Entrevista sobre a Cristandade (2005) – Alain de Benoist

Viemos rapidamente cá compartilhar uma entrevista de 10 atrás (2005) do filósofo francês Alain de Benoist. Interessante como o tempo tende a “abrandar” (algo visto como “sábio”, e provavelmente é) posições mais radicais da juventude (sim, me refiro aos tempos do “Les idées a l’endroite” de onde vem a famosa expressão do “Cristianismo como o Bolchevismo da Antiguidade” e do “Comment on peut être païen“) e que talvez por isto mesmo, hoje a entrevista tivesse ainda mais diferenças. A entrevista foi concedida no The Occidental Quarterly, vol. 5, no. 3 (Outono 2005): 7–21. Foi longa e, portanto, foi tomada uma decisão para cortá-la. Deste modo, a discussão crítica de Benoist acerca do Cristianismo e as ciências humanas foi removida mas, se não me falha a memória, foi postada por Greg Johnson no primeiro volume do North American New Right. Eu traduzi do inglês, infelizmente, justamente da versão de Greg Johnson publicada no blog da editora Couter-Currents. Se existia já uma versão em português, uma pena, perdi algo do meu tempo que poderia estar sendo dedicado a tradução do “Cristianismo, Bolchevismo da Antiguidade”) – mas aí está de todo modo.

Alain de Benoist

De acordo com o Manifesto da Nouvelle Droite (doravante ‘Nova Direita’), as cinco principais características da Modernidade são a individualização, massificação, dessacralização, racionalização e universalização. A Nova Direita traça as raízes da Modernidade em uma secularização da Metafísica cristã. E também é conhecida pela rejeição de outro produto da Cristandade: o Igualitarismo. O que são pois os “valores aristocráticos” que a Nova Direita diz promover, e como podem contrabalancear cada uma das tendências destrutivas (da modernidade)? E como alguém poderia aderir a valores aristocráticos?

Descrever o Igualitarismo como um mero “produto” da Cristandade é um atalho que, de minha parte, eu não mais tomaria. As coisas são um pouco mais complexas que isto. O que se pode dizer, por outro lado, é que o advento da Modernidade pode ser entendido e analizado apenas à luz do vasto processo de secularização que a caracteriza. O que quer dizer que um certo número de temas que eram antes expressos em termos teológicos foram transferidos para a esfera secular.

A ideologia do progresso, por exemplo, a promessa de salvação no além é transformada na promessa de felicidade no futuro. A própria noção de “progresso” parte de uma visão linear da história (em oposição a uma visão cíclica ou esférica da História) que privilegia o futuro, coisa introduzida pelo pensamento bíblico.

O conceito de Igualdade (que se poderia distinguir de Igualitarismo) traça sua origem na asserção cristã de um relacionamento igual de todas as almas humanas com Deus.

A cativação tecnológica do mundo (das Gestell, para usar um termo de Heidegger) – que começa com Descartes impondo uma nova percepção do cosmos como inteiramente disponível ao controle humano, enquanto a consciência começa a ser reduzida a um objeto da ciência natural – encontra sua primeira legitimação no Gênesis (tanto que, como Heidegger viu muito bem, a tecnologia pode ser tomada como o acabamento da metafísica).

A teoria de Jean Bodin da soberania absoluta do príncipe em respeito aos seus súditos é uma transposição da soberania absoluta de Deus em relação a sua criação. É por isto que Carl Schmitt pôde dizer que os principais conceitos da política moderna são conceitos teológicos secularizados. Este processo de secularização foi também estudado de modo notável por Karl Löwith.

A Nova Direita, pois, não defende valores “aristocráticos”, mas valores de qualquer sociedade tradicional, ou seja, qualquer sociedade ainda não conquistada pela modernidade. De um ponto de vista tradicional, valores aristocráticos e populares são os mesmos. São todos os valores inerentes em uma ética de honra. Em oposição aos valores econômicos e comerciais, são valores de desinteresse e generosidade, como expressos no sistema de um dom e um “contra-dom”.

O grande sistema moral deontológico, do qual Kant é o paradigma, pode ser posto em oposição a ética de virtude Aristotélica: perseguir a excelência pessoal pela prática de “virtudes”. Em tal sistema, o bom necessariamente tem precedẽncia sobre o justo, como Michael Sandel e Charles Taylor muito justamente argumentam contra John Rawls. Aqui se retorna a crítica de Hegel a Kant, ou seja, a oposição de “Sittlichkeit” a “Moralität“.

Qual é tua visão sobre a verdade da fé Cristã? Qual tua visão da apologética cristã? Um cristão poderia te pedir para oferecer uma prova da falsidade da Ressurreição, uma vez que fosse dada, a Cristandade desintegrar-se-ia. Como respondes a este desafio?

É uma questão estranha. Eu não tenho que “provar” que Jesus não ressuscitou tanto quanto eu não tenho que provar que Deus não deu as tábuas da Lei a Moisés no Monte Sinai ou que Elvis Presley não está vivo e vendendo pizzas no Brooklyn! A razão é que não se pode provar uma negação; não se pode demonstrar a não-existência. São os cristãos que precisam me dar provas de suas asserções, provas que eles ainda não conseguiram ter.

Poderias dizer algo sobre o modo violento de como a Europa foi cristianizada? Em que medida a cristianização da Europa jaz em fraude?

A Cristandade foi gradualmente se estabilizando na Europa pelo uso de todos os meios disponíveis. Esta difusão foi por vezes pacífica, por vezes forçada. A contenta entre a Cristandade e o Paganismo, a história que tem sido recontada mil vezes, claro, envolveu muitos episódios sangrentos: conversões forçadas de populações inteiras, perseguição dos pagãos, “cruzadas” internas e externas, etc.

No entanto, a Igreja não detém seu sucesso na força tanto quanto na habilidade que possuiu de tomar os antigos ritos e inclinações pagãs e os misturar para seus próprios propósitos. Por ser impossível erradicar completamente o paganismo, ocupou-se de “cristianizá-lo” dando-o seus conteúdos.

Igrejas foram erguidas por sobre antigos templos, o calendário litúrgico foi baseado no pagão (o Natal substituiu as velhas festividades do Solstício de Inverno, o São João o Solstício de Verão, etc.), as lendas dos santos usurparam os poderes associados às divindades locais, muitos locais de peregrinação foram preservados e o culto de Maria compensou a falta de uma Deusa-Mãe, etc. O Cristianismo foi, portanto, parcialmente “paganizado”, tornando-se ao mesmo tempo mais acessível às massas.

Mas a “paganização” permaneceu superficial, uma vez que toucou apenas formas externas de culto. No entanto, permite a possibilidade de entender a diferença que sempre existiu entre o Cristianismo Popular e a Cristandade Institucional e seu sistema teológico específico.

É a Cristandade uma religião estrangeira para os Europeus? O fato de o Cristianismo ser um portador de uma cultura não-europeia, o Judaísmo, que tornou-se parte da herança européia, constitui um problema? Uma tradição inteira, de acordo com a Igreja, é a “Nova Israel”, faz os cristãos “semitas espirituais”. Daí segue que a tradição Judaica pertence à tradição Ocidental?

Minha crítica da Cristandade, que é primariamente intelectual e filosófica, não tem nada de ver com o fato dela ter nascido historicamente fora da Europa. Simpatizo com certas religiões e espiritualidades orientais, como o Zen Budismo ou o Xintoísmo, que não são estritamente européias em nada. Por outro lado, sou completamente hostil a muitas ideologias que nasceram na Europa. A proveniência de uma ideia não é critério de sua verdade, e o excedente da identidade não é reduzível a sua origem.

Jesus era um judeu do século 1 de nossa era que foi, provavelmente, tomado como um profeta, mas que nunca desejou criar uma “Igreja” universal, muito menos uma nova religião. Convencido da eminente chegada do “Reino de Deus” (Olam haba, “a palavra que está por vir”), foi em nome da Torá que ele se opôs à dominante corrente institucional do Judaísmo de seu tempo. “Eu fui enviado somente às ovelhas da casa de Israel” ele disse claramente em uma passagem dos Evangelhos (Mat. 15, 24.) que completamente contradiz as palavras posteriormente adicionadas no fim de Marcos (16,15) e Mateus (28,19).

Foi somente após sua morte que alguns pensaram que ele era o Messias e passaram a vê-lo como o “filho de Deus” que veio para salvar todos os homens. O Cristianismo como conhecemos é obra, acima de tudo, de Paulo, e é em um mundo mediterrâneo, portanto Ocidental, que o que é essencial a sua história foi desvendado.

O conceito de “tradição judaico-cristã” é, no entanto, muito ambíguo. Rigorosamente, se pode falar de Judaico-Cristianismo apenas em dois sentidos muito precisos: primeiro historicamente, para indicar as primeiras comunidades “nazarenas” na Palestina que estavam sobre a direção de João, vigorosamente opostas aos “heleno-cristãos” liderados por Paulo; depois, teologicamente, para indicar as crenças teológicas comuns a Judeus e Cristãos (crença em um deus único, a distinção entre ser-criado e ser-não-criado, etc.).

Após a destruição do Templo em 70, as duas religiões se separaram completamente: os cristãos foram expelidos das sinagogas, e o Tannaim, os rabinos chefes que então reorganizaram o Judaísmo baseados na corrente farisaica, instituíram o birkat-ha-minim, que amaldiçoa os partidários de Jesus. Por sua parte, a incipiente Igreja Cristã adotou uma atitude explicitamente anti-judaica, que aparece primeiro no evangelho de João, o último dos quatro evangelhos canônicos.

A Cristandade não se tornou menos dependente das raízes do Velho Testamento, mas ao longo dos séculos, aderiu a uma teologia de substituição, que clamava que a Igreja incarnava a verdadeira Israel, excluindo os Judeus enquanto preservava sua identidade metafísica (obviamente uma assertiva inaceitável para os próprios judeus). Esta fenda entre sua origem e sua história é característica da Cristandade.

Mas não se pode agarrar a completude do Cristianismo apenas deixando de considerá-lo como um bloco unitário: a Cristandade primitiva é diferente da Medieval, que não é a mesma coisa da Cristandade da Contrarreforma, Moderna, etc.

Como Celso, que publicou escritos polêmicos contra os Cristão em cerca de 178, pode ser usado como um guia para o século 21?

Celso foi um filósofo neoplatônico, autor de um livro anticristão “Discurso Verdadeiro”, cujo texto nos é conhecido apenas pelas tentativas de refutá-lo por parte dos Pais da Igreja (que também é o caso dos tratados de Juliano, Porfírio, etc.). Eu realmente não consigo ver como seria um “guia para o século 21”. Lendo o livro dele – cujo texto tem sido reconstruído por especialistas – temos, pois, uma ajuda para melhor compreender as polêmicas pagãs antigas contra o Cristianismo.

A Cristandade constitui um veículo viável para a perpetuação do povo Europeu e sua cultura, ou levará a um futuro não-Europeu por causa do desaparecimento do elemento “Germânico” que havia transformado o cristianismo na Idade Média, como James C. Russell mostra tão bem em seu livro “The Germanization of Early Medieval Christianity: a Sociohistorical approach to religious transformations”. (Oxford: Oxford University Press, 2002)? Crês que há uma razão para preservar a Cristandade? Ela pode desempenhar um papel positivo na cultura Européia?

Dito tudo, eu não penso que se deveria felicitar-se pelo aparecimento da Cristandade e seu desenvolvimento. As eras pré-cristãs da Europa não eram espiritualmente deficientes de modo algum. O que é bom no Cristianismo não é novo, e o que é novo não é bom. Mas como eu tenho dito também, a Cristandade não é um bloco unitário. São Francisco de Assis e Torquemada deram a mesma Igreja faces muito diferentes! Não há nada de errado em preferir o antigo. Eu escrevi um livro intitulado “Como se pode ser pagão”, mas isto nunca me proibiu de apreciar autores católicos como Léon Loy, Chales Péguy, Geroges Bernanos e Gustave Thibon, ou de sentir-me de acordo com certos aspectos dos ensinamentos sociais da Igreja.

Para responder sua questão mais precisamente, eu não penso que o Cristianismo é um “veículo viável para a preservação do povo Europeu e sua cultura”. Mas acima de tudo, eu acredito que deve-se entender bem que já não vivemos mais em uma sociedade cristã. O discurso público dominante certamente permanece impregnado de temas de origem cristã ou bíblica, mas os costumes mudaram. Lá como em todo lugar, o individualismo tomou as rédeas.

As Igrejas, como os partidos e os sindicatos de tipo tradicional, estão passando por uma crise profunda. Na França, menos de 8% da população vai a missa ou ao culto de Domingo, o número de padres ordenados continua caindo ano após ano e ninguém obedece mais ao papa no que toca a moral sexual ou as maneiras em geral.

É diferente nos Estados Unidos, onde a crença religiosa e as práticas continuam incrivelmente mais espalhadas. Na Europa continental, não há equivalentes a “criacionistas”, ou “cristãos renascidos”, a “maioria moral” ou aos ridículos “televangelistas” americanos! Mas mesmo nos EUA, pois, não é mais possível falar de uma “Sociedade Cristã”. E é isto o que constitui a versão pós-moderna da secularização.

Indivíduos ou grupos de indivíduos podem, de fato, continuarem a encontrar razões na fé Cristã para viver e morrer, mas ela perdeu o papel decisivo que desempenhou no passado. Não mais constitui o quadro total de referência e o principal critério normativo da existência social. O que significa que o pertencimento religioso hoje simplesmente possui o status de uma opinião entre muitas, na fundação geral do indiferentismo e o materialismo prático. É uma mudança radical na própria definição de religião.

Nestas circunstâncias, a questão não é mais se a Cristandade deve ou não deve ser “preservada”. A Igreja tenta sobreviver, ciclando nostalgicamente o passado que não mais corresponde a nada, enquanto procura na via contrária adaptar-se ao mundo corrente, pela reafirmação de sua vocação Universalista, tentando posar de “autoridade moral”, etc. Isto é problema dela. As verdadeiras questões do futuro jazem noutro lugar.

Por que a Nova Direita não se refere a Cristandade quando prega um retorno às raízes da Europa? Paul Piccone e Gary Ulmen, na introdução deles ao livro de Michael Torigian “The Philosophical Foundations of the French New Right” (Telos, n. 17, 1999, p. 4-5), especulam se 2 milênios de Cristianismo não são o suficiente para fazerem esta religião uma tradição nativa, mesmo se certas partes da Europa (como a Escandinávia e os países Bálticos) fossem cristianizadas somente muito depois. Há muitos movimentos políticos ansiosos por retornar as raízes que pregam um retorno ao paganismo?

A Nova Direita nunca pregou um “retorno” ao Paganismo ou um “retorno” às raízes, ou um retorno a qualquer coisa. Ao invés, nós desejamos ir além da sociedade corrente, mas desejamos visionar o futuro pelas lentes de uma consciência clara do passado. Estas duas aproximações são coisas bem diferentes: recorrência não é sinônimo de retorno! Digamos simplesmente que se pode “futurizar” o presente apenas pela “historicização” do passado.

O problema é que a maioria de nossos contemporâneos vive em um perpétuo presentes, ou seja, em um ponto de vista onde apenas o momento presente conta e onde não se é mais capaz de esperar o futuro ou delinear lições do passado. O passado não é limitado pelo ponto de partida, que é sempre um limite convencional, de todo jeito, mas leva em consideração toda a história realizada. Para fazer qualquer sentido de história, precisamos olhar o maior prazo possível.

A Cristandade forma, obviamente, parte da história Européia, mas a Europa não nasceu com a Cristandade. Quando a Cristandade apareceu, a Europa já tinha 5 ou 6 milênios de cultura e civilização. Falar sobre as “raízes cristãs” da Europa equivale a negar as culturas Latinas, Gregas, Célticas, Germânicas e Eslavas que existiam, o que é obviamente indefensável.

Tens por vezes descrito a Cristandade como o “Bolshevismo da Antiguidade”. A Nova Direita considera o Cristianismo como o ancestral e principal portador do totalitarismo?

Quando a Cristandade surgiu na Europa, necessariamente teve de destruir a ordem antiga. O que levou ao confronto contra o paganismo. Temos inumeráveis testemunhos dos modos nos quais os primeiros cristãos profanaram os antigos lugares de culto, destruíram templos e estátuas dos deuses, deitaram abaixo altares, tombaram colunatas, queimaram trabalhos de filosofia e literatura que os desagradavam, etc. Foi muito mais uma questão de “passar o passado a limpo”. A frase polêmica que citas alude a isto.

Por outro lado, dizer que a Cristandade é a origem direta do totalitarismo é excessivo. Não obstante, contribuiu para, introduzindo no Ocidente um tipo de intolerância – a intolerância religiosa – que era desconhecida antes. O Paganismo muito naturalmente reconheceu a legitimidade das várias crenças professadas pelos vários povos. Com o Cristianismo os conceitos de bem e mal absolutos apareceram, um deus único, ortodoxia, dogma, heresia, inquisição, guerras de religião, etc.

Os cristãos desejavam converter toda a humanidade e lutar contra o que consideravam “idolatria”. Sua religião era, acima de tudo, uma religião moral, e tendem a ver em seus inimigos, não apenas os adversários do momento, mas as próprias figuras do Mal. Para erradicar o Mal, aqueles que clamam incarnar o Bem são rapidamente levados, em uma consciência clara, a empregar quaisquer meios.

Em tempos modernos, os regimes totalitários agiram não diferentemente: clamaram levar a cabo guerras “justas”, declararam os adversários criminosos, e foram inevitavelmente levados a colocá-los fora da “humanidade”. Uma das consequências deste modo de pensar é a eliminação do terceiro: “aquele que não está comigo, está contra mim”, disse Jesus – um dito recentemente repetido pelo presidente George W. Bush.

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Thoughts on the path of the Worker

This is a english version of this portuguese post.

The obviousness of the need for producers is so rampant (at least fot those who live and toil to undertake projects in the real world) that there’s not much to talk. In ths sense, we’ve compiled short simple thoughts on the need of producers, seeking expose to a greater number of people of our communities. They are thoughts and may be treated as such.

1. If is vital for the contemporary paganism the resurgence of the Warrior Class, we can speak futher of the Productive Class. The basis, the foundation, thick and flat rock. The rigid and rustic block, massive and powerful mass, builder of empires and armies, of what is grand and imposing, that demonstrates the will of the people and keeps a standing order. We need producers: true producers.

2.Do not hold for producers dozen “hippies”, who mistakenly someone relate as expoents of our productive class. No. In the past as today, the Producer is the peasant, the manual workers (at its lowest level), the small trader (at its middle level), the artisans, craftsmen masters, technicians and perhaps, even, musicians, artists and lower level poets (at its high level). The service class are producers, the industrial class, the exployers of primary resources. Even the “élite” of engineers and businessmen that our society see as equivalen to priests and intellectuals, surpassing, often, them in status. It is necessary to understand that the big businessman, alleged member of the “élite“, is not a member of élite in its traditional meaning, but a member of the bourgeoise “élite“, ie. the member of an “economic elite”. He is part of the productive class, a part that, by the dream and fantasy of the bougeoise alienation, see himself as different people, ontologically, of his employees.

3. It is necessary start the eviction of the Working World, colonized by Communism. We must see the alternatives (Ernst Jüngerm “Der Arbeiter“) eclipsed by the “victorious” communist and liberal theories. We must also consider what in Marxism is a valuable substratum. The Paganism needs its own Theory of Work, one that departs from the traditional view with its philosophical reflections (Aristotle’s Politics, Plato’s Ion, etc.) and may transpasses the materialist modenism (liberal and communist), from worker unions to consumerist fetiches, towards a new and archaic mindset, a technological pagan traditionalist one. It is necessary to understand the ancient lesson that the Midas Touch (the Stateless Capital that everything it touches turns to gold, to commodity, depriving of spirit, life and transcendent value) just will be ended with the return to the Sacred and not by its complete removal (as the Communists want, and their fellows Anarchists help to, even if they don’t know what are doing).

4. Let’s go back and look to our “past” (in a cyclical conception of time, it – the past – has other consequences than in the agostinian linear meaning of time): corporations of craftsmen, guilds, arrangements and solutions for the Field and the City. Remember, again, the great virtue of the Producer is temperance. What the warrior has at war, the producer has at work; this is his war, the work is the battlefield where his virtues can flourish and his valour can bright, this is his route for askēsis, for illumination.

5. Herein, in the complaint of the possible perversity and alienation of the productive world and how it is controlled by a financial elite that subjugates the world, there is a useful in the socialists and they must be understood. Effectively, they (all the Left) are the subjects that most worked to understand the harmful effects of the modern economy – their diagnoses are valuable, but the recipe remedies they show us (Communism), proved a deadly poison. It not heal, just kill. Maybe for erros of understanding how capitalism truly works (Ludwig von Mises and Austrian School), or perhaps by the lure of the messianic utopian “King of Heaven on Earth”, ie. an error or ending (wich determines the means, at least aming the Left, see Trotsky “Moral and Revolution“).

6. It’s necessary too not fall into easy scapegoat plot – jews, George Soros, etc. – because, as much as will fit in certain positions (an in fact, are responsible in some cases), we cannot underestimate the auri sacra fames, a poison that can, a priori, infect any person in any class and from any source.

7. We need, rather, builders, masons, engineers. We need to return to build temples. altars, transform the idea into matter, matter that condenses the life force. Already there is bijou and hippies mediocre craft, but this is not what we need. We need masters, craftsmen who pruduce works for eternity, who immortalize and lift up themselves towards the Divine by they works.

8. The idea of an autonomous religious community requires, fundamentally, producers. We need a food planted an harvest under the aegis of our gods, meat consacrated to them, our houses and built spaces reflecting our views and undertandings, clothes, drinks, tools, untensils, material culture. Here is a honest thought for our days: a pagan mason, even a mediocre one, is more valuable than 10 mediocre bloggers, who will repeat the more of the same litany.

9. There are many interesting outlets today. Many space for innovation and creativity, many tools and access to the technical knowing, to helpful information. We live in a century with universities and technical schools acessible and innumerable, we live in a century of permaculture, bioconstruction, “archaeofuturism“, etc. Information is no the problem.

10. Many who are close to our religions maybe do not have a mostly productive nature. Perhaps, in these years, we main attract more priests/scholars, few warriors and few producers – cause, after all, restorarion, traditionally, begins from above, as a “avantguarde“. But, perhaps, it isn’t just this – there may be many confused people about their real nature, alienated from himself, by the distance to a healthy life within Nature, by the ultramodern poisoning of the large cities, the middle-bougeoise fantasy of life, by the “holy” commodism and consumption, by instantaneous satisfaction of the apepetites. Maybe. We must realize that the standard-fat-us-american-perfect-comsumerist is not a model for us, it’s not our goal, and doesn’t matter how seductive and “social justice” his discourse looks like. We, as the people who looks at the stars, look at our past heoic models wandering for the future. Only when one leaves the cartoon, of make belive where everything is bought and quick came into being, and we delve into the real, where not everything has a price and time requires unwavering discipline, is that we’ll know well the real causes. We need the producers assume their productivity, recognize that they are neither warriors or priests, or better, recognizes (because of their predominant nature) that they are better producers, than warriors or priests (or they are, in truth, warriors at work and priests in the magic of working).

11. Ancients conceive that certain gods preside productive activities or parts of it. It is necessary and essential reattach them to the design of working in its entirety. Without this, the unholy pattern of replacing transcedent powers by materialist ones will repeat, the “deification” of Consumption, Market, Salary, Brand. No. Let us worship the gods once again linked to production and fair trade, let us direct our minds once more to the Shining Ones, let us take the divine mystics of transforming raw materials into Art, craft, the true magic, the sacred dimension of production, the “Secret of Steel”. Do not fall us into the illusion of empty simulacrum, the hollow idol, product of the semitic radical dualism. No. Let us reconsacrate the sickle, the hammer, like the sword and the papiry! Once again, let us have the images of our gods minted in our coins.

12. And understand: in this (holy) task, the communist (and its variants) will not be with us. The radical capitalist neither. If we live, in fact, in an aevum ruled by the Worker (Hanna Arendt’s homofaber), it is crucial to be aware that such outpus (which are not merely political, but constitutives worldviews itself in our time) are not natural derivations of the visions of our ancestors, but something different, derived by the introduction of allogeneic something. It is the duty to the pagan scholar clarify what constitutes the Work in the pagan world, what consisted in the catholic one (which had own symbiosis with the previous pagan) and which consisted the vision of the Work since the Protestant Reformation (Max Weber). Without this, the producer runs the risk of being emptied inside, corroled by the radical materialism (which disguises itself with rhetoric escuses each time), of the “everything is money”, “in the end money is what realy matters”, “be a winner” in the hollywoodian fashion of the sucessful bussinessman who despises, arrogantly and triumphantly (in an iconoclastic and deep prideful hybris), all that does not earn his money. These guys are cheat best, for allegedly still preserve an ethos of competition and supposed merit, “war” and “fair play”, but no. No. This is not the producer deification, his exaltation, and there is no moralism hiden here. Make no mistake by the propaganda of the useful idiots, in service of Big Capital, or of Communist Hoax.

13. The exaltation of the Producer is throught the exercise of this virtue and throught his expertise/excellence in a particular craft. Without moralizing. Here’s what immortalized Phidias, here’s what immortalizes Kalashnikov. Here’s what we shall aim: the work, the posterity – make for the future in the present. This is the key to Horace aphorism (following Hippocrates) “ars longa, uita beuis“, ars as τεχνή, fundamentally. And this just happens where planned obsolescense don’t occur, this only happens when one produces in a non-capitalist way (even if formally within a capitalist system). When one follow the path of excellence the producer achieves the status of Craftmaster, equating him in prestige, in the time of our ancestors, with the best of priests/wises and warriors. The emancipation of the skilled workers, the differentiation of ordinary workers and peasants, their individuation from the uniform and anonymous mass. Here are the true emancipation through work, for the horror of Marxist rhetoric.

14. It is important to know about the myth and holy aura created around the producer. The producer is the one who compose the mob, the mass, the populace. As I already pointed out (in other texts), initially, it was understandable that the Rousseau’s vision of “bon sauvage” formed the rustic and illiterate peasant against the decayed afeminated french nobility. But it has lost its original meaning and the Producer was transformed by the socialist idealism into a perfect being, the holy and always right class, always abused, exploited and misguided. Suddenly, the Producer has become the measure of what exists: his need is the need, his vision the vision, his complaint the complaint. This came rightly from the Christian appeals towards the poors for which the Kingdom of Heavens was promissed, and now, for the proletarian, the World was promissed; with the difference that in Christianiy, at least, is the poor a sinner by nature, while the “worker” does not seem to suffer from any vice – if by chance he is guilt of something, the guilty is not for him, it is for other thing out (the bourgeoise and alienation, lack of opportunity, education, etc.). He always stay clean, pure. No, the Worker also has its negatives features (like the Wise and the Warrior), he is not a “saint” completely free of defects and responsabilities, or a doomed who must redeem himself in the afterlife. As Kai Murros said “A handful of brilliant students or egocentric intellectuals are not the people – we must always remember that”. We do not take other people’s religious views as ours (even when it goes on as pseudo-scientific or atheistic thought), let us bring our own.

15. It is surprising that our religions have the public who currently own. It is surprising. Maybe it would be cause of concern, but also, perhaps, of hope. We should be occupying the fields, but not completely abandoning the polis – creating fortresses there, but, even more, creating roots, breathing well, repaganizing the pagus. We must be aware of the tactical moving. We must reach branches over the asphalt, but we need nurture ourselves in the dark fertile soil and with clear waters. The trees growing over pollution and toxic fumes are increasing exhibiting congenital deformations (a few hours in Facebook show it for anyone), a kind of atrophy that makes these trees to became plastic. More and more ornamental plastic. We need the best people, more than ever, and organized according to nature and to avoid the “plastification”. For we cannot lost our reactive and mobilization capacity, for we cannot turn ourselves in a meek and exotic garnish, harmless and dead, a stuffed animal.

16. Let us pray to the Mighty Ones, sacrifice and make libations. Let us work to (re-)build temples more than blogs, multiply statues more than “facebook likes”, cultivate more gardens and fields than funny memes, let us come back, also, to the concrete world of the Producer.

A vacuidade intelectual da Velha Direita – Alain de Benoist

Saudações!

Faz tempo que não venho cá e venho hoje postar uma tradução de um texto que me chamou atenção vindo de um dos filósofos contemporâneos com quem mais me identifico, o francês e pagão Alain de Benoist. O texto, que é uma coletânea de trechos de uma entrevista que saiu na Élements no final de 2005, é incisivo e pessoalmente o vejo mais como um chamado para reflexão vindo de alguém que se importa, se importa ao ponto de escrever algo que pode ser aproveitado de um modo positivo e construtivo. O texto faz um pequeno apanhado do que o filósofo considera como sendo os principais erros ou atitudes negativas da Direita, seja o erro da adoção sentimental da defesa do capitalismo/Liberalismo, seja na falha de sua missão histórica (que concordo que seja a apontada pelo autor), seja na petrificação/fossilização ressentida e imobilizante da Direita Monárquia/Real. Sobre as críticas a esta última, em especial sobre a impossibilidade de uma “restauração”, uma visão não-linear do tempo (como são a dos Indo-Europeus, em oposição a dos Semitas – incluindo a visão cristã) não levaria ao abandono geral da ideia do Retorno, ao contrário. Mas espero tratar deste ponto em um texto separado.

No nosso país, atualmente, há a tendência de direitização à americana, ou seja, de uma direitização liberal-libertária-globalizante que nos é alógena e potencialmente destrutiva (pelo menos dentro de uma perspectiva tradicionalista), outras alternativas dentro da Direita são bem mais fracas (em se tratando dos Monarquistas e do pessoal católico do IPCO) e tendem a padecer dos males que autor apontará, e as alternativas abertas (neo-Integrealistas, Nacionalistas de outras vertentes, etc.) carecem de meios e organizações concretas; por outro lado, há a necessidade de uma oposição que quebre a hegemonia esquerdista que aí está, a necessidade da ação e mobilização imediata. Aí é onde creio que este texto pode ser útil, pois seus apontamentos podem servir como um estímulo para o pensamento, para a estratégia, para evitar uma ação imobilizante, que amanhã se volte contra os atores (os militares que o digam), uma ação por mero impulso, um pulo que, apesar das boas intenções, levará para uma armadilha. Infelizmente não tive acesso a versão original francesa, tive que traduzir do inglês, minhas desculpas, mas só o fiz por acreditar que o texto deveria ser lido pelo máximo de pessoas com tais preocupações em nosso país.

A vacuidade intelectual da Velha Direita, por Alain de Benoist.

Tradução por Marcílio Diniz.

A Direita nunca foi apreciadora de intelectuais. Não é de admirar, então, que a expressão “intelectual de esquerda” tem sido, por muito tempo, uma tautologia. Para muitas pessoas da Direita, os intelectuais são simplesmente insuportáveis. Eles os visualizam sentados em espreguiçadeiras, é claro, e os vê como “tipos hipócritas” que sodomizam moscas, dividem o cabelo e publicam livros, invariavelmente descritos como “indigestos” e “chatos”.

Essa idéia pode ser encontrada em diferentes backgrounds. Para os libertários, os intelectuais são inevitavelmente “desconectados da realidade”. Para os ativistas, intelectuais tergiversam enquanto estamos diante de um “estado de emergência”, exigindo ação.

Já ouvi coisas como esta a minha vida inteira. De fato, há um lado positivo nesta atitude. Direitistas mostram uma preocupação real para fatos concretos, uma verdadeira desconfiança de abstrações inúteis ou intelecto puro, um desejo de afirmar a primazia da alma sobre o espírito, do orgânico sobre a “secura” teórico, a esperança (sempre desiludida) para voltar a uma vida mais simples, etc.

A Direita é mais sensível às qualidades humanas do que à capacidade intelectual. Ela gosta de admirar mais do que de entender. Ela pede exemplos mais do que aulas. Ela gosta de estilo, gesto e brio. E nisso não está errada em fazê-lo. A sociedade inteiramente composta de intelectuais seria insuportável.

Mas o problema é que quando essa atitude é sistematizada, pois leva a evitar qualquer doutrina, a rejeição de qualquer obra da mente.

O intelectual pode ser definido como a pessoa que tenta compreender e fazer os outros entenderem. A Direita, muitas vezes, não tenta entender mais. Ele ignora o que o trabalho da mente pode realizar. O resultado é que a cultura de Direita tem hoje quase que totalmente desaparecido. Ela só sobrevive em círculos restritos, editoras marginais e jornais que apenas direitistas acreditam que são jornais reais. O ostracismo que sofreu não é o único fator para isso.

Tal só pode ser atingido na forma como a Direita perdeu o hábito de intervir nos debates intelectuais. Se tomarmos os cem livros que foram mais discutidos do último meio século, percebe-se que a Direita não publicou uma única crítica destes. Não interessa a Direita ou lhe dizem respeito. A Direita é desinteressada em qualquer autor fora de seus marcos. Não quer discutir ou refutar qualquer um deles.

Sobre a dialética da modernidade, a evolução da dimensão social, as forças por trás a lógica mercantil, o imaginário simbólico, a Direita não tem nada a dizer. Por que pensar, então, que teria sido incapaz de formular uma crítica à tecnociência, uma teoria do localismo ou de conexão social, uma filosofia da ecologia, ou uma antropologia própria? É simplesmente incapaz de fazer isso. Sempre houve centenas de debates teóricos na Esquerda, alguns insignificantes, outros muito profundos. Quem pode citar um único debate intelectual que marcou a história da Direita no último meio século? À Direita, na medida em que o pensamento está em causa, se assemelha as estepes tártaras ou a um sinal retilíneo no encefalograma.

A maioria das pessoas da direita substituem idéias por convicções. As idéias podem, naturalmente, gerar convicções, e as convicções resultam de idéias, mas os dois termos são coisas diferentes. Convicções são coisas nas quais se acredita e que, pelo fato de serem objetos de uma crença, não podem sofrer qualquer exame crítico. Convicções são um substituto existencial para a fé. Elas ajudam a viver sem a necessidade de questionar a sua estrutura lógica, o seu valor em relação a vários contextos, ou as suas limitações. Na Direita as pessoas fazem ser uma questão de honra defenderem suas convicções como em um estudo da Bíblia.

A Direita gosta de respostas mais do que de perguntas, especialmente se estas são respostas prontas que renunciam à necessidade de uma perspectiva filosófica, como se não se pudesse filosofar quando a resposta é preconcebida. O trabalho da mente requer a aprendizagem dos próprios erros. A atitude da Direita é o bastante para evitar considerar seus erros e, assim, nunca tenta corrigi-los, a fim de ir mais longe, daí a ausência de autocrítica e debate. A autocrítica é vista como uma fraqueza, uma concessão inútil, se não uma traição. Na Direita as pessoas se gabam de que “não lamentam nada”, incluindo os erros que fizeram. O debate, por implicar uma contradição, uma troca de argumentos, é geralmente visto como uma agressão, como algo que não se faz.

O homem da Direita prossegue com entusiasmo ou indignação, com admiração ou repulsa, mas não com a reflexão. Ao contrário, ele é reativo, daí a sua reação emocional quase sempre a eventos. O que é surpreendente é a sua maneira ingênua, se não pueril de reagir, de sempre contentar-se com a camada superior das coisas, com a anedota das notícias, de tomar um ponto de vista estreito em tudo, sem nunca ir profundamente nas causas. Quando você mostra-lhes a Lua, muitos da direita olham para o seu dedo. A História então se torna incompreensível – o que está fazendo na Terra a Providência? – Mesmo os direitistas constantemente se referem a ela. Daí as teorias da conspiração simplistas, que podem levar a absurdos reais, não faltam. Os problemas sociais são sempre explicados por manipulações obscuras de uma “conspiração oculta”, uma “aliança negra”, etc.

Como a Direita é muito pouco interessada em idéias, ela tende a trazer todo foco para as pessoas. Movimentos políticos de Direita estão, em primeiro lugar, associados com seus fundadores, e raramente sobrevivem a eles. Brigas de direita são brigas, principalmente, de indivíduos, com basicamente as mesmas fofocas e as mesmas acusações caluniosas. Da mesma forma, seus inimigos nunca são sistemas ou idéias, mesmo genuínas, mas categorias humanas apresentadas como bodes expiatórios (judeus, “metecos”, “banqueiros”, maçons, estrangeiros, “trotskistas”, imigrantes, etc.). A Direita tem dificuldade em apreender um sistema desprovido de um assunto: os efeitos sistêmicos da lógica do Capital, as limitações de estrutura, a gênese do individualismo, a importância vital das ameaças ambientais, as forças desencadeadas pela tecnologia, etc. A Direita não entende que os homens têm de ser combatidos, não por aquilo que são, mas na medida em que encarnam e defendem os sistemas nocivos de pensamento ou valores. Por preferir jogar sobre os indivíduos, por não gostarem do que são, a Direita vira para a xenofobia ou algo ainda pior.

A Direita tem sido a grande derrotada da história. Praticamente perdeu todas as lutas nas quais se envolveu. A história dos últimos dois séculos, para a Direita, tem sido uma de derrota contínua. Essa sucessão de falhas sugere que a superioridade de seus adversários se baseia apenas nas próprias fraquezas da Direita.

No início, o que era o melhor que a Direita tinha a oferecer? Eu brevemente digo: um sistema anti-individualista e anti-utilitarista de pensamento, juntamente com uma ética de honra, herdada do Ancien Régime. Assim, ela se opunha frontalmente à ideologia do Iluminismo, cujas forças de condução eram o individualismo, o racionalismo, os interesses individuais auto-evidentes e a crença no progresso. Os valores que a direita reivindicava eram aristocráticos e populares ao mesmo tempo. Sua missão histórica era cumprir a união natural da aristocracia e do povo contra o inimigo comum: a burguesia, cujos valores de classe foram, precisamente, legitimados pelo pensamento iluminista. Mas esta união foi cumprida apenas por períodos muito curtos.

Para a Direita, o homem é naturalmente social. No entanto, nunca forjou sua própria teoria consistente para explicar a comunidade ou conexão social. Tampouco explorou seriamente uma oposição aos tipos liberais ideais, do indivíduo autônomo e do “homem social”. Também nunca foi capaz de formular uma doutrina econômica genuinamente alternativa ao sistema mercantil.

Em vez de apoiar o movimento dos trabalhadores e do socialismo nascente, o que representou uma reação saudável contra o individualismo que a direita também estava criticando, muitas vezes defendeu a exploração humana mais terrível e as desigualdades políticas mais injustificáveis​. Ela tomou o partido dos ricos, objetivamente participando da luta de classe da burguesia contra os pretensos “distribuidores” e as “classes perigosas”.

Houveram exceções, embora raras. Teóricos da Direito foram mais frequentemente liderados pelas suas audiências do que líderes destas. Defendendo a nação, a Direita raramente entendeu que a nação é, acima de tudo, as pessoas. Ele esqueceu a complementaridade natural dos valores aristocráticos e populares. Quando o direito dos trabalhadores a uma pausa para férias anual foi aprovada em lei, a Direita protestou contra a “cultura de férias”. É sempre preferível ordem à justiça, sem entender que a injustiça é uma forma suprema de desordem, e que a própria ordem é muitas vezes nada além do que uma desordem estabelecida.

A Direita poderia ter desenvolvido uma filosofia da história fundada sobre a diversidade cultural e a necessidade de reconhecer o seu valor universal, que a levariam a apoiar as lutas em favor da autonomia e da liberdade do Terceiro Mundo, cujos povos foram as primeiras vítimas da ideologia do progresso. Em vez disso, a Direita acabou defendendo o colonialismo que tinha uma vez condenado, enquanto reclama que estão sendo colonizados por sua vez.

A Direita se esqueceu de que o seu único verdadeiro inimigo é o dinheiro. Deveria ter considerado tudo se opusesse ao sistema do dinheiro como seu aliado objetivo. Em vez disso, gradualmente se juntou ao outro lado. A Direita estava melhor equipada do que qualquer outra força para reformular os valores anti-utilitaristas de generosidade e abnegação, e para defendê-los. Mas, pouco a pouco, a Direita aderiu à lógica do interesse e defesa do mercado. Ao mesmo tempo, caiu em linha com o militarismo e o nacionalismo, que nada mais é que o individualismo coletivo, algo que os primeiros contra-revolucionários tinham condenado como tal.

Nacionalismo levou a Direita à metafísica da subjetividade, esta doença do espírito, sistematizada pelos Modernos. Isto alienou a Direita da noção de verdade. Deveria ter sido o partido da generosidade, da “common decency”, das “comunidades orgânicas”, mas, muitas vezes, se tornou o partido da exclusão, do egoísmo coletivo e do ressentimento. Em suma, a Direita traiu a si mesma quando começou a aceitar o individualismo, o estilo de vida burguês, a lógica do dinheiro e o modelo do mercado.

O socialismo cristão, ocasionalmente, desempenhou um papel útil, mas caiu principalmente sob o paternalismo. As conquistas sociais dos “fascismos” foram desacreditadas pelo seu autoritarismo, seu militarismo e seu nacionalismo agressivo. O corporativismo levou a nada. O sindicalismo revolucionário foi morto pelo “compromisso fordista”, que resultou na integração das partes cada vez maiores da classe trabalhadora na classe média burguesa. Mais importante, este tipo de preocupação nunca foi associado a uma análise profunda do Capital. A condenação do “Big Money” é insignificante quando se abstém de analisar a própria natureza do dinheiro e do impacto antropológico de um sistema de mercado generalizado, com a reificação das relações sociais e seus efeitos de alienação.

Quanto à “Direita Monárquica” não cessou marginalizar-se e definhar. Cada vez mais esquecido do seu próprio passado, todo o seu sistema implícito de pensamento pode ser resumido em uma única frase: “Foi melhor antes” – se este “antes” refere-se aos anos trinta, ao Ancien Régime, ao Renascimento, à Idade Média ou à História Antiga.

Esta convicção, mesmo quando é ocasionalmente correta, nutre uma atitude que é ou restauracionista, que a condena ao fracasso, ou puramente nostálgica. Em cada caso, a “Direita Monárquica” contenta-se em opor ao mundo real um passado idealizado e fantasias: a fantasia da origem, a fantasia de uma época passada e a nostalgia irreprimível de uma matriz original, revelando a incapacidade de atingir a idade adulta.

O objetivo é tentar conservar, preservar , atrasar, ou deter o curso dos acontecimentos, sem consciência clara da seqüência histórica inevitável dos acontecimentos. A grande esperança é reproduzir o passado, ir para trás, para o tempo em que tudo era muito melhor. Mas, como é obviamente impossível, a “Direita Monárquica” contenta-se com uma atitude ética, a fim de fazer uma declaração. Politicamente, esta “Direita Monárquica” não tem mais seu próprio telos a cumprir, pois todos os seus modelos pertencem ao passado. Ela chegou a um ponto em que ainda não sabe claramente o tipo de regime político que gostaria de estabelecer.

A História torna-se um esconderijo: idealizada, reconstruída de forma seletiva e mais ou menos fantástica. A história fornece a sensação reconfortante de ter uma “herança” estável, que servem para dar exemplos significativos que a Direita pode opor aos horrores da atualidade. A História é suposta a “dar lições”, embora nunca se saiba exatamente o que é isto. A Direita não entendeu que a História, a quem reverencia tanto, também pode ser incapacitante. Quando Nietzsche diz que “o futuro pertence àqueles com a memória mais longa”, o que ele quer dizer é que a Modernidade será tão sobrecarregada pela memória que vai tornar-se impotente. É por isso que ele chama para a “inocência de um novo começo”, o que implica, em parte, o esquecimento. As pessoas nunca têm uma maior fome para a história do que quando eles são incapazes de fazê-la, e quando a história se passa sem eles ou contra eles.

Hostil a inovação, a “Direita Monárquica” é incapaz de analisar as situações invisíveis do futuro com as suas ferramentas conceituais obsoletas. Ela julga tudo de acordo com o mundo que uma vez conhecia, que lhe era familiar e, assim, reconfortante, confunde o fim deste seu mundo com o fim do mundo real. Ela enfrenta o futuro com o olho no espelho retrovisor. A Direita é incapaz de analisar os eventos históricos, dar um passo atrás e examinar as conseqüências causais distantes. Não pode estabelecer a genealogia dos fenômenos que lamenta, nem detectar as falhas da pós-modernidade. Ele não consegue mais entender nada no mundo atual, a evolução daquilo que rejeita como uma “decadência” sem fim.

O fato de que tem sido constantemente vencida, muitas vezes, provoca uma mistura peculiar de ironia meticulosa, escárnio enfático, amargura e risadinha conivente, tão típica do longo lamento reacionário. Ela também apresenta o lema apocalíptico medíocre “Estamos condenados!”. Com essa visão, estamos sempre em “estado de emergência”, é sempre “um minuto para a meia-noite”. Diante das “catástrofes” que enfrentamos, estamos esperando por uma “onda”, um “despertar”, a “maioria silenciosa” , o “país real” está sendo convocado. Mas tudo isso já havia sido dito em 1895. Durante todo esse tempo, a história tem, no entanto, continuado.

A característica mais marcante da “Direito Monárquica” é um narcisismo político e moral, fundada em uma visão de mundo imutável, com dois lados (nós o bem, eles o mal), que é uma simples projeção de uma linha de falha dentro de qualquer um de nós. Esta dicotomia de “nós contra os Outros”, dado como o fator que explica tudo, vem realmente sob esta metafísica da subjetividade que já mencionei, que legitima todas as formas de egoísmo e de exclusão. A Direita fala muito sobre defender a sua “identidade”, mas que, geralmente, tem dificuldade em a definir. Na maioria das vezes, a sua identidade é sobre não ser o que condena. É a existência de seus inimigos que define própria existência da direita, a existência negativa, a contrario. A marginalização da Direita alimenta uma mentalidade obsidional, que por sua vez aguça a sua rejeição do Outro. Há algo dos Cátaros neste obsidionalismo: o mundo é ruim, vamos fechar as fileiras do “último quadrado”. Os títulos dos seus livros de cabeceira também dizem: pelo maldito, os hereges, os réprobos, os nostálgicos, O acampamento dos Santos, em suma, o Último dos Moicanos. Em um mundo de tribos, para os quais não tem simpatia, a “Direita Monárquica” não é nada mais do que uma tribo de sobreviventes, que vive em conivência e isolamento. Ela tem ritos e senhas próprias, slogans e ressentimento, e todos os dias se vê sendo cada vez mais isolados de um mundo “de fora” que rejeita e demoniza, sem possibilidade de mudar o curso dos acontecimentos. O que resta para ela é para comemorar suas próprias derrotas, que ela faz com tanta perseverança que somos forçados a nos perguntarmos se ela secretamente cultiva estas derrotas, como se as derrotas fossem sempre mais “heróicas” do que vitórias.

A Direita nunca deu prioridade à luta contra o sistema do dinheiro, que era o seu principal inimigo. Primeiro ele lutou contra a República em um momento em que se tornou óbvio que uma monarquia de direito divino nunca voltaria. Depois de 1871, a Direita se dedicou à condenação dos “Boches” (e até mesmo dos “judaico-boches”), o que a levou, em nome da “União Sagrada”, a legitimar a carnificina atroz de 1914-18, que gerou todos os horrores do século 20. No rescaldo da Primeira Guerra Mundial, ele comprometeu-se na luta contra o comunismo e sua “selvageria pagã” (como o marechal Pétain expressava-a). Na época da Guerra Fria, com medo deste mesmo comunismo, que ela deveria ter considerado como um rival e não como um inimigo, a Direita ficou do lado do “mundo livre “, dando assim a sua bênção para a hegemonia norte-americana, o poder da burguesia e da supremacia mundial do liberalismo predatório – como se os horrores do Gulag justificassem as abominações do sistema mercantil. Isso levou a Direito a apoiar o “atlantismo”, para aprovar a matança do povo vietnamita, para mostrar solidariedade com as ditaduras mais patéticas, dos coronéis gregos e dos generais argentinos a Pinochet e seus “Chicago Boys”, para não mencionar os torturadores da Operação Condor, especializada em assassinatos de “Subversivos”, que estavam em sua maioria, apenas pedindo mais justiça social. Quando o sistema soviético entrou em colapso, tornando a globalização possível, caiu sobre os imigrantes, providencialmente, o papel legal da “ameaça”. Confundindo imigrantes com o Islã, o Islã com o islamismo, eventualmente, o islamismo com o terrorismo, agora faz isso novamente com a islamofobia, uma abordagem verdadeiramente suicida e, o que é mais, absolutamente inconsistente do ponto de vista geopolítico.

A “Direita Monárquica”, no final do dia, é fundamentalmente apolítica. A própria essência da Política é estranho para ela. Na verdade, confunde política com ética, da mesma forma que a Esquerda confunde política com a moral. A Direita acredita que a Política é uma questão de honra, de coragem, de virtudes, do sacrifício, de heroísmo, isto é, no melhor dos casos, de qualidades militares. Ela vê a política como a continuação da guerra por outros meios, que inverte totalmente o aforismo de Clausewitz. Ela não entende que a política é apenas uma ocupação, uma arte, algo que tem por objetivo definir cuidadosamente o melhor, mas não a modo ideal de servir o bem comum – um bem, por sinal, que não pode simplesmente ser repartido. Ela não entende que a política é uma forma de arbitrar entre as aspirações contraditórias decorrentes da natureza humana, para arbitrar entre as necessidades de convivência cívica e as necessidades de auto-interesse.

Quanto a mim, faz mais de um quarto de século desde que parei de me considerar pertencente a qualquer família da Direita e que eu parei de mostrar solidariedade com ela. Não há nenhum mistério aqui: já o disse e escrevi muitas vezes. Mas apesar disto, não considero que a Direita seja um assunto desinteressante. Nem penso que seja um assunto desprezível. Quando eu a critico – e eu sempre hesito antes de criticá-la, tanto porque não é apropriado atirar em um alvo tão fácil e por não querer me envolver com o movimento – sou forçado a generalizar, e quando se generaliza, sempre se corre o risco de ser injusto. Mas eu não ignoro seus méritos. Da mesma forma que as suas qualidades têm defeitos, suas falhas também têm qualidades. Em muitas ocasiões, a Direito era (e continua sendo) admirável por sua coragem, sua persistência e seu espírito de sacrifício. Todas essas qualidades, mas têm conseguido resultados tão escassos!

Vou acrescentar que eu não me reconheço como pertencente a qualquer família da Esquerda, que me poupa do desejo de querer ser “admitido”. Pode-se, sem dúvida, definir-me como alguém da extra-esquerda da extrema-direita ou um homem que tem idéias de esquerda e valores de direita. Isto me permite concordar igualmente bem com os homens de esquerda e com os homens de direita cada vez que eles afirmam idéias que considero justas. Mas, na verdade, eu não me importo com rótulos faz um bom tempo.

Eu me importo tanto menos, já que a dupla Esquerda-Direita fica cada vez mais ineficaz como uma ferramenta analítica. O que é uma “posição da extrema-direita” sobre a ocupação americana do Iraque, e qual é a da “extrema-esquerda”? Não há simplesmente nenhuma: tanto no lado da Esquerda quanto no lado da Direita, esta ocupação tem opositores e apoiantes. É o mesmo para todos os problemas do nosso tempo: a integração Europeia, geopolítica, ecologia, a vinda da crise do petróleo, etc. A única coisa que importa é o que as pessoas pensam de uma questão precisa, não importa como eles se posicionam (ou se recusar a) no espectro político tradicional.