E eis que fui ler o Corão…

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Diante de opiniões tão inflamadas acerca do Islã, é fácil deixar-se ser guiado por simpatia ou antipatia a um certo “bloco”, com o qual, por n motivos, previamente nos identificamos. Afinal, seria toda a questão da “Islamofobia” uma simples construção yankee imperialista para instrumentalizar certa “direita”?

Bem, eu ganhei uma versão do Corão anos atrás em um evento e resolvi fazer o que mais prudente me pareceu para tirar minhas próprias conclusões: ler. Claro, tive certo treinamento, digamos, filológico e hermenêutico (em minha formação em Filosofia) e estou demasiado ciente da importância do idioma original, etc. especialmente em textos que são vistos como registros literais das revelações (diferentemente dos evangelhos cristãos, por exemplo). Mas, estudar o idioma árabe apenas para esta leitura não me pareceu necessário: nas partes em que desconfiei mais da tradução, recorri as ferramentas virtuais (abundantes!) em inglês, que comparam e comentam o árabe original. Bem, ainda não terminei a leitura (estou caminhando para a metade e, confesso, desestimulado), mas resolvi postar cá umas primeiras impressões e reflexões. E claro, é bom dizer em bom som: não sou um especialista em nada disto, tratarei o texto como alguém “de fora”.

Comparado aos textos do Cristianismo contidos na Bíblia cristã (“Novo Testamento” e as cartas de Paulo, etc.), o Corão tem me parecido mais, na falta de uma palavra melhor, “potente”: as revelações se deram a Maomé em diferentes momentos, mas mantém uma maior coerência interna (o que seria de se esperar, no final das contas, é um texto de “uma só cabeça”, diferente dos evangelhos). Talvez o que se possa comparar melhor, neste sentido (de um só autor “inspirado”), seja as próprias cartas de Paulo, mas estas, diferentemente das suratas do Corão (apesar destas também condensarem momentos teofânicos, digamos), foram escritas para comunidades cristãs diferentes e focadas em questões específicas daquelas comunidades. Além disto, há uma retórica mais inflamada e que transparece, de fato, um maior estado de “transe” ou influência mística na escrita de algumas das suratas, em oposição – novamente – a uma prosa mais “tranquila” que predomina nas cartas de Paulo ou na redação de alguns dos Evangelhos. Talvez, caso eu não esteja enganado, este tipo de “atmosfera” discursiva na Bíblia cristã, para comparação, aparece mais em um texto como as Revelações, por exemplo. Pelo menos foi a impressão que ficou em mim.

Ainda em termos de uma certa estilística, pelo pouco que conheço, o Corão traz certas repetições de frases específicas que – não procurei, nem terminei de ler o texto ainda – talvez formem um padrão: e isto seria um apontamento significativo para certa transmissão oral do texto, antes de uma versão escrita final. Mas não conheço absolutamente nada da formação histórica do texto e talvez seja uma divagação errônea.

Em termos de conteúdo, de doutrina, a leitura do Corão me deixou claro certas coisas até agora. Há sim, incontestavelmente, uma instigação a dominação e expansão guerreira, em termos que agradam qualquer um que tenha um mínimo de virilidade. Mas há, justamente, aquele radicalismo exclusivista ainda mais forte e uma instigação direta ao assassínio de infiéis. Eu como um infiel, não posso deixar de notar que estou na mira de muito do que é exposto ali. É um fato, não é conversa de “islamófobo”. Alguém dirá “ah… mas a Bíblia também tem”, bem, eu retrucaria dizendo: “ok, leia o Corão e depois a gente conversa”.

Particularmente, valorizo o aspecto guerreiro às claras, direto, sem subterfúgios, e não seria diferente do que tem nisto no Corão; no entanto, como caio na “carapuça” do inimigo traçado lá, até por ser o tipo de “idólatra irremediável”, é óbvio, que não tenho como não me sentir incomodado pelas ameças e promessas de destruição. E nisto preciso ser claro: não há um Corão dos sunitas e um outro diferente dos Xiitas, não adianta virem cá dizer que “ah… são os alauítas radicais”, ou “ah… são wahabitas financiados pelos yankees isso e aquilo” eu retrucaria, mais uma vez com “ok, leia o Corão e depois a gente conversa”. As passagens (que são muitas, na 2ª surata e 4ª, por exemplo, há as mais memoráveis para mim, até agora) são claras; contorcionismos interpretativos para torná-las “pacifistas” e “brandas” não passam de subterfúgio… Leiam, não acreditem em mim.

E aqui, me vem duas surpresas até agora: a primeira, é a instigação religiosa a migração (hijra) e conquista (de terras não islâmicas). Sim, isto existe e tem um peso de mandamento moral, tanto que, o sujeito que “se nega” a migrar (o sujeito que ama a própria terra e país), o próprio Alá o desaprova (4:95). O segundo é um certo tipo de comportamento de infiltração, fingido e subversivo que fica nas estrelinhas (talvez a afirmação mais literal seja em 3:28), a taqiyya. Para mim, isto foi uma certa surpresa: no meu pré-conceito inicial, não achava que tal coisa estivesse de fato no texto, mas que fosse fruto de comentaristas posteriores (e de fato, este conceito é massivamente desenvolvido nos comentaristas posteriores, xiitas e sunitas, apesar de mais nos primeiros). Confesso também que, a constante retórica anti judaica (a anti cristã tende a ser menos incisiva) me surpreendeu – novamente, antes de iniciar a leitura, partia do princípio que tal disposição fosse histórica e “posterior”, digamos, oriunda dos conflitos políticos locais.

Bem, aí entram minhas rapidíssimas e modestas reflexões. Nesta altura, não me parece lógico alguém que seja um idólatra irremediável celebrar “parceria”, qualquer que seja, com o muçulmano. Um politeísta que louva qualquer iniciativa que promove o Islã (seja xiita ou sunita) ou é um ignorante, e está sendo iludido, ou é alguém que, talvez não seja politeísta de fato, pelo menos não um tipo que deseje viver sua religião em liberdade. Outra coisa que não me parece lógico nesta altura, é gente que condena o comportamento de infiltração subversiva dos judeus, atribuindo-lhes toda sorte de desgraças e perigos, nas sociedades ocidentais não dar um só pio em relação a algo tão claro como perigo de subversão política e cultural da taqiyya (aliada a hijrah) entre os muçulmanos, que, virtualmente, torna qualquer um deles, não-confiáveis a priori (lembrando que o Corão autoriza claramente o muçulmano a mentir e trair os idólatras, vd. 9:3 a 5). Condenar um (suposto) e não outro (que é textualmente factível), ou é fruto da ignorância, novamente, ou de uma preferência velada pelo jugo mouro.

Infelizmente (pois, me pareceu decepcionante, de fato – além de que é uma espécie de “dar o braço a torcer” a pessoas que antes julguei exageradas), para mim já ficou claro, com o que li (tanto que, a preguiça já me diz que nem preciso ler mais, nem preciso terminar de ler o Corão, o que li já basta…) que, invariavelmente, não há “acordo” possível. Minhas pré-disposições oriundas de um otimismo místico guénoniano se foram de uma vez. Como cerrar fileiras com isto?! E vejam que não quero entrar nas questões históricas do que politeístas sofreram ou que estão a sofrer (hindus, politeístas indo-europeus, familiares religiosos nossos, por exemplo) neste momento.

Quando decidi postar isto cá, pensei por um bom tempo se, ao invés de uma postagem deste tipo eu não deveria simplesmente sair copiando e colando versículos de suratas que, no meu ver, falam por si. Claro que, sempre ficaria aquela conversa de “recortes” fora do contexto e de propaganda da “oposição”, etc. Já que estou terminando esta postagem advogando por um distanciamento. Mas desisti: não é preciso isto, antes é mais prudente pedir aos interessados que leiam e tirem suas próprias conclusões.

Se por um lado, temos divergências radicais com o cristãos, ao menos possuímos um histórico civilizacional comum, e podemos estabelecer certas zonas de diálogo ético, pela base helênica (e indo-europeia, gostem eles ou não) nesta matéria que compartilhamos. Mas com o muçulmano, por mais que admire sua disposição guerreira, partimos de um histórico civilizacional não apenas diverso, mas agonístico: olhando para a Reconquista na Ibéria, só consigo me ver batalhando do lado dos meus ancestrais cristianizados… E por mais que estes, olhem para mim hoje com reservas por ser um “idólatra”, entusiasta dos deuses dos nossos ancestrais ainda mais antigos, eu (EU) sinto que homenageio o esforço deles, minimamente, não me curvando em namoros com o Islã: não por pura “birra”, mas justamente, por entender melhor contra o quê eles lutaram, tombaram e venceram. Não se sacrificaram em vão. Pagar a jizya, no final das contas, é o que (eles, os muçulmanos) nos propõem, caso não nos convertamos ou sejamos mortos.

Talvez isto pareça decepcionantemente simplista e seja mais fácil me culpar de “desinformação” ou de ter sido cooptado, ou o que seja. Mas “pagar de pró-muçulmano” por ranço anti-yankee ou por desaforo anti-conservador, seja lá como for, é uma atitude adolescente e perigosamente ingênua. Se tu, leitor, achas que estou sendo precipitado ou preconceituoso (sendo instrumentalizado pelo complô liberal-conserva-xenófobo, ou seja lá como desejas chamar), ótimo – desde que isto te instigues a ler o Corão e tirar, tu mesmo, tuas conclusões.

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Reflexões sobre um ‘Império Pagão’ e o Brasil

Após a leitura de um texto do filósofo pagão Alain de Benoist, senti que parte das idéias manifestas tempos atrás (diante na nebulosa leitura do “Imperialismo Pagão” de Julius Evola) sobre certos temas políticos foram organizadas com maestria. Mesmo para quem, profissionalmente, lê filosofia, não deixa de ser impressionante a capacidade de síntese e formulação de certos sujeitos. Recomendo ao leitor aventureiro que por ventura cá aporte, que leia o texto do filósofo francês antes de prosseguir cá. O nosso, talvez, seja uma mera “sombra” projetada timidamente em direção aos Trópicos.

E talvez uma sombra “fuleira”. O tema é por demasiado complicado, requer mais estudo e leituras de minha parte (confesso) e por isto mesmo, muito resisto em divulgar pensamentos cuja lapidação ainda não me transparece a segurança necessária que este tema requer. Afinal, é fácil passar-se por ridículo em tais questões e mais fácil ainda cometer deslizes. Além de que, idéias “esdrúxulas” e pouco presentes nas discussões mais cotidianas, tendem a cercarem-se de uma aura de excêntrico para além do normal. Mas o faço por achar necessário chamar atenção para o tema, mais do que para arvorar-me de propor uma solução e uma palavra final. Para alguém que estuda filosofia, entrar numa discussão ou mesmo acompanhar uma certa reflexão é sempre mais penoso quando não há um claro rigor conceitual e termos elucidados previamente. Infelizmente, não me ative a elucidação conceitual prévia por motivos econômicos: acreditei que deixaria o texto maior ainda, mais prolixo e como se tratava de algo a ser reelaborado depois, tomei a liberdade de usar termos como “dissidência”, “nacionalismo” de modo um tanto quanto intuitivo. Vamos lá.

Falência da República Nova?

Diante das tremendas reviravoltas políticas que mergulharam o país em águas turbulentas e muito sujas, cresce, cada vez mais, o sentimento de que, de certa forma, a República Nova está falida. Que o Sistema todo está viciado, corrompido e que, não só não funciona agora, como, muito provavelmente, não funcionará mais (se é que algum dia funcionou bem). Ou seja, que o problema é endógeno e existe a priori no Sistema. Uma vez que cresce a percepção de que o problema é o Sistema em si, cresce a percepção da necessidade de alternativas globais, não para salvar o Sistema, limpando-o, reformando-o, mas para substituí-lo eficazmente. E aí que ganha corpo os projetos e fabulações: gente que defende intervenção militar e um regime de exceção, gente que defende que é a hora de organizar um levante “popular” comunista para tomar o poder (a retomada, pelo menos retórica, do discurso “Radical” na Esquerda), gente que defende que a única solução é que o Estado seja abolido para que possamos viver num suposto paraíso anarco-capitalista, etc. Abundam soluções de Reforma Radical, ou melhor, de Substituição do Sistema, mais do que de “reforma” do mesmo. Creio que não seja tolice falar que tal reivindicação cresce. Dentro desta perspectiva, claro, também ganha espaço timidamente a Causa Monárquica, encabeçada por um setor minoritário de católicos e de conservadores em geral.

De repente, todos apontam soluções e dão seus pitacos: é a própria conjuntura que clama. No entanto, há muitos (a Grande Mídia, por exemplo?) que preferem alimentar a visão de que os problemas manifestos são meramente contingentes e não propriamente estruturais, e que tudo se resolverá com a mera substituição do conluio de partidos que nos governa: basta uma nova eleição e, voilá, “zerou” tudo, daqui pra frente tudo estará bem porque… aprendemos a lição e os mesmos erros não serão repetidos, certo? Os que se beneficiam do Sistema que aí está, são, óbvio, os primeiros a desacreditarem e ridicularizarem as concepções que apontam para a localização do problema no próprio Sistema e não só nos agentes e operadores corruptos do mesmo. De outro lado, certo estado de letargia e ignorância sobre as possibilidades, a real ausência de um debate que discuta e publicite as percepções sobre os problemas do próprio Sistema e não apenas de seus agentes contribui para formar uma cortina de fumaça e para, por a cumplicidade calada, fazer a “ridicularização” ter eco. Ainda não se criou o clima que houve no plebiscito sobre a instituição da Monarquia em 1993. Liberais e Socialistas de variegadas matizes se unem, como esperado, para rirem juntos de uma alternativa monárquica, ou militarista, ou o que quer que seja (especialmente quando saí dos limites modernistas), com o aplauso da Mídia e dos Bancos: a final, a elite progressista e “prafrentex” está empenhada em fazer o mundo “progredir”, não em “regredir”, certo?

As saídas que nos apontam, as saídas de sempre.

As alternativas, mesmo na manutenção do Sistema, de certo status quo, nos são apresentadas pelos atores políticos majoritários como uma espécie de luta para sermos dominados escondida num jargão economista e “patriótico”/anti-imperialista-yankee: ou formalmente pelos EUA, como capachos obedientes e orgulhosos, ou formalmente pela Venezuela/Cuba, como um capacho musculoso orgulhoso. Com a saída formal do PT do Governo do país, a via “Bolivariana” perdeu um pouco de força, pelo menos em termos institucionais, na própria acção do Governo. Mas os seus rancorosos defensores, ainda guincham, azurram e coiceiam chamando atenção a cada tropeço, alimentando esperançosos o ar trotskysta de “quanto pior, melhor” e espumando ávidos pela vingança. Por outro lado, os que encantados pelo desejo de serem os EUA do hemisfério Sul, decepcionados, começam a deixar claro que aliar-se com patriotas/nacionalistas e conservadores já não basta, demarcando com clareza a linha divisória entre os paladinos joviais do Libertarianismo (Instituto Mises, MBL e demais) dos trogloditas “reacionários” retrógrados estatistas (religiosos, “bolsominions”, viúvas-do-Enéas, etc.). Finalmente, como esperado, Liberais e Conservadores começam a perceber que possuem agendas diferentes. Além de que há muito a amadurecer em certos debates. Os liberais, por exemplo, louvam certas coisas como se fossem grande invenção do Liberalismo e os Esquerdistas automaticamente se tornam contrários, apenas para contraporem ao que os ditos liberais clamam e vice-versa, sem que ninguém busque compreender mais fundo mais nada. Um exemplo besta: na Antiguidade nem no mundo Medieval o que podemos comparar com poder “público”/Estado obrigava ninguém a pagar algo como o nosso FGTS e nem por isto uma pessoa em sã consciência chamar-lhes-ia de “liberais” (poderíamos estender para assuntos como Universidades/Academias privadas, etc.). Mas se o Governo decidir flexibilizar ou torná-lo facultativo, os liberais gritarão orgulhosos e buscarão registrar em pedra que tal foi uma vitória do Liberalismo. Claro, motivações podem até ter sido inspiradas por certos ideais modernos, mas o ponto é que nem tudo parece ser o que é, única e exclusivamente por que eu não gosto de quem estar a dizer. A cegueira historiográfica para tudo que antecede os últimos 200-250 anos é impressionante. Enfim…

O cenário de uma Esquerda que ainda está atordoada e com uma parcela significativa vivendo na irrealidade, de uma “Direita” que se divide e finalmente percebe que o entendimento entre Liberalismo e Conservadorismo tende a zero, seria o cenário perfeito para a emergência de uma via diferente, de um projeto que protagonizasse nossa liderança (Brasil) enquanto o poder inconteste da América do Sul, e não a nossa sujeição. Esta deveria ser a via para qual convergiria nacionalistas, descontentes patrióticos em geral (inclusive ex-brizolistas, diga-se de passagem), reacionários, certos religiosos, etc. Mas ao invés de fazer romper uma frente forte e ganhar espaço, não tem havido convergência numa via alternativa nenhuma, e parece até que se tem sufocado mais possibilidades de prosseguir, seja por puritanismo apriorista (como se um movimento político, desde de seu início, fosse petrificado e perfeito, como se não mudasse e se ajustasse com o andar da carruagem e certas contingências da Fortuna) seja por uma falsa percepção, mais comuns entre certos setores da dissidência, de que os problemas geopolíticos globais devem se sobrepôr a realidade local e tópica de certos problemas nossos. Soma-se a isso, a crença “viralatística” cega de que certos autores estrangeiros estão sempre em melhor condição de descrever a conjuntura de nosso país (e o fazem, muitas fezes simplisticamente, a partir de seus pressupostos geopolíticos prontos e sem terem acesso a informações “menores” – geralmente pouco destacadas na grande Mídia –  mas que apontam detalhes cruciais) do que nós mesmos. Nisto padece certa dissidência e certa ala da Direita liberal, mais do que a Esquerda propriamente. A cobertura do processo de impedimento da então presidente Dilma, por exemplo, foi claro neste quesito. Para mim (o leitor poderá ter uma posição diferente), pelo menos, ficou muito claro como as situações de conflito em países distantes também devem ser muito mais complexas do que o que é pintado por analistas e intelectuais (e pela Grande Mídia, assim como por instituições como ONU) para nós, ou melhor, para que nos posicionemos apaixonadamente do lado que gera a narrativa. Claro, como os sujeitos não estão cá, muito tem de ver com as fontes de informação às quais são expostos e que utilizam para gerar suas bases para extraírem suas conclusões. Mas ao ver gente estrangeira que admirava e respeitava, simplesmente repetindo a baboseira PTista de “golpe”, sabidamente falsa e mentirosa, abriu meus olhos para a prudência em ter um certo pé atrás quando estas mesmas pessoas descreviam, simplisticamente, certas realidades conflituosas em países distantes. Há lados sim, e como disse um amigo, por vezes nunca teremos como saber qual é o “certo” e simplesmente seremos cobrados a nos posicionar e lutar. OK. Mas isto não nos exime de uma certa prudência intelectual, especialmente quando não se é este tipo de sujeito que vive e se guia por gurus estrangeiros. Para mim ficou mais claro que é necessário mais ceticismo em certas abordagens.

A moralização do embate numa espécie de maniqueísmo declarado, gera seu esvaziamento político e uma transformação na luta entre o lado do Bem contra o lado do Mal (do “Satanás”! Veja que tanto Bin Laden, quanto Bush, quanto Dugin caracterizam assim o oponente em certos momentos) deveria ser o suficiente para despertar certo ceticismo nas mentes não tão afetadas pelo binarismo do deserto semita. A grande questão é que, de repente, do alto de nosso trono social-media, cegos pela análise de conjuntura distante e “inteligente” dos intelectuais que admiramos, julgamos saber mais e melhor sobre as situações do que os sujeitos que estão lá vivenciando a coisa na pele. É sobre esta postura petulante e imprudente intelectualmente que precisamos estar alertas. Este ponto merece ser frisado.

Há os que, apesar de concordarem que o bom mesmo, seria o Brasil não ser capacho/vassalo de ninguém, no final das contas, dada a impossibilidade disto, se inclinam na prática ou no fundo pensam que seria melhor ser vassalo de A que de B. É mais ou menos o que certos patriotas bolsonaristas dizem (preferindo os EUA) e mais ou menos o que aferimos de certos “dissidentes” (que preferem a “Pátria Grande” bolivariana)… Ambos se acham justificados, e conseguem certo malabarismo (mais ou menos cheio de movimentos espetaculares) discursivo para encorparem as respectivas posições. Mas talvez, também se achem justificadas as outras possibilidades que a estes dois interessa negar: voltar a Portugal (reestabelecer o Império Trans Atlântico!), ceder algo aos nativos, ou ainda, assumir tenazmente a não-sujeição ou entrega alguma! Fato é que, no final das contas, uma divisão permanece, se aprofunda, e vetores unificadores ainda não ganharam corpo para ocupar um espaço vital que, se não ocupado em breve por tais vetores, tornar-se-á refém (novamente) do acordão do status quo.

Erros da Dissidência?

A dissidência deveria, justamente, estar a lançar propostas e trabalhar vanguardas, justamente por estar (ou dever estar) criticando as duas tendências majoritárias; e por isto, talvez, haja mais linhas cá sobre ela do que sobre as demais, além de que, justamente por me sentir, pessoalmente, mais próximo e representado em certas bandeiras da dissidência do que por outras posições, me vejo na obrigação moral de expor o que me parecem ser os erros mais do que noutras opções. E claro, não posso deixar de parabenizar o trabalho de certos camaradas e de registrar que há acertos também. Apenas que para o que está sendo refletido cá, neste momento, precisaremos focar nas críticas.

Para os que se dizem tradicionalistas, persistir na aposta “política” ao invés do retorno às religiões é persistir no erro da modernidade: politizar a fé, ou usar a política para reestabelecer certa fé, ao invés de espiritualizar a política. Para um tradicionalista coerente, não há “ideologias políticas” dispostas no mercado moderno de opiniões, o que há é sua Religião. E só. Compreender a profundidade disto é alcançar a libertação do cárcere mental “militante”. A discussão sobre ideologias políticas é moderna, e as possibilidades de conversão/adoção delas, independentemente dos desdobramentos e consequências religiosas, só surge a partir da dissociação entre Religião e Política, só na Modernidade que faz sentido falar-se em “pagão”-liberal ou “cristão”-socialista; os próprios cristãos, pelo menos os católicos, perceberam que, de fato, a única possibilidade de ideologia política coerente para eles é… serem “Católicos” (o que significa serem distributistas-monárquicos!). Para os pagãos também e, antes ainda. Entrar no jogo de defender “ideologias políticas” é saltar direto para o Modernismo: o asatruar deve defender, politicamente, a Ásatrú, o helênico, o Hellenismos, o pagão romano o SPQR (seja imperial ou republicano), etc. Se não parece tão claro assim o que isto significaria em termos práticos, isto quer dizer que precisamos de mais filósofos e politeólogos nos digam, que mais estudos, reflexão e imersão são necessários, não é por não vermos facilmente tais coisas que devemos concluir, de uma vez por todas, que as mesmas não existem. Simples assim: não há ideologia política além da Religião. Nem uma primeira teoria política, nem uma segunda, nem uma terceira e nem mesmo uma quarta (se esta for encarada como “ideologia política”). É preciso esvaziar o conteúdo ideológico e retornar às grandes questões políticas: regimes de governo, legitimidade do poder político, Soberania e o papel do regente, Identidade e tradições dos povos, etc. Enquanto não se compreender que as grandes lutas, golpes entre reis, monarcas, imperadores (seja entre os Romanos, Gregos, Celtas, Germânicos, Eslavos, etc.) não eram por “ideologias” políticas: é incrível como as pessoas têm dificuldade de pensar a luta política, como algo além e anterior a briga entre liberais e socialistas, liberais e conservadores, etc. Talvez até, usando certa concepção schmittiana, possamos dizer que, dentro de uma perspectiva antiga (me refiro aos filósofos greco-romanos, mas também a visão aristocrática e monárquica germano-celta), a Modernidade gera o esvaziamento do Político. A ideologização da política, só possível ou majoritário onde o pensamento religioso não mais impera, é uma espécie de superstitio que leva a uma perigosa μανία, essencialmente, niilista, apesar de não ver-se assim.

Mesmo entre os que, inicialmente, propunham como resposta aos problemas do país o desenvolvimento da 4ª teoria política duginista, parece ter havido um retrocesso: ao invés de persistirem na profunda, honrosa e complexa questão metafísica do “Logos Nacional”, a partir da qual emergirá uma resposta genuína, preferiram retroceder (talvez pelo imediatismo juvenil da vontade de militância) a uma espécie de “brizolismo” mais ou menos velado sob o nome de “socialismo patriótico”. Para confirmar o mal-estar da situação, basta fazer o exercício contrário: substituir o termo “socialismo” por “liberalismo”; inclusive, leitor, quando a ver alguém curtindo ou fazendo propaganda de regimes comunistas, países ou de coisas do tipo, basta imaginar o contrário (ou seja, que estejam a fazer propaganda e curtir páginas de capitalismo, EUA, etc.) para ver o quão enviesada a coisa está! Mesmo na questão do Logos Nacional, excluir o passado Império do Brasil do itinerário formativo e de possibilidades válidas/positivas, faz tanto sentido quanto excluir o Csarismo russo do ideário formativo do Eurasianismo duginista. O próprio Dugin, inspirador da discussão toda nos termos de “Logos Nacional” numa parcela grande do meio dissidente brasileiro, já admitiu mais de uma vez que o Império russo, ortodoxo, mais do que a USSR, faz-se presente no horizonte mirado geopoliticamente. Por cá, ao invés de revisitarem toda a literatura (claro, passível de crítica e revisão) sobre Quinto Império, misticismo sebastianista, Nova Roma darcyribeirista, etc. voltam as forças para propagar Socialismo… É de um profundo mal gosto a babação abjeta da Comunagem e a louvação de toda desgraça vermelha por mera birra anti-liberal, fico pensando como estas pessoas seriam vista por um tipo radicalmente anticomunista que dizem admirar como o de Evola. Não deixa de ser espantoso ver quem diz “combater a Modernidade”, de modo muito eloqüente, fazê-lo com ainda mais “modernismos”: é necessário abandonar com desprezo o fetiche “proletarista”, banir o romantismo moderno por “socialismos, trabalhismos, libertarianismos, militância operária, etc.”, deixar de lado o jargão (e o sequestro mental decorrente dele) marxista e economicista. A verdadeira ruptura com a Modernidade será emendar o rompimento pós-Maquiavel: Religião/Ética-Política, mantê-lo, será um contrassenso para quem fala em superá-lo. Erram os que, posando de “dissidentes” ou o que o valha, querem ser mais comunistas que os que se dizem comunistas às claras. Erram os que dizem estar para superar as ideologias modernas e se recusam, com veemência, analisar ou reelaborar possibilidades aristocráticas, “teocráticas”, monárquicas, imperiais e mesmo de democracias diretas à Atenas (em pequenas cidades), forjando uma colorida nuvem de fumaça para encobrir a defesa final de posições modernas fracassadas, coloridamente somando esforços para salvar o fadado Socialismo por mero ressentimento antiliberal ou anti-olavético. É de se desconfiar se não há um trabalho de Quinta Coluna operando nisto tudo, enganando uma ruma de jovens com uma conversinha fiada.

Mesmo que a questão fosse apenas acerca de “ideologias políticas”, também erram por mirarem demasiado no “Grande Jogo partidário”. Deveriam ter compreendido que mirar em Brasília é desperdiçar munição na atual conjuntura, uma vez que o “Sistema” está blindado contra tais fogos – acreditam que podem replicar o mesmo procedimento que os grandes partidos da agora “oposição” (a Esquerda decadente, PT e cia.) para obter os mesmos resultados, sem notarem que o resultado é diferente e não só pela diferença de poder de fogo: ao invés de se fortalecerem como uma posição autônoma, terminam por só fortalecer os grandes partidos da mesma Esquerda decadente e a afastar possíveis simpatizantes e adeptos que, com razão, desprezam o esquerdismo mas que também não se veem nas loucuras dos libertários/neo-liberais. Além de que o foco da “propaganda”, o alvo mirado, deveria ser muito mais “local”: grêmios, associações de bairro, associações de estudantes, profissionais, etc. Aí sim, haveria mais efetividade no engajamento. Mirar em Brasília e recusar-se a “competir” com a Esquerda decadente em sua confortável zona de “trabalho de base”, me parece irracional e poderia dizer que se explicaria mais como uma evidência de quinta coluna. O abandono da militância (que, obviamente, vai requer uma adequação e uma “deserquedização” do discurso) sobre categorias profissionais chave, como policiais, militares, pequenos produtores rurais, etc. (ao contrário do que fizeram a FN na França, o Khrysi Augi na Grécia, etc. ) por mero “ranço” e preconceito contra a influência de um Conservadorismo “vago” e uma propaganda liberal (que ganhou espaço entre estes setores, justamente, por não haver vácuo de poder: se Esquerda não os mira ou se é alvo de seu “ódio”, os liberais, mesmo que inicialmente pouco simpáticos a estes, terminam por projetar influência) é um erro. Não parece muito tático, ou realista, decidir disputar espaço ou o mesmo público da Esquerda decadente, quando esta já detém o território/pessoal, estrutura, dinheiro, anos de domínio, os conceitos/linguagem, no final, buscando “ensinar a missa ao padre” como diz o ditado popular; abandonando por completo um público mais amplo e potencialmente tradicionalista (ou ao menos, mais afeito à religião) e/ou nacionalista por negar-se a reconhecer que muitos se tornaram influenciados por pautas liberais e sionistas mais por ausência de alternativa perceptível (que não seja “comuna” e/ou socialista) do que por real convicção ideológica.

Ao colocar-se do lado oposto aos Reacionários (reais e fuleiras), conservadores-de-facebook e Conservadores reais, militaristas, etc. Escolheram, diretamente, fortalecer os declarados inimigos: a Esquerda decante e os Liberais. Fica difícil, diante de tal quadro, não ver que o que restará a este pessoal, mesmo que dotado das melhores intenções, pois as reconheço (e considerando que não estejam sendo guiados por uma quinta-coluna), é ser engolido por quem dizem também combater (a Esquerda) mas de quem adotam tudo (linguajar, estética, temas-chave, foco da militância, etc.). E claro, também fica difícil acreditar que “combatem” (no caso da Esquerda) a quem, a toda hora e sem que ninguém peça, fazem questão de dar provas de amor e de defenderem com afinco, ante os menores ataques. Talvez nos digam que tais “provas de amor”, se justificam por “Entrismo”, ou seja, por buscarem no futuro exercer alguma influência ou controle sobre um “movimento” já estruturado, erram mais ainda: os Marxistas, assim que virem do que se trata, nunca os aceitarão e serão os primeiros aos chutarem para fora aos gritos de “Não Passarão!”. Se puderem, os fuzilarão com muito gosto. Receberão facadas e mais facadas pelas costas e vistos pelos “direitistas” como “Esquerdistas” e pelos esquerdistas como “faxistas”, não haverá socorro nem solidariedade, de lado algum. Não há aliança programática possível com as forças mais radicais da Esquerda: ao contrário dos opositores, este povo é ideologicamente muito mais doutrinado e “religioso” (enfeitiçado pela superstição vermelha) e não tardarão em notar o perigo e esforçar-se-ão em exterminá-lo de suas fileiras o quanto antes. Pressupor a burrice generalizada destes parece-me com o erro comum de subestimar o inimigo.

Por fim, precisamos retornar a visão de que, não se trata de “ideologias” políticas modernas, mas, justamente, de algo anterior e além. E mais: talvez, nos tempos de Fim de Era que presenciamos, se trata mais de sobreviver (Cavalgando o Tigre) do que de “salvar” (ressuscitando “socialismos” ou o que quer que seja) e garantir o legado identitário dos nossos para o pós-catástrofe (Guillaume Faye).

Erros dos Nacionalistas?

O sonho de um “nacionalismo” nos moldes da 3ª via, “totalitário”, homogenizador e disciplinador ainda ronda as mentes de alguns sujeitos, especialmente pelo seu cariz moralizante e esteticamente ordenador. No entanto, tal sonho aposta no Iluminismo progressista e crê que, num país de dimensões continentais, será possível uma homogenização cultural. Não é de estranhar que os mais simpáticos proponentes disto sejam, até onde vi (reconheço que pode ser um pré-conceito), sujeitos de cidades grandes/metrópoles, ou seja, pessoas com um notável nível de “desenraizamento” (se comparado com gente de cidades pequenas), por vezes filhos de emigrados das zonas rurais/cidades pequenas e já criados nas grandes cidades. Projetam, mesmo inconscientemente, uma unidade cultural artificial talvez já internalizada a partir da colcha-de-retalhos metropolitana que experienciam no dia-a-dia; do Estado-Nação (posteriormente, burguês), importado da realidade de pequenos países europeus forjadas na luta contra “intromissões” imperiais. O Nacionalista “padrão”, no Brasil, será antirregionalista e anti-imperial por natureza, mais ou menos como já o fora o ídolo Vargas: a exaltação (“universalidade”) do padrão nacional, comprimirá, necessariamente a orgânica e real identidade das verdadeiras nações (sob a desculpa de combater o “separatismo”) e sua necessidade de centralidade e controle total, inflacionará o Estado ocupando-o das menores questões, sufocando a atividade política “natural” no povo (clãs, comunidades religiosas, corporações de ofício, etc.) – contrariando o princípio Imperial e mesmo da subsidiariedade federalista – por vezes, demonstrando uma real desconfiança e policiamento do próprio povo, privando-o do acesso a armas e livre organização como testemunhado na História. Não ha novidade nisto, o próprio Evola criticou tal coisa duramente em sua crítica do Fascismo, e o fez com razão.

Fechar os olhos e o nariz, e sair repetindo que não há nações dentro do Brasil, não é a solução. Por outro lado, há quem combine uma postura nacionalista com uma possível reintrodução do monarca – proposta esta que pode, de fato, reduzir certas aspirações ditatoriais (especialmente se reestabelecido o poder Moderador dentro um sistema Parlamentarista em um Federalismo, de fato, como veremos mais a frente) se forem consideradas uma série de fatores. Sendo neste caso o termo “Nacionalismo” muito mais um indicativo de uma postura pró-expansão/salvaguarda dos interesses gerais, como um vetor articulador, mas sendo, na prática, um Imperialismo, mais do que propriamente um regime de 3ª via. No entanto, os proponentes mais ativos de tal arranjo, por vezes, erram em fingir que será perfeitamente possível restaurar o Império de uma maneira inteiramente católica, como se o país não estivesse diferente em termos religiosos do que era nos tempos de nosso último imperador. Para os que pensam que “ou um Império estritamente católico, ou nada” há pouca margem para o diálogo, especialmente para os que conscientemente alimentam o ranço totalitário inerente às religiões abraâmicas do deserto. Por mais que estejam justificados em alguma medida (o Brasil, apesar da ascensão evangélica ainda continua, por enquanto, majoritariamente católico), nós Indo-Europeus de espírito, preferimos um modelo “Romano” de tolerância religiosa e de modo inegociável: nossa sobrevivência depende disto, como apontaremos mais a frente.

No entanto, os “unionistas/integralistas” (chamemos assim, os Nacionalistas mais 3ª via) erram em negar que haja razões para maior autonomia das regiões/nações do Brasil. Cegos por um centralismo utópico num país destas dimensões, negam e riem que se fale, sequer, em “nações” orgânicas dentro do Brasil. Não veem o pressuposto forçado e artificial, quando não positivista ou “fascista”, de gritarem um “só povo, um só país, um só líder!” São os grandes desenraizados, que fingem saber ou conhecer as realidades orgânicas tradicionais para negá-las… São os inimigos internos da diferença, “culturicidas”, que não medem palavras para falarem mal do “imperialismo yankee de Hollywood”  ou do “massacre sionista contra a Palestina” mas ignoram propositalmente o genocídio cultural perpetrado pelo massivo lixo cultural midiático “homogenizante” irradiado dos centros de poder midiático brasileiro (o “imperialismo cultural favelado”). Vargas foi, talvez, o grande executor de uma tentativa relativamente bem sucedida de “homogenização” do Brasil, da exaltação do “Rio de Janeiro” como sendo o Brasil (talvez inspirado pela teimosia “unionista” dos Integralistas, inspirados pelos nacionalismos europeus) que desde então, só ganhou corpo e progrediu (especialmente após a massificação das TVs: as novelas televisionadas alcançaram com mais rapidez e eficácia, em poucos anos, fazendo cair costumes e modos de falar tradicionais, aculturando os rincões no “streaming” Rio-SP). Há sim, países dentro do Brasil. Enquanto isto for negado, não haverá saída nem resolução para a questão da Identidade Brasileira.

Erros do Separatismo?

Os separatistas erram por desconsiderar, boa parte das vezes, o aspecto geopolítico maior, vindo a colaborar com um projeto externo de “Divide et Impera”. Seja por um ranço cego ao Brasil, que na verdade é o retrato do Rio de Janeiro (no qual, com razão, não se vê), seja ao seu centro de poder político (Brasília). Já escrevemos sobre este tópico cá mais de uma vez. É difícil evitar a interferência externa nociva em um ambiente de eventual guerra fratricida (vide Ucrânia), mesmo que seja numa “guerra” de geração diferenciada, do tipo cibernética, cultural e midiática. É corrente o recurso a poderes externos (por cá mesmo, a Confederação do Equador, buscando tornar o Nordeste independente, foi buscar ajuda nos EUA…, para lembrar só este exemplo) fazendo com que o pagamento por tal serviço, seja demasiado caro: quando não custa as almas e os bolsos dos cidadãos, além da cabeça dos governantes, causa traumas coletivos duradouros, podendo gerar sujeições e “escravização” vergonhosa, piorando ainda mais o quadro. Sair de uma “vassalagem” para entrar noutra, pode não ser tão vantajoso quanto parece. Além de que, com todo os problemas, os demais países que compõem este grande Brasil compartilham de uma mesma história geral fundante, inauguradora, enraizada na língua. Um separatismo que busque romper com tão profundo laço, vai requerer muito esforço de uma identidade artificial fabricada sob medida, alimentada pelo ranço e negação, num grande projeto de revisão histórica que percorrerá gerações e sem garantia de sucesso.

Então, um Novo-Imperialismo seria a solução?

Uma maneira de resolver a real necessidade por mais autonomia cultural e política dos “países/regiões” com a preservação da integralidade geopolítica é um Novo-Império. Ainda por cima, pode resolver melhor a questão da Identidade Brasileira e fundamentar uma real solidariedade e reconciliação. Há ainda, as possibilidades mais ousadas, da permissão de províncias a partir de requisitos/demandas étnicas ou religiosas: bolsões étnicos (não muito diferentes do que já existe em termos de reservas indígenas e “quilombos”) e talvez até mesmo religiosos (algo similar as comunidades “Amish” nos EUA, por exemplo). Talvez até mesmo para certos aventureiros “ideológicos”, já existentes em comunidades eco-alternativas/”permacultureiras”. A possibilidade de se resolver harmonicamente demandas justas, digamos, “nacional-anarquistas”/(neo)tribalistas sem que haja uma perda de unidade geopolítica maior por si só já é interessante. Isto seria feito a partir de uma super-estrutura jurídica imperial (subsidiária), a partir da qual a legislação da província encaixar-se-ia e da seção obrigatória, sob forma de tributo direto unificado e/ou direcionamento, de força humana e monetária para a manutenção das estruturas imperiais (políticas e militares: quartéis, colégios, uma grande universidade que concentrasse os melhores das universidades autônomas, hospitais, etc.). No entanto, seria necessário discutir e decidir sobre um limite constitucional para tais “divisões” de províncias a partir de critérios meramente religiosos (afinal, em que medida caberia a todo grupo religioso, especialmente os que não são propriamente étnicos, reivindicar um “país” só seu?).

Um exército imperial, formado a partir da seção cíclica obrigatória e proporcional (talvez anualmente e como uma espécie de “serviço militar obrigatório”) de forças das províncias talvez diminuísse a necessidade de “legiões” estacionadas nas províncias, quase como forças de policiamento contra “independentismos” como no passado romano. Cada província/nação teria autonomia jurídica de autodeterminação: poderia haver províncias democráticas presidencialistas, republicanas, ou talvez mesmo monárquicas, desde que os representantes estivessem submetidos a auctoritas (no sentido de Evola) do Imperador. Se deve haver um representante (ou dois?) destes governantes, eleito(s) a partir deles próprios e com mandato limitado, com uma espécie de “cônsul” ou “condutor”, tendo o Imperador como uma encarnação de um poder moderador e da continuidade regencial, numa espécie de “Diarquia” (ou “Triumvirato” no caso de 2 cônsules), é algo a se considerar. Talvez caiba também perguntar como seria e se haveria espaço para uma espécie de “Senado” ou representação direta de magistraturas provincianas (“tribunos”), ao exemplo de Roma. Uma oportunidade para reascender corporações ofício em substituição aos inúmeros sindicatos dominados por partidarismos sectários, entre tantas outras coisas, para derem lugar permanente em tais representações (Senado ou Tribuna imperial). Na verdade, há muito espaço para reflexão.

Nem tudo precisa ser “retirado do zero”, não é preciso inventar a roda. A questão é que negar-se a tal reflexão, ao mero exercício de pensamento, jogar fora esta possibilidade sem sequer estudá-la, especialmente para nós “pagãos”, talvez não seja tão prudente assim, afinal, fora o modelo (no caso romano, claro) que se desenvolveu com certo sucesso na história do Ocidente de uma perspectiva política que ultrapassou o domínio dos “estados-nacionais”. E se tal quadro novamente se apresenta, quando organizações supra-nacionais invariavelmente se formam, não custa revisitarmos tal perspectiva para ver se algo é válido hoje.

Mas um Federalismo não basta?

Talvez alguém defenda que, na atual conjuntura de emergência de estados supra-nacionais (“Blocos Econômicos” e militares), um simples federalismo pautado nos princípios liberais e/ou modernos é suficiente, afinal, o laicismo estatal assegura um igual tratamento a todas as religiões e impede, em teoria, uma luta entre as mesmas na esfera regencial suprema, além de não constranger institucionalmente religiões minoritárias, frisando uma simbólica subjugação à “Religião Oficial” do Império, ao “Culto Imperial”. Traduzindo: um Federalismo decente, bastaria e nos pouparia da briga religiosa.

Esta posição é difícil de contra-argumentar por não havermos experienciado, de fato, em nossa história de país um federalismo mais “aberto”, capaz de ajustar-se. A Primeira República, em um certo sentido, fora mais federalista que a nova e nos é vendido que, implicitamente, tal “liberdade” gerou uma crise política de lutas internas que levou a instauração de um Dictadura (Estado Novo). Saímos de um sistema imperial à força, arrancados por meio de golpe militar para entrarmos numa República, cuja falta de adaptação, levou a uma ditadura centralizadora. Daí que, talvez, concedendo o benefício da dúvida, em teoria, seja possível um Federalismo cumprir as vezes de um “Império” na prática, sem a figura de um Imperador e da investidura espiritual e epistêmica que tudo isto traz.

No entanto, stricto sensu, cairemos no “modernismo” parecido ao antes indicado nos que buscam ideologias socialistantes ou liberalizantes como solução. A falta do centro espiritual na compreensão da interação com a Soberania da Terra é um fator que, ao menos na óptica Indo-Europeia, levará a uma desordem cataclísmica não oferecendo “solução” política duradoura. Sob esta perspectiva, o reconhecimento da interação religiosa com a Soberania é condição sine qua non (talvez, reconheço, esteja a falar a partir de uma compreensão demasiada céltica). E de fato, alguém dirá, nós Indo-Europeus de espírito não temos o direito de impor nossa visão sobre como a ordem política e divina interage sobre todas as pessoas. E como não temos força numérica nem política para dominarmos o país e impor nossa visão à força, temos de reconhecer nosso lugar minoritário e rezar ao papai “Estado” para que nos preteja da extinção, certo? Bem, há muito a se colocar nestas coisas: pessoas como eu, por exemplo, estão convictas da objectividade da concepção religiosa Indo-Européia em termos de sociedade (o que significa dizer que, mesmo que as pessoas não acreditem na ordenação funcional na sociedade, ela existirá mesmo assim, mal ou bem, melhor ou pior), e que talvez, por isto, não se trate (ou para nós, ao menos, não se trataria) de uma mera discussão relativista culturalista de “impor” x ou y. Mas claro, que há a questão mais espinhenta: como conceber um Império (que pressupõe uma dimensão religiosa) numa sociedade plurirreligiosa?

Os que veem os EUA como um exemplo razoável de mais federalismo laicista e apontam para a estabilidade jurídica (e política…?) que sedimentou quase 200 anos de Potência global, talvez tenham que ceder que, ao menos nos 100 primeiros anos (e não só, mas para ser bem generoso), era comum entre as elites governantes um projeto quase messiânico (especialmente em certos círculos protestantes) do Excepcionalismo Americano como vetor espiritual mobilizador do Logos Nacional americano. Talvez seja suficiente para defendermos que não havia um laicismo stricto sensu. Em todo caso, a História do Ocidente demonstra o que imperadores cristãos radicais podem fazer contra religiões minoritárias, antes que alguém censure, convenhamos que tais exemplos históricos são uma justificativa razoável para certa desconfiança por parte dos nossos. E isto nos leva a um dos grandes entraves.

O problema de um Imperador cristão, para os não-cristãos

O grande entrave para concordar-se em ser governado por um Imperador de uma dada religião diferente da sua, especialmente quando se crê que a religião do imperador, por natureza, o conduzirá a descriminar negativamente e perseguir é quase “default” no caso dos “pagãos”. Em dado sentido, também pode haver a mensagem simbólica de sujeição de religiões a uma dada religião “superior”, simbolicamente acima no aspecto regencial. Para que um cristão sinta algo parecido, pedimos que imagine-se na iminência de ser governado por um muçulmano… Felizmente, ou infelizmente, não é um problema que nos afete somente: o próprio texto do Benoist citado acima passa ao lado desta questão e não mira nela diretamente. Uma União Européia transformada num Império das nações e povos europeus, teria de enfrentar a mesma questão e o próprio Evola só a concebeu dentro de uma visão pagã.

O grande problema de uma perspectiva imperial em sua dimensão espiritual é, justamente, que tal referencial funcionará harmonicamente dentro de um referencial religioso específico. A partir do momento em que referenciais exclusivistas (que não admitem “perspectivação” ou “tradução”) entram sob o escopo do Império, negam-se a reconhecer a autoridade espiritual presente e a rejeitam. Foi justamente o caso do Cristianismo (mais até que do Judaísmo, dado o não proselitismo no segundo e a destruição a força do centro simbólico de poder, que foi a destruição do Templo) no Império Romano. O Cristianismo só admitirá, em última análise, dado seu exclusivismo e expansionismo latente, um Império que seja cristão. E um Império cristão (uma vez que haja concórdia entre eles, afinal, somente o catolicismo possui uma doutrina clara sobre isto, evangélicos, espíritas e outros, nada), terá os não-cristãos como membros “espirituais” alógenos, como uma comunidade apartada, de “infiéis” e “gentios”. É difícil crer que depositem em tais comunidades, ou em tais cidadãos, a mesma confiança política e jurídica que depositariam entre eles, uma vez que veriam problemas morais ou “demoníacos” nestas comunidades. Por isto, não seria de estranhar que nós acreditássemos que somente um Imperialismo “Pagão”, ou seja, que estabeleça uma dimensão espiritual apta a “tradução” noutras linguagens religiosas (e portanto, que não reivindique um Exclusivismo) seja melhor realizável.

No entanto, num contexto social onde somos minorias das minorias, impor tal percepção nestes termos é inviável. Para nossa sorte, tal “paganismo” é perfeitamente defensável filosoficamente em torno do ideal de tolerância religiosa que pode gerar um condicionamento jurídico estrito. Por mais que certos setores do Catolicismo, por exemplo, repreendam justificadamente (dentro de seus princípios e referências) o Ecumenismo e mesmo o Perenialismo (guénoniano, não o tomista), que poderiam oferecer possíveis ferramentas teóricas de “tradução” e ressignificação, é fato que há uma direção e aceno formal neste sentido (de uma “tolerância” e diálogo interreligioso) também desde o Concílio Vaticano II, e os radicais que as negam, talvez terminem “isolados”.

Em todo caso, há a necessidade de mais discussão e reflexão, reflexão esta, inclusive, que pode gerar desdobramentos totalmente diferentes e que talvez até nos afaste deste conceito. E claro, é fácil rejeitar tais constructos. Mas como solução, especialmente para quem fala mal da Modernidade e gosta de posar de Tradicionalista e mesmo de um Reconstrucionista mais sério, o que propor então de viável? Vamos desenvolver as opções, pois! Talvez, descubramos que grande projetos como “Impérios” sejam quimeras e que um “neo-tribalismo” (que dialogue com as iniciativas modernas de Permacultura, Nacional-Anarquismo, Municipalismo Libertário, etc. e com as instituições comunitárias tradicionais em extinção) sejam o caminho viável, a luminosa manifestação sócio-política de nossas compreensões religiosas. Talvez, e confesso, desconfiado que sou dos “grande projetos” políticos e afeito que sou a uma dimensão mais regional e tópica, inclino-me mais para uma reflexão mais centrada nas pequenas comunidades locais do que para um Imperialismo grandioso… mas vamos lá, exercitar nosso pensamento, precisamos elaborar, fazer parir ou pelo menso esclarecer a partir do estudo de nossas próprias histórias religiosas e mitos, propostas, preferencialmente boas, para grandes e pequenas organizações humanas, saindo de vez da discussão “ideológica”.

E o “Império” é uma destas macro-organizações humanas a se considerar. O fato é que os cristãos, mesmo historicamente, não são nem os criadores nem os únicos “donos” da ideia de Império – nunca foram – abandoná-la por receio de um circunstancial protagonismo deles nas circunstâncias atuais (ou por birra contra o atual representante da casa dos Orleáns e Bragança), não é um argumento suficiente. Numa época de “desertos” e de abismos gigantescos é importante aumentarmos nossos postos de observação e plantarmos árvores. Mesmo para os pagãos aos quais desagrada uma idéia de Império, dever-se-ia apoiar sua reapropriação e estudo: é mais uma possibilidade, mais uma forma válida de revigorarmos nossa herança e capacidade reflexiva em filosofia política.

Casamento religioso LGBT?

Partindo de uma postagem para gerar debate – e gerou – na comunidade Fronte da Parahyba no Google+, acerca de uma suposta ameaça de “vandalização” do templo ásatruar que será construído na Islândia, pelo fato dos ásatruars islandeses reconhecerem religiosamente o casamento gay, enquanto outros politeístas germânicos (e numerosos, apesar da tentativa de minimização, diga-se de passagem) não reconhecerem e serem contrários ao reconhecimento. Como Ana bem notou, a notícia que serviu de base para despertar o debate, tem um quê de, digamos, factóide-liberalistóide, mas diferente do que aferi do foco do texto dela, creio que não se trate somente de “interferências políticas”, mas de uma oportunidade, justamente, para iniciar uma discussão anterior, uma discussão genuinamente religiosa.

Primeiro, é mister separar a discussão sobre a natureza do homossexualismo e desta conduta na sociedade, do casamento enquanto instituição religiosa. Não me interessa, nem creio que deva interessar (nisto concordo com Ana, perfeitamente) discutir as condutas íntimas de quem quer que seja; não me interessa discutir o primeiro elemento, mas apenas chamar atenção para a oportunidade de refletir sobre o casamento enquanto instituição religiosa dentro do pequeno escopo do Reconstrucionismo e Religiões étnicas (não englobo a Wicca nem certos setores do Neodruidismo dentro deste escopo, é bom deixar claro). Segundo é importante também destacar a existência de casamentos (me refiro a rito – religiosamente – lei civil é um troço posterior) em conformidade com a compreensão daquilo que os hindus chamam de ṙta e os romanos de ritus, com a “ordem cósmica”, digamos assim (ou aos partidários de uma compreensão aristotélica, chamemos de “Lei Natural”); outra coisa, diferente, é o casamento por contestação social, em especial à moral vista como hipócrita e retrógrada dos padrões aristocráticos de certas elites, em se tratando do Império Romano – é importante frisar tal diferença quando se fala da conduta de imperadores escandalosos (alguns claramente críticos de certos aspectos da religião tradicional de Roma, quando não ateizantes eles próprios) em contraposição aos ideias aristocráticos de familias tradicionais ou mesmo à vida comum da plebe em seus mais multifacetados aspectos. Tomar um exemplo de um como generalidade de outro me parece ser um non sequitur. É importante distinguir as coisas neste sentido para não incorrer neste raciocínio sofismático.

Quanto ao testemunho de Eusébio (no livro 6 do Praeparatio Evangelica), sobre os “jovens gauleses”, citado em um dos comentários na comunidade do Google+, o trecho em questão, repete um topos literário divulgado por outros escritores gregos acerca de mercenários gauleses em longas campanhas que demonstravam comportamentos homossexuais. O verbo que foi traduzido por “casar” aí (fui verificar o texto grego), não tem bem nenhum sentido religioso (ou seja, não é propriamente – em termos metafísicos, “casamento”) neste trecho; mas simplesmente denota “unir-se”, “amancebar-se”, inclusive até em tom galhofeiro e (não seria de estranhar) contestatório. Se tal prática fosse tão arraigada assim entre os Celtas, creio que teríamos bem mais – bem mais mesmo – testemunhos disto na literatura do alto medievo, pois duvido muito que os cristãos deixariam passar a oportunidade de “descer a lenha” em tal comportamento. Ou seja, tal trecho, na melhor das hipóteses, ao que parece, descreve um comportamento socialmente aceito dentro de opções da vida juvenil, não me parece ser prova nenhuma de que druidas celebravam (religiosamente) casamentos homossexuais.

E isto nos leva ao essencial: a celebração do casamento. Casamento não é Amor (seja erótico ou do tipo “philia” – como Platão bem sabia), na verdade, como toda e qualquer sociedade antiga que preconizava casamentos arranjados sabia, é possível até que haja casamento sem amor. Isto sim, de casamento sem amor, é algo que os cristãos não aceitam de jeito algum (na verdade, os cristãos dirão que o primeiro passo para qualquer casamento ser válido, é exisitir amor!). É crucial ver isto em tempos como os nossos, tão inebriados num modelo de casamento “burguês” (sim, pois ascendeu junto com a burguesia): o casal isolado, distanciado do clã, da família mais ampla, de poucos ou nenhum filho (o casal ideal, sem raízes, como idealizado por Rousseau no “Emílio”). Para o mundo antigo (e é por isto que muita gente não entende bem os casamentos arranjados) se trata, antes de qualquer coisa, da união de duas famílias em prol da estirpe, uma união espiritual entre duas cadeias de Ancestrais. Casar para viver feliz (egoísticamente libertos de quaisquer laços clânicos ou comunitários), compartilhar uma vida estéria (sem o prolongamento – muitas vezes visto como dever sagrado, religioso, no mundo Antigo – da espécie, sem filho concebido pela união das almas e dos corpos), imersa em consumo e num cuidado patológico com “pets”, ao que me parece, não seria lá bem visto, e isto, é bom frisar, inclusive se tratando de pessoas de sexos opostos. Daí que não se deve misturar Eros – inclusive em sua dimensão transcendental – com “casamento”, são coisas diferentes como qualquer pessoa intui; pelo menos me parece óbvio, que transar com alguém é diferente de casar com alguém. Promover esta confusão não ajuda. Na verdade piora, pois maliciosamente tem gente que confunde; não se trata do comportamento homossexual (a transa), mas do casamento enquanto instituição metafísica, em sua dimensão religiosa e toda sua relação aos antepassados e a família dos noivos (e sua sansão comunitária). Do mesmo modo que não se trata de uma questão de axiologia, puramente, social – não é uma questão de aretē, seria se estivéssemos tratando do comportamento, da ação pessoal; realmente, dentro de um prisma aristotélico, tal comportamento, a priori, não impede o desenvolvimento de virtudes – apesar de historicamente, diversos povos associaram tal comportamento (a conduta homossexual) a falta de virilidade, de ombridade e frontalidade no enfrentamento de problemas ou ameças. Não creio que seja assim absolutamente, mas não posso negar que historicamente, diversos povos, em diversos momentos históricos, e não apenas cristãos ou islâmicos ou judeus, fizeram tais associações ou associações similares. Negar isto é utilizar um filtro ideológico escancarado.

Daí que se deve perguntar: cadê os exemplos concretos do casamento religioso (que não sejam “excentricidades” de imperadores claramente antagonistas ao mos patricius ou mos maiorum tradicional)? E no caso concreto dos germânicos (afinal, o post parte disto), de conhecido viés, digamos (na falta de um termo melhor) “machista”, onde estão os exemplos de casamentos “oficiais”, religiosos de pessoas do mesmo sexo?

Uma união não religiosa (civil) não é o que está em causa aqui, vale lembrar. Um tradicionalista/religioso poderia, coerentemente, defender o reconhecimento da união civil e a partilha de bens entre pessoas do mesmo sexo, mas, na falta de fundamento tradicional (ou no indício de fundamentos contrários) não apoiar o casamento religioso, o casamento enquanto união de estirpes (entendido religiosamente). Ele reconheceria que o que a legislação hoje aponta é uma legitimação, no âmbito civil e laico, de uniões que, mais ou menos (às claras ou às escondidas) sempre existiram. Mas, reconhecê-las como “casamentos” (no sentido, digamos, “tribal”, religioso) é outra coisa.

Não se trata de confusão política, mas justamente de uma reflexão objetiva que permita não ser instrumentalizado ou alocado a um bloco com o qual não temos nada a ver. É preciso ver, enxergar claramente, quando possível, como se olhássemos as águas de um val que se sujam após as passadas pesadas e rápidas, mas que se limpam após algum tempo; os pilares fundacionais da compreensão do casamento e sendo eles de origem divina, atemporais, seriam válidos pra hoje também, mesmo que isto desagradasse X ou Y. Adequar ao discurso da ultra-modernidade só para ficar do lado dos “do-bem-descolados-salvadores-do-mundo”, só por pseudo-angelicalismo é contra-produtivo, assim como ficar contra só para posar de “malvadão-conservador-purista”.

Digamos que em relação ao requerimento de coerência com o passado, se tome 3 caminhos:

  1. Não temos evidências de casamentos (religiosos) entre pessoas do mesmo sexo e temos evidências de mentalidade “homofóbica” dentro desta cultura povo;
  2. Temos evidências inequívocas ou comprovações sim de casamentos deste tipo, olha aqui (e aí se lista as mesmas)
  3. Não temos evidências de casamentos religiosos/oficiais e temos evidências deste tipo de comportamento com alguma sansão social.

No caso de 1, ou o sujeito deixaria claro que – RELIGIOSAMENTE – tal procedimento não deverá ocorrer (como não ocorria no passado), ficando a seu encargo a defesa ou não no âmbito civil; ou dizer que, APESAR disto não ocorrer no passado, agora pode ocorrer – aí terá de construir uma justificação (que pode ser boa ou não) e claro, terá que compreender que os que discordarem, por coerência ou purismo (ou “radicalismo”, no sentido de se apegarem as raízes, “radices”), estarão no seu direito, apesar dos pesares. É importante frisar que a prerrogativa de que “não ocorria mas deve ocorrer hoje” caberá, logicamente, para muitas outras coisas também – incluindo misturas de práticas alógenas, etc. Na verdade, “se não havia antes mas pode haver agora” abre brecha para quase qualquer coisa. É importante que os que fazem tal opção tenham consciência do que ela acarreta muita coisa ou de antemão já construam argumentos que os eximam de incluir/reconhecer outras práticas além do caso discutido.

No caso de 2, uma vez atestado que seja uma prática instituída de forma geral (e não apenas para pequenos setores especiais ou em contextos excepcionais de uma sociedade), não há muito a se discutir – como ocorrera no passado, ocorra hoje (é interessante notar que tem gente que usa este argumento para casos assim, mas não para o caso de sacrifícios animais, por exemplo, muitas vezes demonstrando claramente sua preferência ideológica no 1 peso 2 medidas: o caso do sacrifício animal, ou da tortura de prisioneiros, ocorria no passado – dentro da sansão e mesmo prescrição religiosa – mas não deve ocorrer agora; mas já coisa X deve ocorrer agora, porque ocorria no passado…). No caso de 2, tudo fica fácil, opor-se, seria incorrer num comportamento “estranho”, que seria melhor explicado por cripto-cristianismo ou outra interferência “exterior” (do conservadorismo político, por exemplo).

No caso de 3 a coisa fica mais complicada, pois como dizia alguém (que não me recordo) “falta de evidência não é evidência da falta”, apesar de que, ao menos dentro de metodologias reconstrucionistas, prudência (e certa observância da Navalha de Occam) é regra e por isto ser algo suspeito assumir certas coisas sem que haja, no mínimo, um escopo mais amplo (em termos de imaginário e visão de mundo) que justifique. Nestes casos, justamente, é onde a reflexão mais se faz necessária e o clareamento da visão é mais requerido. Por um lado, talvez caiba tanto uma certa reserva no tocante ao casamento religioso (mais ou menos como 1), como uma atitude de absorção do mundo civil/laico (para um tradicionalista isto seria coerente se já houvessem outros exemplos de tais absorções no passado ou se algo, nos mitos e literatura sagrada, assim indicasse que tais absorções ocorrem ou devem ocorrer).

Ousaria dizer que, pelo que conheço do mundo religioso Indo-Europeu ocidental, os germânicos e balto-eslavos estejam mais para 1, e todo o restante (celtas, trácios, gregos, etc.) para 3 – eu sei dos casos romanos e supostamente gregos (estes povos são referidos, constantemente, sem os devidos recortes de estratificação social, período histórico ou região/cidade; levando a generalizações inadequadas), que talvez fizessem enquadrá-los em 2, mas justamente por causa dos muitos “poréns” (no geral, pela excepcionalidade – mesmo que lê um Satyricon da vida percebe que não se trata de algo do “povão”), creio que seja um procedimento questionável. E diria até mais – talvez coubesse 2, mais para o mundo romano do Baixo Império, onde – não sou eu quem fala – a influência “oriental” e egípcia se fez mais forte. Novamente, friso que se trata de “casamento”, religiosamente, oficialmente.

O real problema, é a polarização política tosca de nossa época. Por um lado, é importante frisar que no Mundo Antigo, e em especial fora do eixo greco-romano, Política e Religião estiveram misturadas e o eixo perene das tradições é orientado no sentido da Religião iluminar a Política (e ao contrário do que gente má-informada sustenta, Evola justamente insistiu na volta a esta orientação; pessoas como Faye e outros é que por vezes creem – criticando os “metafísicos” – que a Política pode ser um instrumento de afirmação religiosa, por vezes advogando que a separação entre as coisas – Política e Religião – é obra do Cristianismo e da Modernidade) e não o contrário. Se por um lado é verdade que não havia no passado uma separação muito clara em Religião e Política (se é que havia separação), por outro lado é igualmente válido que não há um trabalho de reflexão sistemática e profunda entre os politeístas contemporâneos (especialmente entre os tradicionalistas e reconstrucionistas como um todo) dos limites e influência consciente do laicismo moderno. A lógica do “e” ao invés da lógica do “ou exclusivo” (Alain de Benoist) é um bom início, mas não há muita literatura sobre o tema. E isto, nos leva ao velho modus operandi de “babação de ovo” dos norte-americanos, do provincianismo intelectual que se repete quase que reação mecânica, automática. Ou seja, se por um lado, dentro de uma perspectiva laicista, seria ideal “não misturar as coisas”, por outro lado é uma tarefa difícil (mesmo para esta perspectiva laicista) quando as coisas estavam misturadas no passado e mesmo hoje permanecem de alguma forma – pois, em se tratando de casamento religioso, litúrgico, especificamente, não estamos mais no plano da “política” (neste está o casamento civil!) e a discussão não será sobre “política”, ou pelo menos não deveria. A discussão será sobre metafísica (como o casamento era – ortopraxia – como era compreendido, como é e deveria/poderia ser – ortodoxia e heterodoxia), politeologia, mitologia, etc. É esta discussão “teológica”, com profundidade (acadêmica), calma, e sobretudo honestidade, para além dos “ânimos exaltados” (doa a quem doer) que tem de ser iniciada em cada religião, e não apenas “importada” de olhos fechados dos EUA.

Comecei o texto frisando que o foco nisto tudo deveria estar na compreensão (ou decifração) da ordem cósmica em si e termino repetindo isto. Não se trata de uma discussão somente sobre os Deuses e as histórias sobre Eles que nos foram passadas, mas justamente sobre o que está além, acima, mas que projeta um reflexo nestas histórias. Também não se trata de uma discussão ética, no sentido da “ação pessoal”. Se trata, antes de mais nada, de uma discussão religiosa ampla, sobre o funcionamento metafísico do mundo (quem quiser, leia aqui “Natureza”) e de como as instituições (físicas e espirituais) dos humanos refletiam, se refletem, ou deveriam refletir (ou mesmo se não devem refletir, o porquê) este funcionamento. Se trata da reflexão sobre o que é o casamento religioso (dentro de cada tradição) e sobre as possibilidades acerca deste.

É uma discussão difícil, muito, pois pode se referir a alturas sublimes, que beiram o místico e apofático, pela própria natureza sagrada do que se acerca. É bom lembrar aos religiosos, que por mais que se busque uma abordagem cética e filosófica, o que a distinguirá de uma abordagem “externa”, será a opção existencial consciente, a crença, a fé numa visão de mundo, num centro de valores atemporal e vitalista. Crer na firmeza transcendente de nossos pilares metafísicos, pular por sobre o abismo niilista, transpassá-lo; e isto significa crer – de verdade, e não apenas como referência estética, ou adereço exótico – na sacralidade dos bosques antigos. Por vezes, penso que os Deuses imortais devem se divertir com como fazemos “tempestades em copos d’água”, e pouco se importam para certas querelas humanas; mas tenho pra mim, que pelo menos uma parcela Deles, valorizam aqueles de nós que com afinco, tenacidade e excelência, permanecem teimosamente firmes, com uma face orgulhosa, religiosamente amparados pelas sombras de seus Ancestrais; não distraídos pelo sabor dos ventos momentâneos, mas focados em ajudá-Los, mesmo que seja com nosso diminuto contributo, na difícil manutenção da ordem cósmica, na Grande Guerra. É uma opção humana engajar-se, digo mais: é uma opção radical.

Imaginar a continuidade do diferente para chegar ao resultado do igual

Este texto fora motivado por recentes percepções dentro de um referencial Céltico, mas creio que seja útil para outros referenciais reconstrucionistas também.

Que a Deusa da Aurora ilumine com seus raios santos nossas mentes e nossos corpos.

É comum entre os RCs (Reconstrucionistas Célticos) dizerem “nossa religião é sobre o estado das coisas como se houvesse sobrevivido até nossos dias, como se não houvesse ruptura”. Este é um raciocínio que me parece acertado metodologicamente. No entanto, muitos ao dizerem isto ignoram (seja por real ignorância ou por preguiça) o peso do Cristianismo, e de sua influência nos valores laicos no Modernismo/Iluminismo que reverberam até hoje forjando os valores dos nossos dias.

Neste caso, em especial os americanos, imaginam um RC cripto-liberal, ou seja, modernista – que abraça cegamente (é diferente de abraçar após revisar criticamente) como “avanço”, “desenvolvimento natural dos tempos” e “progresso”, os pressupostos ideológicos do “desencanto do mundo”, do Humanismo e Egoísmo Modernos, a ideologia dos Direitos Humanos, do Materialismo e dos pressupostos da democracia laica liberal/moderna.

Os precursores (e convenhamos, são norte-americanos) são importantes por isto, pelo trabalho pioneiro. No entanto, isto não quer dizer que tenhamos que copiá-los cegamente em tudo, principalmente quando vemos gente do meio RC nacional se basear – sem saber, ou sabendo – nestes pressupostos modernistas dos norte-americanos como justificação para imitarmos ou apoiarmos certas conclusões. As mudanças do tempo, não significam que não haja pilares perenes, imutáveis; ou pelo menos, que não hajam certos padrões imutáveis. E nisto é que a influência cristã se esconde – enganados pelo pressuposto de uma ‘rigidez petrificada em livro das religiões abraâmicas’ versus ‘uma suposta ausência de rigidez das religiões tradicionais’ – os sujeitos crêem que toda rigidez ou noção de perenidade/imutabilidade é, automaticamente, sinônimo de abraamismo, e nisto tentam justificar a cega aceitação do Modernismo, como sendo uma espécie de consequência lógica e movimento justificado pela Tradição (pelo esquema conceitual Indo-Europeu). O problema deste pressuposto é de reduzir e simplificar a diferença entre as tradições religiosas abraâmicas e as demais a um suposto apego a uma concepção de doutrina imutável. É um simplismo tosco. Por mais que não hajam “bíblias”, ou “torás” ou “corãos” para os demais povos, isto não quer dizer que não creiam nem tenham em suas bases religiosas princípios vistos como perenes/imutáveis/imorredouros. Só diz que não sentiram a necessidade de registrá-los em livro, seja por acreditarem que não era necessário (uma vez que estão dispostos na Natureza), ou por considerá-los demasiadamente santos, etc.

Imaginar como seria se a continuidade não fosse rompida, não significa chegar exatamente às mesmas conclusões morais e políticas do Humanismo Moderno Ateísta, fruto do cristianismo laicizado e da especificidade histórica do ocidente católico. O exemplo óbvio da continuidade Indo-Europeia não rompida é a Índia – a Índia do séc. XIX (antes de ser contagiada pelo ocidente moderno) é um bom exemplo, um real, não um imaginário – e que demonstra claramente as diversas modificações e desdobramentos históricos (em termos de concepções filosóficas e movimentos religiosos e/ou reformistas), mas a manutenção, grosso modo, de pilares metafísicos perenes.

Talvez, o cripto-liberalismo deste sujeitos simplesmente repita o padrão judaico de “historicização” do mito (Vöegelin, Eliade) e os faz crer, lá no fundo, que o “que passou, passou”. Não percebem a obviedade de que as religiões Indo-Europeias tem de ver com a a atualização do tempo mítico, de uma afirmação a-temporal de certos valores e bases transcendentes.

Daí que quando o nó aperta, o que vemos são os sujeitos mostrando que, no fundo, são materialistas históricos, descrentes nas estruturas metafísicas tradicionais, simples humanistas “nerds” com fetiches medievalistas e com hábitos “estranhos”. Os mitos são mera “literatura”, poesia, “símbolos” e certas crenças tradicionais são escondidas, trancados no armário, pois levá-las à sério hoje em dia – em pleno séc. XXI (como se isto significasse alguma coisa para quem não põe fé num tempo linear e progressista) – envergonha a tão importante fama de inteligente, “descolado com consciência social”, etc.

Nossos ancestrais célticos, em se tratando de política, por exemplo, viam que o poder legítimo possui uma clara origem divina. Por que devemos deixar esta visão de lado? Será que ela não se fundamenta em um destes pilares perenes, conectados a própria existência e fé nos deuses enquanto poderes reais? Quando um evangélico nos diz que o poder político emana de Deus, devemos discordar dele se com isto quer dizer que somente o deus de Israel, que ele supõe como sendo único, é a origem de todo o poder político sobre a face da Terra; mas se, por outro lado, ele quer dizer com isso que o poder político legítimo possui origem transcendente, não vejo como, por exemplo, esta afirmação seria negada por um druida antigo. Claro, um evangélico muito dificilmente falaria algo assim neste segundo sentido, realmente, mas consideremos esta possibilidade. Para nós, esta fonte transcendente (do exemplo acima) se imanentiza na Terra local e requer que o líder político, o governante, una-se, “case-se” com ela para obter a legitimidade/sanção que seu governo necessita para que tenha êxito. Do contrário, sem tal “graça”, sem tal procedimento, todo êxito do governante será enganoso e sem sua Verdade (fír flaithmon) a Soberania (deificada) o desprezará, o caos se insurgirá, a ordem cósmica (transcendente) enfraquecerá e até as colheitas e o solo sofrerão… E claro, nossos Ancestrais sabiam que o governante, sendo o pico de um monte, uma ponte, mesmo que não queira, concentra em si o mais alto grau de responsabilidade (conclusão parecida, mas desenvolvida filosoficamente se acha no “Princípio Responsabilidade” de Hans Jonas), sendo seu dever sagrado, ceder seu posto quando de uma crise, quando não encarar o sacrifício (o regicídio) e restaurar com seu sangue as condições para o restabelecimento da ordem cósmica para os seus.

Isto não era compreendido assim à toa, como mero fruto sórdido da imaginação de nossos antepassados, tal posição reflete (pelo menos, se cria e se pode crer hoje) luzes a-temporais e se fazia sentido antes, pode fazer hoje também. Sim, leram bem, “pode”. Se deve ou não, podemos discutir, mas a possibilidade do “pode” é incontornável. O chato é ver gente nossa que abre a boca para dizer que compactua e crê nestes princípios tradicionais (e nos deuses dos quais emanam ou os quais “encarnam”, dependendo do ponto de vista), quando deparado com uma crise política em seu país, defender muito rapidamente e sem qualquer mostra de escrúpulos o imobilismo tosco (culpando o “sistema” e retirando qualquer possibilidade ao governante do país, no final das contas apoiando sua permanência decadente e anti-natural) ou berrar contra um religioso que diz – sendo coerente com os preceitos da fé dele (com a qual não somos obrigados a concordar, claro) – que o poder deve originar-se em Deus ou algo assim. Como se nossos princípios religiosos não possuíssem consequências políticas que, aos olhos do “humanista-ateu-moderno-iluminado-dos-últimos-dias”, fossem condenáveis como “superstição cruel”, “retrógrada” e “bárbara”… Se abre a boca soberbo para falar de estamento social na Antiguidade, de funções, importância das linhagens e o escambal, e quando o nó aperta, toma como certeza absoluta indiscutível as ficções modernistas de “poder popular”, “rompimento da linhagem” ou aquela rousseauniana de que o “povão”, o “populacho”, é essencialmente sempre bom e infalível, ou de que certos movimentos sociais instrumentalizados por ideologias revolucionárias possuem alguma legitimidade por se dizerem “populares” ou “representante dos desfavorecidos”… Eu não consigo ver tais coisas e permanecer “calado”, e tento, por vezes bem mais do que deveria, e é por isto que escrevo este texto. Os apressados, tenham calma, não estou advogando que devamos todos nós, no momento político acirrado (e até perigoso) armar um “regicídio” (se algo deste tipo acontecesse, convenhamos, talvez só beneficiasse o PT que até transformaria a presidente em Santa Imaculada e embalsamaria seu corpo e o deixava exposto ad saecula saeculorum) e coisa do tipo. Meu intuito é muito mais chamar atenção para a consistência interna e para as possibilidades abertas que os pensadores e líderes genuínos  (os não-genuínos nem sempre são problema, a Natureza, cedo ou tarde, os descartará) não podem negligenciar.

Bem, mas, voltando, o realmente importante é que não temos de simplesmente copiar os norte-americanos e colocar isto como a única possibilidade, ou como a possibilidade certa e válida. O medo de soar “radical”, “fundamentalista” é perfeitamente compreensível quando os abraâmicos nos dão amostras diárias da ruindade que isto pode ser; mas isto não significa que temos de ser humanistas ateístas moderninhos (muito comportadamente agradando os “bem pensantes”, hã?!) e ainda por cima fingirmos que estamos fazendo, exatamente, como seria se a continuidade histórica não tivesse sido rompida.

19 de Março (19/3/2014)

Originalmente publicado no finado PB Pagã em 19-3-2014

Saudações.

Noite do 19 de Março. Esta data é uma ilustração da sobrevivência e do caráter imorredouro do que o beatame chamará de “paganismo”. É um símbolo de Tradição que persiste, modificada no Tempo e no Espaço; uma prova do Paganismo Inconquistável (“a religião impossível de ser derrotada” segundo Guillaume Faye). Pelo Nordeste se celebra, sob o verniz católico, um dia augural para o Inverno e tudo o que este representa para o Sertanejo: fartura, colheita, trabalho na terra, etc. A associação popular com o tal São José é esporádica: nada há na mitologia bíblica neste personagem que o associe a Chuvas, Fartura e Lavouras. NADA. A associação como “padroeiro dos trabalhadores”, em sentido estrito, caberia muito mais aos trabalhadores de ofício manual especializado, artífices (carpinteiros, artesãos, etc.). Nada o liga à Chuva/Metereologia nem a fertilidade das colheitas vindouras. Então, como se explicaria tal fenômeno?

A percepção augural do tempo.

Que há certos dias que concentram em si o prenúncio de estações inteiras é uma concepção bem viva entre os povos célticos, como os registros e o folclore medieval facilmente atestam, seja nas ilhas britânicas, na Bretanha francesa ou nas zonas nortenhas de Portugal e Espanha. Claro, isto não é uma percepção unicamente dos Celtas, é algo comum entre os demais povos Indo-Europeus e mesmo entre os demais povos antigos/tribais/integrados com a Natureza. Tal percepção ainda viva no imaginário popular dos Nordestinos, herdeiros de eventuais raízes célticas via Galego-Portugalidade, percebeu no fluxo natural local tal marco. Esta associação não existiu na Europa, não veio de lá simplesmente. Somente uma percepção sedimentada e integrada na Bio-região cá, geração após geração, pôde identificar tal padrão imanente de uma indicação transcendente e pô-lo na prova do Tempo. Confirmou-se que, em boa parte das Bio-regiões nordestinas, a Véspera do Equinócio de Outono augura o Inverno. Por “coincidência”, tal Véspera caiu no dia que o calendário católico arbitrariamente destinou ao tal Santo. Uma percepção ancestral, “pagã”, manifesta em um símbolo cristão que aí estava, inócuo até então; o vitalismo pagão fez brilhar uma data cristã apagada. Algo novo surgiu, uma novidade antiga – entrelaçada ao Imanente.

As cerimônias da data.

Até o modus operandi do “agradecimento” ao Santo remonta às raízes pré-cristãs mais óbvias e indeléveis, depositadas profundamente no imaginário de nosso povo. A fogueira sacrificial, a procissão com o Ídolo e homenagem, as oferendas de adornos, flores, hinos e preces. A adivinhação do Inverno se soma ao rito de oferenda primicial, de propiciação agrária às futuras Colheitas. Inicia-se o ciclo do Milho – este nobre grão nativo, divinizado pela sabedoria indígena – inicia-se o tempo até o Solstício de Junho (até o São João, dirá o vulgo). Este é um dos casos em que o Cristianismo Popular mostra-se valioso e um veículo que, mesmo possuindo suas limitações, manifesta Luzes Perenes de uma Tradição mais antiga.

E nós, o que fazemos?

Repaganizamos, incorporamos esta manifestação autêntica em nossos calendários litúrgicos nordestinos. Não cabe aqui iniciar uma “cruzada” para esfregar na cara de católicos o paganismo manifesto da data, não se trata de buscar contraria-los em sua fé, ou de demonstrar arcaísmos e “impurezas” doutrinárias a quem tanto se diz puro e “evoluído” (é de notar que certos sujeitos, especialmente alguns neo-ateus e neo-pagãos adolescentes, se satisfazem com tais coisas, no fundo, regojizando-se inconscientemente por serem mais cristãos/”angelicais” e puritanos que os próprios cristãos!). Nada disto. Deixemo-los felizes lá, rogando ao Santo deles. Respeitemos esta manifestação, por mais que, para nós, ela nos pertença mais. Roguemos nós aos nossos deuses da Agricultura e/ou das Chuvas e estejamos cientes que nosso Nordeste contém tesouros, alguns escondidos, outros nem tanto.

Sobre a Fundação da Parahyba (5/8/2013)

Originalmente publicado no finado PB Pagã em 5-8-2013

Saudações!

 

Felizmente este ano o Poder Público Estadual resolveu cumprir suas próprias determinações parando, de fato, suas atividades neste dia em comemoração à Fundação da Parahyba. O ato fundacional em si possui já um cariz sagrado por excelência, mesmo quando recua num tempo brumoso e incerto, restando apenas ecos de tal momento. A Parahyba, parte mais oriental da Nação Nordestina, hoje despontou a Alvorada de sua história. Já aqui falamos do que um romano chamaria de Genius Parahybensis, de como este nasce Caboclo, filho do Gênio Lusitano (na verdade, Luso-Galaico) e Nativo (na verdade, Cariri-Tupy) e hoje viemos cá falar rapidamente de umas ideias que já buscam espaço para serem expressas faz tempo, sobre a data em especial e do Hino do estado.

Sobre a Data.

A celebração do Gens, do Ethnos, de seus símbolos e sua cultura é aquilo que fora condenado pelo Cristianismo como “Idolatria” (na verdade, toda e qualquer visão mais regionalista/identitária/étnico-nacionalista fora condenada como tal), o cultivo (ou culto) aos símbolos do Povo e da Res Publica, aos seus heróis e protetores, sua História, fomentar a Identidade e o Orgulho, eis as oportunidades de tais datas. Identidade e Orgulho são, talvez, os elementos mais conflitantes com certas concepções em voga. A Identidade pressupõe separação, diferença, e talvez o mais conflitante, a permanência e preservação de tal diferença. Isto conflita com os totalitarismos globalizantes/universalistas (sejam ideologicamente religiosos – como o caso do Monoteísmo Exclusivista, Islã e Cristianismo, especialmente – ou laicos – como o caso do Politicamente Correto). O Orgulho (pessoal, identitário ou pátrio) é visto pelos cristãos como um pecado especialmente pernicioso, uma exaltação do Homem, um desvio da reverência que deveria ser destinada ao deus de Israel e que é, ao invés, destinado a um Povo, ao Mortal; tal visão (como bem exposto pelo Alain de Benoist no Comment peut-on être païen?) remonta ao Judaísmo mesmo; do lado do laicismo politicamente correto, o Orgulho é vinvulado misteriosamente à ideia de Supremacismo Étnico-Racial, desde o complexo nazista, aproximando-se da visão religiosa de “pecado mortal”, sendo por isto, provavelmente um cripto-cristianismo. Mas nós, desde que cônscios disto, podemos nos libertar de tal cadeia de associações programáticas e ideologicamente destinadas ao Rebanho.

Hoje vemos tais datas sob um prisma puramente cívico e “laico”. Mas basta um olhar mais sério para as concepções religiosas indo-europeias tradicionais para ver que para nós, ao contrário dos cristãos, por exemplo, tais datas podem (e naturalmente caminham para tal) ganhar uma dimensão metafísica mais séria. Na verdade, reverterem a seu estado “original”, repaganizarem-se. Basta ressurgirem ânimos menos universalistas/globalizantes e mais regionalistas/identitários em nossa comunidade para tal. Sim, há uma via clara entre tal “Civismo” e as religiões Indo-Europeias (seja de causalidade destas últimas que causaram os primeiros, etc.) e não apenas para as religiões de forte cunho político (no sentido grego) como o Helenismo e a Religio Romana, mas mesmo sob uma perspectiva mais tribal ou de solidariedade “inter-clânica” com a sociedade exterior. Talvez no futuro, com uma comunidade religiosa mais ampla, os Pagãos possam organizar cerimônias públicas em louvor aos símbolos públicos e ao Bem Comum em tais datas, mostrando também – talvez – sua imersão nas raízes e integração no todo cultural e com o meio ambiente local, seu reforço ao Identitarismo e seu compromisso com uma sociedade mais saudável e politicamente melhor. Hoje, sugiro que libemos e brindemos a Parahyba divinizada, a Terra que nos acolheu e nos provê  diariamente, a Cabocla Guerreira e Valente (a “Muié Macho” do imaginário coletivo, expressão feminina do Genius Parahybensis).

  Sobre o Hino.

Faz anos que ainda tenho claro na mente as sensações que tive na primeira vez que ouvi nosso hino. Lembro que a letra pareceu-me ótima, mas a melodia nem tanto. Hoje a melodia, pela ação do tempo e do pensamento, já me é bem agradável e ainda preservo um respeito a letra. Ei-la:

    “Salve, berço do heroísmo, Paraíba, terra amada, Via-láctea do civismo Sob o céu do amor traçada! No famoso diadema Que da Pátria a fronte aclara Pode haver mais ampla gema: Não há Pérola mais rara! Quando repelindo o assalto Do estrangeiro, combatias, Teu valor brilhou tão alto Que uma estrela parecias! Nesse embate destemido Teu denodo foi modelo: Qual Rubi rubro incendido Flamejaste em Cabedelo! Depois, quando o Sul, instante, Clamou por teu braço forte, O teu gládio lampejante Foi o Diamante do Norte! Quando, enfim, a madrugada De novembro nos deslumbra, Como um sol a tua espada Dardeja e espanca a penumbra! Tens um passado de glória, Tens um presente sem jaça: Do Porvir canta a vitória E, ao teu gesto a Luz se faça! Salve, ó berço do heroísmo, Paraíba, terra amada, Via-láctea do civismo Sob o Céu do Amor traçada!”

Ok, o verso “Via-láctea do civismo” realmente é “estranho” (e o considero cacofônico também), mas convenhamos que é uma letra que exalta o cariz valoroso em momentos históricos-chave, além de não possuir nenhuma referência clara a ideias puramente cristãs. Ao contrário, há muito presente a visão Indo-Europeia (e céltica em especial) da associação entre a Guerra e a Luz, do Lumiar do Ardor Guerreiro, do Frenesi valoroso, do aspecto cívico e heróico de um Hino. E nisto uma vez mais notamos como certas concepções imemoriais podem se fazer presentes mesmo quando as pessoas que escreveram tais coisas em nada fossem sabedores ou crentes em tais concepções, mas que em sua Inspiração fizeram resplandecer Luzes Imortais, transcendentes ao contexto histórico imediato. Bem, paramos por aqui. Nossas saudações, pois, a Parahyba – Salve!

Bandeira Indoeuropeia da Parahyba!

EUA, “Paganismo” e algumas considerações (2/9/2013)

Artigo originalmente postado no finado PB Pagã em 2-9-2013

Barbie Estátua da Liberdade... dois símbolos bem representativos dos EUA

Não é de hoje que há, seja entre intelectuais ou gente da classe média, um certo “ethos”, uma certa tendência de que devemos nos guiar pelos EUA, seja politicamente, militarmente e, o que nos interessa aqui, religiosamente. Há quem veja os EUA como um “irmão mais velho”, um exemplo do que o Brasil deve ser – tirando a parte do racismo, claro – e não é difícil notar que tal percepção ecoa mesmo na compreensão das diretrizes e rumos de coisas como o Paganismo. Soma-se a isto, a persistência do ranço que nossa elite desenvolveu com relação a Portugal, desde a Primeira República. A referência e o modelo a imitar, mesmo quando se foge dos EUA, vai para a França como é bem sabido. Nossa elite se espelhou e aspirou avidamente em ser francesa e/ou norte-americana, negando explicitamente sua herança, como uma espécie de adolescente que brigou com o pai. Tal busca por referências e por qual delas copiar se refletiu diretamente na Primeira República, que também trouxe consigo nosso primeiro “nacionalismo” (que desenvolveu-se à castilhista e positivista – laicista, inclusive). O modelo monárquico, onde a Família Real é diretriz (e onde há a afirmação do Privado – da Família Real – com o Público) tornou-se sinônimo da cafonice “portuguesa”, mais ou menos como os Pais para um adolescente problemático e buscando afirmar-se (negando, talvez, suas origens, pela ânsia da auto-afirmação).

Bem, os tempos são outros. Mas ainda há tal desejo de americanidade vagueando pelo (in)consciente de certos coletivos. No nosso caso, se manifesta na preferência irrestrita, ou irrefletida, por tudo e por qualquer autor norte-americano em se tratando de Paganismo. Os norte-americanos são os modelos, exemplos do “pensamento correto” e a última palavra. Hollywood e toda a hegemonia cultural massiva que se auto-promove a cada instante na nossa mídia, formatando paulatinamente boa parte de nossa imaginação e operação mental obviamente ajudam – hoje, muito mais que na época da Primeira República. Claro, lá o Paganismo está se disseminando muito rapidamente, coisa que muitos de nós gostaria de ver acontecer cá – mas, o que custa a alguns perceberem, é que isto está ocorrendo à americana. Reconhecer isto é crucial. Tal desenvolvimento é uma forma específica, não a forma. Todo o passado político norte-americano sui generis (nunca tiveram uma monarquia própria e uma classe de nobreza, ao contrário do Brasil, por exemplo) e o Gênio específico que moldou o país reflete-se, faz-se presente nas visões desenvolvidas nos blogs, na auto-análise e no modo como veem a si próprios, nos valores-chave, nas teologias e tendências, nos mais eminentes e influentes pensadores e lideranças religiosas. Mesmo que sejam os pioneiros em alguns caminhos, é saudável e orgânico que haja uma “naturalização” ao se transpor para outra Geografia e Povo (de matrizes culturais algo diversas), como cá, e isto pressupõe uma consciência e reflexão sobre o que é realmente natural e específico do caminho, e o que é um aditivo (oculto ou não) do Norte-americanismo.

O Paganismo está se desenvolvendo rapidamente também nos países bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia) e eslávicos (Rússia, Ucrânia), mas por que tal forma de lá é “má” e a norte-americana é “boa”? Por que se deve ter somente a última como espelho e Estrela-Guia? A resposta é geralmente enviesada ideologicamente (e pode, por vezes, estar imersa em pré-conceitos e noções descabidas). Deste ponto de vista, é mais simples traçar a tendência Liberal e mesmo Esquerdista (mesmo a despeito de eventuais incongruências que tais visões possam ter com valores-base da visão tradicional Indo-Européia ou das manifestações históricas do Paganismo no mundo antigo) que alguns ícones do Neopaganismo nos EUA expressam. A tendência geral ao Anarquismo (libertário/anarco-capitalista ou social-sindicalista), Liberalismo ético (foco no sujeito, inviolabilidade das liberdades e preferências pessoais), New Age Hippie, etc. Se tornam elementos explicativos adicionais compreensíveis, portanto. Não temos de simplesmente aceitar, sem refletir ou pensar, toda terminologia e conceitos de lá, toda construção, engolir seco e reproduzir simplesmente para ganhar “aval” ou aprovação do Sr. Americano Fulano ou Beltrano. Também podemos elaborar (afinal, somos mais de 200 milhões de pessoas!), seja aproveitando algo ou não, pensar, construir conceitos, terminologia, metafísica. Somos herdeiros também de Tradições, não brotamos aqui do nada, ontem. Não, mas não mesmo.

Somos um país diferente. Apesar de ambos haverem sido colônias e de terem utilizado mão de obra escrava africana (e indígena, é bom não esquecer), sermos hoje dois países multiculturais e tal, isto não nos torna iguais. Há uma dessemelhança profunda, inscrita na paisagem rústica dos vilarejos e vielas, nas pedras e Florestas de nosso país, seja nos pampas ou no Cerrado, na Caatinga ou na Mata Atlântica, na Amazônia ou no Pantanal. Há um “fantasma” do tradicional e nobre, do Rei e do Arcaico no Brasil Profundo ainda rondando, ainda vivo, seja na poesia tradicional do cantador de repente que canta numa postura régia ou no viver concreto do campesino do interior; nossas religiões nos ligam e religam, queiramos ou não, com tais elementos, com o Ancestral, com os ideais de Nobreza, Aristocracia, Terra, Céu, etc. Mesmo que o sujeito não seja um tradicionalista ou um admirador da visão heróica da existência – há algo disto aqui, algo que está incrustado e ainda vivo, não se pode fechar os olhos e fingir “autenticidade”. Nossa situação é diferente de lá, nosso país foi construído sob uma visão diferente e a partir de elementos (materiais e espirituais) diversos.

Não se trata de advogar um anti-americanismo simplista, coisa fácil nestes tempos de iminência de intervenção (imperialista ou “imperialista” dependendo de qual lado se esteja) norte-americana na Síria. Nem mesmo se trata de reduzir ou diminuir a contribuição norte-americana para o Paganismo reduzindo-a a “Californication”, cultura de consumo enlouquecido (e obeso), superficialidade e irresponsabilidade. Não, há muita coisa válida e útil no meio pagão lá. Mas se trata de perceber e deixar claro que não temos de simplesmente copiar cegamente e louvar credulamente o modus operandi norte-americano, constantemente lambendo as botas e puxando o saco de toda e qualquer opinião, autor ou invencionice religiosa de lá. Há outras possibilidades bem sucedidas também (e mesmo que não houvessem, não impede de tentarmos desenvolvê-las!), seja na Europa (nosso berço cultural, gostem ou não) ou na Asia, e ainda a possibilidade do autêntico, do que reflita harmonicamente nossa situação e particularidades. Mas para isso, é mister coragem e disposição para nos valorizarmos.