Reflexões sobre um ‘Império Pagão’ e o Brasil

Após a leitura de um texto do filósofo pagão Alain de Benoist, senti que parte das idéias manifestas tempos atrás (diante na nebulosa leitura do “Imperialismo Pagão” de Julius Evola) sobre certos temas políticos foram organizadas com maestria. Mesmo para quem, profissionalmente, lê filosofia, não deixa de ser impressionante a capacidade de síntese e formulação de certos sujeitos. Recomendo ao leitor aventureiro que por ventura cá aporte, que leia o texto do filósofo francês antes de prosseguir cá. O nosso, talvez, seja uma mera “sombra” projetada timidamente em direção aos Trópicos.

E talvez uma sombra “fuleira”. O tema é por demasiado complicado, requer mais estudo e leituras de minha parte (confesso) e por isto mesmo, muito resisto em divulgar pensamentos cuja lapidação ainda não me transparece a segurança necessária que este tema requer. Afinal, é fácil passar-se por ridículo em tais questões e mais fácil ainda cometer deslizes. Além de que, idéias “esdrúxulas” e pouco presentes nas discussões mais cotidianas, tendem a cercarem-se de uma aura de excêntrico para além do normal. Mas o faço por achar necessário chamar atenção para o tema, mais do que para arvorar-me de propor uma solução e uma palavra final. Para alguém que estuda filosofia, entrar numa discussão ou mesmo acompanhar uma certa reflexão é sempre mais penoso quando não há um claro rigor conceitual e termos elucidados previamente. Infelizmente, não me ative a elucidação conceitual prévia por motivos econômicos: acreditei que deixaria o texto maior ainda, mais prolixo e como se tratava de algo a ser reelaborado depois, tomei a liberdade de usar termos como “dissidência”, “nacionalismo” de modo um tanto quanto intuitivo. Vamos lá.

Falência da República Nova?

Diante das tremendas reviravoltas políticas que mergulharam o país em águas turbulentas e muito sujas, cresce, cada vez mais, o sentimento de que, de certa forma, a República Nova está falida. Que o Sistema todo está viciado, corrompido e que, não só não funciona agora, como, muito provavelmente, não funcionará mais (se é que algum dia funcionou bem). Ou seja, que o problema é endógeno e existe a priori no Sistema. Uma vez que cresce a percepção de que o problema é o Sistema em si, cresce a percepção da necessidade de alternativas globais, não para salvar o Sistema, limpando-o, reformando-o, mas para substituí-lo eficazmente. E aí que ganha corpo os projetos e fabulações: gente que defende intervenção militar e um regime de exceção, gente que defende que é a hora de organizar um levante “popular” comunista para tomar o poder (a retomada, pelo menos retórica, do discurso “Radical” na Esquerda), gente que defende que a única solução é que o Estado seja abolido para que possamos viver num suposto paraíso anarco-capitalista, etc. Abundam soluções de Reforma Radical, ou melhor, de Substituição do Sistema, mais do que de “reforma” do mesmo. Creio que não seja tolice falar que tal reivindicação cresce. Dentro desta perspectiva, claro, também ganha espaço timidamente a Causa Monárquica, encabeçada por um setor minoritário de católicos e de conservadores em geral.

De repente, todos apontam soluções e dão seus pitacos: é a própria conjuntura que clama. No entanto, há muitos (a Grande Mídia, por exemplo?) que preferem alimentar a visão de que os problemas manifestos são meramente contingentes e não propriamente estruturais, e que tudo se resolverá com a mera substituição do conluio de partidos que nos governa: basta uma nova eleição e, voilá, “zerou” tudo, daqui pra frente tudo estará bem porque… aprendemos a lição e os mesmos erros não serão repetidos, certo? Os que se beneficiam do Sistema que aí está, são, óbvio, os primeiros a desacreditarem e ridicularizarem as concepções que apontam para a localização do problema no próprio Sistema e não só nos agentes e operadores corruptos do mesmo. De outro lado, certo estado de letargia e ignorância sobre as possibilidades, a real ausência de um debate que discuta e publicite as percepções sobre os problemas do próprio Sistema e não apenas de seus agentes contribui para formar uma cortina de fumaça e para, por a cumplicidade calada, fazer a “ridicularização” ter eco. Ainda não se criou o clima que houve no plebiscito sobre a instituição da Monarquia em 1993. Liberais e Socialistas de variegadas matizes se unem, como esperado, para rirem juntos de uma alternativa monárquica, ou militarista, ou o que quer que seja (especialmente quando saí dos limites modernistas), com o aplauso da Mídia e dos Bancos: a final, a elite progressista e “prafrentex” está empenhada em fazer o mundo “progredir”, não em “regredir”, certo?

As saídas que nos apontam, as saídas de sempre.

As alternativas, mesmo na manutenção do Sistema, de certo status quo, nos são apresentadas pelos atores políticos majoritários como uma espécie de luta para sermos dominados escondida num jargão economista e “patriótico”/anti-imperialista-yankee: ou formalmente pelos EUA, como capachos obedientes e orgulhosos, ou formalmente pela Venezuela/Cuba, como um capacho musculoso orgulhoso. Com a saída formal do PT do Governo do país, a via “Bolivariana” perdeu um pouco de força, pelo menos em termos institucionais, na própria acção do Governo. Mas os seus rancorosos defensores, ainda guincham, azurram e coiceiam chamando atenção a cada tropeço, alimentando esperançosos o ar trotskysta de “quanto pior, melhor” e espumando ávidos pela vingança. Por outro lado, os que encantados pelo desejo de serem os EUA do hemisfério Sul, decepcionados, começam a deixar claro que aliar-se com patriotas/nacionalistas e conservadores já não basta, demarcando com clareza a linha divisória entre os paladinos joviais do Libertarianismo (Instituto Mises, MBL e demais) dos trogloditas “reacionários” retrógrados estatistas (religiosos, “bolsominions”, viúvas-do-Enéas, etc.). Finalmente, como esperado, Liberais e Conservadores começam a perceber que possuem agendas diferentes. Além de que há muito a amadurecer em certos debates. Os liberais, por exemplo, louvam certas coisas como se fossem grande invenção do Liberalismo e os Esquerdistas automaticamente se tornam contrários, apenas para contraporem ao que os ditos liberais clamam e vice-versa, sem que ninguém busque compreender mais fundo mais nada. Um exemplo besta: na Antiguidade nem no mundo Medieval o que podemos comparar com poder “público”/Estado obrigava ninguém a pagar algo como o nosso FGTS e nem por isto uma pessoa em sã consciência chamar-lhes-ia de “liberais” (poderíamos estender para assuntos como Universidades/Academias privadas, etc.). Mas se o Governo decidir flexibilizar ou torná-lo facultativo, os liberais gritarão orgulhosos e buscarão registrar em pedra que tal foi uma vitória do Liberalismo. Claro, motivações podem até ter sido inspiradas por certos ideais modernos, mas o ponto é que nem tudo parece ser o que é, única e exclusivamente por que eu não gosto de quem estar a dizer. A cegueira historiográfica para tudo que antecede os últimos 200-250 anos é impressionante. Enfim…

O cenário de uma Esquerda que ainda está atordoada e com uma parcela significativa vivendo na irrealidade, de uma “Direita” que se divide e finalmente percebe que o entendimento entre Liberalismo e Conservadorismo tende a zero, seria o cenário perfeito para a emergência de uma via diferente, de um projeto que protagonizasse nossa liderança (Brasil) enquanto o poder inconteste da América do Sul, e não a nossa sujeição. Esta deveria ser a via para qual convergiria nacionalistas, descontentes patrióticos em geral (inclusive ex-brizolistas, diga-se de passagem), reacionários, certos religiosos, etc. Mas ao invés de fazer romper uma frente forte e ganhar espaço, não tem havido convergência numa via alternativa nenhuma, e parece até que se tem sufocado mais possibilidades de prosseguir, seja por puritanismo apriorista (como se um movimento político, desde de seu início, fosse petrificado e perfeito, como se não mudasse e se ajustasse com o andar da carruagem e certas contingências da Fortuna) seja por uma falsa percepção, mais comuns entre certos setores da dissidência, de que os problemas geopolíticos globais devem se sobrepôr a realidade local e tópica de certos problemas nossos. Soma-se a isso, a crença “viralatística” cega de que certos autores estrangeiros estão sempre em melhor condição de descrever a conjuntura de nosso país (e o fazem, muitas fezes simplisticamente, a partir de seus pressupostos geopolíticos prontos e sem terem acesso a informações “menores” – geralmente pouco destacadas na grande Mídia –  mas que apontam detalhes cruciais) do que nós mesmos. Nisto padece certa dissidência e certa ala da Direita liberal, mais do que a Esquerda propriamente. A cobertura do processo de impedimento da então presidente Dilma, por exemplo, foi claro neste quesito. Para mim (o leitor poderá ter uma posição diferente), pelo menos, ficou muito claro como as situações de conflito em países distantes também devem ser muito mais complexas do que o que é pintado por analistas e intelectuais (e pela Grande Mídia, assim como por instituições como ONU) para nós, ou melhor, para que nos posicionemos apaixonadamente do lado que gera a narrativa. Claro, como os sujeitos não estão cá, muito tem de ver com as fontes de informação às quais são expostos e que utilizam para gerar suas bases para extraírem suas conclusões. Mas ao ver gente estrangeira que admirava e respeitava, simplesmente repetindo a baboseira PTista de “golpe”, sabidamente falsa e mentirosa, abriu meus olhos para a prudência em ter um certo pé atrás quando estas mesmas pessoas descreviam, simplisticamente, certas realidades conflituosas em países distantes. Há lados sim, e como disse um amigo, por vezes nunca teremos como saber qual é o “certo” e simplesmente seremos cobrados a nos posicionar e lutar. OK. Mas isto não nos exime de uma certa prudência intelectual, especialmente quando não se é este tipo de sujeito que vive e se guia por gurus estrangeiros. Para mim ficou mais claro que é necessário mais ceticismo em certas abordagens.

A moralização do embate numa espécie de maniqueísmo declarado, gera seu esvaziamento político e uma transformação na luta entre o lado do Bem contra o lado do Mal (do “Satanás”! Veja que tanto Bin Laden, quanto Bush, quanto Dugin caracterizam assim o oponente em certos momentos) deveria ser o suficiente para despertar certo ceticismo nas mentes não tão afetadas pelo binarismo do deserto semita. A grande questão é que, de repente, do alto de nosso trono social-media, cegos pela análise de conjuntura distante e “inteligente” dos intelectuais que admiramos, julgamos saber mais e melhor sobre as situações do que os sujeitos que estão lá vivenciando a coisa na pele. É sobre esta postura petulante e imprudente intelectualmente que precisamos estar alertas. Este ponto merece ser frisado.

Há os que, apesar de concordarem que o bom mesmo, seria o Brasil não ser capacho/vassalo de ninguém, no final das contas, dada a impossibilidade disto, se inclinam na prática ou no fundo pensam que seria melhor ser vassalo de A que de B. É mais ou menos o que certos patriotas bolsonaristas dizem (preferindo os EUA) e mais ou menos o que aferimos de certos “dissidentes” (que preferem a “Pátria Grande” bolivariana)… Ambos se acham justificados, e conseguem certo malabarismo (mais ou menos cheio de movimentos espetaculares) discursivo para encorparem as respectivas posições. Mas talvez, também se achem justificadas as outras possibilidades que a estes dois interessa negar: voltar a Portugal (reestabelecer o Império Trans Atlântico!), ceder algo aos nativos, ou ainda, assumir tenazmente a não-sujeição ou entrega alguma! Fato é que, no final das contas, uma divisão permanece, se aprofunda, e vetores unificadores ainda não ganharam corpo para ocupar um espaço vital que, se não ocupado em breve por tais vetores, tornar-se-á refém (novamente) do acordão do status quo.

Erros da Dissidência?

A dissidência deveria, justamente, estar a lançar propostas e trabalhar vanguardas, justamente por estar (ou dever estar) criticando as duas tendências majoritárias; e por isto, talvez, haja mais linhas cá sobre ela do que sobre as demais, além de que, justamente por me sentir, pessoalmente, mais próximo e representado em certas bandeiras da dissidência do que por outras posições, me vejo na obrigação moral de expor o que me parecem ser os erros mais do que noutras opções. E claro, não posso deixar de parabenizar o trabalho de certos camaradas e de registrar que há acertos também. Apenas que para o que está sendo refletido cá, neste momento, precisaremos focar nas críticas.

Para os que se dizem tradicionalistas, persistir na aposta “política” ao invés do retorno às religiões é persistir no erro da modernidade: politizar a fé, ou usar a política para reestabelecer certa fé, ao invés de espiritualizar a política. Para um tradicionalista coerente, não há “ideologias políticas” dispostas no mercado moderno de opiniões, o que há é sua Religião. E só. Compreender a profundidade disto é alcançar a libertação do cárcere mental “militante”. A discussão sobre ideologias políticas é moderna, e as possibilidades de conversão/adoção delas, independentemente dos desdobramentos e consequências religiosas, só surge a partir da dissociação entre Religião e Política, só na Modernidade que faz sentido falar-se em “pagão”-liberal ou “cristão”-socialista; os próprios cristãos, pelo menos os católicos, perceberam que, de fato, a única possibilidade de ideologia política coerente para eles é… serem “Católicos” (o que significa serem distributistas-monárquicos!). Para os pagãos também e, antes ainda. Entrar no jogo de defender “ideologias políticas” é saltar direto para o Modernismo: o asatruar deve defender, politicamente, a Ásatrú, o helênico, o Hellenismos, o pagão romano o SPQR (seja imperial ou republicano), etc. Se não parece tão claro assim o que isto significaria em termos práticos, isto quer dizer que precisamos de mais filósofos e politeólogos nos digam, que mais estudos, reflexão e imersão são necessários, não é por não vermos facilmente tais coisas que devemos concluir, de uma vez por todas, que as mesmas não existem. Simples assim: não há ideologia política além da Religião. Nem uma primeira teoria política, nem uma segunda, nem uma terceira e nem mesmo uma quarta (se esta for encarada como “ideologia política”). É preciso esvaziar o conteúdo ideológico e retornar às grandes questões políticas: regimes de governo, legitimidade do poder político, Soberania e o papel do regente, Identidade e tradições dos povos, etc. Enquanto não se compreender que as grandes lutas, golpes entre reis, monarcas, imperadores (seja entre os Romanos, Gregos, Celtas, Germânicos, Eslavos, etc.) não eram por “ideologias” políticas: é incrível como as pessoas têm dificuldade de pensar a luta política, como algo além e anterior a briga entre liberais e socialistas, liberais e conservadores, etc. Talvez até, usando certa concepção schmittiana, possamos dizer que, dentro de uma perspectiva antiga (me refiro aos filósofos greco-romanos, mas também a visão aristocrática e monárquica germano-celta), a Modernidade gera o esvaziamento do Político. A ideologização da política, só possível ou majoritário onde o pensamento religioso não mais impera, é uma espécie de superstitio que leva a uma perigosa μανία, essencialmente, niilista, apesar de não ver-se assim.

Mesmo entre os que, inicialmente, propunham como resposta aos problemas do país o desenvolvimento da 4ª teoria política duginista, parece ter havido um retrocesso: ao invés de persistirem na profunda, honrosa e complexa questão metafísica do “Logos Nacional”, a partir da qual emergirá uma resposta genuína, preferiram retroceder (talvez pelo imediatismo juvenil da vontade de militância) a uma espécie de “brizolismo” mais ou menos velado sob o nome de “socialismo patriótico”. Para confirmar o mal-estar da situação, basta fazer o exercício contrário: substituir o termo “socialismo” por “liberalismo”; inclusive, leitor, quando a ver alguém curtindo ou fazendo propaganda de regimes comunistas, países ou de coisas do tipo, basta imaginar o contrário (ou seja, que estejam a fazer propaganda e curtir páginas de capitalismo, EUA, etc.) para ver o quão enviesada a coisa está! Mesmo na questão do Logos Nacional, excluir o passado Império do Brasil do itinerário formativo e de possibilidades válidas/positivas, faz tanto sentido quanto excluir o Csarismo russo do ideário formativo do Eurasianismo duginista. O próprio Dugin, inspirador da discussão toda nos termos de “Logos Nacional” numa parcela grande do meio dissidente brasileiro, já admitiu mais de uma vez que o Império russo, ortodoxo, mais do que a USSR, faz-se presente no horizonte mirado geopoliticamente. Por cá, ao invés de revisitarem toda a literatura (claro, passível de crítica e revisão) sobre Quinto Império, misticismo sebastianista, Nova Roma darcyribeirista, etc. voltam as forças para propagar Socialismo… É de um profundo mal gosto a babação abjeta da Comunagem e a louvação de toda desgraça vermelha por mera birra anti-liberal, fico pensando como estas pessoas seriam vista por um tipo radicalmente anticomunista que dizem admirar como o de Evola. Não deixa de ser espantoso ver quem diz “combater a Modernidade”, de modo muito eloqüente, fazê-lo com ainda mais “modernismos”: é necessário abandonar com desprezo o fetiche “proletarista”, banir o romantismo moderno por “socialismos, trabalhismos, libertarianismos, militância operária, etc.”, deixar de lado o jargão (e o sequestro mental decorrente dele) marxista e economicista. A verdadeira ruptura com a Modernidade será emendar o rompimento pós-Maquiavel: Religião/Ética-Política, mantê-lo, será um contrassenso para quem fala em superá-lo. Erram os que, posando de “dissidentes” ou o que o valha, querem ser mais comunistas que os que se dizem comunistas às claras. Erram os que dizem estar para superar as ideologias modernas e se recusam, com veemência, analisar ou reelaborar possibilidades aristocráticas, “teocráticas”, monárquicas, imperiais e mesmo de democracias diretas à Atenas (em pequenas cidades), forjando uma colorida nuvem de fumaça para encobrir a defesa final de posições modernas fracassadas, coloridamente somando esforços para salvar o fadado Socialismo por mero ressentimento antiliberal ou anti-olavético. É de se desconfiar se não há um trabalho de Quinta Coluna operando nisto tudo, enganando uma ruma de jovens com uma conversinha fiada.

Mesmo que a questão fosse apenas acerca de “ideologias políticas”, também erram por mirarem demasiado no “Grande Jogo partidário”. Deveriam ter compreendido que mirar em Brasília é desperdiçar munição na atual conjuntura, uma vez que o “Sistema” está blindado contra tais fogos – acreditam que podem replicar o mesmo procedimento que os grandes partidos da agora “oposição” (a Esquerda decadente, PT e cia.) para obter os mesmos resultados, sem notarem que o resultado é diferente e não só pela diferença de poder de fogo: ao invés de se fortalecerem como uma posição autônoma, terminam por só fortalecer os grandes partidos da mesma Esquerda decadente e a afastar possíveis simpatizantes e adeptos que, com razão, desprezam o esquerdismo mas que também não se veem nas loucuras dos libertários/neo-liberais. Além de que o foco da “propaganda”, o alvo mirado, deveria ser muito mais “local”: grêmios, associações de bairro, associações de estudantes, profissionais, etc. Aí sim, haveria mais efetividade no engajamento. Mirar em Brasília e recusar-se a “competir” com a Esquerda decadente em sua confortável zona de “trabalho de base”, me parece irracional e poderia dizer que se explicaria mais como uma evidência de quinta coluna. O abandono da militância (que, obviamente, vai requer uma adequação e uma “deserquedização” do discurso) sobre categorias profissionais chave, como policiais, militares, pequenos produtores rurais, etc. (ao contrário do que fizeram a FN na França, o Khrysi Augi na Grécia, etc. ) por mero “ranço” e preconceito contra a influência de um Conservadorismo “vago” e uma propaganda liberal (que ganhou espaço entre estes setores, justamente, por não haver vácuo de poder: se Esquerda não os mira ou se é alvo de seu “ódio”, os liberais, mesmo que inicialmente pouco simpáticos a estes, terminam por projetar influência) é um erro. Não parece muito tático, ou realista, decidir disputar espaço ou o mesmo público da Esquerda decadente, quando esta já detém o território/pessoal, estrutura, dinheiro, anos de domínio, os conceitos/linguagem, no final, buscando “ensinar a missa ao padre” como diz o ditado popular; abandonando por completo um público mais amplo e potencialmente tradicionalista (ou ao menos, mais afeito à religião) e/ou nacionalista por negar-se a reconhecer que muitos se tornaram influenciados por pautas liberais e sionistas mais por ausência de alternativa perceptível (que não seja “comuna” e/ou socialista) do que por real convicção ideológica.

Ao colocar-se do lado oposto aos Reacionários (reais e fuleiras), conservadores-de-facebook e Conservadores reais, militaristas, etc. Escolheram, diretamente, fortalecer os declarados inimigos: a Esquerda decante e os Liberais. Fica difícil, diante de tal quadro, não ver que o que restará a este pessoal, mesmo que dotado das melhores intenções, pois as reconheço (e considerando que não estejam sendo guiados por uma quinta-coluna), é ser engolido por quem dizem também combater (a Esquerda) mas de quem adotam tudo (linguajar, estética, temas-chave, foco da militância, etc.). E claro, também fica difícil acreditar que “combatem” (no caso da Esquerda) a quem, a toda hora e sem que ninguém peça, fazem questão de dar provas de amor e de defenderem com afinco, ante os menores ataques. Talvez nos digam que tais “provas de amor”, se justificam por “Entrismo”, ou seja, por buscarem no futuro exercer alguma influência ou controle sobre um “movimento” já estruturado, erram mais ainda: os Marxistas, assim que virem do que se trata, nunca os aceitarão e serão os primeiros aos chutarem para fora aos gritos de “Não Passarão!”. Se puderem, os fuzilarão com muito gosto. Receberão facadas e mais facadas pelas costas e vistos pelos “direitistas” como “Esquerdistas” e pelos esquerdistas como “faxistas”, não haverá socorro nem solidariedade, de lado algum. Não há aliança programática possível com as forças mais radicais da Esquerda: ao contrário dos opositores, este povo é ideologicamente muito mais doutrinado e “religioso” (enfeitiçado pela superstição vermelha) e não tardarão em notar o perigo e esforçar-se-ão em exterminá-lo de suas fileiras o quanto antes. Pressupor a burrice generalizada destes parece-me com o erro comum de subestimar o inimigo.

Por fim, precisamos retornar a visão de que, não se trata de “ideologias” políticas modernas, mas, justamente, de algo anterior e além. E mais: talvez, nos tempos de Fim de Era que presenciamos, se trata mais de sobreviver (Cavalgando o Tigre) do que de “salvar” (ressuscitando “socialismos” ou o que quer que seja) e garantir o legado identitário dos nossos para o pós-catástrofe (Guillaume Faye).

Erros dos Nacionalistas?

O sonho de um “nacionalismo” nos moldes da 3ª via, “totalitário”, homogenizador e disciplinador ainda ronda as mentes de alguns sujeitos, especialmente pelo seu cariz moralizante e esteticamente ordenador. No entanto, tal sonho aposta no Iluminismo progressista e crê que, num país de dimensões continentais, será possível uma homogenização cultural. Não é de estranhar que os mais simpáticos proponentes disto sejam, até onde vi (reconheço que pode ser um pré-conceito), sujeitos de cidades grandes/metrópoles, ou seja, pessoas com um notável nível de “desenraizamento” (se comparado com gente de cidades pequenas), por vezes filhos de emigrados das zonas rurais/cidades pequenas e já criados nas grandes cidades. Projetam, mesmo inconscientemente, uma unidade cultural artificial talvez já internalizada a partir da colcha-de-retalhos metropolitana que experienciam no dia-a-dia; do Estado-Nação (posteriormente, burguês), importado da realidade de pequenos países europeus forjadas na luta contra “intromissões” imperiais. O Nacionalista “padrão”, no Brasil, será antirregionalista e anti-imperial por natureza, mais ou menos como já o fora o ídolo Vargas: a exaltação (“universalidade”) do padrão nacional, comprimirá, necessariamente a orgânica e real identidade das verdadeiras nações (sob a desculpa de combater o “separatismo”) e sua necessidade de centralidade e controle total, inflacionará o Estado ocupando-o das menores questões, sufocando a atividade política “natural” no povo (clãs, comunidades religiosas, corporações de ofício, etc.) – contrariando o princípio Imperial e mesmo da subsidiariedade federalista – por vezes, demonstrando uma real desconfiança e policiamento do próprio povo, privando-o do acesso a armas e livre organização como testemunhado na História. Não ha novidade nisto, o próprio Evola criticou tal coisa duramente em sua crítica do Fascismo, e o fez com razão.

Fechar os olhos e o nariz, e sair repetindo que não há nações dentro do Brasil, não é a solução. Por outro lado, há quem combine uma postura nacionalista com uma possível reintrodução do monarca – proposta esta que pode, de fato, reduzir certas aspirações ditatoriais (especialmente se reestabelecido o poder Moderador dentro um sistema Parlamentarista em um Federalismo, de fato, como veremos mais a frente) se forem consideradas uma série de fatores. Sendo neste caso o termo “Nacionalismo” muito mais um indicativo de uma postura pró-expansão/salvaguarda dos interesses gerais, como um vetor articulador, mas sendo, na prática, um Imperialismo, mais do que propriamente um regime de 3ª via. No entanto, os proponentes mais ativos de tal arranjo, por vezes, erram em fingir que será perfeitamente possível restaurar o Império de uma maneira inteiramente católica, como se o país não estivesse diferente em termos religiosos do que era nos tempos de nosso último imperador. Para os que pensam que “ou um Império estritamente católico, ou nada” há pouca margem para o diálogo, especialmente para os que conscientemente alimentam o ranço totalitário inerente às religiões abraâmicas do deserto. Por mais que estejam justificados em alguma medida (o Brasil, apesar da ascensão evangélica ainda continua, por enquanto, majoritariamente católico), nós Indo-Europeus de espírito, preferimos um modelo “Romano” de tolerância religiosa e de modo inegociável: nossa sobrevivência depende disto, como apontaremos mais a frente.

No entanto, os “unionistas/integralistas” (chamemos assim, os Nacionalistas mais 3ª via) erram em negar que haja razões para maior autonomia das regiões/nações do Brasil. Cegos por um centralismo utópico num país destas dimensões, negam e riem que se fale, sequer, em “nações” orgânicas dentro do Brasil. Não veem o pressuposto forçado e artificial, quando não positivista ou “fascista”, de gritarem um “só povo, um só país, um só líder!” São os grandes desenraizados, que fingem saber ou conhecer as realidades orgânicas tradicionais para negá-las… São os inimigos internos da diferença, “culturicidas”, que não medem palavras para falarem mal do “imperialismo yankee de Hollywood”  ou do “massacre sionista contra a Palestina” mas ignoram propositalmente o genocídio cultural perpetrado pelo massivo lixo cultural midiático “homogenizante” irradiado dos centros de poder midiático brasileiro (o “imperialismo cultural favelado”). Vargas foi, talvez, o grande executor de uma tentativa relativamente bem sucedida de “homogenização” do Brasil, da exaltação do “Rio de Janeiro” como sendo o Brasil (talvez inspirado pela teimosia “unionista” dos Integralistas, inspirados pelos nacionalismos europeus) que desde então, só ganhou corpo e progrediu (especialmente após a massificação das TVs: as novelas televisionadas alcançaram com mais rapidez e eficácia, em poucos anos, fazendo cair costumes e modos de falar tradicionais, aculturando os rincões no “streaming” Rio-SP). Há sim, países dentro do Brasil. Enquanto isto for negado, não haverá saída nem resolução para a questão da Identidade Brasileira.

Erros do Separatismo?

Os separatistas erram por desconsiderar, boa parte das vezes, o aspecto geopolítico maior, vindo a colaborar com um projeto externo de “Divide et Impera”. Seja por um ranço cego ao Brasil, que na verdade é o retrato do Rio de Janeiro (no qual, com razão, não se vê), seja ao seu centro de poder político (Brasília). Já escrevemos sobre este tópico cá mais de uma vez. É difícil evitar a interferência externa nociva em um ambiente de eventual guerra fratricida (vide Ucrânia), mesmo que seja numa “guerra” de geração diferenciada, do tipo cibernética, cultural e midiática. É corrente o recurso a poderes externos (por cá mesmo, a Confederação do Equador, buscando tornar o Nordeste independente, foi buscar ajuda nos EUA…, para lembrar só este exemplo) fazendo com que o pagamento por tal serviço, seja demasiado caro: quando não custa as almas e os bolsos dos cidadãos, além da cabeça dos governantes, causa traumas coletivos duradouros, podendo gerar sujeições e “escravização” vergonhosa, piorando ainda mais o quadro. Sair de uma “vassalagem” para entrar noutra, pode não ser tão vantajoso quanto parece. Além de que, com todo os problemas, os demais países que compõem este grande Brasil compartilham de uma mesma história geral fundante, inauguradora, enraizada na língua. Um separatismo que busque romper com tão profundo laço, vai requerer muito esforço de uma identidade artificial fabricada sob medida, alimentada pelo ranço e negação, num grande projeto de revisão histórica que percorrerá gerações e sem garantia de sucesso.

Então, um Novo-Imperialismo seria a solução?

Uma maneira de resolver a real necessidade por mais autonomia cultural e política dos “países/regiões” com a preservação da integralidade geopolítica é um Novo-Império. Ainda por cima, pode resolver melhor a questão da Identidade Brasileira e fundamentar uma real solidariedade e reconciliação. Há ainda, as possibilidades mais ousadas, da permissão de províncias a partir de requisitos/demandas étnicas ou religiosas: bolsões étnicos (não muito diferentes do que já existe em termos de reservas indígenas e “quilombos”) e talvez até mesmo religiosos (algo similar as comunidades “Amish” nos EUA, por exemplo). Talvez até mesmo para certos aventureiros “ideológicos”, já existentes em comunidades eco-alternativas/”permacultureiras”. A possibilidade de se resolver harmonicamente demandas justas, digamos, “nacional-anarquistas”/(neo)tribalistas sem que haja uma perda de unidade geopolítica maior por si só já é interessante. Isto seria feito a partir de uma super-estrutura jurídica imperial (subsidiária), a partir da qual a legislação da província encaixar-se-ia e da seção obrigatória, sob forma de tributo direto unificado e/ou direcionamento, de força humana e monetária para a manutenção das estruturas imperiais (políticas e militares: quartéis, colégios, uma grande universidade que concentrasse os melhores das universidades autônomas, hospitais, etc.). No entanto, seria necessário discutir e decidir sobre um limite constitucional para tais “divisões” de províncias a partir de critérios meramente religiosos (afinal, em que medida caberia a todo grupo religioso, especialmente os que não são propriamente étnicos, reivindicar um “país” só seu?).

Um exército imperial, formado a partir da seção cíclica obrigatória e proporcional (talvez anualmente e como uma espécie de “serviço militar obrigatório”) de forças das províncias talvez diminuísse a necessidade de “legiões” estacionadas nas províncias, quase como forças de policiamento contra “independentismos” como no passado romano. Cada província/nação teria autonomia jurídica de autodeterminação: poderia haver províncias democráticas presidencialistas, republicanas, ou talvez mesmo monárquicas, desde que os representantes estivessem submetidos a auctoritas (no sentido de Evola) do Imperador. Se deve haver um representante (ou dois?) destes governantes, eleito(s) a partir deles próprios e com mandato limitado, com uma espécie de “cônsul” ou “condutor”, tendo o Imperador como uma encarnação de um poder moderador e da continuidade regencial, numa espécie de “Diarquia” (ou “Triumvirato” no caso de 2 cônsules), é algo a se considerar. Talvez caiba também perguntar como seria e se haveria espaço para uma espécie de “Senado” ou representação direta de magistraturas provincianas (“tribunos”), ao exemplo de Roma. Uma oportunidade para reascender corporações ofício em substituição aos inúmeros sindicatos dominados por partidarismos sectários, entre tantas outras coisas, para derem lugar permanente em tais representações (Senado ou Tribuna imperial). Na verdade, há muito espaço para reflexão.

Nem tudo precisa ser “retirado do zero”, não é preciso inventar a roda. A questão é que negar-se a tal reflexão, ao mero exercício de pensamento, jogar fora esta possibilidade sem sequer estudá-la, especialmente para nós “pagãos”, talvez não seja tão prudente assim, afinal, fora o modelo (no caso romano, claro) que se desenvolveu com certo sucesso na história do Ocidente de uma perspectiva política que ultrapassou o domínio dos “estados-nacionais”. E se tal quadro novamente se apresenta, quando organizações supra-nacionais invariavelmente se formam, não custa revisitarmos tal perspectiva para ver se algo é válido hoje.

Mas um Federalismo não basta?

Talvez alguém defenda que, na atual conjuntura de emergência de estados supra-nacionais (“Blocos Econômicos” e militares), um simples federalismo pautado nos princípios liberais e/ou modernos é suficiente, afinal, o laicismo estatal assegura um igual tratamento a todas as religiões e impede, em teoria, uma luta entre as mesmas na esfera regencial suprema, além de não constranger institucionalmente religiões minoritárias, frisando uma simbólica subjugação à “Religião Oficial” do Império, ao “Culto Imperial”. Traduzindo: um Federalismo decente, bastaria e nos pouparia da briga religiosa.

Esta posição é difícil de contra-argumentar por não havermos experienciado, de fato, em nossa história de país um federalismo mais “aberto”, capaz de ajustar-se. A Primeira República, em um certo sentido, fora mais federalista que a nova e nos é vendido que, implicitamente, tal “liberdade” gerou uma crise política de lutas internas que levou a instauração de um Dictadura (Estado Novo). Saímos de um sistema imperial à força, arrancados por meio de golpe militar para entrarmos numa República, cuja falta de adaptação, levou a uma ditadura centralizadora. Daí que, talvez, concedendo o benefício da dúvida, em teoria, seja possível um Federalismo cumprir as vezes de um “Império” na prática, sem a figura de um Imperador e da investidura espiritual e epistêmica que tudo isto traz.

No entanto, stricto sensu, cairemos no “modernismo” parecido ao antes indicado nos que buscam ideologias socialistantes ou liberalizantes como solução. A falta do centro espiritual na compreensão da interação com a Soberania da Terra é um fator que, ao menos na óptica Indo-Europeia, levará a uma desordem cataclísmica não oferecendo “solução” política duradoura. Sob esta perspectiva, o reconhecimento da interação religiosa com a Soberania é condição sine qua non (talvez, reconheço, esteja a falar a partir de uma compreensão demasiada céltica). E de fato, alguém dirá, nós Indo-Europeus de espírito não temos o direito de impor nossa visão sobre como a ordem política e divina interage sobre todas as pessoas. E como não temos força numérica nem política para dominarmos o país e impor nossa visão à força, temos de reconhecer nosso lugar minoritário e rezar ao papai “Estado” para que nos preteja da extinção, certo? Bem, há muito a se colocar nestas coisas: pessoas como eu, por exemplo, estão convictas da objectividade da concepção religiosa Indo-Européia em termos de sociedade (o que significa dizer que, mesmo que as pessoas não acreditem na ordenação funcional na sociedade, ela existirá mesmo assim, mal ou bem, melhor ou pior), e que talvez, por isto, não se trate (ou para nós, ao menos, não se trataria) de uma mera discussão relativista culturalista de “impor” x ou y. Mas claro, que há a questão mais espinhenta: como conceber um Império (que pressupõe uma dimensão religiosa) numa sociedade plurirreligiosa?

Os que veem os EUA como um exemplo razoável de mais federalismo laicista e apontam para a estabilidade jurídica (e política…?) que sedimentou quase 200 anos de Potência global, talvez tenham que ceder que, ao menos nos 100 primeiros anos (e não só, mas para ser bem generoso), era comum entre as elites governantes um projeto quase messiânico (especialmente em certos círculos protestantes) do Excepcionalismo Americano como vetor espiritual mobilizador do Logos Nacional americano. Talvez seja suficiente para defendermos que não havia um laicismo stricto sensu. Em todo caso, a História do Ocidente demonstra o que imperadores cristãos radicais podem fazer contra religiões minoritárias, antes que alguém censure, convenhamos que tais exemplos históricos são uma justificativa razoável para certa desconfiança por parte dos nossos. E isto nos leva a um dos grandes entraves.

O problema de um Imperador cristão, para os não-cristãos

O grande entrave para concordar-se em ser governado por um Imperador de uma dada religião diferente da sua, especialmente quando se crê que a religião do imperador, por natureza, o conduzirá a descriminar negativamente e perseguir é quase “default” no caso dos “pagãos”. Em dado sentido, também pode haver a mensagem simbólica de sujeição de religiões a uma dada religião “superior”, simbolicamente acima no aspecto regencial. Para que um cristão sinta algo parecido, pedimos que imagine-se na iminência de ser governado por um muçulmano… Felizmente, ou infelizmente, não é um problema que nos afete somente: o próprio texto do Benoist citado acima passa ao lado desta questão e não mira nela diretamente. Uma União Européia transformada num Império das nações e povos europeus, teria de enfrentar a mesma questão e o próprio Evola só a concebeu dentro de uma visão pagã.

O grande problema de uma perspectiva imperial em sua dimensão espiritual é, justamente, que tal referencial funcionará harmonicamente dentro de um referencial religioso específico. A partir do momento em que referenciais exclusivistas (que não admitem “perspectivação” ou “tradução”) entram sob o escopo do Império, negam-se a reconhecer a autoridade espiritual presente e a rejeitam. Foi justamente o caso do Cristianismo (mais até que do Judaísmo, dado o não proselitismo no segundo e a destruição a força do centro simbólico de poder, que foi a destruição do Templo) no Império Romano. O Cristianismo só admitirá, em última análise, dado seu exclusivismo e expansionismo latente, um Império que seja cristão. E um Império cristão (uma vez que haja concórdia entre eles, afinal, somente o catolicismo possui uma doutrina clara sobre isto, evangélicos, espíritas e outros, nada), terá os não-cristãos como membros “espirituais” alógenos, como uma comunidade apartada, de “infiéis” e “gentios”. É difícil crer que depositem em tais comunidades, ou em tais cidadãos, a mesma confiança política e jurídica que depositariam entre eles, uma vez que veriam problemas morais ou “demoníacos” nestas comunidades. Por isto, não seria de estranhar que nós acreditássemos que somente um Imperialismo “Pagão”, ou seja, que estabeleça uma dimensão espiritual apta a “tradução” noutras linguagens religiosas (e portanto, que não reivindique um Exclusivismo) seja melhor realizável.

No entanto, num contexto social onde somos minorias das minorias, impor tal percepção nestes termos é inviável. Para nossa sorte, tal “paganismo” é perfeitamente defensável filosoficamente em torno do ideal de tolerância religiosa que pode gerar um condicionamento jurídico estrito. Por mais que certos setores do Catolicismo, por exemplo, repreendam justificadamente (dentro de seus princípios e referências) o Ecumenismo e mesmo o Perenialismo (guénoniano, não o tomista), que poderiam oferecer possíveis ferramentas teóricas de “tradução” e ressignificação, é fato que há uma direção e aceno formal neste sentido (de uma “tolerância” e diálogo interreligioso) também desde o Concílio Vaticano II, e os radicais que as negam, talvez terminem “isolados”.

Em todo caso, há a necessidade de mais discussão e reflexão, reflexão esta, inclusive, que pode gerar desdobramentos totalmente diferentes e que talvez até nos afaste deste conceito. E claro, é fácil rejeitar tais constructos. Mas como solução, especialmente para quem fala mal da Modernidade e gosta de posar de Tradicionalista e mesmo de um Reconstrucionista mais sério, o que propor então de viável? Vamos desenvolver as opções, pois! Talvez, descubramos que grande projetos como “Impérios” sejam quimeras e que um “neo-tribalismo” (que dialogue com as iniciativas modernas de Permacultura, Nacional-Anarquismo, Municipalismo Libertário, etc. e com as instituições comunitárias tradicionais em extinção) sejam o caminho viável, a luminosa manifestação sócio-política de nossas compreensões religiosas. Talvez, e confesso, desconfiado que sou dos “grande projetos” políticos e afeito que sou a uma dimensão mais regional e tópica, inclino-me mais para uma reflexão mais centrada nas pequenas comunidades locais do que para um Imperialismo grandioso… mas vamos lá, exercitar nosso pensamento, precisamos elaborar, fazer parir ou pelo menso esclarecer a partir do estudo de nossas próprias histórias religiosas e mitos, propostas, preferencialmente boas, para grandes e pequenas organizações humanas, saindo de vez da discussão “ideológica”.

E o “Império” é uma destas macro-organizações humanas a se considerar. O fato é que os cristãos, mesmo historicamente, não são nem os criadores nem os únicos “donos” da ideia de Império – nunca foram – abandoná-la por receio de um circunstancial protagonismo deles nas circunstâncias atuais (ou por birra contra o atual representante da casa dos Orleáns e Bragança), não é um argumento suficiente. Numa época de “desertos” e de abismos gigantescos é importante aumentarmos nossos postos de observação e plantarmos árvores. Mesmo para os pagãos aos quais desagrada uma idéia de Império, dever-se-ia apoiar sua reapropriação e estudo: é mais uma possibilidade, mais uma forma válida de revigorarmos nossa herança e capacidade reflexiva em filosofia política.

Entrevista sobre a Cristandade (2005) – Alain de Benoist

Viemos rapidamente cá compartilhar uma entrevista de 10 atrás (2005) do filósofo francês Alain de Benoist. Interessante como o tempo tende a “abrandar” (algo visto como “sábio”, e provavelmente é) posições mais radicais da juventude (sim, me refiro aos tempos do “Les idées a l’endroite” de onde vem a famosa expressão do “Cristianismo como o Bolchevismo da Antiguidade” e do “Comment on peut être païen“) e que talvez por isto mesmo, hoje a entrevista tivesse ainda mais diferenças. A entrevista foi concedida no The Occidental Quarterly, vol. 5, no. 3 (Outono 2005): 7–21. Foi longa e, portanto, foi tomada uma decisão para cortá-la. Deste modo, a discussão crítica de Benoist acerca do Cristianismo e as ciências humanas foi removida mas, se não me falha a memória, foi postada por Greg Johnson no primeiro volume do North American New Right. Eu traduzi do inglês, infelizmente, justamente da versão de Greg Johnson publicada no blog da editora Couter-Currents. Se existia já uma versão em português, uma pena, perdi algo do meu tempo que poderia estar sendo dedicado a tradução do “Cristianismo, Bolchevismo da Antiguidade”) – mas aí está de todo modo.

Alain de Benoist

De acordo com o Manifesto da Nouvelle Droite (doravante ‘Nova Direita’), as cinco principais características da Modernidade são a individualização, massificação, dessacralização, racionalização e universalização. A Nova Direita traça as raízes da Modernidade em uma secularização da Metafísica cristã. E também é conhecida pela rejeição de outro produto da Cristandade: o Igualitarismo. O que são pois os “valores aristocráticos” que a Nova Direita diz promover, e como podem contrabalancear cada uma das tendências destrutivas (da modernidade)? E como alguém poderia aderir a valores aristocráticos?

Descrever o Igualitarismo como um mero “produto” da Cristandade é um atalho que, de minha parte, eu não mais tomaria. As coisas são um pouco mais complexas que isto. O que se pode dizer, por outro lado, é que o advento da Modernidade pode ser entendido e analizado apenas à luz do vasto processo de secularização que a caracteriza. O que quer dizer que um certo número de temas que eram antes expressos em termos teológicos foram transferidos para a esfera secular.

A ideologia do progresso, por exemplo, a promessa de salvação no além é transformada na promessa de felicidade no futuro. A própria noção de “progresso” parte de uma visão linear da história (em oposição a uma visão cíclica ou esférica da História) que privilegia o futuro, coisa introduzida pelo pensamento bíblico.

O conceito de Igualdade (que se poderia distinguir de Igualitarismo) traça sua origem na asserção cristã de um relacionamento igual de todas as almas humanas com Deus.

A cativação tecnológica do mundo (das Gestell, para usar um termo de Heidegger) – que começa com Descartes impondo uma nova percepção do cosmos como inteiramente disponível ao controle humano, enquanto a consciência começa a ser reduzida a um objeto da ciência natural – encontra sua primeira legitimação no Gênesis (tanto que, como Heidegger viu muito bem, a tecnologia pode ser tomada como o acabamento da metafísica).

A teoria de Jean Bodin da soberania absoluta do príncipe em respeito aos seus súditos é uma transposição da soberania absoluta de Deus em relação a sua criação. É por isto que Carl Schmitt pôde dizer que os principais conceitos da política moderna são conceitos teológicos secularizados. Este processo de secularização foi também estudado de modo notável por Karl Löwith.

A Nova Direita, pois, não defende valores “aristocráticos”, mas valores de qualquer sociedade tradicional, ou seja, qualquer sociedade ainda não conquistada pela modernidade. De um ponto de vista tradicional, valores aristocráticos e populares são os mesmos. São todos os valores inerentes em uma ética de honra. Em oposição aos valores econômicos e comerciais, são valores de desinteresse e generosidade, como expressos no sistema de um dom e um “contra-dom”.

O grande sistema moral deontológico, do qual Kant é o paradigma, pode ser posto em oposição a ética de virtude Aristotélica: perseguir a excelência pessoal pela prática de “virtudes”. Em tal sistema, o bom necessariamente tem precedẽncia sobre o justo, como Michael Sandel e Charles Taylor muito justamente argumentam contra John Rawls. Aqui se retorna a crítica de Hegel a Kant, ou seja, a oposição de “Sittlichkeit” a “Moralität“.

Qual é tua visão sobre a verdade da fé Cristã? Qual tua visão da apologética cristã? Um cristão poderia te pedir para oferecer uma prova da falsidade da Ressurreição, uma vez que fosse dada, a Cristandade desintegrar-se-ia. Como respondes a este desafio?

É uma questão estranha. Eu não tenho que “provar” que Jesus não ressuscitou tanto quanto eu não tenho que provar que Deus não deu as tábuas da Lei a Moisés no Monte Sinai ou que Elvis Presley não está vivo e vendendo pizzas no Brooklyn! A razão é que não se pode provar uma negação; não se pode demonstrar a não-existência. São os cristãos que precisam me dar provas de suas asserções, provas que eles ainda não conseguiram ter.

Poderias dizer algo sobre o modo violento de como a Europa foi cristianizada? Em que medida a cristianização da Europa jaz em fraude?

A Cristandade foi gradualmente se estabilizando na Europa pelo uso de todos os meios disponíveis. Esta difusão foi por vezes pacífica, por vezes forçada. A contenta entre a Cristandade e o Paganismo, a história que tem sido recontada mil vezes, claro, envolveu muitos episódios sangrentos: conversões forçadas de populações inteiras, perseguição dos pagãos, “cruzadas” internas e externas, etc.

No entanto, a Igreja não detém seu sucesso na força tanto quanto na habilidade que possuiu de tomar os antigos ritos e inclinações pagãs e os misturar para seus próprios propósitos. Por ser impossível erradicar completamente o paganismo, ocupou-se de “cristianizá-lo” dando-o seus conteúdos.

Igrejas foram erguidas por sobre antigos templos, o calendário litúrgico foi baseado no pagão (o Natal substituiu as velhas festividades do Solstício de Inverno, o São João o Solstício de Verão, etc.), as lendas dos santos usurparam os poderes associados às divindades locais, muitos locais de peregrinação foram preservados e o culto de Maria compensou a falta de uma Deusa-Mãe, etc. O Cristianismo foi, portanto, parcialmente “paganizado”, tornando-se ao mesmo tempo mais acessível às massas.

Mas a “paganização” permaneceu superficial, uma vez que toucou apenas formas externas de culto. No entanto, permite a possibilidade de entender a diferença que sempre existiu entre o Cristianismo Popular e a Cristandade Institucional e seu sistema teológico específico.

É a Cristandade uma religião estrangeira para os Europeus? O fato de o Cristianismo ser um portador de uma cultura não-europeia, o Judaísmo, que tornou-se parte da herança européia, constitui um problema? Uma tradição inteira, de acordo com a Igreja, é a “Nova Israel”, faz os cristãos “semitas espirituais”. Daí segue que a tradição Judaica pertence à tradição Ocidental?

Minha crítica da Cristandade, que é primariamente intelectual e filosófica, não tem nada de ver com o fato dela ter nascido historicamente fora da Europa. Simpatizo com certas religiões e espiritualidades orientais, como o Zen Budismo ou o Xintoísmo, que não são estritamente européias em nada. Por outro lado, sou completamente hostil a muitas ideologias que nasceram na Europa. A proveniência de uma ideia não é critério de sua verdade, e o excedente da identidade não é reduzível a sua origem.

Jesus era um judeu do século 1 de nossa era que foi, provavelmente, tomado como um profeta, mas que nunca desejou criar uma “Igreja” universal, muito menos uma nova religião. Convencido da eminente chegada do “Reino de Deus” (Olam haba, “a palavra que está por vir”), foi em nome da Torá que ele se opôs à dominante corrente institucional do Judaísmo de seu tempo. “Eu fui enviado somente às ovelhas da casa de Israel” ele disse claramente em uma passagem dos Evangelhos (Mat. 15, 24.) que completamente contradiz as palavras posteriormente adicionadas no fim de Marcos (16,15) e Mateus (28,19).

Foi somente após sua morte que alguns pensaram que ele era o Messias e passaram a vê-lo como o “filho de Deus” que veio para salvar todos os homens. O Cristianismo como conhecemos é obra, acima de tudo, de Paulo, e é em um mundo mediterrâneo, portanto Ocidental, que o que é essencial a sua história foi desvendado.

O conceito de “tradição judaico-cristã” é, no entanto, muito ambíguo. Rigorosamente, se pode falar de Judaico-Cristianismo apenas em dois sentidos muito precisos: primeiro historicamente, para indicar as primeiras comunidades “nazarenas” na Palestina que estavam sobre a direção de João, vigorosamente opostas aos “heleno-cristãos” liderados por Paulo; depois, teologicamente, para indicar as crenças teológicas comuns a Judeus e Cristãos (crença em um deus único, a distinção entre ser-criado e ser-não-criado, etc.).

Após a destruição do Templo em 70, as duas religiões se separaram completamente: os cristãos foram expelidos das sinagogas, e o Tannaim, os rabinos chefes que então reorganizaram o Judaísmo baseados na corrente farisaica, instituíram o birkat-ha-minim, que amaldiçoa os partidários de Jesus. Por sua parte, a incipiente Igreja Cristã adotou uma atitude explicitamente anti-judaica, que aparece primeiro no evangelho de João, o último dos quatro evangelhos canônicos.

A Cristandade não se tornou menos dependente das raízes do Velho Testamento, mas ao longo dos séculos, aderiu a uma teologia de substituição, que clamava que a Igreja incarnava a verdadeira Israel, excluindo os Judeus enquanto preservava sua identidade metafísica (obviamente uma assertiva inaceitável para os próprios judeus). Esta fenda entre sua origem e sua história é característica da Cristandade.

Mas não se pode agarrar a completude do Cristianismo apenas deixando de considerá-lo como um bloco unitário: a Cristandade primitiva é diferente da Medieval, que não é a mesma coisa da Cristandade da Contrarreforma, Moderna, etc.

Como Celso, que publicou escritos polêmicos contra os Cristão em cerca de 178, pode ser usado como um guia para o século 21?

Celso foi um filósofo neoplatônico, autor de um livro anticristão “Discurso Verdadeiro”, cujo texto nos é conhecido apenas pelas tentativas de refutá-lo por parte dos Pais da Igreja (que também é o caso dos tratados de Juliano, Porfírio, etc.). Eu realmente não consigo ver como seria um “guia para o século 21”. Lendo o livro dele – cujo texto tem sido reconstruído por especialistas – temos, pois, uma ajuda para melhor compreender as polêmicas pagãs antigas contra o Cristianismo.

A Cristandade constitui um veículo viável para a perpetuação do povo Europeu e sua cultura, ou levará a um futuro não-Europeu por causa do desaparecimento do elemento “Germânico” que havia transformado o cristianismo na Idade Média, como James C. Russell mostra tão bem em seu livro “The Germanization of Early Medieval Christianity: a Sociohistorical approach to religious transformations”. (Oxford: Oxford University Press, 2002)? Crês que há uma razão para preservar a Cristandade? Ela pode desempenhar um papel positivo na cultura Européia?

Dito tudo, eu não penso que se deveria felicitar-se pelo aparecimento da Cristandade e seu desenvolvimento. As eras pré-cristãs da Europa não eram espiritualmente deficientes de modo algum. O que é bom no Cristianismo não é novo, e o que é novo não é bom. Mas como eu tenho dito também, a Cristandade não é um bloco unitário. São Francisco de Assis e Torquemada deram a mesma Igreja faces muito diferentes! Não há nada de errado em preferir o antigo. Eu escrevi um livro intitulado “Como se pode ser pagão”, mas isto nunca me proibiu de apreciar autores católicos como Léon Loy, Chales Péguy, Geroges Bernanos e Gustave Thibon, ou de sentir-me de acordo com certos aspectos dos ensinamentos sociais da Igreja.

Para responder sua questão mais precisamente, eu não penso que o Cristianismo é um “veículo viável para a preservação do povo Europeu e sua cultura”. Mas acima de tudo, eu acredito que deve-se entender bem que já não vivemos mais em uma sociedade cristã. O discurso público dominante certamente permanece impregnado de temas de origem cristã ou bíblica, mas os costumes mudaram. Lá como em todo lugar, o individualismo tomou as rédeas.

As Igrejas, como os partidos e os sindicatos de tipo tradicional, estão passando por uma crise profunda. Na França, menos de 8% da população vai a missa ou ao culto de Domingo, o número de padres ordenados continua caindo ano após ano e ninguém obedece mais ao papa no que toca a moral sexual ou as maneiras em geral.

É diferente nos Estados Unidos, onde a crença religiosa e as práticas continuam incrivelmente mais espalhadas. Na Europa continental, não há equivalentes a “criacionistas”, ou “cristãos renascidos”, a “maioria moral” ou aos ridículos “televangelistas” americanos! Mas mesmo nos EUA, pois, não é mais possível falar de uma “Sociedade Cristã”. E é isto o que constitui a versão pós-moderna da secularização.

Indivíduos ou grupos de indivíduos podem, de fato, continuarem a encontrar razões na fé Cristã para viver e morrer, mas ela perdeu o papel decisivo que desempenhou no passado. Não mais constitui o quadro total de referência e o principal critério normativo da existência social. O que significa que o pertencimento religioso hoje simplesmente possui o status de uma opinião entre muitas, na fundação geral do indiferentismo e o materialismo prático. É uma mudança radical na própria definição de religião.

Nestas circunstâncias, a questão não é mais se a Cristandade deve ou não deve ser “preservada”. A Igreja tenta sobreviver, ciclando nostalgicamente o passado que não mais corresponde a nada, enquanto procura na via contrária adaptar-se ao mundo corrente, pela reafirmação de sua vocação Universalista, tentando posar de “autoridade moral”, etc. Isto é problema dela. As verdadeiras questões do futuro jazem noutro lugar.

Por que a Nova Direita não se refere a Cristandade quando prega um retorno às raízes da Europa? Paul Piccone e Gary Ulmen, na introdução deles ao livro de Michael Torigian “The Philosophical Foundations of the French New Right” (Telos, n. 17, 1999, p. 4-5), especulam se 2 milênios de Cristianismo não são o suficiente para fazerem esta religião uma tradição nativa, mesmo se certas partes da Europa (como a Escandinávia e os países Bálticos) fossem cristianizadas somente muito depois. Há muitos movimentos políticos ansiosos por retornar as raízes que pregam um retorno ao paganismo?

A Nova Direita nunca pregou um “retorno” ao Paganismo ou um “retorno” às raízes, ou um retorno a qualquer coisa. Ao invés, nós desejamos ir além da sociedade corrente, mas desejamos visionar o futuro pelas lentes de uma consciência clara do passado. Estas duas aproximações são coisas bem diferentes: recorrência não é sinônimo de retorno! Digamos simplesmente que se pode “futurizar” o presente apenas pela “historicização” do passado.

O problema é que a maioria de nossos contemporâneos vive em um perpétuo presentes, ou seja, em um ponto de vista onde apenas o momento presente conta e onde não se é mais capaz de esperar o futuro ou delinear lições do passado. O passado não é limitado pelo ponto de partida, que é sempre um limite convencional, de todo jeito, mas leva em consideração toda a história realizada. Para fazer qualquer sentido de história, precisamos olhar o maior prazo possível.

A Cristandade forma, obviamente, parte da história Européia, mas a Europa não nasceu com a Cristandade. Quando a Cristandade apareceu, a Europa já tinha 5 ou 6 milênios de cultura e civilização. Falar sobre as “raízes cristãs” da Europa equivale a negar as culturas Latinas, Gregas, Célticas, Germânicas e Eslavas que existiam, o que é obviamente indefensável.

Tens por vezes descrito a Cristandade como o “Bolshevismo da Antiguidade”. A Nova Direita considera o Cristianismo como o ancestral e principal portador do totalitarismo?

Quando a Cristandade surgiu na Europa, necessariamente teve de destruir a ordem antiga. O que levou ao confronto contra o paganismo. Temos inumeráveis testemunhos dos modos nos quais os primeiros cristãos profanaram os antigos lugares de culto, destruíram templos e estátuas dos deuses, deitaram abaixo altares, tombaram colunatas, queimaram trabalhos de filosofia e literatura que os desagradavam, etc. Foi muito mais uma questão de “passar o passado a limpo”. A frase polêmica que citas alude a isto.

Por outro lado, dizer que a Cristandade é a origem direta do totalitarismo é excessivo. Não obstante, contribuiu para, introduzindo no Ocidente um tipo de intolerância – a intolerância religiosa – que era desconhecida antes. O Paganismo muito naturalmente reconheceu a legitimidade das várias crenças professadas pelos vários povos. Com o Cristianismo os conceitos de bem e mal absolutos apareceram, um deus único, ortodoxia, dogma, heresia, inquisição, guerras de religião, etc.

Os cristãos desejavam converter toda a humanidade e lutar contra o que consideravam “idolatria”. Sua religião era, acima de tudo, uma religião moral, e tendem a ver em seus inimigos, não apenas os adversários do momento, mas as próprias figuras do Mal. Para erradicar o Mal, aqueles que clamam incarnar o Bem são rapidamente levados, em uma consciência clara, a empregar quaisquer meios.

Em tempos modernos, os regimes totalitários agiram não diferentemente: clamaram levar a cabo guerras “justas”, declararam os adversários criminosos, e foram inevitavelmente levados a colocá-los fora da “humanidade”. Uma das consequências deste modo de pensar é a eliminação do terceiro: “aquele que não está comigo, está contra mim”, disse Jesus – um dito recentemente repetido pelo presidente George W. Bush.

Casamento religioso LGBT?

Partindo de uma postagem para gerar debate – e gerou – na comunidade Fronte da Parahyba no Google+, acerca de uma suposta ameaça de “vandalização” do templo ásatruar que será construído na Islândia, pelo fato dos ásatruars islandeses reconhecerem religiosamente o casamento gay, enquanto outros politeístas germânicos (e numerosos, apesar da tentativa de minimização, diga-se de passagem) não reconhecerem e serem contrários ao reconhecimento. Como Ana bem notou, a notícia que serviu de base para despertar o debate, tem um quê de, digamos, factóide-liberalistóide, mas diferente do que aferi do foco do texto dela, creio que não se trate somente de “interferências políticas”, mas de uma oportunidade, justamente, para iniciar uma discussão anterior, uma discussão genuinamente religiosa.

Primeiro, é mister separar a discussão sobre a natureza do homossexualismo e desta conduta na sociedade, do casamento enquanto instituição religiosa. Não me interessa, nem creio que deva interessar (nisto concordo com Ana, perfeitamente) discutir as condutas íntimas de quem quer que seja; não me interessa discutir o primeiro elemento, mas apenas chamar atenção para a oportunidade de refletir sobre o casamento enquanto instituição religiosa dentro do pequeno escopo do Reconstrucionismo e Religiões étnicas (não englobo a Wicca nem certos setores do Neodruidismo dentro deste escopo, é bom deixar claro). Segundo é importante também destacar a existência de casamentos (me refiro a rito – religiosamente – lei civil é um troço posterior) em conformidade com a compreensão daquilo que os hindus chamam de ṙta e os romanos de ritus, com a “ordem cósmica”, digamos assim (ou aos partidários de uma compreensão aristotélica, chamemos de “Lei Natural”); outra coisa, diferente, é o casamento por contestação social, em especial à moral vista como hipócrita e retrógrada dos padrões aristocráticos de certas elites, em se tratando do Império Romano – é importante frisar tal diferença quando se fala da conduta de imperadores escandalosos (alguns claramente críticos de certos aspectos da religião tradicional de Roma, quando não ateizantes eles próprios) em contraposição aos ideias aristocráticos de familias tradicionais ou mesmo à vida comum da plebe em seus mais multifacetados aspectos. Tomar um exemplo de um como generalidade de outro me parece ser um non sequitur. É importante distinguir as coisas neste sentido para não incorrer neste raciocínio sofismático.

Quanto ao testemunho de Eusébio (no livro 6 do Praeparatio Evangelica), sobre os “jovens gauleses”, citado em um dos comentários na comunidade do Google+, o trecho em questão, repete um topos literário divulgado por outros escritores gregos acerca de mercenários gauleses em longas campanhas que demonstravam comportamentos homossexuais. O verbo que foi traduzido por “casar” aí (fui verificar o texto grego), não tem bem nenhum sentido religioso (ou seja, não é propriamente – em termos metafísicos, “casamento”) neste trecho; mas simplesmente denota “unir-se”, “amancebar-se”, inclusive até em tom galhofeiro e (não seria de estranhar) contestatório. Se tal prática fosse tão arraigada assim entre os Celtas, creio que teríamos bem mais – bem mais mesmo – testemunhos disto na literatura do alto medievo, pois duvido muito que os cristãos deixariam passar a oportunidade de “descer a lenha” em tal comportamento. Ou seja, tal trecho, na melhor das hipóteses, ao que parece, descreve um comportamento socialmente aceito dentro de opções da vida juvenil, não me parece ser prova nenhuma de que druidas celebravam (religiosamente) casamentos homossexuais.

E isto nos leva ao essencial: a celebração do casamento. Casamento não é Amor (seja erótico ou do tipo “philia” – como Platão bem sabia), na verdade, como toda e qualquer sociedade antiga que preconizava casamentos arranjados sabia, é possível até que haja casamento sem amor. Isto sim, de casamento sem amor, é algo que os cristãos não aceitam de jeito algum (na verdade, os cristãos dirão que o primeiro passo para qualquer casamento ser válido, é exisitir amor!). É crucial ver isto em tempos como os nossos, tão inebriados num modelo de casamento “burguês” (sim, pois ascendeu junto com a burguesia): o casal isolado, distanciado do clã, da família mais ampla, de poucos ou nenhum filho (o casal ideal, sem raízes, como idealizado por Rousseau no “Emílio”). Para o mundo antigo (e é por isto que muita gente não entende bem os casamentos arranjados) se trata, antes de qualquer coisa, da união de duas famílias em prol da estirpe, uma união espiritual entre duas cadeias de Ancestrais. Casar para viver feliz (egoísticamente libertos de quaisquer laços clânicos ou comunitários), compartilhar uma vida estéria (sem o prolongamento – muitas vezes visto como dever sagrado, religioso, no mundo Antigo – da espécie, sem filho concebido pela união das almas e dos corpos), imersa em consumo e num cuidado patológico com “pets”, ao que me parece, não seria lá bem visto, e isto, é bom frisar, inclusive se tratando de pessoas de sexos opostos. Daí que não se deve misturar Eros – inclusive em sua dimensão transcendental – com “casamento”, são coisas diferentes como qualquer pessoa intui; pelo menos me parece óbvio, que transar com alguém é diferente de casar com alguém. Promover esta confusão não ajuda. Na verdade piora, pois maliciosamente tem gente que confunde; não se trata do comportamento homossexual (a transa), mas do casamento enquanto instituição metafísica, em sua dimensão religiosa e toda sua relação aos antepassados e a família dos noivos (e sua sansão comunitária). Do mesmo modo que não se trata de uma questão de axiologia, puramente, social – não é uma questão de aretē, seria se estivéssemos tratando do comportamento, da ação pessoal; realmente, dentro de um prisma aristotélico, tal comportamento, a priori, não impede o desenvolvimento de virtudes – apesar de historicamente, diversos povos associaram tal comportamento (a conduta homossexual) a falta de virilidade, de ombridade e frontalidade no enfrentamento de problemas ou ameças. Não creio que seja assim absolutamente, mas não posso negar que historicamente, diversos povos, em diversos momentos históricos, e não apenas cristãos ou islâmicos ou judeus, fizeram tais associações ou associações similares. Negar isto é utilizar um filtro ideológico escancarado.

Daí que se deve perguntar: cadê os exemplos concretos do casamento religioso (que não sejam “excentricidades” de imperadores claramente antagonistas ao mos patricius ou mos maiorum tradicional)? E no caso concreto dos germânicos (afinal, o post parte disto), de conhecido viés, digamos (na falta de um termo melhor) “machista”, onde estão os exemplos de casamentos “oficiais”, religiosos de pessoas do mesmo sexo?

Uma união não religiosa (civil) não é o que está em causa aqui, vale lembrar. Um tradicionalista/religioso poderia, coerentemente, defender o reconhecimento da união civil e a partilha de bens entre pessoas do mesmo sexo, mas, na falta de fundamento tradicional (ou no indício de fundamentos contrários) não apoiar o casamento religioso, o casamento enquanto união de estirpes (entendido religiosamente). Ele reconheceria que o que a legislação hoje aponta é uma legitimação, no âmbito civil e laico, de uniões que, mais ou menos (às claras ou às escondidas) sempre existiram. Mas, reconhecê-las como “casamentos” (no sentido, digamos, “tribal”, religioso) é outra coisa.

Não se trata de confusão política, mas justamente de uma reflexão objetiva que permita não ser instrumentalizado ou alocado a um bloco com o qual não temos nada a ver. É preciso ver, enxergar claramente, quando possível, como se olhássemos as águas de um val que se sujam após as passadas pesadas e rápidas, mas que se limpam após algum tempo; os pilares fundacionais da compreensão do casamento e sendo eles de origem divina, atemporais, seriam válidos pra hoje também, mesmo que isto desagradasse X ou Y. Adequar ao discurso da ultra-modernidade só para ficar do lado dos “do-bem-descolados-salvadores-do-mundo”, só por pseudo-angelicalismo é contra-produtivo, assim como ficar contra só para posar de “malvadão-conservador-purista”.

Digamos que em relação ao requerimento de coerência com o passado, se tome 3 caminhos:

  1. Não temos evidências de casamentos (religiosos) entre pessoas do mesmo sexo e temos evidências de mentalidade “homofóbica” dentro desta cultura povo;
  2. Temos evidências inequívocas ou comprovações sim de casamentos deste tipo, olha aqui (e aí se lista as mesmas)
  3. Não temos evidências de casamentos religiosos/oficiais e temos evidências deste tipo de comportamento com alguma sansão social.

No caso de 1, ou o sujeito deixaria claro que – RELIGIOSAMENTE – tal procedimento não deverá ocorrer (como não ocorria no passado), ficando a seu encargo a defesa ou não no âmbito civil; ou dizer que, APESAR disto não ocorrer no passado, agora pode ocorrer – aí terá de construir uma justificação (que pode ser boa ou não) e claro, terá que compreender que os que discordarem, por coerência ou purismo (ou “radicalismo”, no sentido de se apegarem as raízes, “radices”), estarão no seu direito, apesar dos pesares. É importante frisar que a prerrogativa de que “não ocorria mas deve ocorrer hoje” caberá, logicamente, para muitas outras coisas também – incluindo misturas de práticas alógenas, etc. Na verdade, “se não havia antes mas pode haver agora” abre brecha para quase qualquer coisa. É importante que os que fazem tal opção tenham consciência do que ela acarreta muita coisa ou de antemão já construam argumentos que os eximam de incluir/reconhecer outras práticas além do caso discutido.

No caso de 2, uma vez atestado que seja uma prática instituída de forma geral (e não apenas para pequenos setores especiais ou em contextos excepcionais de uma sociedade), não há muito a se discutir – como ocorrera no passado, ocorra hoje (é interessante notar que tem gente que usa este argumento para casos assim, mas não para o caso de sacrifícios animais, por exemplo, muitas vezes demonstrando claramente sua preferência ideológica no 1 peso 2 medidas: o caso do sacrifício animal, ou da tortura de prisioneiros, ocorria no passado – dentro da sansão e mesmo prescrição religiosa – mas não deve ocorrer agora; mas já coisa X deve ocorrer agora, porque ocorria no passado…). No caso de 2, tudo fica fácil, opor-se, seria incorrer num comportamento “estranho”, que seria melhor explicado por cripto-cristianismo ou outra interferência “exterior” (do conservadorismo político, por exemplo).

No caso de 3 a coisa fica mais complicada, pois como dizia alguém (que não me recordo) “falta de evidência não é evidência da falta”, apesar de que, ao menos dentro de metodologias reconstrucionistas, prudência (e certa observância da Navalha de Occam) é regra e por isto ser algo suspeito assumir certas coisas sem que haja, no mínimo, um escopo mais amplo (em termos de imaginário e visão de mundo) que justifique. Nestes casos, justamente, é onde a reflexão mais se faz necessária e o clareamento da visão é mais requerido. Por um lado, talvez caiba tanto uma certa reserva no tocante ao casamento religioso (mais ou menos como 1), como uma atitude de absorção do mundo civil/laico (para um tradicionalista isto seria coerente se já houvessem outros exemplos de tais absorções no passado ou se algo, nos mitos e literatura sagrada, assim indicasse que tais absorções ocorrem ou devem ocorrer).

Ousaria dizer que, pelo que conheço do mundo religioso Indo-Europeu ocidental, os germânicos e balto-eslavos estejam mais para 1, e todo o restante (celtas, trácios, gregos, etc.) para 3 – eu sei dos casos romanos e supostamente gregos (estes povos são referidos, constantemente, sem os devidos recortes de estratificação social, período histórico ou região/cidade; levando a generalizações inadequadas), que talvez fizessem enquadrá-los em 2, mas justamente por causa dos muitos “poréns” (no geral, pela excepcionalidade – mesmo que lê um Satyricon da vida percebe que não se trata de algo do “povão”), creio que seja um procedimento questionável. E diria até mais – talvez coubesse 2, mais para o mundo romano do Baixo Império, onde – não sou eu quem fala – a influência “oriental” e egípcia se fez mais forte. Novamente, friso que se trata de “casamento”, religiosamente, oficialmente.

O real problema, é a polarização política tosca de nossa época. Por um lado, é importante frisar que no Mundo Antigo, e em especial fora do eixo greco-romano, Política e Religião estiveram misturadas e o eixo perene das tradições é orientado no sentido da Religião iluminar a Política (e ao contrário do que gente má-informada sustenta, Evola justamente insistiu na volta a esta orientação; pessoas como Faye e outros é que por vezes creem – criticando os “metafísicos” – que a Política pode ser um instrumento de afirmação religiosa, por vezes advogando que a separação entre as coisas – Política e Religião – é obra do Cristianismo e da Modernidade) e não o contrário. Se por um lado é verdade que não havia no passado uma separação muito clara em Religião e Política (se é que havia separação), por outro lado é igualmente válido que não há um trabalho de reflexão sistemática e profunda entre os politeístas contemporâneos (especialmente entre os tradicionalistas e reconstrucionistas como um todo) dos limites e influência consciente do laicismo moderno. A lógica do “e” ao invés da lógica do “ou exclusivo” (Alain de Benoist) é um bom início, mas não há muita literatura sobre o tema. E isto, nos leva ao velho modus operandi de “babação de ovo” dos norte-americanos, do provincianismo intelectual que se repete quase que reação mecânica, automática. Ou seja, se por um lado, dentro de uma perspectiva laicista, seria ideal “não misturar as coisas”, por outro lado é uma tarefa difícil (mesmo para esta perspectiva laicista) quando as coisas estavam misturadas no passado e mesmo hoje permanecem de alguma forma – pois, em se tratando de casamento religioso, litúrgico, especificamente, não estamos mais no plano da “política” (neste está o casamento civil!) e a discussão não será sobre “política”, ou pelo menos não deveria. A discussão será sobre metafísica (como o casamento era – ortopraxia – como era compreendido, como é e deveria/poderia ser – ortodoxia e heterodoxia), politeologia, mitologia, etc. É esta discussão “teológica”, com profundidade (acadêmica), calma, e sobretudo honestidade, para além dos “ânimos exaltados” (doa a quem doer) que tem de ser iniciada em cada religião, e não apenas “importada” de olhos fechados dos EUA.

Comecei o texto frisando que o foco nisto tudo deveria estar na compreensão (ou decifração) da ordem cósmica em si e termino repetindo isto. Não se trata de uma discussão somente sobre os Deuses e as histórias sobre Eles que nos foram passadas, mas justamente sobre o que está além, acima, mas que projeta um reflexo nestas histórias. Também não se trata de uma discussão ética, no sentido da “ação pessoal”. Se trata, antes de mais nada, de uma discussão religiosa ampla, sobre o funcionamento metafísico do mundo (quem quiser, leia aqui “Natureza”) e de como as instituições (físicas e espirituais) dos humanos refletiam, se refletem, ou deveriam refletir (ou mesmo se não devem refletir, o porquê) este funcionamento. Se trata da reflexão sobre o que é o casamento religioso (dentro de cada tradição) e sobre as possibilidades acerca deste.

É uma discussão difícil, muito, pois pode se referir a alturas sublimes, que beiram o místico e apofático, pela própria natureza sagrada do que se acerca. É bom lembrar aos religiosos, que por mais que se busque uma abordagem cética e filosófica, o que a distinguirá de uma abordagem “externa”, será a opção existencial consciente, a crença, a fé numa visão de mundo, num centro de valores atemporal e vitalista. Crer na firmeza transcendente de nossos pilares metafísicos, pular por sobre o abismo niilista, transpassá-lo; e isto significa crer – de verdade, e não apenas como referência estética, ou adereço exótico – na sacralidade dos bosques antigos. Por vezes, penso que os Deuses imortais devem se divertir com como fazemos “tempestades em copos d’água”, e pouco se importam para certas querelas humanas; mas tenho pra mim, que pelo menos uma parcela Deles, valorizam aqueles de nós que com afinco, tenacidade e excelência, permanecem teimosamente firmes, com uma face orgulhosa, religiosamente amparados pelas sombras de seus Ancestrais; não distraídos pelo sabor dos ventos momentâneos, mas focados em ajudá-Los, mesmo que seja com nosso diminuto contributo, na difícil manutenção da ordem cósmica, na Grande Guerra. É uma opção humana engajar-se, digo mais: é uma opção radical.

Imaginar a continuidade do diferente para chegar ao resultado do igual

Este texto fora motivado por recentes percepções dentro de um referencial Céltico, mas creio que seja útil para outros referenciais reconstrucionistas também.

Que a Deusa da Aurora ilumine com seus raios santos nossas mentes e nossos corpos.

É comum entre os RCs (Reconstrucionistas Célticos) dizerem “nossa religião é sobre o estado das coisas como se houvesse sobrevivido até nossos dias, como se não houvesse ruptura”. Este é um raciocínio que me parece acertado metodologicamente. No entanto, muitos ao dizerem isto ignoram (seja por real ignorância ou por preguiça) o peso do Cristianismo, e de sua influência nos valores laicos no Modernismo/Iluminismo que reverberam até hoje forjando os valores dos nossos dias.

Neste caso, em especial os americanos, imaginam um RC cripto-liberal, ou seja, modernista – que abraça cegamente (é diferente de abraçar após revisar criticamente) como “avanço”, “desenvolvimento natural dos tempos” e “progresso”, os pressupostos ideológicos do “desencanto do mundo”, do Humanismo e Egoísmo Modernos, a ideologia dos Direitos Humanos, do Materialismo e dos pressupostos da democracia laica liberal/moderna.

Os precursores (e convenhamos, são norte-americanos) são importantes por isto, pelo trabalho pioneiro. No entanto, isto não quer dizer que tenhamos que copiá-los cegamente em tudo, principalmente quando vemos gente do meio RC nacional se basear – sem saber, ou sabendo – nestes pressupostos modernistas dos norte-americanos como justificação para imitarmos ou apoiarmos certas conclusões. As mudanças do tempo, não significam que não haja pilares perenes, imutáveis; ou pelo menos, que não hajam certos padrões imutáveis. E nisto é que a influência cristã se esconde – enganados pelo pressuposto de uma ‘rigidez petrificada em livro das religiões abraâmicas’ versus ‘uma suposta ausência de rigidez das religiões tradicionais’ – os sujeitos crêem que toda rigidez ou noção de perenidade/imutabilidade é, automaticamente, sinônimo de abraamismo, e nisto tentam justificar a cega aceitação do Modernismo, como sendo uma espécie de consequência lógica e movimento justificado pela Tradição (pelo esquema conceitual Indo-Europeu). O problema deste pressuposto é de reduzir e simplificar a diferença entre as tradições religiosas abraâmicas e as demais a um suposto apego a uma concepção de doutrina imutável. É um simplismo tosco. Por mais que não hajam “bíblias”, ou “torás” ou “corãos” para os demais povos, isto não quer dizer que não creiam nem tenham em suas bases religiosas princípios vistos como perenes/imutáveis/imorredouros. Só diz que não sentiram a necessidade de registrá-los em livro, seja por acreditarem que não era necessário (uma vez que estão dispostos na Natureza), ou por considerá-los demasiadamente santos, etc.

Imaginar como seria se a continuidade não fosse rompida, não significa chegar exatamente às mesmas conclusões morais e políticas do Humanismo Moderno Ateísta, fruto do cristianismo laicizado e da especificidade histórica do ocidente católico. O exemplo óbvio da continuidade Indo-Europeia não rompida é a Índia – a Índia do séc. XIX (antes de ser contagiada pelo ocidente moderno) é um bom exemplo, um real, não um imaginário – e que demonstra claramente as diversas modificações e desdobramentos históricos (em termos de concepções filosóficas e movimentos religiosos e/ou reformistas), mas a manutenção, grosso modo, de pilares metafísicos perenes.

Talvez, o cripto-liberalismo deste sujeitos simplesmente repita o padrão judaico de “historicização” do mito (Vöegelin, Eliade) e os faz crer, lá no fundo, que o “que passou, passou”. Não percebem a obviedade de que as religiões Indo-Europeias tem de ver com a a atualização do tempo mítico, de uma afirmação a-temporal de certos valores e bases transcendentes.

Daí que quando o nó aperta, o que vemos são os sujeitos mostrando que, no fundo, são materialistas históricos, descrentes nas estruturas metafísicas tradicionais, simples humanistas “nerds” com fetiches medievalistas e com hábitos “estranhos”. Os mitos são mera “literatura”, poesia, “símbolos” e certas crenças tradicionais são escondidas, trancados no armário, pois levá-las à sério hoje em dia – em pleno séc. XXI (como se isto significasse alguma coisa para quem não põe fé num tempo linear e progressista) – envergonha a tão importante fama de inteligente, “descolado com consciência social”, etc.

Nossos ancestrais célticos, em se tratando de política, por exemplo, viam que o poder legítimo possui uma clara origem divina. Por que devemos deixar esta visão de lado? Será que ela não se fundamenta em um destes pilares perenes, conectados a própria existência e fé nos deuses enquanto poderes reais? Quando um evangélico nos diz que o poder político emana de Deus, devemos discordar dele se com isto quer dizer que somente o deus de Israel, que ele supõe como sendo único, é a origem de todo o poder político sobre a face da Terra; mas se, por outro lado, ele quer dizer com isso que o poder político legítimo possui origem transcendente, não vejo como, por exemplo, esta afirmação seria negada por um druida antigo. Claro, um evangélico muito dificilmente falaria algo assim neste segundo sentido, realmente, mas consideremos esta possibilidade. Para nós, esta fonte transcendente (do exemplo acima) se imanentiza na Terra local e requer que o líder político, o governante, una-se, “case-se” com ela para obter a legitimidade/sanção que seu governo necessita para que tenha êxito. Do contrário, sem tal “graça”, sem tal procedimento, todo êxito do governante será enganoso e sem sua Verdade (fír flaithmon) a Soberania (deificada) o desprezará, o caos se insurgirá, a ordem cósmica (transcendente) enfraquecerá e até as colheitas e o solo sofrerão… E claro, nossos Ancestrais sabiam que o governante, sendo o pico de um monte, uma ponte, mesmo que não queira, concentra em si o mais alto grau de responsabilidade (conclusão parecida, mas desenvolvida filosoficamente se acha no “Princípio Responsabilidade” de Hans Jonas), sendo seu dever sagrado, ceder seu posto quando de uma crise, quando não encarar o sacrifício (o regicídio) e restaurar com seu sangue as condições para o restabelecimento da ordem cósmica para os seus.

Isto não era compreendido assim à toa, como mero fruto sórdido da imaginação de nossos antepassados, tal posição reflete (pelo menos, se cria e se pode crer hoje) luzes a-temporais e se fazia sentido antes, pode fazer hoje também. Sim, leram bem, “pode”. Se deve ou não, podemos discutir, mas a possibilidade do “pode” é incontornável. O chato é ver gente nossa que abre a boca para dizer que compactua e crê nestes princípios tradicionais (e nos deuses dos quais emanam ou os quais “encarnam”, dependendo do ponto de vista), quando deparado com uma crise política em seu país, defender muito rapidamente e sem qualquer mostra de escrúpulos o imobilismo tosco (culpando o “sistema” e retirando qualquer possibilidade ao governante do país, no final das contas apoiando sua permanência decadente e anti-natural) ou berrar contra um religioso que diz – sendo coerente com os preceitos da fé dele (com a qual não somos obrigados a concordar, claro) – que o poder deve originar-se em Deus ou algo assim. Como se nossos princípios religiosos não possuíssem consequências políticas que, aos olhos do “humanista-ateu-moderno-iluminado-dos-últimos-dias”, fossem condenáveis como “superstição cruel”, “retrógrada” e “bárbara”… Se abre a boca soberbo para falar de estamento social na Antiguidade, de funções, importância das linhagens e o escambal, e quando o nó aperta, toma como certeza absoluta indiscutível as ficções modernistas de “poder popular”, “rompimento da linhagem” ou aquela rousseauniana de que o “povão”, o “populacho”, é essencialmente sempre bom e infalível, ou de que certos movimentos sociais instrumentalizados por ideologias revolucionárias possuem alguma legitimidade por se dizerem “populares” ou “representante dos desfavorecidos”… Eu não consigo ver tais coisas e permanecer “calado”, e tento, por vezes bem mais do que deveria, e é por isto que escrevo este texto. Os apressados, tenham calma, não estou advogando que devamos todos nós, no momento político acirrado (e até perigoso) armar um “regicídio” (se algo deste tipo acontecesse, convenhamos, talvez só beneficiasse o PT que até transformaria a presidente em Santa Imaculada e embalsamaria seu corpo e o deixava exposto ad saecula saeculorum) e coisa do tipo. Meu intuito é muito mais chamar atenção para a consistência interna e para as possibilidades abertas que os pensadores e líderes genuínos  (os não-genuínos nem sempre são problema, a Natureza, cedo ou tarde, os descartará) não podem negligenciar.

Bem, mas, voltando, o realmente importante é que não temos de simplesmente copiar os norte-americanos e colocar isto como a única possibilidade, ou como a possibilidade certa e válida. O medo de soar “radical”, “fundamentalista” é perfeitamente compreensível quando os abraâmicos nos dão amostras diárias da ruindade que isto pode ser; mas isto não significa que temos de ser humanistas ateístas moderninhos (muito comportadamente agradando os “bem pensantes”, hã?!) e ainda por cima fingirmos que estamos fazendo, exatamente, como seria se a continuidade histórica não tivesse sido rompida.

Arquia, anarquia e pensamentos (12/12/2013)

Originalmente publicado no finado PB Pagã em 12-12-2013

Saudações.

Vai e volta, encontro-me com o termo “anarquismo”, utilizado por gente de extrema (esquerda ou direita), capitalistas burguesinhos, gente de classe média “nerd” ou gente de classe média típico bicho-grilho-hippóide-de-Humanas, nacionalistas (sim, há o nacional-anarquismo) etc. É um termo bem presente. Mas, ao meu entender, em certos usos, é um termo falho. Escrevo esta postagem visando demonstrar o motivo.

Basicamente, minha implicação é de ordem etimológica.

Etimologicamente, anarquia é um termo que aponta para “desordem”, é “falta de princípio director, governo, comando”. Este “-arquia” é a mesma “arkhē” dos filósofos Pré-Socráticos. E isto deveria ser o suficiente para invocar o peso (ontológico) da noção “-arquia”. Eles, como todos os povos tradicionais de que se tem notícia, acreditavam na existência de um princípio ordenador do que existe. No pensamento religioso, tal princípio é sagrado (em grego “hieros”), sendo ele próprio, a ordem natural das coisas, a ‘hierarquia’ (“hieros”+“arkhē”). Este princípio, tanto para os Pré-Socráticos (cuja inovação fora iniciar a investigação racional e dessacralizada deste princípio ou conjunto de princípios) como para os religiosos, é pré-existente (ante rem), ou no mínimo, ontologicamente congénere com as coisas (in re). Há uma hierarquia no mundo, na natureza das coisas, seja ela característica inseparável do que é (in re) ou de origem divina e premeditada (ante rem), simples assim. Estamos nos referindo a uma crença profunda, e até onde sei, presente em todos os povos, ao menos no mundo antigo. Dependendo dos povos e culturas, tal percepção da hierarquia natural é estendida, com maior ou menor grau, a organização política e sócio-económica da sociedade.

Podemos postular, sem agravo, que o pensamento tradicional é caracteristicamente ligado a tal percepção de uma ordem configuradora do ser. Podemos também estender filosoficamente tal noção aproveitando os conceitos desenvolvidos para a questão dos universais e aplicando-os cá. Neste caso, teremos os crentes na existência de uma hierarquia prévia (ante rem) ao que é, estabelecida teogonicamente, no que é (in re – idéia próxima da Pitagórica de que há uma ordem directora matematizável na estrutura do próprio universo; pressuposto parecido foi assumido pela Ciência Moderna desde de Galileo e ainda rende frutos na matematização da Física e nas tentativas de síntese do tipo Teoria Geral) e os crentes numa hierarquia posterior as coisas (post rem), seja pela argumentação de que nosso aparelho gnose-sensorial organiza/hierarquiza as nossas percepções e representações em nossa mente por sua própria natureza (similarmente as categorias a priori de Kant e o modelo epistemológico deste) ou pela própria linguagem que utilizamos para pensar e descrever o que existe postular uma hierarquia, uma organização directora (ou seja, por existir na linguagem – seria a postura mais próxima do Nominalismo, digamos).

Claro que ao longo da história, a percepção da hierarquia, sagrada, efectivou-se também como uma “disarquia”, perdendo o carácter sacro, instrumentalizando-se como injustiça e desregramento no mando político de sociedades. Quando o princípio director e governante perde sua orientação transcendente, a coisa desanda, deixamos de ter uma hierarquia, em seu sentido próprio, e passamos a ter uma caricatura, muitas vezes prejudicial, uma ‘disarquia‘. Ou seja, o problema não é ter os melhores no topo, o problema é quando “os melhores” não são Os Melhores. Esta é a real injustiça social (qualquer um que leu a República de Platão bem lida, deve ter compreendido esta lição tradicional). Isto é o que havia de real quando um Rousseau da vida, zombou de um gordo e efeminado Luís XIV, em contraposição ao camponês rude e viril; mas com o Rousseau, a coisa não parou por aí, ele acreditava que o problema era a própria noção da desigualdade natural, e da “hierarquia”, não se tratava de não ter Os Melhores no topo, mas sim de não haver ‘melhores’! Ou seja, jogou-se o bebê junto com a água, e de lá pra cá, muito anarquista (o francês Proudhon que o fale, lembrando que este terminou por influenciar o russo Bakunin) segue esta rota irrefletidamente.

Há quem ache que tal ideia “encantadora” – de “não haver melhores”, serem todos iguais, o Igualitarismo aí pressuposto – ganhou corpo e se disseminou com o Cristianismo (Nietzsche, Evola, Alain de Benoist, Faye, etc.), como é bem sabido.

Uma vez que não há melhores, nem superiores, o Sujeito moderno, Liberal, torna-se autónomo no sentido etimológico do termo (“aquele que rege a/legisla para si próprio”), daí, passar a ver todo poder externo a si (o Estado, especialmente após o trauma “absolutista-hobbesiano”) como opressor é um pulo. Ou seja, partindo do Igualitarismo e do Modernismo (do Sujeito Moderno) é fácil chegar (se é que não é uma consequência lógica!) ao anti-Estatismo, o tal Anarquismo – seja pela Esquerda (classicamente, pela via sindical-socialista até o trotskismo), seja pela Direita (pela intensificação e máxima potencialização do liberalismo, no Libertarianismo/Anarco-capitalismo). Ambas as visões não enxergam um princípio ordenador prévio (ou congénere) para a existência, não conhecem a ideia hierárquica em seu sentido originário, ao contrário, denunciam tal discurso como religioso, reaccionário, alienante e opressor e assimilam, instantaneamente, o termo “hierarquia” à injustiça e usurpação. Ambas visam a horizontalização igualitário-materialista, o Paraíso messiânico terreno, seja pela redistribuição directa de riqueza (Esquerda), seja criação de mecanismos que permitam o igual acesso ao consumo (Direita). Por mais que as ideologias elaborem conceitos-chave que não possuem qualquer validade científica e sirvam como depositários da fé de seus crentes (sendo análogos aos mitos e aos conceitos religiosos), como a “Mão Invisível da Economia” ou a “Luta de Classes”, suas pretensões de superioridade à religião e pseudo-cientificismo (pelo menos no caso do Marxismo), terminam por encantar a intelligentsia ávida do status da superioridade intelectual.

Antes que algum gaiato venha cá dizer (por proselitismo ou por real “comoção” e desejo por “iluminar esta mente escura”) que entendi tudo errado, informo que estou bem ciente dos usos do termo no final do século XIX e começo do XX. Conheço algo do Proudhon, algo do Bakunin, algo do Trotsky, do Marx (o fim messiânico de sua promessa teórica, o tal do comunismo real, o “anarquismo feliz”) e mesmo de gente que é utilizada, especialmente pela anglofonia, como “ancestral” do Libertarianismo e do Anarco-capitalismo, como Thoreau. Compreendo quando se fala de “gestão orgânica”, “governo espontâneo”, “livre associação comunitária”, “voluntarismo” e tantos outros conceitos para expressarem a alternativa a um Estado (termo latino, usado já na época de Cícero), o Estado Moderno, Hobbesiano, Westfaliano; e mesmo concordo que a ideia de “livre aceitação” de uma forma de governo ou manifestação hierárquica é, fundamentalmente, uma boa idéia. Compreendo até a mitologia dicotómica do Estado=Mal x Não-Estado/Anarquia=Bem, etc. E o pior, até venho lendo com certa constância algo do anarco-primitivismo, anarco-nacionalismo e outras variantes. O que estou dizendo é que não concordo com o uso do termo “anarquia”, principalmente quando ele denota a existência ainda de alguma “arquia”, mesmo que não seja a do Estado Moderno Hobbesiano. O que estou dizendo é que não vejo nenhuma razão para resumir biunivocamente “arquia” a Estado Moderno Hobbesiano/Westfaliano/Burguês. Ou seja, o fato de não haver o Estado Moderno não quer dizer que haja “anarquia”. Simples assim.

E por isto fala besteira ou simplesmente atesta sua idiotice (ou má-fé, do mesmo modo que os marxistas que falam na baboseira mentirosa de “comunismo primitivo” ou os seus ancestrais ideológicos que falavam em “cristianismo antes de Cristo” – ou toda e qualquer prática fraudulenta de alteração e revisão do passado sob orientação ideológica do presente, por mais que não seja por “má fé”, que se admita ao menos que é por motivos estratégicos e de “propaganda”) quem fala em reinos medievais “anárquicos” ou tribos celtas e germânicas “anárquicas”, etc. Não importa quão disseminado esteja, nem quantos seguidores tenha ou quantas entradas na Wikipédia disponha.

E mais, creio que para um religioso que adere a uma religião antiga ou de inspiração/restauração destas (como é o caso dos Neopagãos), digo que ele adere também a uma visão que estipula, tradicional e necessariamente, “hierarquia” (em seu sentido etimológico e ontológico) e que por isso mesmo não pode simplesmente abrir a boca em favor de “anarquismo” (no sentido etimológico que abordei acima) sem que se contrarie. As crenças na existência de alguma forma de “arquia” (ante rem, in re, post rem, nominalisticamente, etc.) e na sua ausência (“anarquia”) são mutuamente excludentes. Como disse, me refiro a alguns usos específicos (especialmente aos usos de origem religiosa não-cristã, pois dentro do cristianismo primitivo parece ter havido uma brecha que os anabatistas revisitaram) e exponho cá os motivos. Tal exposição não visa ser o início de uma cruzada contra o termo, mas antes chamar atenção para sua dimensão etimológica e as possibilidades de nos reapropriamos dela de um modo que me parece menos problemático. Aos camaradas pagãos e correligionários, recomendo que utilizem simplesmente “tribalismo” ou “primitivismo” ou algo do tipo.

O segundo maior erro da Nouvelle Droite – Guillaume Faye (15/12/2013)

Originalmente publicado no finado PB Pagã em 15-12-2013

Abaixo segue um pequeno trecho onde o filósofo e polemista (pagão, atualmente ligado ao movimento Terre et Peuple) francês Guillaume Faye fala sobre os erros do movimento político e cultural Nouvelle Droite do qual o próprio fez (e de certa forma, ainda faz) parte, no seu livro L’Archéofuturisme. Estou relendo este livro (pois é, estou dando-me o luxo de reler umas coisas) e achei por bem postar cá esta passagem. Farei uns pequenos comentários, que em nenhum momento visam esgotá-lo, pois, após o texto que serão marcados por números.

[N.T. o autor inicia a apresentação do que considera serem os maiores erros da Nouvelle Droite ao longo dos anos] (…) Segunda erro maior: a instrumentalização e a politização do paganismo. A partir de uma contestação justa, do tipo nietzscheana – a nocividade igualitária, homogenizante e etnomasoquísta do evangelismo cristão – a ND [N.T.: para “Nouvelle Droite”, doravante] construiu um corpus neopagão portador de muitos handicaps. Paradoxalmente, este neopaganismo partia de um ponto de vista cristão inconsciente: opor a um dogma uma contra-doutrina. “O” paganismo não existe; há “uns” paganismos potencialmente inumeráveis[1]. A Nouvelle Droite se apresentou implicitamente como uma “Igreja Pagã”, mas sem divindade. A natureza mesma do conceito pagão proíbe tomá-lo como bandeira metapolítica, como é possível de se fazer nas religiões judia, cristã e muçulmana.[2]

Segundo handicap: um anticatolicismo virulento (a indiferença haveria funcionado melhor), flertando umas vezes com o anticlericalismo, com uma simpatia aberta pelo Islã, atitude perigosa nestes tempos de ameaça islâmica objetiva contra a Europa e posição ideologicamente absurda, porque o Islã é um monoteísmo teocrático, rígido, uma pura “religião do deserto”, maior que o henoteísmo católico clássico, fortemente imerso no politeísmo pagão[3]. Além de que, a essência da visão pagã não é definir-se “contra”, mas “após” ou “junto a”, o que parece muito mais criador e inovador. Eu também pratiquei esta atitute errônea que, desgraçadamente, a ND nunca se corrigiu.

Terceiro handicap (que desenvolveremos um pouco mais para frente): este paganismo estava e parece sempre flanqueado por um folklorismo sem bases reais na cultura concreta dos Europeus (ao inverso dos Estados Unidos!), frente ao qual sempre enfrentei.[4]

Resultado: um público potencial que nunca se cercou da ND, outro que sumiu.[5] Por quê? Porque muita gente não entendeu o porquê desta sobrevalorização pública do paganismo, este privilégio ideológico que lhe estava concedido, que primava sobre outras questões muito mais importantes, de ordem concreta e política, como o é, por exemplo, a destruição da etno-esfera européia ou o masoquismo antinatalista dos governos. Outra consequência: a valorização do paganismo como imagem de marca pública tinha, sobretudo na França, um efeito midiático repulsivo. Dizer-se pagão publicamente é assimilável a “militar numa seita”, tal como me disse um dia um grande atriz francesa, próxima das ideias da ND, mas reticente, como muitos, a mistura de ideologia política com a temática para-religiosa. Podemos deplorá-lo, mas é assim: há regras de propaganda ineludíveis.[6]

E quanto aos ataques contra a Igreja católica, seria melhor dirigi-las ao quasitrotskismo, o imigracionismo e a auto-etnofobia do alto clero, adepto do retorno às fontes monoteístas evangélicas puras e duras, as do “bolchevismo da Antiguidade” [N.T.: expressão utilizada por Alain de Benoist para descrever o Cristianismo, sobretudo o dos primeiros séculos]. Alto, clero masoquista e imbecil, que alimenta oficialmente a criação de mesquitas em solo europeu![7]

Há dois livros que me marcaram para sempre: o Anticristo de Nietzsche e Os deuses da Grécia de Walter Otto. Assim como o “juramento de Delfos” iniciado por Pierre Vial no início dos anos oitenta. Ali, no santuário de Apolo, quando o Sol desponta, os herdeiros da Grécia e da Borgonha, da Toscana e da Baviera, da Bretanha e de Valônia, de Flandres e da Catalunha juraram preservar a alma pagã. Muito bem. Mas todos estes atos pagãos devem realizar-se na parte interna da ação.

A alma pagã é uma força interior que se expressa com toda uma expressão ideológica e cultural. É semelhante ao coração de uma central nuclear. Não tem que aparecer explicitamente sob a forma de bordões instrumentalizados. Não se deve dizer “sou pagão”. Se deve sê-lo.

Mais prosaicamente, creio que a insistência sobre o tema do paganismo como bandeira para-política criou uma confusão mental entre o público natural da Nouvelle Droite: como se desviasse a atenção sobre outras questões secundárias. E mais, esta insistência criou um conflito com os “católicos tradicionalistas”, realmente menos cristãos que os curas esquerdistas…[8]

A instrumentalização do paganismo foi um tremendo erro de comunicação e de propaganada. A ND privou-se de uns meios católicos favoráveis a suas ideias, mas efetivamente ligados a suas tradições de campanário. Grande torpeza cometida desde os seus inícios. Outra das coisas que devem ser corrigidas.[9]

[1] OK, mas isto não impede que se refira a delimitação religiosa-cultural específica, como a dos Indo-Europeus, que, apesar das diferenças, trazem em si um conjunto de práticas de origem comum, sendo todas “religiões irmãs”, muito mais inteligíveis entre si do que entre qualquer outras extra-indoeuropéias. No entanto, o ponto que o Faye aponta, ao que parece, é a falta de “precisão” – que paganismo? A religio romana, o hellenismos, ásatrú? Faltou “concretude”, ao que parece.

[2] Em se tratando das grandes religiões tradicionais indo-européias, faz sentido. Mas certos cultos específicos, pagãos, alcançaram patamares aparentados à via metapolítica, como o Pitagorismo, o Mitraísmo e mesmo o culto Odinista, em alguns casos “fechado” entre a elite guerreira, da Era Viking.

[3] Por mais que concorde com o essencial – de que o negativismo do “anti-” (-cristianismo, -catolicismo, -protestantismo, -islamismo, etc.) não é essencial, nem característico ao paganismo e que é um erro de juventude comum – creio que é um erro compreensível, e talvez, em alguns poucos casos, até necessário, dado o peso ainda hegemônico do Cristianismo e a necessidade de descristianizar-se radicalmente (no sentido de “até a raiz”).

[4] Isto não está bem claro, mas talvez seja traduzido por “academicismo” e demasiado “elitismo” (no sentido de estar circunscrito a um grupo fechado e pequeníssimo de pessoas), impossibilitando o crescimento orgânico e o enraizamento real na produção cultural (seja nas subculturas juvenis, arte pop, etc.) e/ou a repaganização do folclorismo ainda vivo. Eis a importância de um paganismo que possibilite fundir-se com o regionalismo identitário e cultural, restaurando a integralidade de mundivisão desde cima.

[5] A preocupação com a eficácia da “propaganda” da ND, em vistas de suas aspirações políticas e culturais, sobretudo as políticas – um dos grandes motivos para os apontamentos do sr. Faye, como fica claro no texto – é quase inexistente dentro de uma ótica não-proselitista (como é a pagã). Se o grande erro da ND foi de marketing, então isto não foi lá um grande erro, pelo menos não sob a perspectiva estritamente religiosa. No entanto, há algo de mais profundo nesta questão – e que já tocamos cá – trata-se da expansão, do crescimento (não só qualitativo, mas também quantitativo) do paganismo, de sua expansão religiosa. Como se dará? Como resolver e elaborar atratividades não posélitas? Como não fazer proselitismo? É uma questão aberta e que vez ou outra aparece, por exemplo, na blogosfera pagã anglófona (majoritariamente comprometida com o politicamente correto e com os valores liberais norte-americanos). Podemos cuidar apenas da qualidade e esperar que esta, por si só e com o passar dos anos, reluza e frutifique, traduzindo os frutos e a luz, digamos, em uma expansão numérica, tímida e constante. O grande risco é termos tal cuidado interrompido violentamente por algum interesse religioso totalitário, risco real cá (sim, me refiro a “evanjas”) e na Europa (onde a expansão islâmica já dá sinais bem claros); uma maneira de evitar tal risco é, justamente, tendo um número mais significativo (o que por sua vez, supõe-se, permitirá mais disposição para o combate), e aqui novamente se cai na questão da expansão qualitativa aliada/conjunta a uma forma de expansão quantitativa.

[6] Isto não me parece um empecilho de todo, essencial e perene, antes, um empecilho contingente, fruto, justamente, da hegemonia cristã-esquerdizante (de uma elite majoritária ateizante de um lado, que se ri do paganismo como uma espécie de “ridícula extravagância plebéia de fantasias New Age”, e de uma pequeno resquício de elite beata, que por definição, está interessada em combater tal “perigo” assegurando sua “posição” e suposta legitimidade). Reconhecer que ela existe é uma coisa, não combatê-la é outra. OK, sob a perspectiva do combate (a “propaganda” serve a este propósito, pois), nem toda estratégia é boa, além de que há táticas que podem gerar recuos, ao invés de avanços. Se for neste sentido que o sr. Faye fala, então o fala razoavelmente. Se for por “derrotismo” ou crença na imutabilidade da opinião médio-burguesa ou das elites que “fabricam” a opinião pública, então não me parece falar razoavelmente.

[7] No nosso contexto, o apontamento é útil para levar a percepção de que uma coisa é Catolicismo Popular, repositório repleto de substratos pagãos e braço próximo e “familiar” para nós, outra coisa é o Catolicismo do Alto Clero. Interessante é notar que o Catolicismo do Alto Clero, justamente, flerta com as demandas da Teologia da Libertação e fez o Concílio do Vaticano II, é o clero “progressista”, mais aceito e elogiado pela intelligentsia de esquerda/humanista (talvez, por estes descenderem daqueles). Por outro lado, esperar dos Católicos Tradicionalistas, que tendem a valorizar um pouco mais as tradições populares (ou seja, as heranças pagãs), que demonstrem filopaganismo é demais. Por mais que muitos deles saibam que são devedores de pagãos como Platão e Aristóteles, acreditam no próprio discurso de que sua teologia é uma superação (para nós não é) e que o paganismo deve ser combatido, no final das contas, por mais que se tenha de tolerar os “desvios” das pessoas comuns. Só um católico tradicionalista e perenialista (no sentido schuoniano, não no sentido tomista) pode tolerar pagãos de modo mais tranquilo. E caso os católicos perenialistas ficassem mais comuns, os tradicionalistas seriam os primeiros (bem antes dos progressistas) a denunciá-los como heréticos… Logo, focar as críticas no Alto Clero, por mais que “agrade”, eventualmente, setores mais tradicionalistas do Catolicismo, não tornará o paganismo mais aceito por estes; pode, talvez, fazer com que um ou outro sujeito se torne herético ou se converta a alguma fé pagã, mas creio que é algo muito difícil.

[8] O que falei no ponto [7] basicamente cabe aqui. Fazer as coisas buscando “agradar” o beatame, passar-se por “bom moço” e “cordeirinho manso”, é esperar demais. Não precisamos, absolutamente, da aprovação dos cultores do judeu morto. Se se trata de utilizar táticas que preservem de modo mais confortável alianças temporárias, vá lá. Se se trata apenas do medinho de desagradar, paciência…

[9] A instrumentalização do paganismo (se de fato foi isso, e não a tentativa de produção de linhas políticas e culturais pagãs, como as outras religiões fazem, produzem linhas políticas e culturais religiosas) é um erro em si, não um erro apenas por que diminuiu o potencial de marketing ante as audiências cristãs. Mesmo que tal instrumentalização houvesse surtido efeitos positivos, ainda sim, seria um erro. O Guerreiro pode até elevar-se ao Sacerdote. Mas sua usurpação definitiva é um sacrilégio em sentido estrito, o qual a História testemunha só resultados nefastos.

Alguns pensamentos sobre a construção de comunidades orgânicas locais (11/7/2014)

Originalmente publicado no finado PB Pagã em 11-7-2014

 

Saudações. Este texto devia ter vindo antes, demorou mas está aí.

Diante da multiplicidade de desafios de ordem política e religiosa pela frente, a idéia de viver numa comunidade pequena composta por correligionários é algo que atrai muitos dos adeptos das religiões étnicas indo-europeias (e de tudo aquilo que convencionou-se chamar de “[neo]paganismo”). É uma opção convidativa e atraente, independente do perfil ideológico do adepto – seja um hipponga-libertário-new-age ou um militarista-conservador, além dos diversos tons entre um perfil e o outro. Claro, algo disto já foi discutido neste blog e viemos mais pôr um adendo aqui.

Por um lado, talvez isto – de formar comunidades paralelas – represente uma recusa ao grande embate político-social (e uma prévia aceitação da derrota), uma atestação de que não tem jeito mais (ou um reconhecimento de que não temos força suficiente); uma atitude conformista/negativa, que soa “egoísta”, uma “fuga do mundo” (condenável tanto pelo viés liberal social-democrata que no melhor dos casos pode se inspirar no civismo ateniense ou romano, quanto pelo marxista materialista-hitórico) e um apego a uma atitude “retrógrada” (e “alienada”, para o marxista) em prol de um idilismo “Amish”. Talvez, efetivamente, tenha algo disto, pois, na condição de minoria da minoria e da quase que completa falta de representatividade social e política na macro-sociedade é quase impossível não “cansar”, não estar saturado em algum momento e buscar algo mais fácil de ser posto em prática. Ainda por cima, quando há uma certa tendência anti-cívica, herdeira do Estoicismo e do Epicurismo, talvez, e reforçada pelo desprezo cristão por tudo que é “deste mundo” e pelo seu ascetismo amante de desertos é que se ache uma postura inadequada. No entanto, a tendência da viabilização de novas comunidades, a possibilidade de erguer algo diferente, é uma constante que se vê na colônias gregas desde a época arcaica, nos assentamentos romanos, nas expedições e migrações célticas e germânicas, por exemplo; e em muitos casos (especialmente entre os germânicos, célticos e mesmo alguns helênicos) o cariz rural/“de vila” se fez quase sempre presente.

Além de que a história mostra que “Fugir para as colinas” nem sempre significa derrotismo. Nossos ancestrais ibéricos, já cristianizados, que rumaram para a Galiza e Astúrias para reconquistarem suas terras gerações após a conquista moura, são um exemplo do que desejo apontar aqui. É possível, lá nas colinas, montar um acampamento e cuidar de, paulatinamente, tornar as condições de vitória/expansão reais, palpáveis. Este é o ponto que indico cá e encaro isto como inspirado no pioneirismo migratório/colonizador de Celtas, Germânicos e Gregos.

Nesta possibilidade, para qual converge muita coisa, creio que estão – na minha opinião – as idéias mais úteis de boa parte do “blá, blá, blá” político que se pretende “pós-moderno” (e defendido por quem se acha mais “descolado” e inteligente, etc.). É aqui que vejo, por exemplo, utilidade nos conceitos de “voluntarismo” e “comunidade orgânica” tão frisados por anarquistas; nas digressões sobre o tal do “municipalismo libertário” (e da ideia do “ocupe” venha da extrema-esquerda ou dos libertários/anarco-capitalistas), do esforço de “espalhar” ou realizar o esforço democrático em comunidades (impulso de setores progressistas de Esquerda, por exemplo), da retórica neo-tribalista (de radicais racialistas) ou das realizações hippongo-verdistas de permacultores simpatizantes do neoxamanismo, por exemplo.

Em termos práticos, isto se reduziria numa estratégia geral de fundar pontos sólidos em diversos lugares do país – teríamos três tipos de projetos:

1. fundar “colônias” rurais

2. formar “maioria” em alguma cidade pequena

3. formar “maioria” em algum bairro de alguma cidade grande

Revitalizar laços orgânicos e reais, promover um cotidiano integrado que possibilite a experiência de imersão cultural integral ao religioso, reforçar, para utilizar um termo durkheimiano, a “solidariedade mecânica” (aquela existente naturalmente, entre pessoas linguística-cultural-religiosa e geograficamente próximas, ou seja, a solidariedade do “ethnos”, da tribo) em oposição à solidariedade “burguesa” (derivada da globalizante divisão do trabalho)/moderna/“orgânica” (no dizer de materialista-progressista/evolucionista de Durkheim: de notar que ele chama de “orgânica” à burguesa e de “mecânica” a orgânica, sendo que é justamente o contrário!), universalista, virtual, do anônimo cosmopolita, é a meta. Com isto, naturalmente, brilhará mais forte nossas instituições e tradições, facilmente brotarão árvores vistosas e bosques sadios. Ou seja, basicamente se trata de criar bolsões, “viveiros” (religiosos) sadios que garantam exemplares vigorosos e centenários.

Onde isto está, dentro de uma perspectiva escatológica (seja do amedrontado prenúncio do fim da era petrolífera-tecnológica, seja da fé no fim religioso da Era presente, seja do geopolítico “fim da história”, etc.), não é o que me disponho a tratar aqui. Se trata de algo paralelo (e independente) a tudo isto. Que tenha utilidade para os prenúncios deste Inter-regnum, que seja, mas é outra coisa.

Particularmente, tenho algo destes projetos mas também creio que a “grande cidade” não deve ser de todo abandonada – creio que deve algo do efetivo ficar lá, entrincheirado, e talvez recebendo algum suporte “das colinas”. Talvez inspirado pelo que há de melhor em virtuosismo cívico no mundo ocidental, justamente, formulado por “pagãos” como Platão, Aristóteles, Cícero, etc.

Mas como operacionalizar isto, quais táticas?

O mundo virtual, por enquanto, possibilita um ferramental de organização formidável mas que parece também levar a dispersão e esvaziamento do Real, quando esquecemos de seu cariz instrumental e o encaramos como finalidade em si mesma. Enfatizar a dimensão instrumental da informática e pô-la em prática é o primeiro passo.

Bem, depois disto é necessário considerar umas coisas que acredito serem entraves. Vou expor a primeira destas coisas tomando como referência o pouco que percebi do projeto louvável do Rafael Noleto da “Vila Pagã” cá no Nordeste.

Bandeira da "VIla Pagã" no Piauí

Bandeira da “VIla Pagã” no Piauí

Para que o objetivo geral tenha melhores condições de frutificar enraizando-se, num quase osmótico processo de configuração com a Bio-região local, é importante que haja uma “unidade” de foco. Todos serem da mesma religião, ou ao menos cultuarem os mesmos deuses dentro de um mesmo arcabouço cultural, é crucial. Daí que “vilas” ecléticas/ecumênicas estão fadadas a problemas de ordem prática e forçarão seus moradores a desenvolverem um linguagem religiosa comum (que pode soar demasiado artificial ou não) que possibilite o mútuo entendimento, coesão grupal e o conforto “ideológico”, digamos. No caso do projeto Vilã Pagã, é mais ou menos o que me parece – estando eu distante, posso estar enganado – que ocorreu e levou ao desenvolvimento do “paganismo Piaga”. Mesmo se juntarmos, por exemplo, Reconstrucionistas Célticos de foco irlandês, com gaulêses, com galeses e ibéricos (todos, em teoria, RCs), haverão “desconfortos” (explícitos ou não) que levarão as partes minoritárias ou mais constrangidas a cederem ou saírem, cedo ou tarde. OK, talvez no casos dos Reconstrucionistas (ou “etno-religiosos”, digamos) assim seja e que entre os neopagãos ecléticos (Wiccas, Neodruidas mais ecléticos, etc.) isto não seja lá problema.

Outro fator é que Além de sermos poucos, e muito dispersos geograficamente, a viabilidade prática dos “iguais” unirem-se num ponto geográfico é complicada, especialmente quando já se começou a pôr em andamento algo destes projetos (mais ou menos nossa situação cá, confesso). Este é o fator logístico, digamos. Daí que tal projeto requer certa radicalidade e uma disposição de ferro de mudar-se (e arriscar-se, especialmente os que não possuem tanta fixidez ou raízes já fincadas em certo local) em prol de tal ideal. Este é um ponto crucial, é o que decide o sucesso ou o fracasso, o que decide o movimento ou o repouso. Trata-se da pulsão interna, da ação. Trata-se de quebrar a inércia da cadeira sedutora do conforto e ir para os elementos, faça chuva ou faça sol. E isto, definitivamente, não é para qualquer um – é a afirmação aristocrática, arcaica, que zomba do comodismo bundão.

Por outro lado, se considerarmos que os “iguais” devem permanecer onde estão (não se juntando), devendo fundarem grupos em seus respectivos locais, surge o desafio – já tratado – de como “crescer”, em qualidade em quantidade. Como inspirar, propiciar os chamados dos deuses ou despertar o interesse em dada religião? Há “público”? E quando a comunidade neopagã mais ampla sabota nas escondidas, seja por ranços de inferioridade declarada ou por picuinhas diversas? Ano após ano temos aprendido muito sobre estas questões aqui e digo, sob a égide de Bandu, que é difícil não se decepcionar e mais difícil ainda é não formar “filtros”, cada vez mais espessos, a ponto de se tornarem muros. E muros sem portas, são prisões. Simples assim.

Então, como proceder?

O caso de 3. em cidades grandes, é o mais fácil e exequível e me espanta que ainda não esteja ocorrendo: basta que os sujeitos se articulem para mudarem de bairro (basta escolher um bairro onde já 2 ou 3 de um grupo já residam e tal) – não precisam deixar os empregos ou transferirem-se para outros municípios, estados, etc. Longe das amizades e familiares, nada disto. Uma outra possibilidade ainda menor disto, é se houver uma combinação para “ocuparem” um dado edifício – se as pessoas decidirem investir em apartamentos em um único edifício, em pouco tempo se “controlará” o mesmo. Em poucos anos já se terá um núcleo duro, operativo comunitariamente.

O caso de 2. é mais difícil pois requer que vários sujeitos se mudem, e isto não é coisa simples, pois depende de empregos, familiares, amizades e toda uma vida já construída. Mesmo que os sujeitos de uma mesma unidade federativa (ou de vizinhas) decidam levar isto a frente, passará por todas estas coisas, apesar de estarem mais próximos para visitarem familiares e amigos. Além de que, se um grupo, completamente “alienígena” chega numa cidadezinha, com toda a excentricidade, sem “enturmar-se”, corre um risco sério de serem expulsos rapidinho, ou despertarem ódios que impeçam o projeto. Numa cidadezinha de 5000 pessoas é possível ter 50 que, estando presente em setores estratégicos (serviços essenciais ou inovadores para economia local, policiamento, burocracia administrativa, ensino, mídia/jornalismo local, etc.), permitam a execução de um tal projeto. E perceba, leitor, por exemplo, 50 asatruars se acham num único show underground de Heavy Metal em qualquer grande cidade (especialmente do Sudeste). Mas em todo caso, exige muita articulação e planejamento.

O caso 1. é o mais trabalhoso, talvez, mas possível, como a “Vila Pagã” de Rafael Noleto bem demonstra, mesmo tendo optado por uma espécie de “condomínio fechado” (neste sentido, algo mais urbanizado e para uma “vila” mesmo). A tática, neste caso, seria de alguém comprar uma área rural e dividir um pedaço dela em lotes (inclusive, num sistema de “mini condomínio horizontal fechado”), deixando uma área de trabalho comum, outra para a construção de um templo, etc. Conforme o interesse e o tipo de projeto que se queira levar a frente. Outra possibilidade é que uma vez que um sujeito já dispunha de um pequeno pedaço de terra, outros do grupo/comunidade religiosa busquem comprar as áreas vizinhas e/ou próximas, buscando formar um “cinturão” ou “confederação” de propriedades próximas se articulando em algo próximo do que atualmente funciona em “associações de agricultores”, “cooperativas” ou mesmo de sindicatos rurais. Dinheiro não surge do nada, mas se for de se endividar por uma vida para comprar a casa própria que te deixará eternamente insatisfeito (por não ter espaço, jardim, etc.) então reveja os planos, comprar um lote rural e construir talvez saia mais barato e traga mais satisfação: se é para dever, que se deva ao menos satisfeito, por algo que vale a pena.

Bem, vou parar por aqui. Eis algumas ideias e por isto venho cá compartilhá-las, afinal, uma andorinha só não faz verão, como dizia o famoso estagirita. E como tenho repetido cá, acredito que é necessário mais “pró-atividade”; é contra-produtivo e simplesmente indigno posar passivamente de eterna “vítima” indefesa.

Há quem diga que a boa e velha Realidade está com os dias contados. Se assim for, sou dos que está disposto a deixar este mundo virtual de fantasias tecnológicas para os entusiastas nerds, faço questão de me deixar de fora desta “Grande Ilusão”, e retornar, de vez, para as matas e montes “retrógrados”, para o sangue e o aço, para a Realidade, a mesma de nossos deuses e de nossos ancestrais.