Um singelo registro de uma reflexão matutina

Após faltar a última assembleia do sindicato de servidores de onde trabalho, semana passada, chego para trabalhar hoje e descubro que decretaram greve: erro meu, passei o final de semana sem abrir minha caixa de e-mails.

É difícil expressar bem o misto de tristeza e revolta diante da situação planejada das invasões e greves (por motivações político-partidárias, sejamos francos) no sistema de ensino do nosso país. E é fácil constatar o aparelhamento partidário de supostos mecanismos de representação “classista”. Até então, a “modinha” das invasões era apenas uma esquisitisse distante, até transformar-se numa bizarra realidade. E diante disto que venho cá no blog, de certa forma, para dar alguma vazão a uma série de pulsões reprimidas. Não consigo me sentir bem, meu senso de dever parece ser afetado, sinto-me moralmente incomodado quando algo assim acontece, sabendo eu o quanto nossa categoria recebe bem (comparado com os demais professores das redes públicas estaduais e municipais) e o quanto precisamos de ensino de fato, trabalho, compromisso para a situação deste país comece, de fato, a promover uma melhora durável. Não há necessidade para expor motivos e mais motivos para ser contra toda esta bagunça. Creio que textos como este (clicar para ler) já o fazem bem. Apenas acrescentaria que, dentro de uma perspectiva mais religiosa, há o agravante da subversão espiritual da relação sagrada do aprendizado (hierárquica, etimologicamente, mesmo que dentro das conveções e estruturas modernas, com todas as suas limitações e problemas, do processo de instrução formal de nossa sociedade). O que há de “sagrado” no processo, já fora machucado, mal tratado e surrado, mas ao invés de buscarmos resgatar e valorizar o que sobrou, este tipo de loucura “blasfemosa” vem para destruir de vez… E o pior é que, não raro, se não em boa parte, as ondas destruidoras vêm dos próprios professores. Renunciaram as funções “bramanescas”, rebaixaram-se de vez ao “shudraísmo” e reclamam quando são tratados assim pelas elites financeiras e políticas do país, cegos pela loucura fanática do fetiche proletarista. Se há algo de bom nisso, escatologicamente, é que o afundar-se acelerado nesta degradação é, por outro lado, o aceleramento da limpeza vindoura. Um novo ciclo, saudável e forte, se fortalece no horizonte.

Mas, por enquanto, fica só a mirada esperançosa; o sentimento de “impotência” diante das desgraças nem sempre leva a resignação: uma parte dele está buscando meios de “furar” e incentivar a destruição do capenga movimento grevista (por dentro e por fora), uma outra está buscando também elaborar iniciativas que minem ou usem a invasão discente (romanticamente chamada de “ocupação”) contra si mesma: utilizando o espaço para formar uma milícia estudantil para afrontar (com métodos realmente “sorelianos”) os esquerdistas de dentro para fora. Isto é possível. Na verdade, é perfeitamente possível e seria estética e moralmente belo. Mas outra parte de mim, uma parte forte, simplesmente prefere, numa espécie de “nojo” esnobista, virar o rosto (afinal, dentro do que pude, expressei-me contra e me posicionei contra, sou parte vencida, pois) e egoísticamente encarar como muitos (incluindo a maioria dos professores agitadores e panfletários) fazem, como um tipo de “férias”: colocar projetos meus em dia, aproveitar o tempo livre para realizar tarefas e serviços pendentes… A tentação a desistir do público (“eles se merecem”) e voltar-se para minha família, religião e propriedade é demasiado forte. Quando não se tem o saco (ou o estômago) para o trabalho “de chão”, se fica terceirando esta função e desejando que um “salvador” apareça para fazer o trabalho (sujo?) por nós. Cavalga-se o tigre e sonha-se com a oportunidade de desferir o golpe final quando o mesmo cansar. Não se trata de abandono do posto, mas justamente da permanência nele: no front onde nos alistamos e onde temos servido.

E aqui surgens as constatações: a maiora apática, ou mesmo que “contrária”, termina pela inércia (justamente por esta espécie de justificada forma de ceticismo político), a permitir o sucesso dos mal-intencionados. E a radicalização de um grupelho destes (infestados de militantes, 24h/7 dias por semana, travestidos de “professores”) urge, pede, conclama, que se forme uma radicalização no lado oposto. É a natureza dialética que sugere e aqui é onde estes sujeitos merecem ser testados: no combate, na violência regeneradora e santa. Mas é outro front, o front da Ação. Eles já estão com o do Pensamento e o da Ação operando, do outro lado se duvida se o do Pensamento está operando mesmo e se o da Ação existe ou poderá existir. Precisamos, urgentemente, continuar a dizer-lhes que sim, que devem insistir com mais afinco na feminização, no uso de drogas, na depravação sexual, na dependência burguesa acomodada da tecnologia, na completa seção aos sentidos e aos vícios, na completa falta de regra, medida e hierarquia. Nós e os nossos, pelo contrário, devemos investir e treinar: moldar nosso corpo, controlar os sentidos e impulsos, armar-se bem, acostumarmo-nos a privação e ao sacrifício. O Estado, esta palavra bonita para descrever nosso governo instituído, é mentalmente refém deles, é conivente para com eles, é ideologicamente aparentado e posa de “pai” que dá bronca no filho mimado apenas para aparentar, ou dar satisfação social. A conivência das gestões das universidades e Ifs invadidos não é simples covardia, mas sim uma afirmação clara e em bom som, de que se sentem desobrigadas a cumprirem suas funções executivas do Poder Público por discordâncias com as cores ideológicas do atual governo, são uma clara demonstração de que lado estão. E… como fazer algo contra, quando os que deveriam fazer (e por vezes até possuem a responsabilidade e imputação jurídica para tal), estão por ajudar os que deveriam combater? Como defender estas fachadas que terminam por apoiar os que as golpeiam? Devemos esperar “merdas” acontecerem para acelerar as últimas consequências? Devemos causar e instigar as últimas consequências?

Lutar o bom combate é difícil, quando certo lado esquerdo é tão afeito a baixarias, fraudes e covardias diversas… e certo lado direito, quando não se esconde, termina por causa repulsa. Bem, são só pensamentos e talvez alguns estejam retorcidos pela irascibilidade.

Confabulações sombrias 1

Os que me conhecem, sabem de minhas inclinações políticas e de minha crítica ao governo do PT. Nisto, mesmo que por vias diferentes, termino no rastro de meu pai, confesso, ferrenho anti-PTista desde os tempos em que trabalhou no ABC paulista e viu pessoalmente a ação do sr. Lula quando era um mero sindicalista. Por outro lado, também sabem de minha crítica aos EUA, apesar de reconhecer que agem em prol do país deles, e a toda a estrutura de Revoluções Coloridas e engenharia social liberal-progressista (que cá é aplicada pelo PT também, talvez até com mais ênfase, como se tivesse que provar ser digno de confiança pelo Financismo Global). No entanto, como não sou um cidadão do mundo, não consigo, por mais que tente, sobrepor as questões geopolíticas externas às internas. As internas, pra mim, concretamente, diariamente, aparecem em primeiro plano, o que, no final das contas, me deixa mais próximo dos meus amigos e familiares, gente de valor provado, unidos contra este governo e mais distante dos teóricos do mundo perfeito, alguns deles conhecidos e mesmo “chegados”, que enchem os espaços virtuais, pendurados em cima do muro ou receosos em assumir que apoiam o PT ou que são virulentos anti-comunistas, mas que toleram os comunistas por ódio às Olavetes. Dito isto, vamos ao que, efetivamente, eu deseja cá compartilhar:

Em mero exercício de pensamento, mera especulação, um mero pensamento sombrio.

  1. considerando o tom das conversas grampeadas entre o sionista Jacques Wagner e o Rui Falcão.
  2. considerando certos “silêncios” de setores atuantes da militância PTista como sendo um silêncio de quem está trabalhando e não de quem está atônito.
  3. considerando mais uma ruma de coisas:

Se – SE – eu fosse o estrategista do PT, neste momento, estava desejando que as manifestações do dia 18 (hoje) aconteçam de “todo jeito”, de “bolo” – se for muita gente, ótimo, se não, OK também, será tempo ganho e propaganda jornalística pelo final de semana garantido, de todo modo. O que importaria seria ganhar tempo: tempo para comprar apoio do Congresso, para inviabilizar o Impedimento, para atacar a Mídia opositora (ou que ficou em cima do muro), para organizar a militância.

O importante mesmo seria “ganhar” a classe baixa, a mais “minoria”, caricata pobretã de todas – e para tal, num contexto de Guerra Total, mentiria terrivelmente, dizendo que os inimigos, os “Golpistas”, vão acabar com todas as conquistas sociais amanhã, caso Lula seja preso hoje. PRONATEC, SUS, tudo, absolutamente tudo, afinal o Brasil não existia antes do PT. Não se trata de mentir, mas de arregimentar com tal artifício o máximo de gente inculta e ingênua, e mais importante ainda, de gente que se sinta grata, verdadeiramente, devedora do governo do PT. Ter o apoio destas massas é condição sine qua non para a primeira linha de resistência.

Os movimentos “sociais” são inorgânicos e inexpressivos na conjuntura geral, é necessário que esta parcela da massa, anônima, engrosse as fileiras. Tal enchimento os faria parecer legítimos, orgânicos e expressivos. Toda a máquina e todos os centavos acumulados nos últimos anos para isto devem ser empregados. Gente na rua, Vermelho, Estrela do PT, Foto de Lula, o Deus Lula e sua sacerdotisa Dilma, no culto glamouroso da materialista “religião” PTista.

Ao mesmo tempo, paralelamente, eu aceleraria o contrabando de insumos de guerrilha vindos da Venezuela e Cuba: fuzis, munição, explosivos, pessoal capacitado. Reteria uma parcela do MST para ir operando a logística: receber, transportar, “aquartelar” os insumos estrategicamente por todo o Brasil. A outra parcela do MST, talvez até minoritária, iria para as ruas cumprir seu papel de fachada. O importante seria ter um Boi de Piranha, para chamar e reter a atenção pública e livrá-la de perceber a preparação da guerrilha. Esta seria a preparação para uma segunda linha de resistência.

Faltaria uma “false flag”. No caso, bastava colocar um PTista qualquer para, vestido de verde e amarelo, armado, matar alguém do MST ou simular um atentado contra algum PTista do alto escalão (ou contra uma sede emblemática do Partido). Pronto, este estopim seria aceso no momento certo, caso o Projeto do PT fosse, de fato, sofrer o golpe fatal por parte dos instrumentos jurídicos institucionais. Se a primeira linha de resistência ainda existir, afinal, suponhamos que houvesse algum êxito em mobilizar os “Excluídos do Mundo” (como chamava Ernst Bloch), ela poderia ser reforçada/inflamada se o false flag envolvesse algum tom sórdido ou sádico (como o assassinato de uma família “inocente” de algum assentamento do MST). Toda a grana mandada pra fora, pra os “camaradas” vermelhos (Cuba, África, América Latina), seria cobrada de volta por meio de armamento e apoio.

Aí a segunda linha, de guerrilha e das vias de fato, emergiria com alguma desculpa moral ou justificação romantizada que caísse bem aos olhos do “mundo” (leia-se a “intelligentsia” midiática progressista-humanista, por vezes de Esquerda, do mundo).

Se – SE – com a emergência da ação de Guerrilha não se alcance êxito rápido, suponhamos que houvesse uma resistência cidadã armada espontânea com apoio de setores das PMs estaduais, entraríamos na terceira linha de resistência que seria o chamado oficial para as Forças Armadas da Venezuela (e Bolívia, talvez Cuba) entrarem ou apoiarem. Comunistas de toda a América Latina viriam para uma tão sonhada “guerra santa”. Obviamente, que neste ínterim, teríamos um terrível “maiden”, pelo menos nos grandes centros como SP e Brasília, que traria a superfície os tentáculos Bolivarianos e do Tio Sam (se bem que, neste momento um Trump da vida tem preocupado mais o stablishment lá que uma possível ascensão do “comunismo” no Brasil), de modo que muito tristemente, deixaria de ser algo pelo Brasil e passaria a ser algo pela “Pátria Grande” bolivariana ou pelo jugo Yankee. Seria a realização depressiva da nadificação do país: ou um grande apêndice bolivariano ou um grande quintal yankee.

Ora, algum leitor talvez pergunte, por que deixei de fora as FAs do Brasil?

Bem, suponhamos que a amizade de uns generais com o então Ministro da Defesa, o comunista Aldo Rabelo, seja, de fato, verdadeira. Suponhamos também que seja verdade a conversa de que a ABIN estava monitorando o juíz federal Sérgio Moro e repassando os informes para o Governo, ou seja, agindo em favor deste governo. Suponhamos também que, os setores radicalmente anti-PT das FAs estejam na reserva, herdeiros do imaginário da Guerra Fria, esbravejando espumantes mas presos, pelo dever assumido noutros tempos, hierarquia ou pelas condições gerais e que, no final das contas, prevaleça o entendimento entre os que estão na ativa de que este governo é o legítimo e que deve ser mantido a todo custo. E por último, suponhamos que, de fato, as FAs não desejem “se queimar” intervindo. E mais, no pior dos quadros, não saberíamos em favor de quem se poderia dar tal “Intervenção”, já que, para o bem e para o mal, o pessoal de hoje não é o mesmo dos anos 60.

Se tomarmos estas suposições, as FAs não interfeririam até romper, de modo quase “regular”, uma guerra civil de fato. Ou seja, talvez já depois de atores bolivarianos mostrarem as caras à luz do dia em solo nacional, e dependendo do nível, na superfície, da tensão geopolítica mais ampla, a intervenção poderia ser em favor de qualquer dos lados, para a decepção dos que sonham com uma Intervenção Militar nos moldes de 64.

Ou seja, em modo de tudo ou nada, de Guerra Total, o PT teria mais meios de resistir do que pensa boa parte daqueles que o PT chama de “classe média” ou, simplesmente, de golpistas. Resta agora saber confabular, imaginar e exercitar o pensamento de como seria na outra perspectiva, imaginar a derrota final do PT.

Programa Milênio – Algumas entrevistas recentes

Saudações.

 

Pelo que pude ver, pareceu-me que o tal programa “Milênio” é o que a Globo melhor produz em termos de programação intelectual – nem sempre os entrevistadores aproveitam bem os entrevistas (mal comum de jornalistas, creio), mas mesmo assim é interessante que a iniciativa vinda de quem vem.

Reuni aqui o link para algumas entrevistas recentes direto do site da Globo – se alguém tiver os ditos programas em algum canal do Youtube, por favor, repassa o endereço nos comentários, ok?

 

“Julian Assange fala sobre seu livro que aborda o futuro da Internet”

“Sociólogo escreve livro sobre a Guerra Global das Mídias”

“Gilles Lipovetsky fala sobre o conceito de Hipermodernidade”

“Nós hipotecamos o mundo” – Zigmunt Bauman

Saudações.

e

Na primeira parte desta entrevista (já “antiga”), creio que o sr. Bauman tenha um tanto quanto subestimado o caráter étnico das revoltas londrinas de 2011 que não foram somente/simplesmente retaliações de “consumidores desajustados” para com a “Sociedade de Consumo” – só isto, meio que “aliviava” a barra dos vândalos sob a ótica da justiça social. Mas enfim, não deixa de ser uma entrevista interessante.

Da Sacrossantidade da Democracia

Saudações.

A Democracia brasileira é uma festa. No mau e no bom sentido. Claro, há pessoas festeiras – para quem nunca há males em festas, pelos menos, males reais. O coro uníssono de elogio a esta Democracia é repetido hipnoticamente por todo lado, em cada canal televisivo, em cada estação radiofônica, em cada postagem das redes sociais. Na alta cúpula e nas esquinas esquecidas, no bendito estrangeiro e no profano local. Academicamente, é uma das hegemonias mais consolidadas do país, intocável, sob pena de se incorrer nos piores pecados que se possa pensar em nosso tempo: militarismo, fascismo, idealismo etc. (afinal, como é bem sabido, se perdoa tudo – assassinos, estupradores, etc. – menos fascistas, militares e racistas independente de serem pessoas incólumes criminalmente, pois do mesmo modo que o pecado já é pecado na mente, antes de se tornar ato, ser exteriorizado; este tipo de sujeito já está condenado de antemão, mesmo que nunca efetue crime algum ao longo de sua vida). Há, pois, uma áurea divina por sobre a Democracia, adorada oficialmente na cátedra e nos corredores, pela Esquerda ou Direita, pelo Conservador e pelo Liberal, pelo Ateu e pelo Religioso. No plano discursivo internacional, isto é evidente: se faz guerras e mais guerras para se impor esta maravilha da tecnologia política (alguém falou nos EUA?).

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Bem, deixa-me divagar um pouco em minhas lembranças e reflexões sobre isto:

Anos atrás, participei de um evento acadêmico em Campina Grande onde o Prof. Dr. Peter P. Simpson (Universidade Pública de Nova York) deu uma maravilhosa conferência analisando a constituição estadunidense sob o prisma de Aristóteles. Isto talvez pareça irreal, mas na ocasião me soou simplesmente genial. O sujeito, parece-me, havia até escrito um artigo em grego antigo – como se fosse o próprio Aristóteles a comentar a tal constituição. Na época, eu não estava familiarizado com Aristóteles e muito menos com sua Política, na verdade, esta ocasião foi um motor para ler o estagirita; daí que não estava lá equipado para verificar decentemente o trabalho. Mas na ocasião havia gente que estava, gente de peso do Helenismo a nível nacional e internacional. Isto me fez pensar, seriamente, na possibilidade de uma “crise” teórica em relação à Democracia, em especial como configurada cá; ouvir este artigo me veio como um raio, um estalo luminoso num vão de penumbra densa. Por um momento, julguei haver compreendido algo. Basicamente, o artigo defendia que vivíamos uma Oligarquia/Plutocracia-demagógica, travestida de Democracia, fundamentada numa falsa oposição entre dois campos partidários. Seria um sistema “complexado”: é uma coisa, mas se diz e faz crer ser outra; internamente contraditório (propondo-se igualitarista, mas promovendo uma desigualdade real nas chances eleitorais de acordo com a origem e posses do candidato), que endogenamente não o permitia funcionar de forma sã. Esta análise pareceu-me bem justificada com os casos concretos nos quais se baseava. Quando mergulhei nos livros 8 e 9 da República de Platão, este eco somou-se as críticas platônicas à Democracia (algumas duras) e pela primeira vez, fundamentadamente e que me recorde, passou-me pela cabeça que esta “preciosidade” tão propagandeada como tal, pela mídia e pela intelligentsia, talvez não fosse como mostrado na embalagem.

Na leitura dos contratualistas, John Locke em especial, é convincente em sua defesa e nos aponta a tendência de que entre males o menor, de modo que um sistema (mesmo que funcione mal) que resguarde e assegure as liberdades pessoais é preferível a um que não o faz; e isto é o grosso do grosso até hoje do discurso mais elaborado e enfeitado que há para defender uma democracia “ruim” (pois, para estes é simplesmente uma contradição de termos: “democracia” e “ruim”, pois ela é em si mesmo, sempre e absolutamente, boa) ante uma ditadura/tirania “boa” (como se só existissem estes sistemas). Mas logo em seguida Rousseau joga um balde de água fria dizendo-nos que tal Democracia (que só poderia ser, preferivelmente, direta) funciona apenas em pequenos e limitados Estados; ou seja, caso esteja certo, num país como o Brasil, a Democracia (que seria direta) estaria reduzida a cidade pequenas (talvez com menos de 20 mil habitantes) e o governo federal estaria sob um regime diferente (Rousseau considera que estados territorialmente grandes funcionam bem com Imperadores/Monarcas). É um balde de água fria quanto as pretensões e aplicabilidade efetiva da Democracia, não contra o sistema em si. Para a época, uma Monarquia decadente e esnobemente ridícula, parecia ser a encarnação do mal e do atraso sobre a terra que nos faz esquecer as monarquias liberais da época (como a Holandesa). Parece que lentamente uma simbiose entre Democracia e Liberalismo, no desenvolvimento da Modernidade, tomou forma e arraigou-se profundamente e jaz velado, como se lá sempre estivesse, de modo que nem é percebido, seja no ideário popular (coisa de se esperar) seja no ideário acadêmica (aí, por definição, não seria muito de se esperar) – gerando uma áurea sedutora e brilhante de santidade. Não sei dizer se seria uma espécia de santidade laica – pois profanadores de santidades religiosas não ousam sequer profanar esta – ou de uma origem religiosa que se pretende laica.

Esta áurea que impõe cegamente sua observância, é ela própria, por incrível que pareça, um tanto quanto “anti-democrática”. O clima de policiamento ideológico direto ou indireto pela sua crítica ronda as mais diversas esferas e do modo mais eficiente, aproveitando os mais bem intencionados e comprometidos com o “Justo” para seus paladinos. No íntimo, no escuro da madrugada, o sujeito sente-se mal por pensar em criticar a Democracia ou por supor que há uma falha no processo, não é só uma questão de arrebatar respeito alheio (incluindo o tal prezado ‘respeito intelectual’ de gente “Intelectual”), garantir e assegurar mais seguidores nas redes sociais ou ser do “Bem”, “Descolado”, ficar bem na fita com aquelas meninas feministas vintage. Não, a coisa é mais séria. E mais profunda. Primeiro que enquanto não se rejeita a premissa igualitarista do modernismo, não rejeitar-se-á igualmente a base da Democracia moderna. Outro ponto submerso, é da real identificação entre o analista e o público alvo que opera a Democracia – quanto mais identificado e integrado (e muito importante também: beneficiado), menos condições de afastar-se seguramente e/ou objetivamente. E um terceiro ponto velado, é o da análise franca (de verdade, sem os preconceitos e hábitos democráticos de pensamento arraigados) de outras possibilidades. É mais fácil não se chegar a lugar algum, quando se está, a priori, indisposto a partir. O indivíduo que parte, sem destino, mas parte, provavelmente chega a algum lugar, talvez não um prazeroso ou adequado, ou um que ele saiba onde é, mas chega, mesmo que para ficar perdido lá.

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Por definição, a Democracia deve ter espaço até para os anti-democráticos. Sim, se um partido monarquista, por exemplo, organizasse uma estrutura que paulatinamente fizesse com que suas ideias fossem cada vez mais ouvidas, de modo a constituírem expressão hegemônica da preferência nacional – de forma que com o tempo propusessem (como em 1993) um referendo (ferramenta legítima democraticamente) para a instauração da Monarquia e assim fosse aceito, tal mudança seria democraticamente e politicamente legítima, dentro dos ideias da política moderna (de cunho contratualista). A democracia, em si, contém a possibilidade de sua dissolução: o espaço para o anti-democrático, aceito democraticamente. Nisto reside, por exemplo, o medo dos laicistas para com um estado teocrático: e se a maioria religiosa assim desejar? Talvez aqui alguém reclame que uma constituição democrática decente (e aí esta o mérito de avaliarmos a nossa) salvaguarda o direito da minoria de não ser oprimida pela maioria (como os EUA tanto se gabaram em sua constituição, em oposição à francesa). Em termos de realpolitik depende de até onde a maioria, ou os seus representantes, estão dispostos a ir ou a respeitar certas cláusulas constitucionais. Qualquer um que olhar em retrospectiva nosso passado golpista e tumultuoso verá que isto não foi barreira – eis certa miopia de alguns libertários que acreditam que basta diferenciar “Democracia” de “Ditadura da Maioria” que se resolve tudo.

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Mas por que estou eu tocando nesta tecla?

Simples. Em cidades pequenas (as metrópoles, pela própria dinâmica genuinamente multicultural e cosmopolita, funcionam de outro modo) como a que eu vivo, a face decepcionante da Democracia brasileira aparece. Não se trata de satisfação com quem ganhou ou perdeu – até porque desde que me entendo por gente, se trata de escolher nestas eleições, na grande maioria das vezes e em especial nesta, o menor dos males; muito raramente de escolher bens. Se trata do processo e do modus operandi do povão. E não há desculpa de “amadurecimento” no mundo que a revogue. Como se o “amadurecimento” fosse um lei/meta natural do povo, como nas frutas das árvores, como se o povo, mesmo sem instrução e cultura, além de cegamente ir desprezando o passado, chegasse inexoravelmente com o tempo. É o pressuposto moderno do Progressismo, da melhora moral/espiritual da humanidade (do mesmo modo como ocorre com a melhora tecnológica). Confiar neste pressuposto (do progressismo moral) é um ato de fé que se passa por lei científica positiva. A turbe desorganizada, caótica, do populacho cego, desorganizadamente ruidoso e coloridamente bizarro, movido a um fanatismo que beira a loucura declarada em sua repulsa virulenta a qualquer tentativa de análise desapaixonada, em seu apego raivoso à revanche mais mesquinha e à ruindade mais genuína, centrada cegamente no interesse particular imediato e na vontade de destruir, extravasar no escarnecimento e humilhação alheia em um misto de idolatria ébria e calculismo sádico. Claro, também há espaço para o narcisismo internético (cujas redes sociais amplificam e alimentam) e o júbilo pelo “ser visto”. Este processo tosco de uma espécie de “purificação” feita nas custas é o resultado último, suspeito, da situação em que nem a Religião, nem as Artes, nem o Orgulho Identitário oferecem mais um direcionamento das pulsões acumuladas do povo, em especial das camadas mais baixas, não mais possibilitando catarses saudáveis do coletivo. Se assim é, eis um sintoma de que estas coisas (Religião, Artes, Identidade) devem ser readequadas, e não de que estas reações “democráticas” excessivas sejam desejáveis. A cada eleição certos comportamentos animalescos (com todo respeito e possível injustiça com os animais) parecem ganhar um pouco mais de fôlego e subirem à conivência dos que se vêem como intelectualmente responsáveis ou comprometidos com o melhor para sua comunidade.

Ok, há quem diga que isto é “amadurecimento”. Há quem diga muita coisa (e acredite em muita coisa). Inclusive que há oposição séria entre os socialistas PT e PSDB.

Ou que o PT e Maluf não coadunam.

Não é uma questão elitista. O Marxismo falhou terrivelmente em separar o mundo pelo viés de quem tem dinheiro e quem não tem, criando uma oposição absoluta e reducionista, como teoria científica – mas venceu em moldar a visão subsequente nesta dicotomia materialista. Não se trata de um discurso “burguês” (do Mal) contra um genuinamente do povo, proletário (do Bem), como se não existisse mais nada entre, antes e depois disto. Como se não fosse claro, como o foi em todas as épocas e povos tradicionais, que uma coisa é a elite econômica (plutocrática/oligárquica – as diferenças materiais), outra a elite intelectual (verdadeiramente aristocrática – as diferenças espirituais/intelectuais/morais). Como se todo membro de uma fosse da outra e vice-versa. Não é uma questão elitista. É uma questão oriunda da vivência concreta, da imersão no turbilhão caótico da “Festa da Democracia”. Por que devo me eximir de fazer perguntas como: isto é realmente o melhor? De onde vem esta tão resoluta e orgulhosa concordância, especialmente por parte desta geração? Viria da real “consciência histórica” de uma (suposta) tendência anti-democrática no passado? É esta mesquinharia populista que deve ser institucionalmente incentivada? Devemos, realmente, comportarmo-nos acriticamente, como se tudo estivesse perfeitamente bem? Devemos renegar nossa possibilidade de discordância sã ou ao menos de desconfiança?

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Dizer que estou satisfeito com este Jogo seria uma mentira descarada. Não posso dizê-lo sem incorrer numa baita mentira. Mas isto sou eu, claro. Primeiro, discordo das regras do Jogo (como a do Coeficiente Eleitoral e da Legenda), segundo, (e é necessário certa coragem para dizer isto) tenho sérias suspeitas de que alguns dos meus concidadãos não votam seriamente. E não é que não o fazem por serem “pobres”, “humildes” ou por não haverem tido certa instrução formal. Não. É uma questão de caráter mesmo, de natureza humana. A crença iluminista/romântica (na verdade, rousseuniana) em um povão que é o Bom por natureza, populacho que é o reduto do que há de absolutamente bom em um povo, é um exagero forçado e moralmente comprometido (com o ideal cristão de humildade) vindo do sentimento oposto: o da nobreza arrogante que trata o povo como completamente incapaz. De um extremo ao outro. E eis o intelectual do povão (o “orgânico” no dizer gramsciano), o paladino de sua imaculidade e pureza moral; ah povão… sinônimo de altivez moral impecável e honestidade incorruptível… tão explorado e oprimido, tão massacrado e vitimado!

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

Há algo a se comemorar desde a redemocratização do país, óbvio, mas há algo a se lamentar. Cegamente só enxergar o primeiro – sob o escudo de uma ditadura (isto é hilário vindo de comunistas, uma vez que, rigorosamente, o Comunismo é ditatorial), seria desonesto e, ouso dizer, daninho. Assim como, de modo totalitário, não permitir qualquer pensamento discordante sobre a sacrossantidade da Democracia. Não é uma questão relativa apenas à eleição de minha cidade, claro – o que aqui ocorre, creio que deva estar ocorrendo em outras cidades pequenas pelo interiorzão do nosso Nordeste. É uma questão mais geral. Fechar os olhos e ignorar que haja problemas em nossa democracia (e eximir o “povão” do seu quinhão de culpa) é irreal; quem o faz ou está interessado (em demagogia, reconhecimento intelectual barato, manter o status quo, ficar bem na fita, usufruir do jogo etc.) ou é inconsciente, “tem os olhos bem vendados ou os bolsos bem cheios” (parafraseando o intelectual patoense Allyrio M. Wanderley em se tratando do Separatismo).

Em tempo, trato aqui de um alerta simples e nada espantoso, nada de exoticidade anti-democrática: não livremos nossa realidade política – não só em seu conteúdo (personalista, partidário) mas em sua forma e modus operandi também – de nosso exame e nossas críticas. O próprio jogo democrático, em sua essência, pressupõe o não-conformismo e a auto-crítica: e não apenas em relação às cores e rostos, mas também a certo conjunto de regras.