Das Serras – episódio 3

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Episódio 3:

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Das Serras – uma tentativa de podcast

Este tal mundo de Podcasts parece ser mais complicado do que havia imaginado. Eis a primeira tentativa de um retorno (dos tempos do finado blog PB Pagã), sem cortes (o que expõe muitas situações de pensamento cru, sem o tempo de refinamento, crítica e reescrita) e como forma de teste.

Confabulações sombrias 1

Os que me conhecem, sabem de minhas inclinações políticas e de minha crítica ao governo do PT. Nisto, mesmo que por vias diferentes, termino no rastro de meu pai, confesso, ferrenho anti-PTista desde os tempos em que trabalhou no ABC paulista e viu pessoalmente a ação do sr. Lula quando era um mero sindicalista. Por outro lado, também sabem de minha crítica aos EUA, apesar de reconhecer que agem em prol do país deles, e a toda a estrutura de Revoluções Coloridas e engenharia social liberal-progressista (que cá é aplicada pelo PT também, talvez até com mais ênfase, como se tivesse que provar ser digno de confiança pelo Financismo Global). No entanto, como não sou um cidadão do mundo, não consigo, por mais que tente, sobrepor as questões geopolíticas externas às internas. As internas, pra mim, concretamente, diariamente, aparecem em primeiro plano, o que, no final das contas, me deixa mais próximo dos meus amigos e familiares, gente de valor provado, unidos contra este governo e mais distante dos teóricos do mundo perfeito, alguns deles conhecidos e mesmo “chegados”, que enchem os espaços virtuais, pendurados em cima do muro ou receosos em assumir que apoiam o PT ou que são virulentos anti-comunistas, mas que toleram os comunistas por ódio às Olavetes. Dito isto, vamos ao que, efetivamente, eu deseja cá compartilhar:

Em mero exercício de pensamento, mera especulação, um mero pensamento sombrio.

  1. considerando o tom das conversas grampeadas entre o sionista Jacques Wagner e o Rui Falcão.
  2. considerando certos “silêncios” de setores atuantes da militância PTista como sendo um silêncio de quem está trabalhando e não de quem está atônito.
  3. considerando mais uma ruma de coisas:

Se – SE – eu fosse o estrategista do PT, neste momento, estava desejando que as manifestações do dia 18 (hoje) aconteçam de “todo jeito”, de “bolo” – se for muita gente, ótimo, se não, OK também, será tempo ganho e propaganda jornalística pelo final de semana garantido, de todo modo. O que importaria seria ganhar tempo: tempo para comprar apoio do Congresso, para inviabilizar o Impedimento, para atacar a Mídia opositora (ou que ficou em cima do muro), para organizar a militância.

O importante mesmo seria “ganhar” a classe baixa, a mais “minoria”, caricata pobretã de todas – e para tal, num contexto de Guerra Total, mentiria terrivelmente, dizendo que os inimigos, os “Golpistas”, vão acabar com todas as conquistas sociais amanhã, caso Lula seja preso hoje. PRONATEC, SUS, tudo, absolutamente tudo, afinal o Brasil não existia antes do PT. Não se trata de mentir, mas de arregimentar com tal artifício o máximo de gente inculta e ingênua, e mais importante ainda, de gente que se sinta grata, verdadeiramente, devedora do governo do PT. Ter o apoio destas massas é condição sine qua non para a primeira linha de resistência.

Os movimentos “sociais” são inorgânicos e inexpressivos na conjuntura geral, é necessário que esta parcela da massa, anônima, engrosse as fileiras. Tal enchimento os faria parecer legítimos, orgânicos e expressivos. Toda a máquina e todos os centavos acumulados nos últimos anos para isto devem ser empregados. Gente na rua, Vermelho, Estrela do PT, Foto de Lula, o Deus Lula e sua sacerdotisa Dilma, no culto glamouroso da materialista “religião” PTista.

Ao mesmo tempo, paralelamente, eu aceleraria o contrabando de insumos de guerrilha vindos da Venezuela e Cuba: fuzis, munição, explosivos, pessoal capacitado. Reteria uma parcela do MST para ir operando a logística: receber, transportar, “aquartelar” os insumos estrategicamente por todo o Brasil. A outra parcela do MST, talvez até minoritária, iria para as ruas cumprir seu papel de fachada. O importante seria ter um Boi de Piranha, para chamar e reter a atenção pública e livrá-la de perceber a preparação da guerrilha. Esta seria a preparação para uma segunda linha de resistência.

Faltaria uma “false flag”. No caso, bastava colocar um PTista qualquer para, vestido de verde e amarelo, armado, matar alguém do MST ou simular um atentado contra algum PTista do alto escalão (ou contra uma sede emblemática do Partido). Pronto, este estopim seria aceso no momento certo, caso o Projeto do PT fosse, de fato, sofrer o golpe fatal por parte dos instrumentos jurídicos institucionais. Se a primeira linha de resistência ainda existir, afinal, suponhamos que houvesse algum êxito em mobilizar os “Excluídos do Mundo” (como chamava Ernst Bloch), ela poderia ser reforçada/inflamada se o false flag envolvesse algum tom sórdido ou sádico (como o assassinato de uma família “inocente” de algum assentamento do MST). Toda a grana mandada pra fora, pra os “camaradas” vermelhos (Cuba, África, América Latina), seria cobrada de volta por meio de armamento e apoio.

Aí a segunda linha, de guerrilha e das vias de fato, emergiria com alguma desculpa moral ou justificação romantizada que caísse bem aos olhos do “mundo” (leia-se a “intelligentsia” midiática progressista-humanista, por vezes de Esquerda, do mundo).

Se – SE – com a emergência da ação de Guerrilha não se alcance êxito rápido, suponhamos que houvesse uma resistência cidadã armada espontânea com apoio de setores das PMs estaduais, entraríamos na terceira linha de resistência que seria o chamado oficial para as Forças Armadas da Venezuela (e Bolívia, talvez Cuba) entrarem ou apoiarem. Comunistas de toda a América Latina viriam para uma tão sonhada “guerra santa”. Obviamente, que neste ínterim, teríamos um terrível “maiden”, pelo menos nos grandes centros como SP e Brasília, que traria a superfície os tentáculos Bolivarianos e do Tio Sam (se bem que, neste momento um Trump da vida tem preocupado mais o stablishment lá que uma possível ascensão do “comunismo” no Brasil), de modo que muito tristemente, deixaria de ser algo pelo Brasil e passaria a ser algo pela “Pátria Grande” bolivariana ou pelo jugo Yankee. Seria a realização depressiva da nadificação do país: ou um grande apêndice bolivariano ou um grande quintal yankee.

Ora, algum leitor talvez pergunte, por que deixei de fora as FAs do Brasil?

Bem, suponhamos que a amizade de uns generais com o então Ministro da Defesa, o comunista Aldo Rabelo, seja, de fato, verdadeira. Suponhamos também que seja verdade a conversa de que a ABIN estava monitorando o juíz federal Sérgio Moro e repassando os informes para o Governo, ou seja, agindo em favor deste governo. Suponhamos também que, os setores radicalmente anti-PT das FAs estejam na reserva, herdeiros do imaginário da Guerra Fria, esbravejando espumantes mas presos, pelo dever assumido noutros tempos, hierarquia ou pelas condições gerais e que, no final das contas, prevaleça o entendimento entre os que estão na ativa de que este governo é o legítimo e que deve ser mantido a todo custo. E por último, suponhamos que, de fato, as FAs não desejem “se queimar” intervindo. E mais, no pior dos quadros, não saberíamos em favor de quem se poderia dar tal “Intervenção”, já que, para o bem e para o mal, o pessoal de hoje não é o mesmo dos anos 60.

Se tomarmos estas suposições, as FAs não interfeririam até romper, de modo quase “regular”, uma guerra civil de fato. Ou seja, talvez já depois de atores bolivarianos mostrarem as caras à luz do dia em solo nacional, e dependendo do nível, na superfície, da tensão geopolítica mais ampla, a intervenção poderia ser em favor de qualquer dos lados, para a decepção dos que sonham com uma Intervenção Militar nos moldes de 64.

Ou seja, em modo de tudo ou nada, de Guerra Total, o PT teria mais meios de resistir do que pensa boa parte daqueles que o PT chama de “classe média” ou, simplesmente, de golpistas. Resta agora saber confabular, imaginar e exercitar o pensamento de como seria na outra perspectiva, imaginar a derrota final do PT.

Entrevista sobre a Cristandade (2005) – Alain de Benoist

Viemos rapidamente cá compartilhar uma entrevista de 10 atrás (2005) do filósofo francês Alain de Benoist. Interessante como o tempo tende a “abrandar” (algo visto como “sábio”, e provavelmente é) posições mais radicais da juventude (sim, me refiro aos tempos do “Les idées a l’endroite” de onde vem a famosa expressão do “Cristianismo como o Bolchevismo da Antiguidade” e do “Comment on peut être païen“) e que talvez por isto mesmo, hoje a entrevista tivesse ainda mais diferenças. A entrevista foi concedida no The Occidental Quarterly, vol. 5, no. 3 (Outono 2005): 7–21. Foi longa e, portanto, foi tomada uma decisão para cortá-la. Deste modo, a discussão crítica de Benoist acerca do Cristianismo e as ciências humanas foi removida mas, se não me falha a memória, foi postada por Greg Johnson no primeiro volume do North American New Right. Eu traduzi do inglês, infelizmente, justamente da versão de Greg Johnson publicada no blog da editora Couter-Currents. Se existia já uma versão em português, uma pena, perdi algo do meu tempo que poderia estar sendo dedicado a tradução do “Cristianismo, Bolchevismo da Antiguidade”) – mas aí está de todo modo.

Alain de Benoist

De acordo com o Manifesto da Nouvelle Droite (doravante ‘Nova Direita’), as cinco principais características da Modernidade são a individualização, massificação, dessacralização, racionalização e universalização. A Nova Direita traça as raízes da Modernidade em uma secularização da Metafísica cristã. E também é conhecida pela rejeição de outro produto da Cristandade: o Igualitarismo. O que são pois os “valores aristocráticos” que a Nova Direita diz promover, e como podem contrabalancear cada uma das tendências destrutivas (da modernidade)? E como alguém poderia aderir a valores aristocráticos?

Descrever o Igualitarismo como um mero “produto” da Cristandade é um atalho que, de minha parte, eu não mais tomaria. As coisas são um pouco mais complexas que isto. O que se pode dizer, por outro lado, é que o advento da Modernidade pode ser entendido e analizado apenas à luz do vasto processo de secularização que a caracteriza. O que quer dizer que um certo número de temas que eram antes expressos em termos teológicos foram transferidos para a esfera secular.

A ideologia do progresso, por exemplo, a promessa de salvação no além é transformada na promessa de felicidade no futuro. A própria noção de “progresso” parte de uma visão linear da história (em oposição a uma visão cíclica ou esférica da História) que privilegia o futuro, coisa introduzida pelo pensamento bíblico.

O conceito de Igualdade (que se poderia distinguir de Igualitarismo) traça sua origem na asserção cristã de um relacionamento igual de todas as almas humanas com Deus.

A cativação tecnológica do mundo (das Gestell, para usar um termo de Heidegger) – que começa com Descartes impondo uma nova percepção do cosmos como inteiramente disponível ao controle humano, enquanto a consciência começa a ser reduzida a um objeto da ciência natural – encontra sua primeira legitimação no Gênesis (tanto que, como Heidegger viu muito bem, a tecnologia pode ser tomada como o acabamento da metafísica).

A teoria de Jean Bodin da soberania absoluta do príncipe em respeito aos seus súditos é uma transposição da soberania absoluta de Deus em relação a sua criação. É por isto que Carl Schmitt pôde dizer que os principais conceitos da política moderna são conceitos teológicos secularizados. Este processo de secularização foi também estudado de modo notável por Karl Löwith.

A Nova Direita, pois, não defende valores “aristocráticos”, mas valores de qualquer sociedade tradicional, ou seja, qualquer sociedade ainda não conquistada pela modernidade. De um ponto de vista tradicional, valores aristocráticos e populares são os mesmos. São todos os valores inerentes em uma ética de honra. Em oposição aos valores econômicos e comerciais, são valores de desinteresse e generosidade, como expressos no sistema de um dom e um “contra-dom”.

O grande sistema moral deontológico, do qual Kant é o paradigma, pode ser posto em oposição a ética de virtude Aristotélica: perseguir a excelência pessoal pela prática de “virtudes”. Em tal sistema, o bom necessariamente tem precedẽncia sobre o justo, como Michael Sandel e Charles Taylor muito justamente argumentam contra John Rawls. Aqui se retorna a crítica de Hegel a Kant, ou seja, a oposição de “Sittlichkeit” a “Moralität“.

Qual é tua visão sobre a verdade da fé Cristã? Qual tua visão da apologética cristã? Um cristão poderia te pedir para oferecer uma prova da falsidade da Ressurreição, uma vez que fosse dada, a Cristandade desintegrar-se-ia. Como respondes a este desafio?

É uma questão estranha. Eu não tenho que “provar” que Jesus não ressuscitou tanto quanto eu não tenho que provar que Deus não deu as tábuas da Lei a Moisés no Monte Sinai ou que Elvis Presley não está vivo e vendendo pizzas no Brooklyn! A razão é que não se pode provar uma negação; não se pode demonstrar a não-existência. São os cristãos que precisam me dar provas de suas asserções, provas que eles ainda não conseguiram ter.

Poderias dizer algo sobre o modo violento de como a Europa foi cristianizada? Em que medida a cristianização da Europa jaz em fraude?

A Cristandade foi gradualmente se estabilizando na Europa pelo uso de todos os meios disponíveis. Esta difusão foi por vezes pacífica, por vezes forçada. A contenta entre a Cristandade e o Paganismo, a história que tem sido recontada mil vezes, claro, envolveu muitos episódios sangrentos: conversões forçadas de populações inteiras, perseguição dos pagãos, “cruzadas” internas e externas, etc.

No entanto, a Igreja não detém seu sucesso na força tanto quanto na habilidade que possuiu de tomar os antigos ritos e inclinações pagãs e os misturar para seus próprios propósitos. Por ser impossível erradicar completamente o paganismo, ocupou-se de “cristianizá-lo” dando-o seus conteúdos.

Igrejas foram erguidas por sobre antigos templos, o calendário litúrgico foi baseado no pagão (o Natal substituiu as velhas festividades do Solstício de Inverno, o São João o Solstício de Verão, etc.), as lendas dos santos usurparam os poderes associados às divindades locais, muitos locais de peregrinação foram preservados e o culto de Maria compensou a falta de uma Deusa-Mãe, etc. O Cristianismo foi, portanto, parcialmente “paganizado”, tornando-se ao mesmo tempo mais acessível às massas.

Mas a “paganização” permaneceu superficial, uma vez que toucou apenas formas externas de culto. No entanto, permite a possibilidade de entender a diferença que sempre existiu entre o Cristianismo Popular e a Cristandade Institucional e seu sistema teológico específico.

É a Cristandade uma religião estrangeira para os Europeus? O fato de o Cristianismo ser um portador de uma cultura não-europeia, o Judaísmo, que tornou-se parte da herança européia, constitui um problema? Uma tradição inteira, de acordo com a Igreja, é a “Nova Israel”, faz os cristãos “semitas espirituais”. Daí segue que a tradição Judaica pertence à tradição Ocidental?

Minha crítica da Cristandade, que é primariamente intelectual e filosófica, não tem nada de ver com o fato dela ter nascido historicamente fora da Europa. Simpatizo com certas religiões e espiritualidades orientais, como o Zen Budismo ou o Xintoísmo, que não são estritamente européias em nada. Por outro lado, sou completamente hostil a muitas ideologias que nasceram na Europa. A proveniência de uma ideia não é critério de sua verdade, e o excedente da identidade não é reduzível a sua origem.

Jesus era um judeu do século 1 de nossa era que foi, provavelmente, tomado como um profeta, mas que nunca desejou criar uma “Igreja” universal, muito menos uma nova religião. Convencido da eminente chegada do “Reino de Deus” (Olam haba, “a palavra que está por vir”), foi em nome da Torá que ele se opôs à dominante corrente institucional do Judaísmo de seu tempo. “Eu fui enviado somente às ovelhas da casa de Israel” ele disse claramente em uma passagem dos Evangelhos (Mat. 15, 24.) que completamente contradiz as palavras posteriormente adicionadas no fim de Marcos (16,15) e Mateus (28,19).

Foi somente após sua morte que alguns pensaram que ele era o Messias e passaram a vê-lo como o “filho de Deus” que veio para salvar todos os homens. O Cristianismo como conhecemos é obra, acima de tudo, de Paulo, e é em um mundo mediterrâneo, portanto Ocidental, que o que é essencial a sua história foi desvendado.

O conceito de “tradição judaico-cristã” é, no entanto, muito ambíguo. Rigorosamente, se pode falar de Judaico-Cristianismo apenas em dois sentidos muito precisos: primeiro historicamente, para indicar as primeiras comunidades “nazarenas” na Palestina que estavam sobre a direção de João, vigorosamente opostas aos “heleno-cristãos” liderados por Paulo; depois, teologicamente, para indicar as crenças teológicas comuns a Judeus e Cristãos (crença em um deus único, a distinção entre ser-criado e ser-não-criado, etc.).

Após a destruição do Templo em 70, as duas religiões se separaram completamente: os cristãos foram expelidos das sinagogas, e o Tannaim, os rabinos chefes que então reorganizaram o Judaísmo baseados na corrente farisaica, instituíram o birkat-ha-minim, que amaldiçoa os partidários de Jesus. Por sua parte, a incipiente Igreja Cristã adotou uma atitude explicitamente anti-judaica, que aparece primeiro no evangelho de João, o último dos quatro evangelhos canônicos.

A Cristandade não se tornou menos dependente das raízes do Velho Testamento, mas ao longo dos séculos, aderiu a uma teologia de substituição, que clamava que a Igreja incarnava a verdadeira Israel, excluindo os Judeus enquanto preservava sua identidade metafísica (obviamente uma assertiva inaceitável para os próprios judeus). Esta fenda entre sua origem e sua história é característica da Cristandade.

Mas não se pode agarrar a completude do Cristianismo apenas deixando de considerá-lo como um bloco unitário: a Cristandade primitiva é diferente da Medieval, que não é a mesma coisa da Cristandade da Contrarreforma, Moderna, etc.

Como Celso, que publicou escritos polêmicos contra os Cristão em cerca de 178, pode ser usado como um guia para o século 21?

Celso foi um filósofo neoplatônico, autor de um livro anticristão “Discurso Verdadeiro”, cujo texto nos é conhecido apenas pelas tentativas de refutá-lo por parte dos Pais da Igreja (que também é o caso dos tratados de Juliano, Porfírio, etc.). Eu realmente não consigo ver como seria um “guia para o século 21”. Lendo o livro dele – cujo texto tem sido reconstruído por especialistas – temos, pois, uma ajuda para melhor compreender as polêmicas pagãs antigas contra o Cristianismo.

A Cristandade constitui um veículo viável para a perpetuação do povo Europeu e sua cultura, ou levará a um futuro não-Europeu por causa do desaparecimento do elemento “Germânico” que havia transformado o cristianismo na Idade Média, como James C. Russell mostra tão bem em seu livro “The Germanization of Early Medieval Christianity: a Sociohistorical approach to religious transformations”. (Oxford: Oxford University Press, 2002)? Crês que há uma razão para preservar a Cristandade? Ela pode desempenhar um papel positivo na cultura Européia?

Dito tudo, eu não penso que se deveria felicitar-se pelo aparecimento da Cristandade e seu desenvolvimento. As eras pré-cristãs da Europa não eram espiritualmente deficientes de modo algum. O que é bom no Cristianismo não é novo, e o que é novo não é bom. Mas como eu tenho dito também, a Cristandade não é um bloco unitário. São Francisco de Assis e Torquemada deram a mesma Igreja faces muito diferentes! Não há nada de errado em preferir o antigo. Eu escrevi um livro intitulado “Como se pode ser pagão”, mas isto nunca me proibiu de apreciar autores católicos como Léon Loy, Chales Péguy, Geroges Bernanos e Gustave Thibon, ou de sentir-me de acordo com certos aspectos dos ensinamentos sociais da Igreja.

Para responder sua questão mais precisamente, eu não penso que o Cristianismo é um “veículo viável para a preservação do povo Europeu e sua cultura”. Mas acima de tudo, eu acredito que deve-se entender bem que já não vivemos mais em uma sociedade cristã. O discurso público dominante certamente permanece impregnado de temas de origem cristã ou bíblica, mas os costumes mudaram. Lá como em todo lugar, o individualismo tomou as rédeas.

As Igrejas, como os partidos e os sindicatos de tipo tradicional, estão passando por uma crise profunda. Na França, menos de 8% da população vai a missa ou ao culto de Domingo, o número de padres ordenados continua caindo ano após ano e ninguém obedece mais ao papa no que toca a moral sexual ou as maneiras em geral.

É diferente nos Estados Unidos, onde a crença religiosa e as práticas continuam incrivelmente mais espalhadas. Na Europa continental, não há equivalentes a “criacionistas”, ou “cristãos renascidos”, a “maioria moral” ou aos ridículos “televangelistas” americanos! Mas mesmo nos EUA, pois, não é mais possível falar de uma “Sociedade Cristã”. E é isto o que constitui a versão pós-moderna da secularização.

Indivíduos ou grupos de indivíduos podem, de fato, continuarem a encontrar razões na fé Cristã para viver e morrer, mas ela perdeu o papel decisivo que desempenhou no passado. Não mais constitui o quadro total de referência e o principal critério normativo da existência social. O que significa que o pertencimento religioso hoje simplesmente possui o status de uma opinião entre muitas, na fundação geral do indiferentismo e o materialismo prático. É uma mudança radical na própria definição de religião.

Nestas circunstâncias, a questão não é mais se a Cristandade deve ou não deve ser “preservada”. A Igreja tenta sobreviver, ciclando nostalgicamente o passado que não mais corresponde a nada, enquanto procura na via contrária adaptar-se ao mundo corrente, pela reafirmação de sua vocação Universalista, tentando posar de “autoridade moral”, etc. Isto é problema dela. As verdadeiras questões do futuro jazem noutro lugar.

Por que a Nova Direita não se refere a Cristandade quando prega um retorno às raízes da Europa? Paul Piccone e Gary Ulmen, na introdução deles ao livro de Michael Torigian “The Philosophical Foundations of the French New Right” (Telos, n. 17, 1999, p. 4-5), especulam se 2 milênios de Cristianismo não são o suficiente para fazerem esta religião uma tradição nativa, mesmo se certas partes da Europa (como a Escandinávia e os países Bálticos) fossem cristianizadas somente muito depois. Há muitos movimentos políticos ansiosos por retornar as raízes que pregam um retorno ao paganismo?

A Nova Direita nunca pregou um “retorno” ao Paganismo ou um “retorno” às raízes, ou um retorno a qualquer coisa. Ao invés, nós desejamos ir além da sociedade corrente, mas desejamos visionar o futuro pelas lentes de uma consciência clara do passado. Estas duas aproximações são coisas bem diferentes: recorrência não é sinônimo de retorno! Digamos simplesmente que se pode “futurizar” o presente apenas pela “historicização” do passado.

O problema é que a maioria de nossos contemporâneos vive em um perpétuo presentes, ou seja, em um ponto de vista onde apenas o momento presente conta e onde não se é mais capaz de esperar o futuro ou delinear lições do passado. O passado não é limitado pelo ponto de partida, que é sempre um limite convencional, de todo jeito, mas leva em consideração toda a história realizada. Para fazer qualquer sentido de história, precisamos olhar o maior prazo possível.

A Cristandade forma, obviamente, parte da história Européia, mas a Europa não nasceu com a Cristandade. Quando a Cristandade apareceu, a Europa já tinha 5 ou 6 milênios de cultura e civilização. Falar sobre as “raízes cristãs” da Europa equivale a negar as culturas Latinas, Gregas, Célticas, Germânicas e Eslavas que existiam, o que é obviamente indefensável.

Tens por vezes descrito a Cristandade como o “Bolshevismo da Antiguidade”. A Nova Direita considera o Cristianismo como o ancestral e principal portador do totalitarismo?

Quando a Cristandade surgiu na Europa, necessariamente teve de destruir a ordem antiga. O que levou ao confronto contra o paganismo. Temos inumeráveis testemunhos dos modos nos quais os primeiros cristãos profanaram os antigos lugares de culto, destruíram templos e estátuas dos deuses, deitaram abaixo altares, tombaram colunatas, queimaram trabalhos de filosofia e literatura que os desagradavam, etc. Foi muito mais uma questão de “passar o passado a limpo”. A frase polêmica que citas alude a isto.

Por outro lado, dizer que a Cristandade é a origem direta do totalitarismo é excessivo. Não obstante, contribuiu para, introduzindo no Ocidente um tipo de intolerância – a intolerância religiosa – que era desconhecida antes. O Paganismo muito naturalmente reconheceu a legitimidade das várias crenças professadas pelos vários povos. Com o Cristianismo os conceitos de bem e mal absolutos apareceram, um deus único, ortodoxia, dogma, heresia, inquisição, guerras de religião, etc.

Os cristãos desejavam converter toda a humanidade e lutar contra o que consideravam “idolatria”. Sua religião era, acima de tudo, uma religião moral, e tendem a ver em seus inimigos, não apenas os adversários do momento, mas as próprias figuras do Mal. Para erradicar o Mal, aqueles que clamam incarnar o Bem são rapidamente levados, em uma consciência clara, a empregar quaisquer meios.

Em tempos modernos, os regimes totalitários agiram não diferentemente: clamaram levar a cabo guerras “justas”, declararam os adversários criminosos, e foram inevitavelmente levados a colocá-los fora da “humanidade”. Uma das consequências deste modo de pensar é a eliminação do terceiro: “aquele que não está comigo, está contra mim”, disse Jesus – um dito recentemente repetido pelo presidente George W. Bush.

Casamento religioso LGBT?

Partindo de uma postagem para gerar debate – e gerou – na comunidade Fronte da Parahyba no Google+, acerca de uma suposta ameaça de “vandalização” do templo ásatruar que será construído na Islândia, pelo fato dos ásatruars islandeses reconhecerem religiosamente o casamento gay, enquanto outros politeístas germânicos (e numerosos, apesar da tentativa de minimização, diga-se de passagem) não reconhecerem e serem contrários ao reconhecimento. Como Ana bem notou, a notícia que serviu de base para despertar o debate, tem um quê de, digamos, factóide-liberalistóide, mas diferente do que aferi do foco do texto dela, creio que não se trate somente de “interferências políticas”, mas de uma oportunidade, justamente, para iniciar uma discussão anterior, uma discussão genuinamente religiosa.

Primeiro, é mister separar a discussão sobre a natureza do homossexualismo e desta conduta na sociedade, do casamento enquanto instituição religiosa. Não me interessa, nem creio que deva interessar (nisto concordo com Ana, perfeitamente) discutir as condutas íntimas de quem quer que seja; não me interessa discutir o primeiro elemento, mas apenas chamar atenção para a oportunidade de refletir sobre o casamento enquanto instituição religiosa dentro do pequeno escopo do Reconstrucionismo e Religiões étnicas (não englobo a Wicca nem certos setores do Neodruidismo dentro deste escopo, é bom deixar claro). Segundo é importante também destacar a existência de casamentos (me refiro a rito – religiosamente – lei civil é um troço posterior) em conformidade com a compreensão daquilo que os hindus chamam de ṙta e os romanos de ritus, com a “ordem cósmica”, digamos assim (ou aos partidários de uma compreensão aristotélica, chamemos de “Lei Natural”); outra coisa, diferente, é o casamento por contestação social, em especial à moral vista como hipócrita e retrógrada dos padrões aristocráticos de certas elites, em se tratando do Império Romano – é importante frisar tal diferença quando se fala da conduta de imperadores escandalosos (alguns claramente críticos de certos aspectos da religião tradicional de Roma, quando não ateizantes eles próprios) em contraposição aos ideias aristocráticos de familias tradicionais ou mesmo à vida comum da plebe em seus mais multifacetados aspectos. Tomar um exemplo de um como generalidade de outro me parece ser um non sequitur. É importante distinguir as coisas neste sentido para não incorrer neste raciocínio sofismático.

Quanto ao testemunho de Eusébio (no livro 6 do Praeparatio Evangelica), sobre os “jovens gauleses”, citado em um dos comentários na comunidade do Google+, o trecho em questão, repete um topos literário divulgado por outros escritores gregos acerca de mercenários gauleses em longas campanhas que demonstravam comportamentos homossexuais. O verbo que foi traduzido por “casar” aí (fui verificar o texto grego), não tem bem nenhum sentido religioso (ou seja, não é propriamente – em termos metafísicos, “casamento”) neste trecho; mas simplesmente denota “unir-se”, “amancebar-se”, inclusive até em tom galhofeiro e (não seria de estranhar) contestatório. Se tal prática fosse tão arraigada assim entre os Celtas, creio que teríamos bem mais – bem mais mesmo – testemunhos disto na literatura do alto medievo, pois duvido muito que os cristãos deixariam passar a oportunidade de “descer a lenha” em tal comportamento. Ou seja, tal trecho, na melhor das hipóteses, ao que parece, descreve um comportamento socialmente aceito dentro de opções da vida juvenil, não me parece ser prova nenhuma de que druidas celebravam (religiosamente) casamentos homossexuais.

E isto nos leva ao essencial: a celebração do casamento. Casamento não é Amor (seja erótico ou do tipo “philia” – como Platão bem sabia), na verdade, como toda e qualquer sociedade antiga que preconizava casamentos arranjados sabia, é possível até que haja casamento sem amor. Isto sim, de casamento sem amor, é algo que os cristãos não aceitam de jeito algum (na verdade, os cristãos dirão que o primeiro passo para qualquer casamento ser válido, é exisitir amor!). É crucial ver isto em tempos como os nossos, tão inebriados num modelo de casamento “burguês” (sim, pois ascendeu junto com a burguesia): o casal isolado, distanciado do clã, da família mais ampla, de poucos ou nenhum filho (o casal ideal, sem raízes, como idealizado por Rousseau no “Emílio”). Para o mundo antigo (e é por isto que muita gente não entende bem os casamentos arranjados) se trata, antes de qualquer coisa, da união de duas famílias em prol da estirpe, uma união espiritual entre duas cadeias de Ancestrais. Casar para viver feliz (egoísticamente libertos de quaisquer laços clânicos ou comunitários), compartilhar uma vida estéria (sem o prolongamento – muitas vezes visto como dever sagrado, religioso, no mundo Antigo – da espécie, sem filho concebido pela união das almas e dos corpos), imersa em consumo e num cuidado patológico com “pets”, ao que me parece, não seria lá bem visto, e isto, é bom frisar, inclusive se tratando de pessoas de sexos opostos. Daí que não se deve misturar Eros – inclusive em sua dimensão transcendental – com “casamento”, são coisas diferentes como qualquer pessoa intui; pelo menos me parece óbvio, que transar com alguém é diferente de casar com alguém. Promover esta confusão não ajuda. Na verdade piora, pois maliciosamente tem gente que confunde; não se trata do comportamento homossexual (a transa), mas do casamento enquanto instituição metafísica, em sua dimensão religiosa e toda sua relação aos antepassados e a família dos noivos (e sua sansão comunitária). Do mesmo modo que não se trata de uma questão de axiologia, puramente, social – não é uma questão de aretē, seria se estivéssemos tratando do comportamento, da ação pessoal; realmente, dentro de um prisma aristotélico, tal comportamento, a priori, não impede o desenvolvimento de virtudes – apesar de historicamente, diversos povos associaram tal comportamento (a conduta homossexual) a falta de virilidade, de ombridade e frontalidade no enfrentamento de problemas ou ameças. Não creio que seja assim absolutamente, mas não posso negar que historicamente, diversos povos, em diversos momentos históricos, e não apenas cristãos ou islâmicos ou judeus, fizeram tais associações ou associações similares. Negar isto é utilizar um filtro ideológico escancarado.

Daí que se deve perguntar: cadê os exemplos concretos do casamento religioso (que não sejam “excentricidades” de imperadores claramente antagonistas ao mos patricius ou mos maiorum tradicional)? E no caso concreto dos germânicos (afinal, o post parte disto), de conhecido viés, digamos (na falta de um termo melhor) “machista”, onde estão os exemplos de casamentos “oficiais”, religiosos de pessoas do mesmo sexo?

Uma união não religiosa (civil) não é o que está em causa aqui, vale lembrar. Um tradicionalista/religioso poderia, coerentemente, defender o reconhecimento da união civil e a partilha de bens entre pessoas do mesmo sexo, mas, na falta de fundamento tradicional (ou no indício de fundamentos contrários) não apoiar o casamento religioso, o casamento enquanto união de estirpes (entendido religiosamente). Ele reconheceria que o que a legislação hoje aponta é uma legitimação, no âmbito civil e laico, de uniões que, mais ou menos (às claras ou às escondidas) sempre existiram. Mas, reconhecê-las como “casamentos” (no sentido, digamos, “tribal”, religioso) é outra coisa.

Não se trata de confusão política, mas justamente de uma reflexão objetiva que permita não ser instrumentalizado ou alocado a um bloco com o qual não temos nada a ver. É preciso ver, enxergar claramente, quando possível, como se olhássemos as águas de um val que se sujam após as passadas pesadas e rápidas, mas que se limpam após algum tempo; os pilares fundacionais da compreensão do casamento e sendo eles de origem divina, atemporais, seriam válidos pra hoje também, mesmo que isto desagradasse X ou Y. Adequar ao discurso da ultra-modernidade só para ficar do lado dos “do-bem-descolados-salvadores-do-mundo”, só por pseudo-angelicalismo é contra-produtivo, assim como ficar contra só para posar de “malvadão-conservador-purista”.

Digamos que em relação ao requerimento de coerência com o passado, se tome 3 caminhos:

  1. Não temos evidências de casamentos (religiosos) entre pessoas do mesmo sexo e temos evidências de mentalidade “homofóbica” dentro desta cultura povo;
  2. Temos evidências inequívocas ou comprovações sim de casamentos deste tipo, olha aqui (e aí se lista as mesmas)
  3. Não temos evidências de casamentos religiosos/oficiais e temos evidências deste tipo de comportamento com alguma sansão social.

No caso de 1, ou o sujeito deixaria claro que – RELIGIOSAMENTE – tal procedimento não deverá ocorrer (como não ocorria no passado), ficando a seu encargo a defesa ou não no âmbito civil; ou dizer que, APESAR disto não ocorrer no passado, agora pode ocorrer – aí terá de construir uma justificação (que pode ser boa ou não) e claro, terá que compreender que os que discordarem, por coerência ou purismo (ou “radicalismo”, no sentido de se apegarem as raízes, “radices”), estarão no seu direito, apesar dos pesares. É importante frisar que a prerrogativa de que “não ocorria mas deve ocorrer hoje” caberá, logicamente, para muitas outras coisas também – incluindo misturas de práticas alógenas, etc. Na verdade, “se não havia antes mas pode haver agora” abre brecha para quase qualquer coisa. É importante que os que fazem tal opção tenham consciência do que ela acarreta muita coisa ou de antemão já construam argumentos que os eximam de incluir/reconhecer outras práticas além do caso discutido.

No caso de 2, uma vez atestado que seja uma prática instituída de forma geral (e não apenas para pequenos setores especiais ou em contextos excepcionais de uma sociedade), não há muito a se discutir – como ocorrera no passado, ocorra hoje (é interessante notar que tem gente que usa este argumento para casos assim, mas não para o caso de sacrifícios animais, por exemplo, muitas vezes demonstrando claramente sua preferência ideológica no 1 peso 2 medidas: o caso do sacrifício animal, ou da tortura de prisioneiros, ocorria no passado – dentro da sansão e mesmo prescrição religiosa – mas não deve ocorrer agora; mas já coisa X deve ocorrer agora, porque ocorria no passado…). No caso de 2, tudo fica fácil, opor-se, seria incorrer num comportamento “estranho”, que seria melhor explicado por cripto-cristianismo ou outra interferência “exterior” (do conservadorismo político, por exemplo).

No caso de 3 a coisa fica mais complicada, pois como dizia alguém (que não me recordo) “falta de evidência não é evidência da falta”, apesar de que, ao menos dentro de metodologias reconstrucionistas, prudência (e certa observância da Navalha de Occam) é regra e por isto ser algo suspeito assumir certas coisas sem que haja, no mínimo, um escopo mais amplo (em termos de imaginário e visão de mundo) que justifique. Nestes casos, justamente, é onde a reflexão mais se faz necessária e o clareamento da visão é mais requerido. Por um lado, talvez caiba tanto uma certa reserva no tocante ao casamento religioso (mais ou menos como 1), como uma atitude de absorção do mundo civil/laico (para um tradicionalista isto seria coerente se já houvessem outros exemplos de tais absorções no passado ou se algo, nos mitos e literatura sagrada, assim indicasse que tais absorções ocorrem ou devem ocorrer).

Ousaria dizer que, pelo que conheço do mundo religioso Indo-Europeu ocidental, os germânicos e balto-eslavos estejam mais para 1, e todo o restante (celtas, trácios, gregos, etc.) para 3 – eu sei dos casos romanos e supostamente gregos (estes povos são referidos, constantemente, sem os devidos recortes de estratificação social, período histórico ou região/cidade; levando a generalizações inadequadas), que talvez fizessem enquadrá-los em 2, mas justamente por causa dos muitos “poréns” (no geral, pela excepcionalidade – mesmo que lê um Satyricon da vida percebe que não se trata de algo do “povão”), creio que seja um procedimento questionável. E diria até mais – talvez coubesse 2, mais para o mundo romano do Baixo Império, onde – não sou eu quem fala – a influência “oriental” e egípcia se fez mais forte. Novamente, friso que se trata de “casamento”, religiosamente, oficialmente.

O real problema, é a polarização política tosca de nossa época. Por um lado, é importante frisar que no Mundo Antigo, e em especial fora do eixo greco-romano, Política e Religião estiveram misturadas e o eixo perene das tradições é orientado no sentido da Religião iluminar a Política (e ao contrário do que gente má-informada sustenta, Evola justamente insistiu na volta a esta orientação; pessoas como Faye e outros é que por vezes creem – criticando os “metafísicos” – que a Política pode ser um instrumento de afirmação religiosa, por vezes advogando que a separação entre as coisas – Política e Religião – é obra do Cristianismo e da Modernidade) e não o contrário. Se por um lado é verdade que não havia no passado uma separação muito clara em Religião e Política (se é que havia separação), por outro lado é igualmente válido que não há um trabalho de reflexão sistemática e profunda entre os politeístas contemporâneos (especialmente entre os tradicionalistas e reconstrucionistas como um todo) dos limites e influência consciente do laicismo moderno. A lógica do “e” ao invés da lógica do “ou exclusivo” (Alain de Benoist) é um bom início, mas não há muita literatura sobre o tema. E isto, nos leva ao velho modus operandi de “babação de ovo” dos norte-americanos, do provincianismo intelectual que se repete quase que reação mecânica, automática. Ou seja, se por um lado, dentro de uma perspectiva laicista, seria ideal “não misturar as coisas”, por outro lado é uma tarefa difícil (mesmo para esta perspectiva laicista) quando as coisas estavam misturadas no passado e mesmo hoje permanecem de alguma forma – pois, em se tratando de casamento religioso, litúrgico, especificamente, não estamos mais no plano da “política” (neste está o casamento civil!) e a discussão não será sobre “política”, ou pelo menos não deveria. A discussão será sobre metafísica (como o casamento era – ortopraxia – como era compreendido, como é e deveria/poderia ser – ortodoxia e heterodoxia), politeologia, mitologia, etc. É esta discussão “teológica”, com profundidade (acadêmica), calma, e sobretudo honestidade, para além dos “ânimos exaltados” (doa a quem doer) que tem de ser iniciada em cada religião, e não apenas “importada” de olhos fechados dos EUA.

Comecei o texto frisando que o foco nisto tudo deveria estar na compreensão (ou decifração) da ordem cósmica em si e termino repetindo isto. Não se trata de uma discussão somente sobre os Deuses e as histórias sobre Eles que nos foram passadas, mas justamente sobre o que está além, acima, mas que projeta um reflexo nestas histórias. Também não se trata de uma discussão ética, no sentido da “ação pessoal”. Se trata, antes de mais nada, de uma discussão religiosa ampla, sobre o funcionamento metafísico do mundo (quem quiser, leia aqui “Natureza”) e de como as instituições (físicas e espirituais) dos humanos refletiam, se refletem, ou deveriam refletir (ou mesmo se não devem refletir, o porquê) este funcionamento. Se trata da reflexão sobre o que é o casamento religioso (dentro de cada tradição) e sobre as possibilidades acerca deste.

É uma discussão difícil, muito, pois pode se referir a alturas sublimes, que beiram o místico e apofático, pela própria natureza sagrada do que se acerca. É bom lembrar aos religiosos, que por mais que se busque uma abordagem cética e filosófica, o que a distinguirá de uma abordagem “externa”, será a opção existencial consciente, a crença, a fé numa visão de mundo, num centro de valores atemporal e vitalista. Crer na firmeza transcendente de nossos pilares metafísicos, pular por sobre o abismo niilista, transpassá-lo; e isto significa crer – de verdade, e não apenas como referência estética, ou adereço exótico – na sacralidade dos bosques antigos. Por vezes, penso que os Deuses imortais devem se divertir com como fazemos “tempestades em copos d’água”, e pouco se importam para certas querelas humanas; mas tenho pra mim, que pelo menos uma parcela Deles, valorizam aqueles de nós que com afinco, tenacidade e excelência, permanecem teimosamente firmes, com uma face orgulhosa, religiosamente amparados pelas sombras de seus Ancestrais; não distraídos pelo sabor dos ventos momentâneos, mas focados em ajudá-Los, mesmo que seja com nosso diminuto contributo, na difícil manutenção da ordem cósmica, na Grande Guerra. É uma opção humana engajar-se, digo mais: é uma opção radical.

Pensamentos sindicais

Não acompanho movimentações sindicais de dentro – poderia fazê-lo – mas prefiro me inteirar do possível por fora, e ao longo destes anos trabalhando como funcionário público (estadual e federal) algumas convicções se reforçaram em mim e diante do cenário que aparece no plano nacional, em especial dos professores estaduais, resolvi expor algumas delas achando que talvez seja útil para alguém.

Antes de mais nada, me parece que, nos últimos anos, em todas as greves que vi do setor, cá ou noutros estados, não houveram sucessos reais. Houveram aqueles “sucessos” de tapinhas nas costas entre os companheiros, aqueles tapinhas de sorriso insosso e frases de otimismo forçado pra esconder o que realmente se passou. Creio que boa parte dos desarcertos disto tudo sejam resultados diretos de três grandes fatores. O primeiro diz respeito a própria concepção de “sindicato” de professores. A segunda diz respeito ao erro de tática da luta sindical e o terceiro ao monopólio dos sindicatos por parte de certos partidos e tendências ideológicas. Vou tentar expor do modo mais econômico possível.

1.

O primeiro erro me parece ser o do pressuposto de que o esquema clássico da luta sindical pode ser transplantado, sem nenhum ajuste, para o serviço público. O esquema conceitual marxista da Luta de Classes, força a identificação do professor com um proletário e do governador com o patrão, considerando que a situação das empresas privadas é a mesma do serviço público. Isto não me parece que é assim, nem muito menos que funciona assim, mesmo após tanta doutrinação e pressupostos não revisados. O professor poderia, muito mais, como o médico e outros servidores, ser visto como um membro do Executivo, como o policial, ele é parte do Estado, representante deste em certa medida, executor direto de uma função constitucionalmente atribuída ao Poder Público. Me parece, a princípio, que ele não deveria ser visto como um “trabalhador terceirizado”, contratado para um serviço que não fosse final ou importante. Ele deveria ser visto como agente do poder público no campo da Educação, como parte do Estado, e uma parte “fixa”, ao contrário da contingência dos mandatos eleitorais.

Outro ponto importante me parece ser a incorporação de uma espécie de lógica liberal de “livre-concorrência” entre os sindicatos, permitindo que surjam milhares deles para a representação de um ofício, por sua vez, subordinadas as diversos sindicatos de sindicatos. Há uma recusa de unidade impressionante, camuflam o interesse monetário (sobre taxas de arrecadação) com a desculpa de que centralizar e unir a representação da classe é coisa “faxista”, etc.

2.

Os principais erros táticos dos sindicatos me parece que poderiam ser resumidos na seguinte assertiva: estão querendo ensinar a missa ao vigário. Os governos dos estados em boa parte, e em especial ao do País, é formado por ex-sindicalistas, pela gente que profissionalizou o sindicalismo no país. Utilizar as mesmas receitas é jogar com as cartas marcadas e contra quem deu o baralho. Seria necessário novas táticas, cujos movimentos não possam ser previstos e evitados pelos antagonistas, utilizar a imprevisibilidade, reforçar acordos sólidos de cooperação verdadeira e orgânica com os outros sindicados e representações dos demais funcionários públicos, etc. Neste quesito, em especial, repito cá uma indicação que fiz num áudio nos tempos do blog PBPagã ao comentar uma repressão policial a um movimento grevista de professores (que parece ter se repetido de forma ainda mais intensa no Sul do país): os políticos jogam a PM contra os professores, estimulam o excesso (seja pela ordem expressa de um lado, seja pela irresponsabilidade dos religiosos da “lutadeclasses”), a mídia cai em cima do excesso da PM e os que ordenaram tal, ou permitiram e são responsáveis, ficam incólumes, “salvos”; de repente todos esquecem que a PM está juramentada a cumprir ordens, que não age sem que haja, lá no fim da cadeia de comando, uma responsabilidade politicamente atribuída… A saída seria uma união, sedimentada com compromisso “sagrado”, entre os representantes de policiais e professores, entre os executores da força e da persuasão educativa. Esta aliança, entre “brâmanes” e “xatrias”, verdadeiramente, tremeria qualquer governo e seria um poder realmente capaz de algo. Permitir a estratégia de dividir pra conquistar e da ocultação das responsabilidades não dá certo, nem dará… Termina que, basicamente, a truculência vira boi de piranha e serve para resguardar os reais responsáveis – que ficam na penumbra – e para fortalecer o discurso divisionista e rancoroso dos setores da extrema-esquerda que controlam os sindicatos, o que nos leva ao terceiro problema.

3.

É complicado de haver real oposição e comprometimento com a classe quando os representantes via sindicato, no final das contas, quando o nó arroxa, são do mesmo time do governo; No final, estão todos do mesmo lado, seja por os primeiros ambicionarem cargos políticos no governo seja por compartilharem do mesmo conjunto ideológico, preferindo o atual governo ao “bichopapão” da oposição satânica. Começa a acontecer greves “meia-bocas”, greves que são puxadas pelas bases contra a implicância dos sindicalistas profissionais, quando não são autossabotadas pelo próprio sindicato – por um lado se cria um movimento, um algo, para aplacar os radicais e insatisfeitos, mas por outro lado já se assegura que a coisa não vai longe, que não se “mije fora do penico”. Mesmo que hajam brigas reais (por exemplo, os sindicalistas são trotskistas e o governo é da esquerda-progressista, como se estes setores brigassem… mas imaginemos), todos se tornam amiguinhos contra os malvadões da oposição. Eis a grande brecha, que permite que o governo, inclusive o federal, se aproveite dos confrontos e desacertos, especialmente quando cometidos em um estado onde governa a oposição… Rapidamente, surgem discursos inflamados, mas quando um governo aliado ou do próprio partido do governo, faz coisas semelhantes ou piores, se silencia ou se diminui os fatos e esse pessoal, que se julga exemplo, tão politizado e do bem, engole quieto, por que, no final, compartilham da mesma fé.

Por outro lado, se os sindicatos não fossem tão maciçamente controlados por ideologias da religião da “lutadeclasses” talvez houvesse uma maior possibilidade para pensar em táticas e estratégias inovadoras. A velha ladainha da “puliça-faxista” (que oculta a real responsabilidade de quem dá ordens a PM), o velho romantismo do confronto do “bem” x o “mal”, etc. Já há tempos que é instrumentalizada e mapeada por qualquer um que tiver o mínimo de disposição para analisar com seriedade as coisas. Por um lado, os velhos sindicalistas são sujeitos aburguesados (dentro dos próprios conceitos marxistas), acovardados ou conformistas, se não com as instituições, mas com os tais conceitos marxistas – tratando-os, na prática, como “sagrados”, como doutrina religiosa inquestionável, negando-se radicalmente a questioná-los criticamente ou a se quer pensarem se sua suposta eficácia realmente é eficaz. Por outro lado, os professores mais politizados que não se identificam com a extrema-esquerda e/ou este conjunto de crenças, ficam isolados, sem organização e perdidos, e terminam ou por converter-se, alimentando o “sistema” interno, ou por afastarem-se, evitando sua mudança. E nisto nada se resolve, os de sempre se beneficiam, e as engrenagens giram no eixo.

Tem gente neste meio que sabe disto tudo, mas por cegueira dogmática, ou psicopatia mesmo, insistem na Luta de Classe desejando ardentemente que um dia sua tão sonhada guerra civil estoure e ele possa ajudar (engraçado que os tipos que sonham com tais coisas, ao contrário de 30 anos atrás, são os mais burguesinhos, que se travestem de revolucionários como fetiche pessoal de autoconvencimento e adereço estético) a implantação messiânica do Reino dos Céus Comunista na Terra, este são desejosos que alguns inocentes percam a vida, que alguns companheiros sãos sejam realmente mortos, se necessário for. Mas não representam a totalidade, pelo que vi, dos sindicalistas, claro, há os que só querem a promoção política, os que só visam o lucro, não trabalhar (viver da representação), aproveitar-se da vida social e dos encontros, farrar, passear “de graça”, etc. – mas também há pessoas realmente crentes de que poderão melhorar a vida e as condições dos companheiros de ofício e é a estes que me direciono.

Tentando resumir, ao que me parece (e claro, sou um mortal comum, estou ciente de que provavelmente esteja errado), os sindicatos dos professores públicos precisam de uma faxina (precisam ser exorcizados de certa hegemonia partidária e ideológica), suas estratégias e táticas precisam ser atualizadas, reorientadas ou refundadas completamente (especialmente levando em conta sua ação conjunta com os demais agentes do Estado) e sua própria concepção-base precisa ser revista. É preciso ousar questionar o dogma da importação da Luta de Classes do serviço privado para o público, é necessário ver alternativas (como as visões corporativistas), é necessário admitir que esta via batida já não oferece real oportunidade de uma mudança significativa.