos que grande projetos como “Impérios” sejam quimeras e que um “neo-tribalismo” (que dialogue com as iniciativas modernas de Permacultura, Nacional-Anarquismo, Municipalismo Libertário, etc. e com as instituições comunitárias tradicionais em extinção) sejam o caminho viável, a luminosa manifestação sócio-política de nossas compreensões religiosas. Talvez, e confesso, desconfiado que sou dos “grande projetos” políticos e afeito que sou a uma dimensão mais regional e tópica, inclino-me mais para uma reflexão mais centrada nas pequenas comunidades locais do que para um Imperialismo grandioso… mas vamos lá, exercitar nosso pensamento, precisamos elaborar, fazer parir ou pelo menso esclarecer a partir do estudo de nossas próprias histórias religiosas e mitos, propostas, preferencialmente boas, para grandes e pequenas organizações humanas, saindo de vez da discussão “ideológica”.

E o “Império” é uma destas macro-organizações humanas a se considerar. O fato é que os cristãos, mesmo historicamente, não são nem os criadores nem os únicos “donos” da ideia de Império – nunca foram – abandoná-la por receio de um circunstancial protagonismo deles nas circunstâncias atuais (ou por birra contra o atual representante da casa dos Orleáns e Bragança), não é um argumento suficiente. Numa época de “desertos” e de abismos gigantescos é importante aumentarmos nossos postos de observação e plantarmos árvores. Mesmo para os pagãos aos quais desagrada uma idéia de Império, dever-se-ia apoiar sua reapropriação e estudo: é mais uma possibilidade, mais uma forma válida de revigorarmos nossa herança e capacidade reflexiva em filosofia política.

Um singelo registro de uma reflexão matutina

Após faltar a última assembleia do sindicato de servidores de onde trabalho, semana passada, chego para trabalhar hoje e descubro que decretaram greve: erro meu, passei o final de semana sem abrir minha caixa de e-mails.

É difícil expressar bem o misto de tristeza e revolta diante da situação planejada das invasões e greves (por motivações político-partidárias, sejamos francos) no sistema de ensino do nosso país. E é fácil constatar o aparelhamento partidário de supostos mecanismos de representação “classista”. Até então, a “modinha” das invasões era apenas uma esquisitisse distante, até transformar-se numa bizarra realidade. E diante disto que venho cá no blog, de certa forma, para dar alguma vazão a uma série de pulsões reprimidas. Não consigo me sentir bem, meu senso de dever parece ser afetado, sinto-me moralmente incomodado quando algo assim acontece, sabendo eu o quanto nossa categoria recebe bem (comparado com os demais professores das redes públicas estaduais e municipais) e o quanto precisamos de ensino de fato, trabalho, compromisso para a situação deste país comece, de fato, a promover uma melhora durável. Não há necessidade para expor motivos e mais motivos para ser contra toda esta bagunça. Creio que textos como este (clicar para ler) já o fazem bem. Apenas acrescentaria que, dentro de uma perspectiva mais religiosa, há o agravante da subversão espiritual da relação sagrada do aprendizado (hierárquica, etimologicamente, mesmo que dentro das conveções e estruturas modernas, com todas as suas limitações e problemas, do processo de instrução formal de nossa sociedade). O que há de “sagrado” no processo, já fora machucado, mal tratado e surrado, mas ao invés de buscarmos resgatar e valorizar o que sobrou, este tipo de loucura “blasfemosa” vem para destruir de vez… E o pior é que, não raro, se não em boa parte, as ondas destruidoras vêm dos próprios professores. Renunciaram as funções “bramanescas”, rebaixaram-se de vez ao “shudraísmo” e reclamam quando são tratados assim pelas elites financeiras e políticas do país, cegos pela loucura fanática do fetiche proletarista. Se há algo de bom nisso, escatologicamente, é que o afundar-se acelerado nesta degradação é, por outro lado, o aceleramento da limpeza vindoura. Um novo ciclo, saudável e forte, se fortalece no horizonte.

Mas, por enquanto, fica só a mirada esperançosa; o sentimento de “impotência” diante das desgraças nem sempre leva a resignação: uma parte dele está buscando meios de “furar” e incentivar a destruição do capenga movimento grevista (por dentro e por fora), uma outra está buscando também elaborar iniciativas que minem ou usem a invasão discente (romanticamente chamada de “ocupação”) contra si mesma: utilizando o espaço para formar uma milícia estudantil para afrontar (com métodos realmente “sorelianos”) os esquerdistas de dentro para fora. Isto é possível. Na verdade, é perfeitamente possível e seria estética e moralmente belo. Mas outra parte de mim, uma parte forte, simplesmente prefere, numa espécie de “nojo” esnobista, virar o rosto (afinal, dentro do que pude, expressei-me contra e me posicionei contra, sou parte vencida, pois) e egoísticamente encarar como muitos (incluindo a maioria dos professores agitadores e panfletários) fazem, como um tipo de “férias”: colocar projetos meus em dia, aproveitar o tempo livre para realizar tarefas e serviços pendentes… A tentação a desistir do público (“eles se merecem”) e voltar-se para minha família, religião e propriedade é demasiado forte. Quando não se tem o saco (ou o estômago) para o trabalho “de chão”, se fica terceirando esta função e desejando que um “salvador” apareça para fazer o trabalho (sujo?) por nós. Cavalga-se o tigre e sonha-se com a oportunidade de desferir o golpe final quando o mesmo cansar. Não se trata de abandono do posto, mas justamente da permanência nele: no front onde nos alistamos e onde temos servido.

E aqui surgens as constatações: a maiora apática, ou mesmo que “contrária”, termina pela inércia (justamente por esta espécie de justificada forma de ceticismo político), a permitir o sucesso dos mal-intencionados. E a radicalização de um grupelho destes (infestados de militantes, 24h/7 dias por semana, travestidos de “professores”) urge, pede, conclama, que se forme uma radicalização no lado oposto. É a natureza dialética que sugere e aqui é onde estes sujeitos merecem ser testados: no combate, na violência regeneradora e santa. Mas é outro front, o front da Ação. Eles já estão com o do Pensamento e o da Ação operando, do outro lado se duvida se o do Pensamento está operando mesmo e se o da Ação existe ou poderá existir. Precisamos, urgentemente, continuar a dizer-lhes que sim, que devem insistir com mais afinco na feminização, no uso de drogas, na depravação sexual, na dependência burguesa acomodada da tecnologia, na completa seção aos sentidos e aos vícios, na completa falta de regra, medida e hierarquia. Nós e os nossos, pelo contrário, devemos investir e treinar: moldar nosso corpo, controlar os sentidos e impulsos, armar-se bem, acostumarmo-nos a privação e ao sacrifício. O Estado, esta palavra bonita para descrever nosso governo instituído, é mentalmente refém deles, é conivente para com eles, é ideologicamente aparentado e posa de “pai” que dá bronca no filho mimado apenas para aparentar, ou dar satisfação social. A conivência das gestões das universidades e Ifs invadidos não é simples covardia, mas sim uma afirmação clara e em bom som, de que se sentem desobrigadas a cumprirem suas funções executivas do Poder Público por discordâncias com as cores ideológicas do atual governo, são uma clara demonstração de que lado estão. E… como fazer algo contra, quando os que deveriam fazer (e por vezes até possuem a responsabilidade e imputação jurídica para tal), estão por ajudar os que deveriam combater? Como defender estas fachadas que terminam por apoiar os que as golpeiam? Devemos esperar “merdas” acontecerem para acelerar as últimas consequências? Devemos causar e instigar as últimas consequências?

Lutar o bom combate é difícil, quando certo lado esquerdo é tão afeito a baixarias, fraudes e covardias diversas… e certo lado direito, quando não se esconde, termina por causa repulsa. Bem, são só pensamentos e talvez alguns estejam retorcidos pela irascibilidade.

Confabulações sombrias 1

Os que me conhecem, sabem de minhas inclinações políticas e de minha crítica ao governo do PT. Nisto, mesmo que por vias diferentes, termino no rastro de meu pai, confesso, ferrenho anti-PTista desde os tempos em que trabalhou no ABC paulista e viu pessoalmente a ação do sr. Lula quando era um mero sindicalista. Por outro lado, também sabem de minha crítica aos EUA, apesar de reconhecer que agem em prol do país deles, e a toda a estrutura de Revoluções Coloridas e engenharia social liberal-progressista (que cá é aplicada pelo PT também, talvez até com mais ênfase, como se tivesse que provar ser digno de confiança pelo Financismo Global). No entanto, como não sou um cidadão do mundo, não consigo, por mais que tente, sobrepor as questões geopolíticas externas às internas. As internas, pra mim, concretamente, diariamente, aparecem em primeiro plano, o que, no final das contas, me deixa mais próximo dos meus amigos e familiares, gente de valor provado, unidos contra este governo e mais distante dos teóricos do mundo perfeito, alguns deles conhecidos e mesmo “chegados”, que enchem os espaços virtuais, pendurados em cima do muro ou receosos em assumir que apoiam o PT ou que são virulentos anti-comunistas, mas que toleram os comunistas por ódio às Olavetes. Dito isto, vamos ao que, efetivamente, eu deseja cá compartilhar:

Em mero exercício de pensamento, mera especulação, um mero pensamento sombrio.

  1. considerando o tom das conversas grampeadas entre o sionista Jacques Wagner e o Rui Falcão.
  2. considerando certos “silêncios” de setores atuantes da militância PTista como sendo um silêncio de quem está trabalhando e não de quem está atônito.
  3. considerando mais uma ruma de coisas:

Se – SE – eu fosse o estrategista do PT, neste momento, estava desejando que as manifestações do dia 18 (hoje) aconteçam de “todo jeito”, de “bolo” – se for muita gente, ótimo, se não, OK também, será tempo ganho e propaganda jornalística pelo final de semana garantido, de todo modo. O que importaria seria ganhar tempo: tempo para comprar apoio do Congresso, para inviabilizar o Impedimento, para atacar a Mídia opositora (ou que ficou em cima do muro), para organizar a militância.

O importante mesmo seria “ganhar” a classe baixa, a mais “minoria”, caricata pobretã de todas – e para tal, num contexto de Guerra Total, mentiria terrivelmente, dizendo que os inimigos, os “Golpistas”, vão acabar com todas as conquistas sociais amanhã, caso Lula seja preso hoje. PRONATEC, SUS, tudo, absolutamente tudo, afinal o Brasil não existia antes do PT. Não se trata de mentir, mas de arregimentar com tal artifício o máximo de gente inculta e ingênua, e mais importante ainda, de gente que se sinta grata, verdadeiramente, devedora do governo do PT. Ter o apoio destas massas é condição sine qua non para a primeira linha de resistência.

Os movimentos “sociais” são inorgânicos e inexpressivos na conjuntura geral, é necessário que esta parcela da massa, anônima, engrosse as fileiras. Tal enchimento os faria parecer legítimos, orgânicos e expressivos. Toda a máquina e todos os centavos acumulados nos últimos anos para isto devem ser empregados. Gente na rua, Vermelho, Estrela do PT, Foto de Lula, o Deus Lula e sua sacerdotisa Dilma, no culto glamouroso da materialista “religião” PTista.

Ao mesmo tempo, paralelamente, eu aceleraria o contrabando de insumos de guerrilha vindos da Venezuela e Cuba: fuzis, munição, explosivos, pessoal capacitado. Reteria uma parcela do MST para ir operando a logística: receber, transportar, “aquartelar” os insumos estrategicamente por todo o Brasil. A outra parcela do MST, talvez até minoritária, iria para as ruas cumprir seu papel de fachada. O importante seria ter um Boi de Piranha, para chamar e reter a atenção pública e livrá-la de perceber a preparação da guerrilha. Esta seria a preparação para uma segunda linha de resistência.

Faltaria uma “false flag”. No caso, bastava colocar um PTista qualquer para, vestido de verde e amarelo, armado, matar alguém do MST ou simular um atentado contra algum PTista do alto escalão (ou contra uma sede emblemática do Partido). Pronto, este estopim seria aceso no momento certo, caso o Projeto do PT fosse, de fato, sofrer o golpe fatal por parte dos instrumentos jurídicos institucionais. Se a primeira linha de resistência ainda existir, afinal, suponhamos que houvesse algum êxito em mobilizar os “Excluídos do Mundo” (como chamava Ernst Bloch), ela poderia ser reforçada/inflamada se o false flag envolvesse algum tom sórdido ou sádico (como o assassinato de uma família “inocente” de algum assentamento do MST). Toda a grana mandada pra fora, pra os “camaradas” vermelhos (Cuba, África, América Latina), seria cobrada de volta por meio de armamento e apoio.

Aí a segunda linha, de guerrilha e das vias de fato, emergiria com alguma desculpa moral ou justificação romantizada que caísse bem aos olhos do “mundo” (leia-se a “intelligentsia” midiática progressista-humanista, por vezes de Esquerda, do mundo).

Se – SE – com a emergência da ação de Guerrilha não se alcance êxito rápido, suponhamos que houvesse uma resistência cidadã armada espontânea com apoio de setores das PMs estaduais, entraríamos na terceira linha de resistência que seria o chamado oficial para as Forças Armadas da Venezuela (e Bolívia, talvez Cuba) entrarem ou apoiarem. Comunistas de toda a América Latina viriam para uma tão sonhada “guerra santa”. Obviamente, que neste ínterim, teríamos um terrível “maiden”, pelo menos nos grandes centros como SP e Brasília, que traria a superfície os tentáculos Bolivarianos e do Tio Sam (se bem que, neste momento um Trump da vida tem preocupado mais o stablishment lá que uma possível ascensão do “comunismo” no Brasil), de modo que muito tristemente, deixaria de ser algo pelo Brasil e passaria a ser algo pela “Pátria Grande” bolivariana ou pelo jugo Yankee. Seria a realização depressiva da nadificação do país: ou um grande apêndice bolivariano ou um grande quintal yankee.

Ora, algum leitor talvez pergunte, por que deixei de fora as FAs do Brasil?

Bem, suponhamos que a amizade de uns generais com o então Ministro da Defesa, o comunista Aldo Rabelo, seja, de fato, verdadeira. Suponhamos também que seja verdade a conversa de que a ABIN estava monitorando o juíz federal Sérgio Moro e repassando os informes para o Governo, ou seja, agindo em favor deste governo. Suponhamos também que, os setores radicalmente anti-PT das FAs estejam na reserva, herdeiros do imaginário da Guerra Fria, esbravejando espumantes mas presos, pelo dever assumido noutros tempos, hierarquia ou pelas condições gerais e que, no final das contas, prevaleça o entendimento entre os que estão na ativa de que este governo é o legítimo e que deve ser mantido a todo custo. E por último, suponhamos que, de fato, as FAs não desejem “se queimar” intervindo. E mais, no pior dos quadros, não saberíamos em favor de quem se poderia dar tal “Intervenção”, já que, para o bem e para o mal, o pessoal de hoje não é o mesmo dos anos 60.

Se tomarmos estas suposições, as FAs não interfeririam até romper, de modo quase “regular”, uma guerra civil de fato. Ou seja, talvez já depois de atores bolivarianos mostrarem as caras à luz do dia em solo nacional, e dependendo do nível, na superfície, da tensão geopolítica mais ampla, a intervenção poderia ser em favor de qualquer dos lados, para a decepção dos que sonham com uma Intervenção Militar nos moldes de 64.

Ou seja, em modo de tudo ou nada, de Guerra Total, o PT teria mais meios de resistir do que pensa boa parte daqueles que o PT chama de “classe média” ou, simplesmente, de golpistas. Resta agora saber confabular, imaginar e exercitar o pensamento de como seria na outra perspectiva, imaginar a derrota final do PT.

Entrevista sobre a Cristandade (2005) – Alain de Benoist

Viemos rapidamente cá compartilhar uma entrevista de 10 atrás (2005) do filósofo francês Alain de Benoist. Interessante como o tempo tende a “abrandar” (algo visto como “sábio”, e provavelmente é) posições mais radicais da juventude (sim, me refiro aos tempos do “Les idées a l’endroite” de onde vem a famosa expressão do “Cristianismo como o Bolchevismo da Antiguidade” e do “Comment on peut être païen“) e que talvez por isto mesmo, hoje a entrevista tivesse ainda mais diferenças. A entrevista foi concedida no The Occidental Quarterly, vol. 5, no. 3 (Outono 2005): 7–21. Foi longa e, portanto, foi tomada uma decisão para cortá-la. Deste modo, a discussão crítica de Benoist acerca do Cristianismo e as ciências humanas foi removida mas, se não me falha a memória, foi postada por Greg Johnson no primeiro volume do North American New Right. Eu traduzi do inglês, infelizmente, justamente da versão de Greg Johnson publicada no blog da editora Couter-Currents. Se existia já uma versão em português, uma pena, perdi algo do meu tempo que poderia estar sendo dedicado a tradução do “Cristianismo, Bolchevismo da Antiguidade”) – mas aí está de todo modo.

Alain de Benoist

De acordo com o Manifesto da Nouvelle Droite (doravante ‘Nova Direita’), as cinco principais características da Modernidade são a individualização, massificação, dessacralização, racionalização e universalização. A Nova Direita traça as raízes da Modernidade em uma secularização da Metafísica cristã. E também é conhecida pela rejeição de outro produto da Cristandade: o Igualitarismo. O que são pois os “valores aristocráticos” que a Nova Direita diz promover, e como podem contrabalancear cada uma das tendências destrutivas (da modernidade)? E como alguém poderia aderir a valores aristocráticos?

Descrever o Igualitarismo como um mero “produto” da Cristandade é um atalho que, de minha parte, eu não mais tomaria. As coisas são um pouco mais complexas que isto. O que se pode dizer, por outro lado, é que o advento da Modernidade pode ser entendido e analizado apenas à luz do vasto processo de secularização que a caracteriza. O que quer dizer que um certo número de temas que eram antes expressos em termos teológicos foram transferidos para a esfera secular.

A ideologia do progresso, por exemplo, a promessa de salvação no além é transformada na promessa de felicidade no futuro. A própria noção de “progresso” parte de uma visão linear da história (em oposição a uma visão cíclica ou esférica da História) que privilegia o futuro, coisa introduzida pelo pensamento bíblico.

O conceito de Igualdade (que se poderia distinguir de Igualitarismo) traça sua origem na asserção cristã de um relacionamento igual de todas as almas humanas com Deus.

A cativação tecnológica do mundo (das Gestell, para usar um termo de Heidegger) – que começa com Descartes impondo uma nova percepção do cosmos como inteiramente disponível ao controle humano, enquanto a consciência começa a ser reduzida a um objeto da ciência natural – encontra sua primeira legitimação no Gênesis (tanto que, como Heidegger viu muito bem, a tecnologia pode ser tomada como o acabamento da metafísica).

A teoria de Jean Bodin da soberania absoluta do príncipe em respeito aos seus súditos é uma transposição da soberania absoluta de Deus em relação a sua criação. É por isto que Carl Schmitt pôde dizer que os principais conceitos da política moderna são conceitos teológicos secularizados. Este processo de secularização foi também estudado de modo notável por Karl Löwith.

A Nova Direita, pois, não defende valores “aristocráticos”, mas valores de qualquer sociedade tradicional, ou seja, qualquer sociedade ainda não conquistada pela modernidade. De um ponto de vista tradicional, valores aristocráticos e populares são os mesmos. São todos os valores inerentes em uma ética de honra. Em oposição aos valores econômicos e comerciais, são valores de desinteresse e generosidade, como expressos no sistema de um dom e um “contra-dom”.

O grande sistema moral deontológico, do qual Kant é o paradigma, pode ser posto em oposição a ética de virtude Aristotélica: perseguir a excelência pessoal pela prática de “virtudes”. Em tal sistema, o bom necessariamente tem precedẽncia sobre o justo, como Michael Sandel e Charles Taylor muito justamente argumentam contra John Rawls. Aqui se retorna a crítica de Hegel a Kant, ou seja, a oposição de “Sittlichkeit” a “Moralität“.

Qual é tua visão sobre a verdade da fé Cristã? Qual tua visão da apologética cristã? Um cristão poderia te pedir para oferecer uma prova da falsidade da Ressurreição, uma vez que fosse dada, a Cristandade desintegrar-se-ia. Como respondes a este desafio?

É uma questão estranha. Eu não tenho que “provar” que Jesus não ressuscitou tanto quanto eu não tenho que provar que Deus não deu as tábuas da Lei a Moisés no Monte Sinai ou que Elvis Presley não está vivo e vendendo pizzas no Brooklyn! A razão é que não se pode provar uma negação; não se pode demonstrar a não-existência. São os cristãos que precisam me dar provas de suas asserções, provas que eles ainda não conseguiram ter.

Poderias dizer algo sobre o modo violento de como a Europa foi cristianizada? Em que medida a cristianização da Europa jaz em fraude?

A Cristandade foi gradualmente se estabilizando na Europa pelo uso de todos os meios disponíveis. Esta difusão foi por vezes pacífica, por vezes forçada. A contenta entre a Cristandade e o Paganismo, a história que tem sido recontada mil vezes, claro, envolveu muitos episódios sangrentos: conversões forçadas de populações inteiras, perseguição dos pagãos, “cruzadas” internas e externas, etc.

No entanto, a Igreja não detém seu sucesso na força tanto quanto na habilidade que possuiu de tomar os antigos ritos e inclinações pagãs e os misturar para seus próprios propósitos. Por ser impossível erradicar completamente o paganismo, ocupou-se de “cristianizá-lo” dando-o seus conteúdos.

Igrejas foram erguidas por sobre antigos templos, o calendário litúrgico foi baseado no pagão (o Natal substituiu as velhas festividades do Solstício de Inverno, o São João o Solstício de Verão, etc.), as lendas dos santos usurparam os poderes associados às divindades locais, muitos locais de peregrinação foram preservados e o culto de Maria compensou a falta de uma Deusa-Mãe, etc. O Cristianismo foi, portanto, parcialmente “paganizado”, tornando-se ao mesmo tempo mais acessível às massas.

Mas a “paganização” permaneceu superficial, uma vez que toucou apenas formas externas de culto. No entanto, permite a possibilidade de entender a diferença que sempre existiu entre o Cristianismo Popular e a Cristandade Institucional e seu sistema teológico específico.

É a Cristandade uma religião estrangeira para os Europeus? O fato de o Cristianismo ser um portador de uma cultura não-europeia, o Judaísmo, que tornou-se parte da herança européia, constitui um problema? Uma tradição inteira, de acordo com a Igreja, é a “Nova Israel”, faz os cristãos “semitas espirituais”. Daí segue que a tradição Judaica pertence à tradição Ocidental?

Minha crítica da Cristandade, que é primariamente intelectual e filosófica, não tem nada de ver com o fato dela ter nascido historicamente fora da Europa. Simpatizo com certas religiões e espiritualidades orientais, como o Zen Budismo ou o Xintoísmo, que não são estritamente européias em nada. Por outro lado, sou completamente hostil a muitas ideologias que nasceram na Europa. A proveniência de uma ideia não é critério de sua verdade, e o excedente da identidade não é reduzível a sua origem.

Jesus era um judeu do século 1 de nossa era que foi, provavelmente, tomado como um profeta, mas que nunca desejou criar uma “Igreja” universal, muito menos uma nova religião. Convencido da eminente chegada do “Reino de Deus” (Olam haba, “a palavra que está por vir”), foi em nome da Torá que ele se opôs à dominante corrente institucional do Judaísmo de seu tempo. “Eu fui enviado somente às ovelhas da casa de Israel” ele disse claramente em uma passagem dos Evangelhos (Mat. 15, 24.) que completamente contradiz as palavras posteriormente adicionadas no fim de Marcos (16,15) e Mateus (28,19).

Foi somente após sua morte que alguns pensaram que ele era o Messias e passaram a vê-lo como o “filho de Deus” que veio para salvar todos os homens. O Cristianismo como conhecemos é obra, acima de tudo, de Paulo, e é em um mundo mediterrâneo, portanto Ocidental, que o que é essencial a sua história foi desvendado.

O conceito de “tradição judaico-cristã” é, no entanto, muito ambíguo. Rigorosamente, se pode falar de Judaico-Cristianismo apenas em dois sentidos muito precisos: primeiro historicamente, para indicar as primeiras comunidades “nazarenas” na Palestina que estavam sobre a direção de João, vigorosamente opostas aos “heleno-cristãos” liderados por Paulo; depois, teologicamente, para indicar as crenças teológicas comuns a Judeus e Cristãos (crença em um deus único, a distinção entre ser-criado e ser-não-criado, etc.).

Após a destruição do Templo em 70, as duas religiões se separaram completamente: os cristãos foram expelidos das sinagogas, e o Tannaim, os rabinos chefes que então reorganizaram o Judaísmo baseados na corrente farisaica, instituíram o birkat-ha-minim, que amaldiçoa os partidários de Jesus. Por sua parte, a incipiente Igreja Cristã adotou uma atitude explicitamente anti-judaica, que aparece primeiro no evangelho de João, o último dos quatro evangelhos canônicos.

A Cristandade não se tornou menos dependente das raízes do Velho Testamento, mas ao longo dos séculos, aderiu a uma teologia de substituição, que clamava que a Igreja incarnava a verdadeira Israel, excluindo os Judeus enquanto preservava sua identidade metafísica (obviamente uma assertiva inaceitável para os próprios judeus). Esta fenda entre sua origem e sua história é característica da Cristandade.

Mas não se pode agarrar a completude do Cristianismo apenas deixando de considerá-lo como um bloco unitário: a Cristandade primitiva é diferente da Medieval, que não é a mesma coisa da Cristandade da Contrarreforma, Moderna, etc.

Como Celso, que publicou escritos polêmicos contra os Cristão em cerca de 178, pode ser usado como um guia para o século 21?

Celso foi um filósofo neoplatônico, autor de um livro anticristão “Discurso Verdadeiro”, cujo texto nos é conhecido apenas pelas tentativas de refutá-lo por parte dos Pais da Igreja (que também é o caso dos tratados de Juliano, Porfírio, etc.). Eu realmente não consigo ver como seria um “guia para o século 21”. Lendo o livro dele – cujo texto tem sido reconstruído por especialistas – temos, pois, uma ajuda para melhor compreender as polêmicas pagãs antigas contra o Cristianismo.

A Cristandade constitui um veículo viável para a perpetuação do povo Europeu e sua cultura, ou levará a um futuro não-Europeu por causa do desaparecimento do elemento “Germânico” que havia transformado o cristianismo na Idade Média, como James C. Russell mostra tão bem em seu livro “The Germanization of Early Medieval Christianity: a Sociohistorical approach to religious transformations”. (Oxford: Oxford University Press, 2002)? Crês que há uma razão para preservar a Cristandade? Ela pode desempenhar um papel positivo na cultura Européia?

Dito tudo, eu não penso que se deveria felicitar-se pelo aparecimento da Cristandade e seu desenvolvimento. As eras pré-cristãs da Europa não eram espiritualmente deficientes de modo algum. O que é bom no Cristianismo não é novo, e o que é novo não é bom. Mas como eu tenho dito também, a Cristandade não é um bloco unitário. São Francisco de Assis e Torquemada deram a mesma Igreja faces muito diferentes! Não há nada de errado em preferir o antigo. Eu escrevi um livro intitulado “Como se pode ser pagão”, mas isto nunca me proibiu de apreciar autores católicos como Léon Loy, Chales Péguy, Geroges Bernanos e Gustave Thibon, ou de sentir-me de acordo com certos aspectos dos ensinamentos sociais da Igreja.

Para responder sua questão mais precisamente, eu não penso que o Cristianismo é um “veículo viável para a preservação do povo Europeu e sua cultura”. Mas acima de tudo, eu acredito que deve-se entender bem que já não vivemos mais em uma sociedade cristã. O discurso público dominante certamente permanece impregnado de temas de origem cristã ou bíblica, mas os costumes mudaram. Lá como em todo lugar, o individualismo tomou as rédeas.

As Igrejas, como os partidos e os sindicatos de tipo tradicional, estão passando por uma crise profunda. Na França, menos de 8% da população vai a missa ou ao culto de Domingo, o número de padres ordenados continua caindo ano após ano e ninguém obedece mais ao papa no que toca a moral sexual ou as maneiras em geral.

É diferente nos Estados Unidos, onde a crença religiosa e as práticas continuam incrivelmente mais espalhadas. Na Europa continental, não há equivalentes a “criacionistas”, ou “cristãos renascidos”, a “maioria moral” ou aos ridículos “televangelistas” americanos! Mas mesmo nos EUA, pois, não é mais possível falar de uma “Sociedade Cristã”. E é isto o que constitui a versão pós-moderna da secularização.

Indivíduos ou grupos de indivíduos podem, de fato, continuarem a encontrar razões na fé Cristã para viver e morrer, mas ela perdeu o papel decisivo que desempenhou no passado. Não mais constitui o quadro total de referência e o principal critério normativo da existência social. O que significa que o pertencimento religioso hoje simplesmente possui o status de uma opinião entre muitas, na fundação geral do indiferentismo e o materialismo prático. É uma mudança radical na própria definição de religião.

Nestas circunstâncias, a questão não é mais se a Cristandade deve ou não deve ser “preservada”. A Igreja tenta sobreviver, ciclando nostalgicamente o passado que não mais corresponde a nada, enquanto procura na via contrária adaptar-se ao mundo corrente, pela reafirmação de sua vocação Universalista, tentando posar de “autoridade moral”, etc. Isto é problema dela. As verdadeiras questões do futuro jazem noutro lugar.

Por que a Nova Direita não se refere a Cristandade quando prega um retorno às raízes da Europa? Paul Piccone e Gary Ulmen, na introdução deles ao livro de Michael Torigian “The Philosophical Foundations of the French New Right” (Telos, n. 17, 1999, p. 4-5), especulam se 2 milênios de Cristianismo não são o suficiente para fazerem esta religião uma tradição nativa, mesmo se certas partes da Europa (como a Escandinávia e os países Bálticos) fossem cristianizadas somente muito depois. Há muitos movimentos políticos ansiosos por retornar as raízes que pregam um retorno ao paganismo?

A Nova Direita nunca pregou um “retorno” ao Paganismo ou um “retorno” às raízes, ou um retorno a qualquer coisa. Ao invés, nós desejamos ir além da sociedade corrente, mas desejamos visionar o futuro pelas lentes de uma consciência clara do passado. Estas duas aproximações são coisas bem diferentes: recorrência não é sinônimo de retorno! Digamos simplesmente que se pode “futurizar” o presente apenas pela “historicização” do passado.

O problema é que a maioria de nossos contemporâneos vive em um perpétuo presentes, ou seja, em um ponto de vista onde apenas o momento presente conta e onde não se é mais capaz de esperar o futuro ou delinear lições do passado. O passado não é limitado pelo ponto de partida, que é sempre um limite convencional, de todo jeito, mas leva em consideração toda a história realizada. Para fazer qualquer sentido de história, precisamos olhar o maior prazo possível.

A Cristandade forma, obviamente, parte da história Européia, mas a Europa não nasceu com a Cristandade. Quando a Cristandade apareceu, a Europa já tinha 5 ou 6 milênios de cultura e civilização. Falar sobre as “raízes cristãs” da Europa equivale a negar as culturas Latinas, Gregas, Célticas, Germânicas e Eslavas que existiam, o que é obviamente indefensável.

Tens por vezes descrito a Cristandade como o “Bolshevismo da Antiguidade”. A Nova Direita considera o Cristianismo como o ancestral e principal portador do totalitarismo?

Quando a Cristandade surgiu na Europa, necessariamente teve de destruir a ordem antiga. O que levou ao confronto contra o paganismo. Temos inumeráveis testemunhos dos modos nos quais os primeiros cristãos profanaram os antigos lugares de culto, destruíram templos e estátuas dos deuses, deitaram abaixo altares, tombaram colunatas, queimaram trabalhos de filosofia e literatura que os desagradavam, etc. Foi muito mais uma questão de “passar o passado a limpo”. A frase polêmica que citas alude a isto.

Por outro lado, dizer que a Cristandade é a origem direta do totalitarismo é excessivo. Não obstante, contribuiu para, introduzindo no Ocidente um tipo de intolerância – a intolerância religiosa – que era desconhecida antes. O Paganismo muito naturalmente reconheceu a legitimidade das várias crenças professadas pelos vários povos. Com o Cristianismo os conceitos de bem e mal absolutos apareceram, um deus único, ortodoxia, dogma, heresia, inquisição, guerras de religião, etc.

Os cristãos desejavam converter toda a humanidade e lutar contra o que consideravam “idolatria”. Sua religião era, acima de tudo, uma religião moral, e tendem a ver em seus inimigos, não apenas os adversários do momento, mas as próprias figuras do Mal. Para erradicar o Mal, aqueles que clamam incarnar o Bem são rapidamente levados, em uma consciência clara, a empregar quaisquer meios.

Em tempos modernos, os regimes totalitários agiram não diferentemente: clamaram levar a cabo guerras “justas”, declararam os adversários criminosos, e foram inevitavelmente levados a colocá-los fora da “humanidade”. Uma das consequências deste modo de pensar é a eliminação do terceiro: “aquele que não está comigo, está contra mim”, disse Jesus – um dito recentemente repetido pelo presidente George W. Bush.

Casamento religioso LGBT?

Partindo de uma postagem para gerar debate – e gerou – na comunidade Fronte da Parahyba no Google+, acerca de uma suposta ameaça de “vandalização” do templo ásatruar que será construído na Islândia, pelo fato dos ásatruars islandeses reconhecerem religiosamente o casamento gay, enquanto outros politeístas germânicos (e numerosos, apesar da tentativa de minimização, diga-se de passagem) não reconhecerem e serem contrários ao reconhecimento. Como Ana bem notou, a notícia que serviu de base para despertar o debate, tem um quê de, digamos, factóide-liberalistóide, mas diferente do que aferi do foco do texto dela, creio que não se trate somente de “interferências políticas”, mas de uma oportunidade, justamente, para iniciar uma discussão anterior, uma discussão genuinamente religiosa.

Primeiro, é mister separar a discussão sobre a natureza do homossexualismo e desta conduta na sociedade, do casamento enquanto instituição religiosa. Não me interessa, nem creio que deva interessar (nisto concordo com Ana, perfeitamente) discutir as condutas íntimas de quem quer que seja; não me interessa discutir o primeiro elemento, mas apenas chamar atenção para a oportunidade de refletir sobre o casamento enquanto instituição religiosa dentro do pequeno escopo do Reconstrucionismo e Religiões étnicas (não englobo a Wicca nem certos setores do Neodruidismo dentro deste escopo, é bom deixar claro). Segundo é importante também destacar a existência de casamentos (me refiro a rito – religiosamente – lei civil é um troço posterior) em conformidade com a compreensão daquilo que os hindus chamam de ṙta e os romanos de ritus, com a “ordem cósmica”, digamos assim (ou aos partidários de uma compreensão aristotélica, chamemos de “Lei Natural”); outra coisa, diferente, é o casamento por contestação social, em especial à moral vista como hipócrita e retrógrada dos padrões aristocráticos de certas elites, em se tratando do Império Romano – é importante frisar tal diferença quando se fala da conduta de imperadores escandalosos (alguns claramente críticos de certos aspectos da religião tradicional de Roma, quando não ateizantes eles próprios) em contraposição aos ideias aristocráticos de familias tradicionais ou mesmo à vida comum da plebe em seus mais multifacetados aspectos. Tomar um exemplo de um como generalidade de outro me parece ser um non sequitur. É importante distinguir as coisas neste sentido para não incorrer neste raciocínio sofismático.

Quanto ao testemunho de Eusébio (no livro 6 do Praeparatio Evangelica), sobre os “jovens gauleses”, citado em um dos comentários na comunidade do Google+, o trecho em questão, repete um topos literário divulgado por outros escritores gregos acerca de mercenários gauleses em longas campanhas que demonstravam comportamentos homossexuais. O verbo que foi traduzido por “casar” aí (fui verificar o texto grego), não tem bem nenhum sentido religioso (ou seja, não é propriamente – em termos metafísicos, “casamento”) neste trecho; mas simplesmente denota “unir-se”, “amancebar-se”, inclusive até em tom galhofeiro e (não seria de estranhar) contestatório. Se tal prática fosse tão arraigada assim entre os Celtas, creio que teríamos bem mais – bem mais mesmo – testemunhos disto na literatura do alto medievo, pois duvido muito que os cristãos deixariam passar a oportunidade de “descer a lenha” em tal comportamento. Ou seja, tal trecho, na melhor das hipóteses, ao que parece, descreve um comportamento socialmente aceito dentro de opções da vida juvenil, não me parece ser prova nenhuma de que druidas celebravam (religiosamente) casamentos homossexuais.

E isto nos leva ao essencial: a celebração do casamento. Casamento não é Amor (seja erótico ou do tipo “philia” – como Platão bem sabia), na verdade, como toda e qualquer sociedade antiga que preconizava casamentos arranjados sabia, é possível até que haja casamento sem amor. Isto sim, de casamento sem amor, é algo que os cristãos não aceitam de jeito algum (na verdade, os cristãos dirão que o primeiro passo para qualquer casamento ser válido, é exisitir amor!). É crucial ver isto em tempos como os nossos, tão inebriados num modelo de casamento “burguês” (sim, pois ascendeu junto com a burguesia): o casal isolado, distanciado do clã, da família mais ampla, de poucos ou nenhum filho (o casal ideal, sem raízes, como idealizado por Rousseau no “Emílio”). Para o mundo antigo (e é por isto que muita gente não entende bem os casamentos arranjados) se trata, antes de qualquer coisa, da união de duas famílias em prol da estirpe, uma união espiritual entre duas cadeias de Ancestrais. Casar para viver feliz (egoísticamente libertos de quaisquer laços clânicos ou comunitários), compartilhar uma vida estéria (sem o prolongamento – muitas vezes visto como dever sagrado, religioso, no mundo Antigo – da espécie, sem filho concebido pela união das almas e dos corpos), imersa em consumo e num cuidado patológico com “pets”, ao que me parece, não seria lá bem visto, e isto, é bom frisar, inclusive se tratando de pessoas de sexos opostos. Daí que não se deve misturar Eros – inclusive em sua dimensão transcendental – com “casamento”, são coisas diferentes como qualquer pessoa intui; pelo menos me parece óbvio, que transar com alguém é diferente de casar com alguém. Promover esta confusão não ajuda. Na verdade piora, pois maliciosamente tem gente que confunde; não se trata do comportamento homossexual (a transa), mas do casamento enquanto instituição metafísica, em sua dimensão religiosa e toda sua relação aos antepassados e a família dos noivos (e sua sansão comunitária). Do mesmo modo que não se trata de uma questão de axiologia, puramente, social – não é uma questão de aretē, seria se estivéssemos tratando do comportamento, da ação pessoal; realmente, dentro de um prisma aristotélico, tal comportamento, a priori, não impede o desenvolvimento de virtudes – apesar de historicamente, diversos povos associaram tal comportamento (a conduta homossexual) a falta de virilidade, de ombridade e frontalidade no enfrentamento de problemas ou ameças. Não creio que seja assim absolutamente, mas não posso negar que historicamente, diversos povos, em diversos momentos históricos, e não apenas cristãos ou islâmicos ou judeus, fizeram tais associações ou associações similares. Negar isto é utilizar um filtro ideológico escancarado.

Daí que se deve perguntar: cadê os exemplos concretos do casamento religioso (que não sejam “excentricidades” de imperadores claramente antagonistas ao mos patricius ou mos maiorum tradicional)? E no caso concreto dos germânicos (afinal, o post parte disto), de conhecido viés, digamos (na falta de um termo melhor) “machista”, onde estão os exemplos de casamentos “oficiais”, religiosos de pessoas do mesmo sexo?

Uma união não religiosa (civil) não é o que está em causa aqui, vale lembrar. Um tradicionalista/religioso poderia, coerentemente, defender o reconhecimento da união civil e a partilha de bens entre pessoas do mesmo sexo, mas, na falta de fundamento tradicional (ou no indício de fundamentos contrários) não apoiar o casamento religioso, o casamento enquanto união de estirpes (entendido religiosamente). Ele reconheceria que o que a legislação hoje aponta é uma legitimação, no âmbito civil e laico, de uniões que, mais ou menos (às claras ou às escondidas) sempre existiram. Mas, reconhecê-las como “casamentos” (no sentido, digamos, “tribal”, religioso) é outra coisa.

Não se trata de confusão política, mas justamente de uma reflexão objetiva que permita não ser instrumentalizado ou alocado a um bloco com o qual não temos nada a ver. É preciso ver, enxergar claramente, quando possível, como se olhássemos as águas de um val que se sujam após as passadas pesadas e rápidas, mas que se limpam após algum tempo; os pilares fundacionais da compreensão do casamento e sendo eles de origem divina, atemporais, seriam válidos pra hoje também, mesmo que isto desagradasse X ou Y. Adequar ao discurso da ultra-modernidade só para ficar do lado dos “do-bem-descolados-salvadores-do-mundo”, só por pseudo-angelicalismo é contra-produtivo, assim como ficar contra só para posar de “malvadão-conservador-purista”.

Digamos que em relação ao requerimento de coerência com o passado, se tome 3 caminhos:

  1. Não temos evidências de casamentos (religiosos) entre pessoas do mesmo sexo e temos evidências de mentalidade “homofóbica” dentro desta cultura povo;
  2. Temos evidências inequívocas ou comprovações sim de casamentos deste tipo, olha aqui (e aí se lista as mesmas)
  3. Não temos evidências de casamentos religiosos/oficiais e temos evidências deste tipo de comportamento com alguma sansão social.

No caso de 1, ou o sujeito deixaria claro que – RELIGIOSAMENTE – tal procedimento não deverá ocorrer (como não ocorria no passado), ficando a seu encargo a defesa ou não no âmbito civil; ou dizer que, APESAR disto não ocorrer no passado, agora pode ocorrer – aí terá de construir uma justificação (que pode ser boa ou não) e claro, terá que compreender que os que discordarem, por coerência ou purismo (ou “radicalismo”, no sentido de se apegarem as raízes, “radices”), estarão no seu direito, apesar dos pesares. É importante frisar que a prerrogativa de que “não ocorria mas deve ocorrer hoje” caberá, logicamente, para muitas outras coisas também – incluindo misturas de práticas alógenas, etc. Na verdade, “se não havia antes mas pode haver agora” abre brecha para quase qualquer coisa. É importante que os que fazem tal opção tenham consciência do que ela acarreta muita coisa ou de antemão já construam argumentos que os eximam de incluir/reconhecer outras práticas além do caso discutido.

No caso de 2, uma vez atestado que seja uma prática instituída de forma geral (e não apenas para pequenos setores especiais ou em contextos excepcionais de uma sociedade), não há muito a se discutir – como ocorrera no passado, ocorra hoje (é interessante notar que tem gente que usa este argumento para casos assim, mas não para o caso de sacrifícios animais, por exemplo, muitas vezes demonstrando claramente sua preferência ideológica no 1 peso 2 medidas: o caso do sacrifício animal, ou da tortura de prisioneiros, ocorria no passado – dentro da sansão e mesmo prescrição religiosa – mas não deve ocorrer agora; mas já coisa X deve ocorrer agora, porque ocorria no passado…). No caso de 2, tudo fica fácil, opor-se, seria incorrer num comportamento “estranho”, que seria melhor explicado por cripto-cristianismo ou outra interferência “exterior” (do conservadorismo político, por exemplo).

No caso de 3 a coisa fica mais complicada, pois como dizia alguém (que não me recordo) “falta de evidência não é evidência da falta”, apesar de que, ao menos dentro de metodologias reconstrucionistas, prudência (e certa observância da Navalha de Occam) é regra e por isto ser algo suspeito assumir certas coisas sem que haja, no mínimo, um escopo mais amplo (em termos de imaginário e visão de mundo) que justifique. Nestes casos, justamente, é onde a reflexão mais se faz necessária e o clareamento da visão é mais requerido. Por um lado, talvez caiba tanto uma certa reserva no tocante ao casamento religioso (mais ou menos como 1), como uma atitude de absorção do mundo civil/laico (para um tradicionalista isto seria coerente se já houvessem outros exemplos de tais absorções no passado ou se algo, nos mitos e literatura sagrada, assim indicasse que tais absorções ocorrem ou devem ocorrer).

Ousaria dizer que, pelo que conheço do mundo religioso Indo-Europeu ocidental, os germânicos e balto-eslavos estejam mais para 1, e todo o restante (celtas, trácios, gregos, etc.) para 3 – eu sei dos casos romanos e supostamente gregos (estes povos são referidos, constantemente, sem os devidos recortes de estratificação social, período histórico ou região/cidade; levando a generalizações inadequadas), que talvez fizessem enquadrá-los em 2, mas justamente por causa dos muitos “poréns” (no geral, pela excepcionalidade – mesmo que lê um Satyricon da vida percebe que não se trata de algo do “povão”), creio que seja um procedimento questionável. E diria até mais – talvez coubesse 2, mais para o mundo romano do Baixo Império, onde – não sou eu quem fala – a influência “oriental” e egípcia se fez mais forte. Novamente, friso que se trata de “casamento”, religiosamente, oficialmente.

O real problema, é a polarização política tosca de nossa época. Por um lado, é importante frisar que no Mundo Antigo, e em especial fora do eixo greco-romano, Política e Religião estiveram misturadas e o eixo perene das tradições é orientado no sentido da Religião iluminar a Política (e ao contrário do que gente má-informada sustenta, Evola justamente insistiu na volta a esta orientação; pessoas como Faye e outros é que por vezes creem – criticando os “metafísicos” – que a Política pode ser um instrumento de afirmação religiosa, por vezes advogando que a separação entre as coisas – Política e Religião – é obra do Cristianismo e da Modernidade) e não o contrário. Se por um lado é verdade que não havia no passado uma separação muito clara em Religião e Política (se é que havia separação), por outro lado é igualmente válido que não há um trabalho de reflexão sistemática e profunda entre os politeístas contemporâneos (especialmente entre os tradicionalistas e reconstrucionistas como um todo) dos limites e influência consciente do laicismo moderno. A lógica do “e” ao invés da lógica do “ou exclusivo” (Alain de Benoist) é um bom início, mas não há muita literatura sobre o tema. E isto, nos leva ao velho modus operandi de “babação de ovo” dos norte-americanos, do provincianismo intelectual que se repete quase que reação mecânica, automática. Ou seja, se por um lado, dentro de uma perspectiva laicista, seria ideal “não misturar as coisas”, por outro lado é uma tarefa difícil (mesmo para esta perspectiva laicista) quando as coisas estavam misturadas no passado e mesmo hoje permanecem de alguma forma – pois, em se tratando de casamento religioso, litúrgico, especificamente, não estamos mais no plano da “política” (neste está o casamento civil!) e a discussão não será sobre “política”, ou pelo menos não deveria. A discussão será sobre metafísica (como o casamento era – ortopraxia – como era compreendido, como é e deveria/poderia ser – ortodoxia e heterodoxia), politeologia, mitologia, etc. É esta discussão “teológica”, com profundidade (acadêmica), calma, e sobretudo honestidade, para além dos “ânimos exaltados” (doa a quem doer) que tem de ser iniciada em cada religião, e não apenas “importada” de olhos fechados dos EUA.

Comecei o texto frisando que o foco nisto tudo deveria estar na compreensão (ou decifração) da ordem cósmica em si e termino repetindo isto. Não se trata de uma discussão somente sobre os Deuses e as histórias sobre Eles que nos foram passadas, mas justamente sobre o que está além, acima, mas que projeta um reflexo nestas histórias. Também não se trata de uma discussão ética, no sentido da “ação pessoal”. Se trata, antes de mais nada, de uma discussão religiosa ampla, sobre o funcionamento metafísico do mundo (quem quiser, leia aqui “Natureza”) e de como as instituições (físicas e espirituais) dos humanos refletiam, se refletem, ou deveriam refletir (ou mesmo se não devem refletir, o porquê) este funcionamento. Se trata da reflexão sobre o que é o casamento religioso (dentro de cada tradição) e sobre as possibilidades acerca deste.

É uma discussão difícil, muito, pois pode se referir a alturas sublimes, que beiram o místico e apofático, pela própria natureza sagrada do que se acerca. É bom lembrar aos religiosos, que por mais que se busque uma abordagem cética e filosófica, o que a distinguirá de uma abordagem “externa”, será a opção existencial consciente, a crença, a fé numa visão de mundo, num centro de valores atemporal e vitalista. Crer na firmeza transcendente de nossos pilares metafísicos, pular por sobre o abismo niilista, transpassá-lo; e isto significa crer – de verdade, e não apenas como referência estética, ou adereço exótico – na sacralidade dos bosques antigos. Por vezes, penso que os Deuses imortais devem se divertir com como fazemos “tempestades em copos d’água”, e pouco se importam para certas querelas humanas; mas tenho pra mim, que pelo menos uma parcela Deles, valorizam aqueles de nós que com afinco, tenacidade e excelência, permanecem teimosamente firmes, com uma face orgulhosa, religiosamente amparados pelas sombras de seus Ancestrais; não distraídos pelo sabor dos ventos momentâneos, mas focados em ajudá-Los, mesmo que seja com nosso diminuto contributo, na difícil manutenção da ordem cósmica, na Grande Guerra. É uma opção humana engajar-se, digo mais: é uma opção radical.

Pensamentos sindicais

Não acompanho movimentações sindicais de dentro – poderia fazê-lo – mas prefiro me inteirar do possível por fora, e ao longo destes anos trabalhando como funcionário público (estadual e federal) algumas convicções se reforçaram em mim e diante do cenário que aparece no plano nacional, em especial dos professores estaduais, resolvi expor algumas delas achando que talvez seja útil para alguém.

Antes de mais nada, me parece que, nos últimos anos, em todas as greves que vi do setor, cá ou noutros estados, não houveram sucessos reais. Houveram aqueles “sucessos” de tapinhas nas costas entre os companheiros, aqueles tapinhas de sorriso insosso e frases de otimismo forçado pra esconder o que realmente se passou. Creio que boa parte dos desarcertos disto tudo sejam resultados diretos de três grandes fatores. O primeiro diz respeito a própria concepção de “sindicato” de professores. A segunda diz respeito ao erro de tática da luta sindical e o terceiro ao monopólio dos sindicatos por parte de certos partidos e tendências ideológicas. Vou tentar expor do modo mais econômico possível.

1.

O primeiro erro me parece ser o do pressuposto de que o esquema clássico da luta sindical pode ser transplantado, sem nenhum ajuste, para o serviço público. O esquema conceitual marxista da Luta de Classes, força a identificação do professor com um proletário e do governador com o patrão, considerando que a situação das empresas privadas é a mesma do serviço público. Isto não me parece que é assim, nem muito menos que funciona assim, mesmo após tanta doutrinação e pressupostos não revisados. O professor poderia, muito mais, como o médico e outros servidores, ser visto como um membro do Executivo, como o policial, ele é parte do Estado, representante deste em certa medida, executor direto de uma função constitucionalmente atribuída ao Poder Público. Me parece, a princípio, que ele não deveria ser visto como um “trabalhador terceirizado”, contratado para um serviço que não fosse final ou importante. Ele deveria ser visto como agente do poder público no campo da Educação, como parte do Estado, e uma parte “fixa”, ao contrário da contingência dos mandatos eleitorais.

Outro ponto importante me parece ser a incorporação de uma espécie de lógica liberal de “livre-concorrência” entre os sindicatos, permitindo que surjam milhares deles para a representação de um ofício, por sua vez, subordinadas as diversos sindicatos de sindicatos. Há uma recusa de unidade impressionante, camuflam o interesse monetário (sobre taxas de arrecadação) com a desculpa de que centralizar e unir a representação da classe é coisa “faxista”, etc.

2.

Os principais erros táticos dos sindicatos me parece que poderiam ser resumidos na seguinte assertiva: estão querendo ensinar a missa ao vigário. Os governos dos estados em boa parte, e em especial ao do País, é formado por ex-sindicalistas, pela gente que profissionalizou o sindicalismo no país. Utilizar as mesmas receitas é jogar com as cartas marcadas e contra quem deu o baralho. Seria necessário novas táticas, cujos movimentos não possam ser previstos e evitados pelos antagonistas, utilizar a imprevisibilidade, reforçar acordos sólidos de cooperação verdadeira e orgânica com os outros sindicados e representações dos demais funcionários públicos, etc. Neste quesito, em especial, repito cá uma indicação que fiz num áudio nos tempos do blog PBPagã ao comentar uma repressão policial a um movimento grevista de professores (que parece ter se repetido de forma ainda mais intensa no Sul do país): os políticos jogam a PM contra os professores, estimulam o excesso (seja pela ordem expressa de um lado, seja pela irresponsabilidade dos religiosos da “lutadeclasses”), a mídia cai em cima do excesso da PM e os que ordenaram tal, ou permitiram e são responsáveis, ficam incólumes, “salvos”; de repente todos esquecem que a PM está juramentada a cumprir ordens, que não age sem que haja, lá no fim da cadeia de comando, uma responsabilidade politicamente atribuída… A saída seria uma união, sedimentada com compromisso “sagrado”, entre os representantes de policiais e professores, entre os executores da força e da persuasão educativa. Esta aliança, entre “brâmanes” e “xatrias”, verdadeiramente, tremeria qualquer governo e seria um poder realmente capaz de algo. Permitir a estratégia de dividir pra conquistar e da ocultação das responsabilidades não dá certo, nem dará… Termina que, basicamente, a truculência vira boi de piranha e serve para resguardar os reais responsáveis – que ficam na penumbra – e para fortalecer o discurso divisionista e rancoroso dos setores da extrema-esquerda que controlam os sindicatos, o que nos leva ao terceiro problema.

3.

É complicado de haver real oposição e comprometimento com a classe quando os representantes via sindicato, no final das contas, quando o nó arroxa, são do mesmo time do governo; No final, estão todos do mesmo lado, seja por os primeiros ambicionarem cargos políticos no governo seja por compartilharem do mesmo conjunto ideológico, preferindo o atual governo ao “bichopapão” da oposição satânica. Começa a acontecer greves “meia-bocas”, greves que são puxadas pelas bases contra a implicância dos sindicalistas profissionais, quando não são autossabotadas pelo próprio sindicato – por um lado se cria um movimento, um algo, para aplacar os radicais e insatisfeitos, mas por outro lado já se assegura que a coisa não vai longe, que não se “mije fora do penico”. Mesmo que hajam brigas reais (por exemplo, os sindicalistas são trotskistas e o governo é da esquerda-progressista, como se estes setores brigassem… mas imaginemos), todos se tornam amiguinhos contra os malvadões da oposição. Eis a grande brecha, que permite que o governo, inclusive o federal, se aproveite dos confrontos e desacertos, especialmente quando cometidos em um estado onde governa a oposição… Rapidamente, surgem discursos inflamados, mas quando um governo aliado ou do próprio partido do governo, faz coisas semelhantes ou piores, se silencia ou se diminui os fatos e esse pessoal, que se julga exemplo, tão politizado e do bem, engole quieto, por que, no final, compartilham da mesma fé.

Por outro lado, se os sindicatos não fossem tão maciçamente controlados por ideologias da religião da “lutadeclasses” talvez houvesse uma maior possibilidade para pensar em táticas e estratégias inovadoras. A velha ladainha da “puliça-faxista” (que oculta a real responsabilidade de quem dá ordens a PM), o velho romantismo do confronto do “bem” x o “mal”, etc. Já há tempos que é instrumentalizada e mapeada por qualquer um que tiver o mínimo de disposição para analisar com seriedade as coisas. Por um lado, os velhos sindicalistas são sujeitos aburguesados (dentro dos próprios conceitos marxistas), acovardados ou conformistas, se não com as instituições, mas com os tais conceitos marxistas – tratando-os, na prática, como “sagrados”, como doutrina religiosa inquestionável, negando-se radicalmente a questioná-los criticamente ou a se quer pensarem se sua suposta eficácia realmente é eficaz. Por outro lado, os professores mais politizados que não se identificam com a extrema-esquerda e/ou este conjunto de crenças, ficam isolados, sem organização e perdidos, e terminam ou por converter-se, alimentando o “sistema” interno, ou por afastarem-se, evitando sua mudança. E nisto nada se resolve, os de sempre se beneficiam, e as engrenagens giram no eixo.

Tem gente neste meio que sabe disto tudo, mas por cegueira dogmática, ou psicopatia mesmo, insistem na Luta de Classe desejando ardentemente que um dia sua tão sonhada guerra civil estoure e ele possa ajudar (engraçado que os tipos que sonham com tais coisas, ao contrário de 30 anos atrás, são os mais burguesinhos, que se travestem de revolucionários como fetiche pessoal de autoconvencimento e adereço estético) a implantação messiânica do Reino dos Céus Comunista na Terra, este são desejosos que alguns inocentes percam a vida, que alguns companheiros sãos sejam realmente mortos, se necessário for. Mas não representam a totalidade, pelo que vi, dos sindicalistas, claro, há os que só querem a promoção política, os que só visam o lucro, não trabalhar (viver da representação), aproveitar-se da vida social e dos encontros, farrar, passear “de graça”, etc. – mas também há pessoas realmente crentes de que poderão melhorar a vida e as condições dos companheiros de ofício e é a estes que me direciono.

Tentando resumir, ao que me parece (e claro, sou um mortal comum, estou ciente de que provavelmente esteja errado), os sindicatos dos professores públicos precisam de uma faxina (precisam ser exorcizados de certa hegemonia partidária e ideológica), suas estratégias e táticas precisam ser atualizadas, reorientadas ou refundadas completamente (especialmente levando em conta sua ação conjunta com os demais agentes do Estado) e sua própria concepção-base precisa ser revista. É preciso ousar questionar o dogma da importação da Luta de Classes do serviço privado para o público, é necessário ver alternativas (como as visões corporativistas), é necessário admitir que esta via batida já não oferece real oportunidade de uma mudança significativa.